quinta-feira, 30 de abril de 2026

PADRE JONAS PINTO, O PASTOR DE ALMAS E MEMÓRIAS - UMA MEMÓRIA DE FÉ EM LUZILÂNDIA - CELEBRANDO 110 ANOS DE NASCIMENTO DO SACERDOTE QUE MOLDOU A IDENTIDADE CRISTÃ DE NOSSA TERRA - CRÔNICA MEMORIALISTA E BIOGRÁFICA © ALBERTO ARAÚJO


A história de uma cidade não se escreve apenas com datas e monumentos, mas com o rastro de luz deixado por presenças que se tornam o próprio alicerce de um povo. Em Luzilândia, esse alicerce atende pelo nome de Monsenhor Jonas da Fonseca Pinto. Recentemente, ao navegar pelas páginas digitais do Facebook Imagens de Luzilândia e me deparar com um vídeo emocionante na página de Gilberto Gomes e outras que não consegui localizar a página, fui transportado de volta a um tempo de pureza, onde a fé era conduzida por mãos firmes, porém imensamente doces. 

Falar do Padre Jonas é falar da minha própria identidade cristã. Ele não foi apenas o vigário da paróquia; ele foi o sustentáculo dos meus primeiros passos espirituais. Foi sob sua estola que recebi as águas do batismo, o pão da Primeira Comunhão e o selo da Crisma. E não fui apenas eu. O Monsenhor era uma presença constante na genealogia da fé da minha família: minhas irmãs, Sônia, Conceição e Adélia Araújo compartilham desse mesmo privilégio, tendo sido todas guiadas por ele nos mesmos sacramentos.

Lembro-me com uma nitidez poética das manhãs de domingo. Eu ia às missas acompanhado por minha mãe, Maria, sob o teto sagrado da Paróquia Santa Luzia. Ali, Padre Jonas exercia o que melhor sabia fazer: amar incondicionalmente suas "ovelhinhas". Ele possuía uma dedicação rara, um olhar que parecia enxergar a alma de cada paroquiano, mesmo com o seu olho frágil após um acidente de automóvel. 

A catequese daquela época era um prelúdio de bondade. Fomos preparados para a Primeira Comunhão pelas irmãs do Padre Jonas: as freiras Irmã Zélia e Irmã Helena. Elas herdaram, compartilhavam do mesmo DNA de compaixão. Com uma empatia incrível, elas não apenas ensinavam a doutrina, mas plantavam o Evangelho através do carinho, tornando o aprendizado algo suave e inesquecível. 

Para além da memória afetiva, os fatos reafirmam a grandeza deste homem. Nascido em 28 de março de 1916, filho de João Vieira Pinto e Orcina Fonseca Pinto, Jonas foi ordenado sacerdote em 1942, na Igreja Prainha, em Fortaleza. Sua missão o levou por estradas poeirentas e corações sedentos em Buriti dos Lopes, Esperantina e Matias Olímpio. 

Contudo, foi em Luzilândia que ele fincou raízes profundas, servindo por impressionantes 42 anos e 10 meses. Seu trabalho também ecoou em Joaquim Pires, na Paróquia Santa Dorotéia, entre 1961 e 1982. Às margens da Lagoa do Cajueiro, onde hoje se ergue o Centro Pastoral São Sebastião, as orações de Padre Jonas ainda parecem ecoar na brisa.

O Monsenhor nos deixou fisicamente em 09 de março de 2007, em Recife, mas sua presença é atemporal. Se hoje passamos pela Praça Santa Luzia e vemos o seu busto em frente à Casa Paroquial, não vemos apenas bronze. Vemos um homem que realizou milhares de batizados e casamentos, que uniu famílias e que, acima de tudo, personificou o amor de Deus no sertão e na beira do rio. 

Padre Jonas Pinto não foi apenas um vigário; foi o pai espiritual de gerações. E, como toda boa história que merece ser contada, a dele permanece viva em cada foto amarelada, em cada vídeo compartilhado e, principalmente, em cada oração proferida por aqueles que, como eu e minhas irmãs, tiveram a honra de ser chamados de suas ovelhas. 

Ao encerrar estas linhas, é impossível não olhar para o leito do nosso Rio Parnaíba e nele encontrar a síntese desta saudade. Padre Jonas Pinto partiu como as águas do Velho Monge, que seguem sua viagem silenciosa e inevitável em direção ao destino final. Há uma sabedoria antiga que diz que um homem jamais se banha duas vezes no mesmo rio, pois as águas já não são as mesmas, e o homem também já mudou. Pois bem, trazemos essa metáfora para dizer que, na correnteza do tempo, nunca haverá outro igual ao Monsenhor Jonas. 

As águas passam, mas o leito permanece marcado pela força da correnteza. Assim é o rastro deixado por este sacerdote em nossas vidas. Ele foi a personificação de uma compaixão que não se explica, apenas se sente. Alguém que tratava o ministério não como um cargo, mas como um exercício contínuo de delicadeza. Sua bondade era o cais onde as ovelhas cansadas encontravam refúgio; seu carinho, o vento que soprava o calor das angústias sertanejas. 

Falar dele é tentar traduzir o imensurável. Como descrever a segurança de um batismo, o conforto de uma primeira comunhão ou o olhar atento que ele dedicava a cada um de nós na Paróquia Santa Luzia? São coisas que a gramática muitas vezes não alcança, e que o jornalismo, em sua objetividade, por vezes deixa escapar. Ah! Mas o coração, esse cronista fiel da existência, sabe exatamente o que foi o privilégio de conviver com um homem de tamanha estatura espiritual.

Ele foi embora, sim, seguindo o curso natural da vida, mas deixou em cada luzilandense uma semente de amor incondicional. Padre Jonas tornou-se parte da paisagem invisível de nossa terra, está no busto da praça, está na memória das minhas irmãs e está no sentimento de quem sabe que, embora o rio siga sua viagem e as águas nunca se repitam, a bênção que ele derramou sobre nós é uma fonte que jamais secará. Ele foi único, um pastor que conhecia o cheiro e o nome de cada ovelha, e que hoje, no centenário de seu nascimento, faz-se presente na saudade que corre mansa, como o Parnaíba, dentro de todos nós. 

Crônica dedicada à memória de Monsenhor Jonas da Fonseca Pinto e à fé do povo luzilandense. Ocasião da celebração de 110 anos de seu nascimento. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural






(clicar na imagem para assistir ao pequeno vídeo)









 

Nenhum comentário:

Postar um comentário