O hino Stabat Mater surgiu no século XIII, em plena Idade Média, e é atribuído ao frade franciscano Jacopone da Todi. Poeta e homem das letras antes de se tornar religioso, Jacopone conseguiu transformar a dor teológica em poesia pura. O texto reflete a espiritualidade franciscana, marcada pela compaixão e pela humanização da fé. Ao colocar Maria diante da cruz, o hino convida o fiel a participar do sofrimento, não como espectador distante, mas como alguém que compartilha a dor.
O hino começa com as palavras: Stabat Mater dolorosa iuxta Crucem lacrimosa — “Estava a mãe dolorosa, em lágrimas, junto à cruz”. A figura de Maria não é apresentada apenas como mãe do Cristo divino, mas como mulher que sofre a perda do filho. O termo dolorosa enfatiza a profundidade desse sofrimento humano. O hino é penitencial porque convida o fiel à compaixão (cum-passio, “sofrer com”), estimulando uma identificação íntima com a dor de Maria e, por consequência, com o sacrifício de Jesus.
A poesia do Stabat Mater é uma meditação sobre a empatia. O fiel pede para sentir a dor de Maria, para que, ao compartilhar esse sofrimento, possa compreender melhor o sacrifício de Cristo. Essa dimensão poética transcende o texto religioso e se torna uma obra literária de grande impacto, capaz de atravessar séculos e culturas.
O Stabat Mater tornou-se um dos textos mais musicados da tradição cristã. Entre os compositores que se dedicaram a ele, destacam-se:
Giovanni Battista Pergolesi (1736): Sua versão é talvez a mais célebre. Escrita nas últimas semanas de vida, para soprano, contratenor, violinos, viola e baixo contínuo, carrega uma intensidade emocional única.
Gioachino Rossini: Criou uma versão mais operística e dramática, que reflete o estilo teatral característico de sua obra.
Antonín Dvořák: Compôs sua versão após a perda de seus filhos, conferindo à música uma dor pessoal e profunda.
Essas obras demonstram como o texto medieval se transformou em monumentos sonoros, cada qual refletindo a sensibilidade de seu autor.
Para além da religião, o Stabat Mater tornou-se um símbolo universal da resiliência materna. Representa a mãe que não abandona, que permanece presente mesmo diante da tragédia. É uma imagem de força silenciosa, dignidade e amor incondicional. A figura de Maria ao pé da cruz transcende o contexto cristão e se torna metáfora da maternidade em sua forma mais radical: a presença constante, mesmo na dor.
O poder do Stabat Mater é tal que ultrapassou os limites das igrejas e alcançou as salas de concerto. Sua poesia e sua música continuam a inspirar artistas, teólogos e ouvintes. Ao longo dos séculos, tornou-se não apenas um hino religioso, mas um patrimônio cultural da humanidade. Através dele, compreendemos que a dor pode ser transformada em beleza, e que a fé pode se expressar em compaixão e arte.
O Stabat Mater é, ao mesmo tempo, oração, poesia e música. Nasceu da espiritualidade franciscana, ganhou vida na pena de Jacopone da Todi e encontrou expressão sublime nas composições de Pergolesi, Rossini e Dvořák. Mais do que um hino, é um testemunho da força da maternidade e da capacidade humana de transformar sofrimento em arte. Sua permanência ao longo dos séculos prova que a dor compartilhada pode se tornar fonte de beleza e esperança.
SOBRE A IMAGEM
Stabat Mater. ca. 1500. Autor
desconhecido. Atualmente no Museu de Belas Artes de Dijon, na França.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Tradition: An Historical and Analytical Survey. Hutchinson.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
(STABAT MATER - O HINO - clicar na imagem para ouvir)
STABAT MATER - COMPOSIÇÃO: JACOPONE DA TODI
Stabat
mater dolorosa
Iuxta
crucem lacrimosa
Dum
pendebat filius
Cuius
animam gementem
Contristantam
et dolentem
Pertransivit
gladius
O
quam tristis et afflicta
Fuit
illa benedicta
Mater
unigeniti
Quae
maerebat et dolebat
Et
tremebat, cum videbat
Nati
poenas incliti
Quis
est homo qui non fleret
Matrem
christi si videret
In
tanto supplicio?
Quis
non posset contristari
Piam
matrem contemplari
Dolentem
cum filio?
Pro
peccatis suae gentis
Iesum
vidit in tormentis
Et
flagellis subditum
Vidit
suum dulcem natum
Morientem
desolatum
Dum
emisit spiritum
Eia
mater fons amoris
Me
sentire vim doloris
Fac
ut tecum lugeam
Fac
ut ardeat cor meum
In
amando christum deum
Ut
sibi complaceam
Sancta
mater, istud agas
Crucifixi
fige plagas
Cordi
meo valide
Tui
nati vulnerati
Tam
dignati pro me pati
Poenas
mecum divide!
Fac
me vere tecum flere
Crucifixo
condolere
Donec
ego vixero
Iuxta
crucem tecum stare
Te
libenter sociare
In
planctu desidero
Virgo
virginum praeclara
Mihi
iam non sis amara
Fac
me tecum plangere
Fac
ut portem christi mortem
Passionis
eius sortem
Et
plagas recolere
Fac
me plagis vulnerari
Cruce
hac inebriari
Ob
amorem filii
Inflammatus
et accensus
Per
te virgo sim defensus
In
die iudicii
Fac
me cruce custodiri
Morte
christi praemuniri
Confoveri
gratia
Quando
corpus morietur
Fac
ut animae donetur
Paradisi
gloria
Amen


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