No teatro do mundo, onde a luz da ribalta se confunde com o pó das bibliotecas, ergue-se um monumento invisível construído por dois arquitetos de almas: William Shakespeare e Fernando Pessoa. Se o primeiro multiplicou o homem através do drama, o segundo estilhaçou o eu através do pensamento. Ambos, porém, habitaram a mesma pátria: aquela vasta e terrível vastidão que jaz entre o que somos e o que fingimos ser.
A Anatomia do Fingimento
Diz-se que o poeta é um fingidor, e nunca uma sentença foi tão partilhada sem que os seus autores se tenham cruzado no tempo. Shakespeare, o demiurgo de Stratford, não precisou de heterônimos de batismo para ser muitos; bastou-lhe a máscara do teatro. Em cada monólogo de Hamlet, em cada fúria de Lear, em cada artimanha de Iago, Shakespeare ausentava-se de si para que o humano pudesse, enfim, manifestar-se em sua plenitude contraditória. Ele não descrevia a paixão; ele era a própria carne que ardia no palco, transmutada em verbo.
Pessoa, por sua vez, operou a alquimia inversa. Se Shakespeare expandiu o indivíduo para o coletivo, o português implodiu o coletivo para dentro do peito. Criou para si uma corte de fantasmas: Caeiro, Reis, Campos que não eram meros personagens de uma peça, mas inquilinos de uma alma que se recusava a ser uma só. Se Shakespeare é o dramaturgo da ação exterior que revela o interior, Pessoa é o dramaturgo da inação interior que revela o abismo.
O Estilo: A Trama e o Labirinto
Imagine-se a escrita como um tear. Em Shakespeare, o fio é de seda e ferro. Há uma carnalidade nas palavras, um cheiro de terra, de vinho e de sangue. A sua linguagem é uma força da natureza que não pede licença; ela inunda a consciência do espectador com metáforas que são, ao mesmo tempo, universais e profundamente íntimas. A originalidade reside na capacidade de transformar o arcaico em eterno.
Já na linhagem que nos remete a uma observação quase telúrica, como se estivéssemos a escavar as camadas da memória ibérica, Pessoa trabalha a palavra com a precisão de um relojoeiro que sabe que o tempo é uma ilusão. O seu estilo é o do desassossego, uma prosa que se torna poesia pela força da sua exatidão metafísica. Ele não busca a catarse através da tragédia, mas o reconhecimento através da melancolia.
Unir Shakespeare e Pessoa é, portanto, cruzar a vertigem de um desfiladeiro. Enquanto um nos mostra que "o mundo é um palco", o outro sussurra que "o que em mim sente está pensando". Ambos compreendem que a identidade é uma ficção necessária, uma veste que trocamos conforme a estação da nossa angústia.
A Pátria da Língua e o Exílio do Ser
Para o Bardo, a língua inglesa foi o barro com que moldou reis e bobos, transformando o vernáculo em uma sinfonia de poder e desejo. Para o vate lisboeta, a "Minha pátria é a língua portuguesa", mas uma pátria sentida como um lugar de exílio, onde o poeta se esconde atrás de sonetos ingleses ou odes pagãs para suportar o peso de não ser ninguém.
Há entre eles um diálogo silencioso sobre a solidão. O isolamento de Macbeth no seu castelo de crimes ecoa na solidão do guarda-livros Soares na Rua dos Douradores. Ambos sabem que, no final da jornada, resta-nos apenas o relato, a memória escrita, o registro de que por aqui passou alguém que ousou olhar para o sol sem fechar os olhos.
A Ressonância de uma Herança
Esta criação original não busca apenas comparar biografias, mas sentir o pulso de uma herança que ainda sangra nas nossas mãos quando abrimos um livro. Shakespeare deu-nos a coragem de enfrentar os nossos monstros; Pessoa deu-nos a lucidez de saber que nós somos os monstros. Juntos, eles formam o mapa completo da geografia humana: o relevo das nossas paixões e a profundidade dos nossos silêncios.
Ao ler Shakespeare sob a luz de Pessoa, percebemos que Falstaff é um heterônimo que ganhou corpo e gordura, uma explosão de vida que desafia a morte com uma piada. Ao ler Pessoa sob a sombra de Shakespeare, compreendemos que o desassossego é uma peça de teatro em cinco atos que nunca chega ao fim, onde o cenário é a própria alma do autor, vazia de gente mas cheia de vozes.
O Inventário do Abismo: Entre o Trono e a Tabacaria
Se o ensaio anterior lançou as bases da alma, este complemento busca os alicerces na letra. É no confronto direto entre a dramaturgia shakespeariana e a poética panteísta de Pessoa que compreendemos como a ficção pode ser mais real que a própria vida.
O Palco das Paixões Absolutas
Em Shakespeare, a obra é um organismo vivo. Tomemos Hamlet: o príncipe dinamarquês não é apenas um personagem, mas o precursor do desassossego. Quando ele hesita diante da vingança, ele antecipa em séculos a paralisia intelectual que Pessoa viria a sistematizar. O monólogo "Ser ou não ser" é o solo fértil onde brotaria, muito depois, a árvore da angústia moderna.
Já em Rei Lear, Shakespeare descasca o homem até à sua essência mais bruta e desamparada. A tempestade na charneca é a manifestação física do caos mental, um recurso que Pessoa utilizaria de forma inversa em "Ode Marítima", de Álvaro de Campos, onde o tumulto não está no céu, mas no cais e no sangue do poeta que deseja ser "toda a gente em toda a parte".
