domingo, 26 de abril de 2026

O ENCONTRO DAS ALMAS EM 1916: O VOO DO POETA E O DESPERTAR DA MESTRA - 110 ANOS DO ENCANTAMENTO DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO E 110 ANOS DO NASCIMENTO DE CLEONICE BERARDINELLI - ENSAIO BIOGRÁFICO/LITERÁRIO DE © ALBERTO ARAÚJO

O ano de 1916 não foi apenas um marco no calendário; foi uma encruzilhada metafísica para a literatura de língua portuguesa. Enquanto as luzes de Paris testemunhavam o trágico e prematuro "encantamento" de Mário de Sá-Carneiro, o Brasil via nascer aquela que viria a ser a guardiã suprema de seu legado: a imortal Cleonice Berardinelli. 

Hoje, 26 de abril de 2026, celebramos uma efeméride dupla e profunda, os 110 anos de ausência física do poeta e os 110 anos do nascimento da mestra que o manteve vivo entre nós. 

No dia 26 de abril de 1916, no número 29 da Rua Victor Massé, o gênio do Modernismo português decidia partir. Aos 26 anos, Mário consumava sua última poesia com frascos de estricnina, sucumbindo a um mundo que lhe parecia "estreito demais" para a vastidão de sua alma dispersa. Ele, o pilar da Revista Orpheu, o amigo confidente de Fernando Pessoa, deixava órfã uma vanguarda que mal começava a florescer. Mas a providência literária já traçava um antídoto para esse esquecimento. 

Cleonice Berardinelli, nascida naquele mesmo 1916, dedicaria um século de vida a decifrar os enigmas que Mário e seus contemporâneos lançaram ao vento. Ela foi a ponte entre a dor de Sá-Carneiro e a compreensão de milhares de alunos. Enquanto Mário escrevia sobre o "narcisismo" e o "sentimento de abandono", Cleonice, com sua elegância e rigor acadêmico, transformava essa angústia em objeto de estudo e beleza. Da Academia Brasileira de Letras às cátedras da UFRJ e PUC-Rio, ela não apenas leu Mário; ela o resgatou do abismo parisiense para o coração dos leitores brasileiros. 

Celebrar estes 110 anos é reconhecer que a morte de um poeta não é um ponto final quando existe uma mestra capaz de transformar sua ausência em eternidade. O Focus Portal Cultural rende homenagem a esse diálogo invisível: o gênio que viveu o que disse, e a acadêmica que ensinou o que ele viveu. Dois nomes, um mesmo ano de origem e partida, unidos para sempre no altar da nossa cultura. 

Mário não foi apenas um poeta; foi o pilar do Modernismo em Portugal e fundador da icônica revista Orpheu. Sua obra, produzida majoritariamente entre 1912 e 1916, é um labirinto de autossarcasmo, narcisismo e uma sensibilidade tão aguda que beirava a dor física. Como disse Pessoa: "O Sá-Carneiro não teve biografia: teve gênio. O que disse foi o que viveu." E foi esse gênio que encontrou em Cleonice Berardinelli a sua maior decifradora. 

Cleonice Berardinelli, A Mestra que "Encantou" o Brasil por Portugal. Falar de Cleonice é falar de uma força da natureza intelectual. Membro da Academia Brasileira de Letras,  ocupante da Cadeira nº 08, professora emérita da UFRJ e da PUC-Rio, Dona Cleonice, como era carinhosamente chamada, não apenas estudou Sá-Carneiro; ela o humanizou para gerações de alunos. 

Sua autoridade era tamanha que, desde 1975, era Acadêmica Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Enquanto Mário se perdia na dispersão de sua alma, Cleonice organizava o caos com o rigor da ciência e a paixão da arte. Ela foi a "stakhanovista" do trabalho intelectual, nunca tirando férias ou licenças, orientando mais de cem dissertações e ensinando a mais de mil alunos o prazer de ler Camões, Pessoa, Gil Vicente e, claro, Sá-Carneiro. 

Para ilustrar a vivacidade com que Cleonice tratava o legado de Sá-Carneiro, o Focus Portal Cultural resgata um momento emblemático de 2014. Na Casa do Saber, no Rio de Janeiro, a mestre deu uma aula de abertura magistral sobre o poeta. Naquela ocasião, a teoria encontrou a melodia: a cantora Adriana Calcanhotto participou do evento, trazendo à tona os poemas que musicara, como "O Outro", "Vislumbre" e "O Pajem". 

