quarta-feira, 29 de abril de 2026

27 - STABAT MATER: HISTÓRIA, MÚSICA E SIMBOLISMO - ORIGEM HISTÓRICA E A FÉ FRANCISCANA - ENSAIO ACADÊMICO-LITERÁRIO © ALBERTO ARAÚJO

O hino Stabat Mater surgiu no século XIII, em plena Idade Média, e é atribuído ao frade franciscano Jacopone da Todi. Poeta e homem das letras antes de se tornar religioso, Jacopone conseguiu transformar a dor teológica em poesia pura. O texto reflete a espiritualidade franciscana, marcada pela compaixão e pela humanização da fé. Ao colocar Maria diante da cruz, o hino convida o fiel a participar do sofrimento, não como espectador distante, mas como alguém que compartilha a dor. 

O hino começa com as palavras: Stabat Mater dolorosa iuxta Crucem lacrimosa — “Estava a mãe dolorosa, em lágrimas, junto à cruz”. A figura de Maria não é apresentada apenas como mãe do Cristo divino, mas como mulher que sofre a perda do filho. O termo dolorosa enfatiza a profundidade desse sofrimento humano. O hino é penitencial porque convida o fiel à compaixão (cum-passio, “sofrer com”), estimulando uma identificação íntima com a dor de Maria e, por consequência, com o sacrifício de Jesus. 

A poesia do Stabat Mater é uma meditação sobre a empatia. O fiel pede para sentir a dor de Maria, para que, ao compartilhar esse sofrimento, possa compreender melhor o sacrifício de Cristo. Essa dimensão poética transcende o texto religioso e se torna uma obra literária de grande impacto, capaz de atravessar séculos e culturas. 

O Stabat Mater tornou-se um dos textos mais musicados da tradição cristã. Entre os compositores que se dedicaram a ele, destacam-se:

Giovanni Battista Pergolesi (1736): Sua versão é talvez a mais célebre. Escrita nas últimas semanas de vida, para soprano, contratenor, violinos, viola e baixo contínuo, carrega uma intensidade emocional única. 

Gioachino Rossini: Criou uma versão mais operística e dramática, que reflete o estilo teatral característico de sua obra. 

Antonín Dvořák: Compôs sua versão após a perda de seus filhos, conferindo à música uma dor pessoal e profunda. 

Essas obras demonstram como o texto medieval se transformou em monumentos sonoros, cada qual refletindo a sensibilidade de seu autor.

Para além da religião, o Stabat Mater tornou-se um símbolo universal da resiliência materna. Representa a mãe que não abandona, que permanece presente mesmo diante da tragédia. É uma imagem de força silenciosa, dignidade e amor incondicional. A figura de Maria ao pé da cruz transcende o contexto cristão e se torna metáfora da maternidade em sua forma mais radical: a presença constante, mesmo na dor. 

O poder do Stabat Mater é tal que ultrapassou os limites das igrejas e alcançou as salas de concerto. Sua poesia e sua música continuam a inspirar artistas, teólogos e ouvintes. Ao longo dos séculos, tornou-se não apenas um hino religioso, mas um patrimônio cultural da humanidade. Através dele, compreendemos que a dor pode ser transformada em beleza, e que a fé pode se expressar em compaixão e arte. 

O Stabat Mater é, ao mesmo tempo, oração, poesia e música. Nasceu da espiritualidade franciscana, ganhou vida na pena de Jacopone da Todi e encontrou expressão sublime nas composições de Pergolesi, Rossini e Dvořák. Mais do que um hino, é um testemunho da força da maternidade e da capacidade humana de transformar sofrimento em arte. Sua permanência ao longo dos séculos prova que a dor compartilhada pode se tornar fonte de beleza e esperança.

 

SOBRE A IMAGEM

Stabat Mater. ca. 1500. Autor desconhecido. Atualmente no Museu de Belas Artes de Dijon, na França.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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Young, P. M. (1961). The Choral Tradition: An Historical and Analytical Survey. Hutchinson.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural


(STABAT MATER - O HINO - clicar na imagem para ouvir)

STABAT MATER - COMPOSIÇÃO: JACOPONE DA TODI


Stabat mater dolorosa

Iuxta crucem lacrimosa

Dum pendebat filius

Cuius animam gementem

Contristantam et dolentem

Pertransivit gladius

O quam tristis et afflicta

Fuit illa benedicta

Mater unigeniti

Quae maerebat et dolebat

Et tremebat, cum videbat

Nati poenas incliti

Quis est homo qui non fleret

Matrem christi si videret

In tanto supplicio?

Quis non posset contristari

Piam matrem contemplari

Dolentem cum filio?

Pro peccatis suae gentis

Iesum vidit in tormentis

Et flagellis subditum

Vidit suum dulcem natum

Morientem desolatum

Dum emisit spiritum

Eia mater fons amoris

Me sentire vim doloris

Fac ut tecum lugeam

Fac ut ardeat cor meum

In amando christum deum

Ut sibi complaceam

Sancta mater, istud agas

Crucifixi fige plagas

Cordi meo valide

Tui nati vulnerati

Tam dignati pro me pati

Poenas mecum divide!

Fac me vere tecum flere

Crucifixo condolere

Donec ego vixero

Iuxta crucem tecum stare

Te libenter sociare

In planctu desidero

Virgo virginum praeclara

Mihi iam non sis amara

Fac me tecum plangere

Fac ut portem christi mortem

Passionis eius sortem

Et plagas recolere

Fac me plagis vulnerari

Cruce hac inebriari

Ob amorem filii

Inflammatus et accensus

Per te virgo sim defensus

In die iudicii

Fac me cruce custodiri

Morte christi praemuniri

Confoveri gratia

Quando corpus morietur

Fac ut animae donetur

Paradisi gloria

Amen

 


 


 

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