quarta-feira, 1 de abril de 2026

BRUNO TOLENTINO - O HEREDITÁRIO E O PRECOCE - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO


Diferente de quem busca a cultura, Bruno nasceu mergulhado nela. Em uma casa onde nomes como Bárbara Heliodora e Antonio Candido eram presenças familiares, a erudição era o vernáculo cotidiano. 

Aos três anos, enquanto outras crianças balbuciavam, ele já decifrava a heráldica das nações. 

Frequentando o MAM, o jovem Bruno não era apenas um espectador. Fez cursos no Museu de Arte Moderna. Lá conheceu João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Drummond, Nélida Piñon. Encantaram-se uns pelos outros e vez ou outra Bruno os reunia na casa dos pais. 

Os trinta anos vividos na Europa não foram um simples passeio acadêmico, mas uma odisseia de alta voltagem. Bruno não apenas leu os grandes; ele viveu com eles. Recebeu o aval de W.H. Auden e Saint-John Perse, consolidando-se como uma voz que transcendia fronteiras linguísticas.

Contudo, a vida cinematográfica exige o seu conflito. A prisão em Dartmoor, na Inglaterra, por tráfico de entorpecentes, poderia ter sido o fim de qualquer carreira. Para Tolentino, foi o claustro necessário. Na cela, o poliglota transformou-se em ponte para os outros detentos e, no silêncio da reclusão, teve os seus encontros místicos com a Virgem Maria. Foi ali, entre as grades e o absoluto, que nasceu "A Balada do Cárcere". 

Ao retornar ao Brasil em 1992, deportado mas carregando uma bagagem lírica monumental, Bruno encontrou um país literariamente fragmentado. Ele trouxe consigo o que Arnaldo Jabor chamou de "peste clássica", uma exigência técnica e espiritual que a poesia contemporânea parecia ter esquecido. 

Sua recepção foi um misto de espanto e reverência:

Ariano Suassuna o viu como um herdeiro da luta pela arte verdadeira.

Alcir Pécora o alçou ao posto de maior poeta pós-Cabral.

João Moura Jr. definiu-o na dualidade perfeita: a estrutura de Goethe com a alma marginal de Villon.

Bruno Tolentino partiu em 2007, deixando três Prêmios Jabuti e uma obra que ainda hoje atua como um fanal de rigor formal e profundidade metafísica. Ele provou que a poesia não é apenas um exercício de escrita, mas uma forma de habitar o mundo, com toda a dor, a beleza e a complexidade que isso exige. 

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© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural







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