Enquanto Macbeth lida com a ambição que apodrece o tempo ("Amanhã, e amanhã, e amanhã..."), as peças históricas de Shakespeare constroem a identidade de uma nação. Esse esforço de mitificação encontra um eco direto em Mensagem, o único livro que Pessoa publicou em vida em português. Onde o Bardo canta a glória e a queda dos reis ingleses, Pessoa ergue o castelo de sonhos de Portugal, transformando D. Sebastião em um mito que, tal como as figuras shakespearianas, sobrevive à morte pela força do verbo.
A Constelação dos Eus Poéticos
Ao atravessarmos para o lado lusitano, a multiplicidade de Shakespeare fragmenta-se em vozes autônomas. Alberto Caeiro, o mestre, é a antítese de Hamlet: ele recusa a metafísica. Se para o Bardo o mundo é cheio de "som e fúria", para Caeiro o mundo é apenas o que se vê. Seus poemas de "O Guardador de Rebanhos" são lições de um olhar limpo, uma tentativa de retornar ao estado de natureza que as tragédias de Shakespeare mostram ter sido perdido para sempre.
Ricardo Reis, o latinista exilado na própria mente, traz a precisão das odes. Nele, a consciência da morte é uma constante, lembrando-nos dos sonetos de Shakespeare, onde o tempo é o devorador de todas as coisas belas. "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio" é o convite para um carpe diem que sabe que a noite é eterna, uma melancolia clássica que poderia adornar o final de Noite de Reis.
Por fim, a fúria modernista de Álvaro de Campos é o palco onde a máquina e o cansaço se encontram. No poema "Tabacaria", temos o ápice da despersonalização: "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada." Aqui, a máscara cai e o que resta é o vácuo. Se Iago é o vilão que manipula a realidade por puro niilismo, Campos é o poeta que se deixa manipular pela própria sensibilidade excessiva, sentindo tudo de todas as maneiras.
A Síncope do Tempo
A conclusão que se impõe ao observar estas obras é que Shakespeare e Pessoa são os dois polos de uma mesma bússola. Nas comédias como Sonho de uma Noite de Verão, a realidade é um equívoco dos sentidos, um jogo de espelhos que Pessoa levaria às últimas consequências em seu Livro do Desassossego.
O Bardo deu-nos o corpo, o conflito e a glória. O vate deu-nos a mente, o fragmento e a saudade. Juntos, as peças e os poemas formam um arco que cobre toda a experiência humana: desde o primeiro grito de um rei no campo de batalha até ao silêncio de um homem que, numa tarde de Lisboa, olha pela janela e compreende que o universo é tão grande quanto o que ele consegue imaginar.
Este ensaio é um tributo à capacidade humana de se inventar. Entre o "Ser ou não ser" e o "Não sou nada / Nunca serei nada", estende-se a ponte por onde todos caminhamos. Shakespeare e Pessoa são os guardiões dessa travessia, os vates que nos ensinaram que a única forma de suportar a realidade é através da invenção suprema da beleza.
Que o leitor, ao fechar estas linhas, sinta o frescor dessa união: o vigor britânico temperado pela saudade lusitana, o drama do destino unido à filosofia do nada. Pois, no fim, somos todos feitos da mesma substância de que são feitos os sonhos, e a nossa pequena vida é cercada pelo sono, e por versos que não morrem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
I. Fontes Primárias: William Shakespeare
SHAKESPEARE, William. Hamlet. Tradução de Lawrence Flores Pereira. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. (A base para o estudo da hesitação e do "eu" moderno).
SHAKESPEARE, William. Rei Lear. Tradução de Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 2013. (Essencial para a desintegração da identidade e a natureza humana).
SHAKESPEARE, William. A Tempestade. Tradução de Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. (Onde a magia da criação e o "teatro do mundo" se consolidam).
SHAKESPEARE, William. Sonetos. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Hedra, 2008.
II. Fontes Primárias: Fernando Pessoa (e Heterônimos)
PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. Edição de Jerónimo Pizarro. Lisboa: Tinta-da-China, 2013. (A bíblia da introspecção e da inação).
PESSOA, Fernando. Obra Poética. Organização de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2017. (Contém o Guardador de Rebanhos, as Odes de Ricardo Reis e a poesia de Álvaro de Campos).
PESSOA, Fernando. Mensagem. Edição comemorativa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004. (O diálogo místico com a história e o destino das nações).
PESSOA,
Fernando. Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literária. Lisboa: Ática,
1994. (Onde Pessoa discorre sobre o "fingimento" poético).
III.
Literatura de Intersecção e Crítica
BLOOM, Harold. Shakespeare: A Invenção do Humano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. (Fundamental para entender como Shakespeare criou a subjetividade moderna).
BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995. (Onde o autor situa Shakespeare no centro e Pessoa como um dos herdeiros mais complexos do século XX).
PIÑON, Nélida. Aprendiz de Homero. Rio de Janeiro: Record, 2008. (Ensaios que exploram a herança clássica e a arte da narrativa, servindo de inspiração para o tom do ensaio).
STEVINER, George. A Morte da Tragédia. São Paulo: Perspectiva, 2006. (Para a análise da transição do drama clássico para a angústia moderna).
ZENITH, Richard. Pessoa: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. (A mais completa investigação sobre a gênese dos heterônimos e a relação de Pessoa com a literatura inglesa).
IV. Estudos Comparados
LOURENÇO, Eduardo. Fernando Pessoa, Rei da Nossa Baviera. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986. (Análise da "teatralidade" interna de Pessoa).
SILVA, Vítor Aguiar e. As Humanidades, os Estudos Culturais e o Ensino da Literatura. Coimbra: Almedina, 2010. (Para o entendimento da "Pátria Língua" em ambos os autores).
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural





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