A memória é a nossa única pátria, e a escrita,
o mapa que desenhamos para não nos perdermos nela.
A vida, este imenso estuário onde desaguam os rios da herança e da invenção, exige de nós uma navegação constante entre o que herdamos e o que ousamos criar. Escrever, para mim, nunca foi um exercício de isolamento, mas um ato de hospitalidade. É abrir as portas de uma casa em pleno coração nordestino, de muros caiados e telhas gastas pelo tempo, para receber as sombras dos antepassados que ainda sussurram nos corredores da imaginação. Somos, afinal, feitos de barro e de narrativa; somos a soma das vozes que nos precederam e o eco das palavras que ainda não tivemos a coragem de pronunciar.
Muitas vezes, detenho-me a observar a linha do horizonte, onde o mormaço se enleia com o céu, e reconheço que a minha identidade é uma colcha de retalhos tecida por mãos nordestinas. Há em cada um de nós um pouco dessa errância, desse desejo de buscar uma terra prometida, mesmo que essa terra seja apenas o papel em branco. A memória não é um depósito estático, um baú de antiguidades coberto de pó; ela é um organismo vivo, uma criatura pulsante que se transmuta a cada lembrança. Lembrar é, em essência, um ato de criação. Ao resgatarmos um rosto, um cheiro de cozinha ou o som de uma língua antiga, estamos a reconstruir o mundo sob a luz do presente.
O ofício da palavra requer uma disciplina quase monástica, mas temperada por uma paixão indomável. Não se escreve impunemente. Cada frase é um compromisso com a verdade, não a verdade factual, fria e estatística, mas a verdade do sentimento, a veracidade da alma humana em suas contradições mais profundas. A literatura é o território onde o sagrado e o profano se abraçam, onde a miséria e a grandeza coabitam o mesmo parágrafo. É preciso ter a humildade de escutar o que as personagens têm a dizer, pois elas frequentemente possuem uma sabedoria que escapa ao próprio autor.
Nasci sob o signo da curiosidade, herdeiro de uma terra que aprendeu a extrair beleza da aridez. Minha bússola aponta para o interior, para o som da rabeca e o estalar da lenha no fogão. Acredito que a grandeza de uma cultura reside na sua capacidade de acolher o outro, de se deixar fecundar pelo estranho, sem perder a fibra que a sustenta. A língua que falo é a minha pátria, sim, mas é uma pátria de sotaques ruidosos e pausas reflexivas, onde o português se enriquece com o aroma da rapadura e o calor do sol que nunca pede licença.
A escrita é também uma forma de resistência contra o esquecimento, essa morte lenta que ameaça apagar a dignidade dos pequenos gestos. Quando descrevo o modo como uma mulher ajeita o lenço na cabeça ou a maneira como um homem olha para as suas mãos calejadas pelo cabo da enxada, estou a lutar contra o tempo. Quero que a eternidade caiba em um instante de beleza. A estética não é um adorno; é uma ética. Escrever bem é uma forma de respeitar o leitor, de oferecer-lhe um pão de milho que foi amassado com paciência e assado no fogo da experiência.
"A imaginação é a nossa liberdade mais absoluta. Nela, podemos ser o rei e o mendigo, o retirante e o dono da chuva."
Muitos me perguntam sobre a solidão do escritor. Eu respondo que nunca estou só, não sei o que é solidão; vinte e quatro horas para mim é pouco. Estou habitado por multidões. Cada cordel lido na feira, cada história de assombração e de bravura que ouvi na infância, sentado aos pés dos mais velhos na calçada, transformou-se em sangue e músculo. A tradição não é uma corrente que nos prende ao passado, mas um trampolim que nos lança para o futuro. Não se pode inovar sem conhecer o alicerce; não se pode voar sem ter os pés firmemente plantados na terra vermelha que nos gerou.
Não posso deixar de falar sobre a força das mulheres que povoam o meu universo. Mulheres que, muitas vezes silenciadas pela poeira da história oficial, mantiveram acesa a chama da vida através da oralidade, do cuidado e da resistência silenciosa. Elas são as guardiãs dos segredos, as rendeiras dos destinos que cruzam os fios da dor e da esperança. Na minha escrita, busco devolver-lhes a voz, reconhecendo a sua soberania espiritual. O feminino é uma força telúrica, uma energia que organiza o caos e dá sentido ao sofrimento.
O homem que escreve, por sua vez, deve ser um tradutor dessas sensibilidades. Ele reivindica o direito de interpretar o mundo, de nomear as coisas segundo a sua própria visão, que deve ser generosa e inclusiva. Não buscamos a conquista territorial pela força, mas a conquista da sensibilidade. Queremos habitar o coração humano com a mesma naturalidade com que o vento atravessa as frestas de uma casa de taipa.
Ao longo das décadas, aprendi que a glória é um fumo passageiro, mas a obra é um monumento de pedra que resiste às secas e às inundações. O que importa, ao fim do dia, não são os aplausos, mas a certeza de que fomos fiéis à nossa vocação. A vida é curta, mas a arte é longa, como já diziam os antigos. E essa longevidade da arte advém da sua capacidade de tocar o universal partindo do particular. Ao falar do meu sertão, da minha família, dos meus fantasmas pessoais, estou a falar de toda a humanidade.
A morte, esse mistério que nos espreita a cada esquina, não deve ser temida, mas encarada como a fronteira final da nossa narrativa. Se vivemos com intensidade, se amamos com entrega e se escrevemos com coragem, a morte torna-se apenas o ponto final de um capítulo, permitindo que o livro continue a ser lido por aqueles que ficam, como um rastro deixado na areia.
Sinto que minha missão é ser uma ponte. Uma ponte entre gerações, entre o barro e o papel, entre o sonho e a realidade. Enquanto houver uma história para ser contada, haverá esperança. E enquanto houver uma alma disposta a ouvir, a literatura permanecerá viva, como um fogo de fogueira de São João que se transmite de mão em mão, iluminando a escuridão dos tempos e aquecendo o frio da nossa finitude.
Caminho, pois, com os olhos postos no amanhã, mas com o coração ancorado nas raízes que me sustentam. O futuro é uma página que ainda vamos escrever, com a mesma paixão, o mesmo rigor e o mesmo amor pela vida que nos trouxe até aqui. Pois, no banquete da existência, a palavra é o mel de engenho que nos adoça o sentido e o pão que nos sustenta na longa jornada em direção ao absoluto.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PIÑON, Nélida. Aprendiz de Homero. Rio de Janeiro: Record, 2008. (Fundamental para entender a visão da autora sobre o ato de escrever como uma herança clássica).
PIÑON, Nélida. A República dos Sonhos. Rio de Janeiro: Record, 1984. (Para a temática da memória dos antepassados e a saga das gerações).
SUASSUNA, Ariano. Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. (Essencial para a relação entre o erudito e o popular/nordestino).
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. (Qualquer edição). (A base da "geografia telúrica" e da resistência do homem sertanejo).
MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina. (Para a metáfora dos rios e da travessia em busca da "terra prometida").
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. (Trabalha a memória como um trabalho ativo e não um depósito passivo).
BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993. (Ajuda a fundamentar a imagem da "casa de muros caiados" como o centro do universo afetivo).
BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. São Paulo: Perspectiva, 1973. (Sobre a relação entre o autor, o texto e o banquete dos sentidos).
© Alberto Araújo




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