O calendário, em sua marcha silenciosa, muitas vezes nos entrega datas que são muito mais do que simples marcações cronológicas; são portais para a nossa própria essência. Hoje, 22 de abril, o Brasil e Portugal não apenas relembram o passado, mas celebram uma simbiose viva. O Dia da Comunidade Luso-Brasileira é a celebração de um parentesco que atravessou o Atlântico, venceu tempestades e se enraizou em solo fértil para florescer em uma das identidades mais ricas do planeta.
Tudo começou com o horizonte. Em 1500, o grito de "Terra à Vista!" não foi apenas o anúncio de um novo território, mas o prólogo de uma epopeia humana sem precedentes. O encontro das caravelas de Pedro Álvares Cabral com o litoral sul da Bahia deu início a um processo de hibridismo que moldaria o caráter de ambos os povos.
Portugal trouxe a língua de Camões que aqui ganharia novos ritmos e cores, a arquitetura das igrejas barrocas, o direito e a religiosidade. O Brasil, em contrapartida, ofereceu a imensidão, a exuberância da natureza e a força de uma terra que aprendeu a acolher. Ao longo dos séculos, essa relação deixou de ser metrópole e colônia para se tornar uma fraternidade de iguais, unidos por um cordão umbilical que nem o tempo, nem a política, foram capazes de romper.
Celebrar esta data é, sobretudo, honrar os milhões de portugueses que, em diferentes levas migratórias, escolheram o Brasil como pátria. Eles chegaram com pouco na bagagem, mas com uma vontade inquebrantável de construir. Foram padeiros, sapateiros, intelectuais, comerciantes e artistas. Suas mãos calejadas ajudaram a erguer as grandes metrópoles brasileiras, enquanto seu espírito nostálgico, o eterno "saudosismo", fundava os Gabinetes Portugueses de Leitura, os Elos Clubes e as Casas de Portugal.
Essa comunidade não é um bloco estático de história; ela é um organismo pulsante. Nas ruas de Niterói, Rio de Janeiro, São Paulo ou Salvador, o sotaque pode ter mudado, mas a alma permanece. O luso-brasileiro é aquele que sente a melancolia do fado e a alegria do samba com a mesma intensidade. É aquele que sabe que o mar, que um dia separou, é o mesmo que hoje une as margens de um pensamento comum.
Como bem disse Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa". Este é, talvez, o maior legado dessa união. O português é a nossa ferramenta de construção de mundo. É através dele que escrevemos nossa poesia, que relatamos nossas crônicas e que contamos a história de um povo que não se rende. No Brasil, a língua ganhou a malícia, a musicalidade e a doçura do povo; em Portugal, mantém a sobriedade e a profundidade de suas raízes. Juntas, formam uma das comunidades linguísticas mais poderosas e criativas do globo.
Neste 22 de abril, a reflexão que se impõe é sobre o futuro. A Comunidade Luso-Brasileira enfrenta os desafios da modernidade, da globalização e da necessidade de renovação constante. No entanto, a base é sólida. A cooperação nas artes, na ciência e na literatura, simbolizada por personalidades que transitam entre os dois países, mostra que o diálogo nunca esteve tão vivo.
Seja na reverência às efemérides literárias, na admiração pela fotografia que captura o pôr do sol em Icaraí ou no Tejo, ou na paixão pela música que embala nossas noites, o que celebramos hoje é a vitória da cultura sobre a distância.
Portanto, que este dia seja de celebração e, acima de tudo, de reconhecimento. Reconhecimento aos nossos antepassados, aos nossos mestres e aos que continuam a escrever os capítulos desta história. O Brasil é, em grande parte, o sonho de Portugal realizado em dimensões continentais; e Portugal é, para os brasileiros, o porto seguro de nossas origens.
Neste abraço transatlântico, renovamos o compromisso de manter viva a chama da lusofonia. Que a fraternidade luso-brasileira continue a ser fonte de inspiração, para que possamos, como eternos navegadores, continuar descobrindo novos mundos dentro de nós mesmos.
Viva a Comunidade Luso-Brasileira!
Matilde Carone Slaibi Conti
Presidente de Elos Internacional

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