O relógio na parede insistia em marcar as horas, mas para aquela mulher, o tempo havia decidido caminhar de outra forma. Ela olhava pela janela o movimento frenético da rua: carros buzinando, pessoas correndo contra o vento, a vida lá fora parecendo um quebra-cabeça que ninguém conseguia montar. Antigamente, aquilo a angustiava. Hoje, não mais.
Ela
trazia consigo uma frase que funcionava como um amuleto, um pensamento de
Clarice Lispector que finalmente fazia sentido: “Quando se ama não é preciso
entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós”.
Naquele
momento, ela compreendeu que amar é um ato de recolhimento. Não é que o mundo
lá fora tenha morrido; é que ele mudou de endereço. O sol que antes aquecia a
calçada agora parecia brilhar dentro do seu próprio peito. A pressa dos outros
era apenas um ruído distante, porque o seu ritmo agora era ditado por algo
muito mais profundo e silencioso.
Lembrou-se
de ter visto Beth Goulart no palco, dando voz e corpo a essas sensações. Beth
não apenas interpretava; ela se transformava. No palco, a atriz conseguia
mostrar que a verdadeira vida não está nos grandes eventos externos, mas na
forma como a gente processa cada pequeno detalhe na alma. Ver Beth em cena era
como ver uma tradução viva dessa frase: a prova de que uma pessoa pode conter o
universo inteiro dentro de si, sem precisar dar explicações ao mundo.
Muitos
buscam respostas no barulho das ruas, nas notícias urgentes, no entendimento
lógico de tudo o que acontece. Mas aquela mulher, inspirada pela entrega que
vira no teatro e pela lucidez das palavras de Clarice, decidiu que não
precisava mais entender o "lá fora".
Amar,
um companheiro, uma ideia, ou a própria existência, trazia uma paz estranha e
absoluta. Se tudo acontecia dentro dela, ela era a dona do seu próprio clima e
da sua própria paz. O mundo externo podia até clamar por atenção, mas ela
estava ocupada demais ouvindo o barulho bonito da vida pulsando do lado de
dentro.
No
final das contas, entender o mundo é cansaço. Sentir o mundo, através do amor,
é a única liberdade possível.
Crônica
inspirada em frase de Clarice Lispector proferida por Beth Goulart e publicada
pelo professor Marco Antônio Martins Pereira em seu perfil do Facebook.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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