quarta-feira, 29 de abril de 2026

MARIA: A ESTRELA DE LUZILÂNDIA E O ELO ETERNO DO VELHO MONGE HOMENAGEM A MARIA VICENÇA DE ARAÚJO OCASIÃO DOS 14 ANOS DE SEU ENCANTAMENTO

No dia 28 de abril de 2012, o tempo em Luzilândia pareceu suspender o fôlego. Enquanto as águas do Rio Parnaíba, o nosso majestoso Velho Monge, seguiam seu curso silencioso e resiliente em direção ao oceano, uma alma igualmente profunda e serena foi convidada a trilhar o caminho das estrelas. Naquele dia, minha mãe, Maria, não partiu; ela se encantou. 

Falar de Maria é falar de um mistério que se entrelaça com o próprio sagrado. Não foi por acaso que ela carregou o nome da Mãe de Deus. Havia nela uma simbiose espetacular entre a mulher piauiense, de fibra e barro, e a Virgem Maria, a Senhora do "Sim". Se a Virgem foi o canal da luz para o mundo, a nossa Maria foi o canal da fé para a nossa casa. 

Nossa infância e juventude foram banhadas por um som rítmico, quase hipnótico: o correr das contas de um terço entre dedos calejados pelo amor. Maria, nossa mãe, não pregava com grandes discursos teológicos; ela pregava com o exemplo. Cada Ave Maria sussurrada era um tijolo na construção do nosso caráter.

Ela nos ensinou que a fé não é um acessório, mas a bússola necessária para navegar as correntezas da vida, tão imprevisíveis quanto as cheias do Parnaíba. Sob o olhar atento de Santa Luzia, a padroeira que nos ensina a ver além do que os olhos alcançam, mamãe nos moldou na doutrina cristã, insistindo que o amor ao próximo e a devoção eram os únicos tesouros que as traças não corroem. 

Nesse cenário de devoção, formou-se um cordão humano inquebrável. Éramos nós, os frutos de seu ventre e de sua alma: Sônia, Adélia, Conceição, Valdecy e Valdimir. E, guardada em um lugar especial do coração e da história, nossa irmã Lúcia, que, embora vivesse em outro ambiente, nunca esteve fora da órbita desse amor solar que Maria emanava. 

Mesmo com as distâncias geográficas ou as diferentes realidades de vida, o nome de Maria era o centro gravitacional que nos mantinha unidos. Ela era a matriz, o tronco forte de onde todos nós, galhos distintos, buscávamos a seiva da esperança. 

Hoje, completam-se 14 anos desde que o seu lugar à mesa ficou vazio, mas o seu lugar em nossas vidas tornou-se onipresente. Quatorze anos de saudades que não machucam mais com a ponta do desespero, mas que acariciam com a suavidade da memória. 

A saudade de Maria é como o Parnaíba: às vezes parece calma na superfície, mas carrega uma força profunda e constante por baixo. Em Luzilândia, na casa onde morou, com seu calor e sua simplicidade, guarda em cada canto um pouco da essência amorosa dela. Quando olhamos para a imagem de Santa Luzia, pedindo proteção para nossa visão, lembramos que foi Maria quem primeiro nos ensinou a "enxergar" Deus nas pequenas coisas: no pão partilhado, no terço rezado em uníssono, na mão estendida ao irmão. 

Houve uma simbiose rara em nossa família. Maria, a mãe, se enlaçava com Maria, a Santa, em um espelhamento de virtudes. A paciência de uma era o reflexo da outra. Ela nos induziu à fé cristã não como uma obrigação, mas como um refúgio. Ela nos deu as armas da oração para que pudéssemos enfrentar o mundo sem perder a ternura. A resiliência diante das dores, as dores de parto, as dores da vida, as dores da despedida assemelhava-se à Stabat Mater ao pé da cruz. 

