quinta-feira, 23 de abril de 2026

O MUNDO QUE MORA EM NÓS - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO - INSPIRADA EM FRASE DE CLARICE LISPECTOR PROFERIDA POR BETH GOULART

O relógio na parede insistia em marcar as horas, mas para aquela mulher, o tempo havia decidido caminhar de outra forma. Ela olhava pela janela o movimento frenético da rua: carros buzinando, pessoas correndo contra o vento, a vida lá fora parecendo um quebra-cabeça que ninguém conseguia montar. Antigamente, aquilo a angustiava. Hoje, não mais.

Ela trazia consigo uma frase que funcionava como um amuleto, um pensamento de Clarice Lispector que finalmente fazia sentido: “Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós”.

Naquele momento, ela compreendeu que amar é um ato de recolhimento. Não é que o mundo lá fora tenha morrido; é que ele mudou de endereço. O sol que antes aquecia a calçada agora parecia brilhar dentro do seu próprio peito. A pressa dos outros era apenas um ruído distante, porque o seu ritmo agora era ditado por algo muito mais profundo e silencioso.

Lembrou-se de ter visto Beth Goulart no palco, dando voz e corpo a essas sensações. Beth não apenas interpretava; ela se transformava. No palco, a atriz conseguia mostrar que a verdadeira vida não está nos grandes eventos externos, mas na forma como a gente processa cada pequeno detalhe na alma. Ver Beth em cena era como ver uma tradução viva dessa frase: a prova de que uma pessoa pode conter o universo inteiro dentro de si, sem precisar dar explicações ao mundo.

Muitos buscam respostas no barulho das ruas, nas notícias urgentes, no entendimento lógico de tudo o que acontece. Mas aquela mulher, inspirada pela entrega que vira no teatro e pela lucidez das palavras de Clarice, decidiu que não precisava mais entender o "lá fora".

Amar, um companheiro, uma ideia, ou a própria existência, trazia uma paz estranha e absoluta. Se tudo acontecia dentro dela, ela era a dona do seu próprio clima e da sua própria paz. O mundo externo podia até clamar por atenção, mas ela estava ocupada demais ouvindo o barulho bonito da vida pulsando do lado de dentro.

No final das contas, entender o mundo é cansaço. Sentir o mundo, através do amor, é a única liberdade possível.

 

Crônica inspirada em frase de Clarice Lispector proferida por Beth Goulart e publicada pelo professor Marco Antônio Martins Pereira em seu perfil do Facebook.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



 

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