ALMADA NEGREIROS – O "HOMEM-ESPETÁCULO" DA MODERNIDADE
Se o modernismo português fosse uma constelação, Fernando Pessoa seria o sol negro da introspecção, Amadeo de Souza-Cardoso o meteoro fulgurante da cor, e José Sobral de Almada Negreiros, 1893–1970 seria, sem dúvida, o éter: a substância que preenche todos os espaços, que une o verbo ao traço e o escândalo à geometria. Hoje, ao celebrarmos os 133 anos do seu nascimento em São Tomé e Príncipe, não recordamos apenas um artista morto, mas um estado de espírito que permanece desafiadoramente contemporâneo.
Almada não foi apenas um pintor, um poeta ou um dramaturgo. Ele foi, nas palavras de Eduardo Lourenço, um "Narciso do Egipto", um artista que se recusou a ser fragmentado. Enquanto o mundo insistia na especialização, Almada escolheu a dispersão fulgurante.
Nascido na roça da Trindade, em São Tomé, Almada trouxe consigo uma luz que Lisboa tardaria a compreender. Órfão de mãe aos três anos, criado num internato de jesuítas, a sua educação não passou pelas academias de Belas-Artes. E talvez aí resida o segredo da sua liberdade. "Eu não sou moderno, eu sou o tempo", costumava dizer, rejeitando os rótulos que tentavam enclausurar a sua força criativa.
A sua precocidade foi um sismo. Antes mesmo de dominar a técnica a óleo, já dominava o desenho de humor e a caricatura, ferramentas de precisão que usaria para dissecar a burguesia lisboeta. Mas foi com a Revista Orpheu, em 1915, que Almada saltou para o centro do palco. Enquanto Pessoa multiplicava-se em heterônimos para suportar a dor de existir, Almada multiplicava-se em manifestos para forçar o país a acordar.
Se Amadeo e Santa-Rita partiram cedo demais, em 1918, deixando o modernismo órfão de pincéis, Almada assumiu a responsabilidade de ser o rosto e a voz da vanguarda. Ele foi o protagonista do Manifesto Futurista de 1917, subindo ao palco do Teatro República vestido com um macacão de operário para confrontar uma plateia atônita.
Era o "ativismo de Almada", a vibração espetacular que dava corpo às ideias. Ele não queria apenas que a arte fosse vista; ele queria que a arte fosse um acontecimento. A sua escrita interventiva, como o célebre Manifesto Anti-Dantas, não era apenas literatura, era um ato de guerra cultural contra o passadismo e o mofo intelectual que asfixiava Portugal.
"Basta de gerações de lixo! Basta de gente que só sabe ser velha!" — gritava o jovem Almada, num eco que ainda ressoa nas galerias e redações de 2026.
Ao contrário dos seus pares, a relação de Almada com o estrangeiro foi idiossincrática. Paris, a capital do mundo artístico, foi para ele um palco de passagem rápida, quase um desencontro. Já a sua estadia em Madrid, entre 1927 e 1932, revelou-se fundamental. Lá, colaborou com a vanguarda espanhola, desenhou para jornais e conviveu com figuras como Gómez de la Serna.
No entanto, o seu destino era Portugal. Ao regressar, Almada tomou uma decisão política e estética: centraria a sua obra na interpretação da alma e da geometria portuguesas. É neste período de maturidade que o "vanguardista barulhento" dá lugar ao "mago hermético". Almada mergulha no estudo das proporções, da secção áurea e da simbologia oculta nas obras de Nuno Gonçalves.
Para Almada, a arte não era um acidente emocional, mas uma matemática divina. A sua busca pela "chave do mundo" através do "número imanente do universo" transformou-o numa figura quase mística na cultura nacional.
Não se pode caminhar por Lisboa sem tropeçar no gênio de Almada. Os seus murais nas Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos são, possivelmente, a maior realização da pintura mural portuguesa do século XX. Ali, ele narra a epopeia do povo português, os emigrantes, as varinas e os marinheiros, com uma força plástica que funde o modernismo com a tradição clássica.
A sua obra culmina no painel monumental "Começar", na sede da Fundação Calouste Gulbenkian. Ali, o traço de Almada despoja-se de tudo o que é supérfluo. É a linha pura, o ponto original, o nascimento perpétuo. É a prova de que, para Almada, o fim da vida era um eterno recomeço.
José Augusto França definiu-o como o "português sem mestre". De fato, Almada inventou-se a si próprio. Mas a tragédia, segundo o historiador, é que ele ficou também "sem discípulos". Não porque não tenha sido admirado, mas porque a sua arte era tão intrinsecamente ligada à sua personalidade vulcânica que era impossível de ser imitada. Ser "almadiano" exigia uma coragem que poucos possuíam: a coragem de ser tudo ao mesmo tempo.
Hoje, aos 133 anos do seu nascimento, o Focus Portal Cultural presta homenagem a este homem que não coube em nenhuma gaveta. Almada Negreiros ensinou-nos que a arte não é uma profissão, mas uma postura ética perante a vida. Ele foi o bailarino que escreveu romances, o pintor que desenhou vitrais, o poeta que calculou triângulos.
Almada continua a ser o nosso contemporâneo porque, num mundo cada vez mais digital e fragmentado, a sua busca pela unidade do saber e pela integridade do ser permanece como o único norte possível.
Almada é, hoje e sempre, o futuro que nunca termina de chegar
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
A partida dos emigrantes, c. 1948,
tríptico (painéis central e lateral direito), Gare Marítima da Rocha do Conde
de Óbidos, Lisboa
Retrato de Fernando Pessoa, 1954, óleo sobre tela, 201 cm x 201 cm







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