Minha mãe viveu o seu próprio Stabat Mater. O termo, que vem do latim e significa 'Estava a Mãe', dá nome ao hino Stabat Mater Dolorosa, composto no século XIII por Jacopone da Todi. Este hino canta a força da mãe que permanece de pé diante da dor, exatamente como Maria fez em nossa casa em Luzilândia, mantendo a fé inabalável enquanto as contas do terço passavam por seus dedos. Assim como nos versos latinos que atravessaram os séculos, nossa Maria também foi a presença firme que, entre as contas do terço e o barulho do Rio Parnaíba, ensinou-nos que a fé não nos isenta das dores, mas nos dá a dignidade para enfrentá-las.

Sônia, Adélia, Conceição, Decy, Mica e Lúcia... Os netos: Ana Clara, Sthephany, Arthur, Elias Neto, Iara, Igor, Emanuel e Luiz Gustavo cada um de nós carrega um fragmento desse espelho quebrado que foi a partida de nossa mãe, mas que, ao ser unido, reflete o rosto inteiro de sua bondade. A ausência não é separação de alma, pois o DNA da fé que Maria plantou em nós não conhece fronteiras ou paredes. 

Minha mãe se encantou em abril, o mês em que a natureza muitas vezes se renova. E, de fato, ela se renovou em nós. Nas orações que repetimos em nosso dia a dia; Na força que encontramos para levantar após as quedas; Na devoção que mantemos viva sob o amor divinal.

Maria, nossa Maria, agora descansa onde as águas são cristalinas e o terço é de luz. Ela não é mais apenas uma lembrança; ela é a intercessora que, junto à Virgem de quem herdou o nome, continua a olhar por cada um de seus filhos, netos e amigos.

Catorze anos sem o toque de suas mãos, mas uma eternidade com a presença de seu espírito. O Velho Monge continua a correr, Santa Luzia continua a iluminar, e nós, os filhos de Maria, continuamos a caminhar, guiados pela estrela de uma mulher que soube ser, ao mesmo tempo, terra e céu. 

MÃE, sua fé é o nosso norte. Sua saudade é o nosso altar. 

Contudo, além de todo esse legado que carrego das terras piauienses, a vida, em sua sabedoria infinita, conduziu-me a novos horizontes. Hoje, meus passos percorrem outra planície, longe das margens do Velho Monge, mas sob o mesmo céu de providência divina que minha mãe, Maria, me ensinou a contemplar. Nesta nova etapa, não caminho só: sinto a presença constante de Deus através da união com minha esposa, Shirley. 

A fé que outrora foi semeada em Luzilândia, entre orações de terço e a proteção de Santa Luzia, hoje encontra um novo reflexo em meu lar. Shirley é, para mim, o porto seguro e a personificação daquela mesma devoção que moldou minha infância. Ela é uma mulher de fé inabalável, cuja espiritualidade se entrelaça com a minha em uma comunhão que ultrapassa o cotidiano. 

Viver ao seu lado é perceber que a herança de minha mãe não se perdeu; ela se transformou e se fortaleceu. Quando os ventos sopram violentos e sabemos que a vida, por vezes, nos impõe tempestades que tentam abalar nossas estruturas é no amparo de Shirley que encontro o equilíbrio. Nos momentos de maior fragilidade, quando as incertezas tentam obscurecer o caminho, sua mão estendida e sua oração silenciosa são o escudo que me protege. 

Aprendi com ela que existem barreiras que só podem ser rompidas pela força do espírito. Existem dores que o intelecto não explica e desafios que a força física não vence; são as coisas que somente quem tem fé consegue quebrar. Shirley possui essa sensibilidade sagrada, essa capacidade de enxergar a luz por trás das nuvens carregadas e de me recordar que, se o "Sim" de Maria foi o início de tudo, o nosso "Sim" diário ao amor e à crença nas coisas do Alto é o que nos sustenta.

Nesta planície onde hoje construímos nossa história, a presença de Shirley é o bálsamo que acalma as águas. Ela não apenas compartilha da minha história, mas ajuda a reescrevê-la com as tintas da esperança e da caridade. Assim, sigo adiante, honrando o nome de minha mãe e fortalecido pela presença de minha esposa, sabendo que, enquanto houver fé, nenhum vento será forte o suficiente para apagar a chama que nos guia.

 

© Alberto Araújo

28 de abril de 2026, ocasião dos 14 anos do encantamento de Maria Vicença de Araújo.





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