Ali, sob o olhar atento de Cleonice, os versos de Mário: "Eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio", deixavam de ser apenas angústia impressa para se tornarem som e presença. Cleonice compreendia que a poética de Sá-Carneiro, embora marcada pelo abandono, era uma construção de beleza inestimável que merecia ser celebrada em todas as formas de arte. 

Uma Vida Dedicada às Letras e à Ética. O currículo de Cleonice Berardinelli é uma cartografia da cultura lusófona. Suas obras, como Estudos Camonianos e as edições críticas de A Passagem das Horas de Álvaro de Campos, são pedras angulares para qualquer estudante de Letras. Ela não se limitava ao gabinete; era uma mulher engajada. Ao analisar o Padre Antônio Vieira, revelou seus próprios princípios éticos ao destacar a coragem do jesuíta em defender índios e negros contra o poder econômico dos senhores de engenho.

Essa mesma coragem e retidão ela aplicou ao magistério. Onde Cleonice não lecionou? Da UFF à Universidade da Califórnia, de Lisboa a Petrópolis, sua voz ressoou levando a luz da literatura portuguesa. Foi por sua excelência que o Instituto Camões criou a Cátedra Padre Antônio Vieira especialmente para ela na PUC-Rio, um marco que permitiu a continuidade de pesquisas que mantêm o modernismo de Sá-Carneiro vibrante e relevante.

Cleonice Seroa da Mota Berardinelli nasceu no Rio de Janeiro, 28 de agosto de 1916 e faleceu em Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 2023 foi uma professora universitária brasileira, especialista em literatura portuguesa. Foi a integrante mais longeva da Academia Brasileira de Letras, após o falecimento de Evaristo Moraes Filho. 

Foi graduada em Letras Neolatinas pela Universidade de São Paulo (1938) e livre docente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1959), com uma dissertação intitulada Poesia e Poética de Fernando Pessoa.

Especialista em Camões e Fernando Pessoa, foi professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, pesquisadora 1-C do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, consultora ad hoc da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e consultora ad hoc da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. 

O Legado Cruzado: 110 Anos de Mário, Eternamente Cleonice. Nesta efeméride de 2026, o Focus Portal Cultural propõe uma reflexão: o que seria de Mário de Sá-Carneiro sem o olhar atento de Cleonice? E o que seria da carreira acadêmica brasileira sem a paixão que Cleonice devotou aos poetas d’além-mar? 

Mário partiu por não aguentar o peso do mundo; Cleonice ficou conosco por 106 anos para nos ensinar a suportar esse mesmo mundo através da poesia. Ele foi a explosão modernista; ela foi a lente que nos permitiu observar o brilho dessa explosão sem cegarmos.

"A personalidade sensível, o humor instável e o autossarcasmo culminaram em uma linguagem única", dizemos sobre Mário. 

"A dedicação incansável, a elegância intelectual e a generosidade pedagógica", dizemos sobre Cleonice.

Unir esses dois nomes hoje é celebrar a resistência da cultura. Mário de Sá-Carneiro, com seus frascos de estricnina e seu gênio torturado, e Cleonice Berardinelli, com sua elegância e sua inteligência solar, são agora parte de um mesmo firmamento. 

Neste 26 de abril, rendemos homenagem a Mário de Sá-Carneiro pelos seus 110 anos de imortalidade. E, ao fazê-lo, fazemos uma mesura profunda à memória de Cleonice Berardinelli. Que as gerações de 2026 continuem a ler "A Confissão de Lúcio" e a ouvir as aulas gravadas da mestra, pois, enquanto houver alguém para ler e alguém para ensinar, o "encantamento" de Mário será sempre um renascimento.

Que o legado desses dois gigantes continue a iluminar os caminhos da lusofonia. No Focus Portal Cultural, acreditamos que a morte é apenas um verso que se encerra para que o poema comece em outro plano. 

Focus Portal Cultural Homenagem a Mário de Sá-Carneiro e Cleonice Berardinelli. 

© Alberto Araújo










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