Com reverência à arte, à beleza e às manifestações mais nobres do espírito humano, o Focus Portal Cultural tem o privilégio de apresentar uma entrevista exclusiva com a eminente escritora, acadêmica e artista plástica Gilda Pinheiro Guedes de Uzeda. Presença muito importante no cenário intelectual e cultural brasileiro, Gilda é a viva personificação do encontro perfeito entre o rigor da razão e a sublime delicadeza do fazer poético.
Graduada e licenciada pelo Instituto de Geociências da Universidade Federal Fluminense (UFF), com pós-graduação em Educação e uma impecável trajetória como docente da mesma instituição, Gilda construiu uma caminhada na qual a Ciência e a Arte caminham lado a lado. Ao ocupar com brilho a Cadeira nº 05 da Academia Niteroiense de Letras, sob o honroso patronato de Euclides da Cunha, ela reafirma diariamente o poder da palavra como instrumento sagrado de transformação, reflexão e resgate do humanismo.
Sua contribuição para a cultura e para a Humanidade ultrapassa as fronteiras da escrita tradicional. Gilda Uzeda é uma investigadora da alma, dedicada ao estudo minucioso da Natureza, da Literatura, das Artes Visuais e da Ciência Espiritual. Com quase duas dezenas de livros publicados, entre os quais se destacam pérolas como Mundo de Dentro, Rastros e Palavras, O Vento Sopra Onde Quer, Alma e Raiz e Seiva da Terra, a autora nos presenteia com uma obra vasta e multifacetada. Em suas páginas, a simplicidade do cotidiano adquire contornos de eternidade, revelando a seiva invisível que conecta o ser humano ao cosmos.
Mas a sua vertente criativa não se limita à palavra impressa. Como artista plástica de sensibilidade singular, Gilda ilustra suas próprias obras e dialoga com os grandes mestres da história da arte mundial. Prova viva e retumbante dessa capacidade de ponte atemporal foi a criação e o lançamento da aclamada obra Carta a Vincent: A Alma e a Humanidade de um Artista, publicada em parceria pela POD Editora e a Fundação Cultural Avatar.
Nesse trabalho primoroso, que arrebatou o público e teve sua primeira tiragem esgotada em tempo recorde, Gilda Uzeda realiza um gesto de coragem e amor: escreve uma carta poética e imaginária ao mestre pós-impressionista holandês Vincent van Gogh. Indo além do estigma reducionista do "gênio atormentado", a autora desvela um Van Gogh profundamente lúcido, generoso e imbuído de uma espiritualidade vibrante. O livro ganha ainda mais força ao reunir releituras pictóricas marcantes concebidas pela própria Gilda, como Visita ao Pôr do Sol de Van Gogh, Araucária na Noite Estrelada e Visita à Mesa de Vincent, estabelecendo um diálogo estético e afetuoso entre o pincel do mestre e a paleta da escritora.
O impacto dessa obra ultrapassou as páginas do livro, desdobrando-se em emocionantes palestras, exposições e leituras dramatizadas memoráveis, a exemplo dos eventos marcantes promovidos na Fundação Cultural Avatar e na Loja Rosacruz de Niterói, nos quais o público foi convidado a sentir a força de céus estrelados, campos de trigo e girassóis sob uma nova e iluminada perspectiva.
Para além de sua erudição e de suas conquistas estéticas, Gilda Uzeda possui o dom mais raro de todos: a capacidade de ser presença. Quem acompanha seus passos e suas reflexões, como nós, no Focus Portal Cultural, sabe que cada comentário seu é um feixe de luz, uma palavra de encorajamento, um abraço fraterno tecido em linguagem. Gilda vive a cultura como respiração e necessidade vital, lembrando-nos a todo instante de que a arte é, em sua essência mais pura, um ato supremo de partilha e amor.
É com essa imensa admiração por sua trajetória, por sua generosidade e por sua inestimável contribuição ao patrimônio cultural do nosso país que abrimos as portas do nosso portal para este diálogo singular. Convidamos nossos leitores a adentrar esta conversa envolvente, em que a sabedoria e a ternura de Gilda Uzeda nos guiam por caminhos de reflexão, beleza e inspiração.
A ENTREVISTA
1. Escritora, você é niteroiense e construiu toda a sua vida acadêmica e artística ligada a esta cidade. Como ser de Niterói molda seu olhar para o mundo e para a arte?
Resposta: Sim, nasci em Niterói e toda minha realização em família, na profissão, na arte e na literatura foram aqui construídas. Sem dúvida, a beleza natural e paisagística da cidade sensibiliza aqueles que amam a natureza, e isso acaba por motivar a criatividade em muita gente.
2. Sua formação inicial é em Geografia pela UFF, onde você também atuou como professora. De que maneira o estudo da Terra e do espaço geográfico influenciou a sua escrita e as suas artes plásticas?
Resposta: A Geografia me abriu as portas para o estudo das paisagens naturais, da natureza e dinâmica da Terra como corpo planetário, da leitura dos mapas e compreensão das convenções cartográficas, da mesma forma que me levou também ao estudo da Cosmografia com a visão, descrição e composição do Espaço Sideral. Tais áreas de estudo me encantavam e atraíam desde muito cedo e, depois, me influenciaram na profissão que me conduziu a trinta anos como professora na UFF. E os mesmos temas continuam na arte e na escrita.
3. Como foi o processo de transição ou de integração entre o pensamento acadêmico-científico da Geografia e a sensibilidade poética da Literatura?
Resposta: Não houve transição. Desde o início houve uma integração espontânea. A interação entre algum jeito para desenhar e pintar, o gosto de ler, escrever e de estudar a Natureza terrestre e sideral se deu de forma natural.
4. Sua obra traz uma forte presença da Ciência Espiritual e do estudo da Natureza. Onde a ciência formal encontra a espiritualidade nos seus livros?
Resposta: Em tudo que estudo e faço, acabo buscando algum vestígio de espiritualidade. Respeito o olhar da ciência que pesquisa, desvenda, estuda e explica os campos da vida. Não vejo conflito nisso. Também creio em intuição e esta visão conjunta me ajudou na vida acadêmica como em tudo mais. Quando se olha a espiritualidade, não com a limitação dos rótulos, preceitos e conceitos rígidos, mas como a presença da beleza, bondade, acolhimento e harmonia, aí a compreensão fica mais perto do ser humano.
5. Você ocupa a Cadeira 05 da Academia Niteroiense de Letras, cujo Patrono é Euclides da Cunha, um autor que também reuniu geografia, literatura e denúncia humana. Qual é o significado desse assento para você?
Resposta: No tempo do autor de Os Sertões, a Geografia era como uma especialidade na Engenharia. Euclides da Cunha era, pois, engenheiro-geógrafo. Quem leu a sua obra nela encontra a evidência do repórter, do grande escritor e do conhecedor e técnico nas ciências da geografia e engenharia. Acontece que, sendo eu geógrafa e tendo a geografia e a engenharia como marcas na história de antepassados próximos, foi uma significativa surpresa ter como Patrono da Cadeira 05 da ANL um nome ligado, justamente, a essas profissões.
6. Com quase duas dezenas de livros publicados, você transita entre a prosa e a poesia. Como nasce uma obra na sua mente: pela imagem, pela palavra ou por uma reflexão filosófica?
Resposta: É um processo em que imagem, reflexão e palavra costumam se complementar. Do princípio ao fim, a reflexão permeia tudo. Já a imagem traz o gostinho da arte e é motivadora, enquanto a palavra vai dando substância e expressão ao pensamento que rege o todo.
7. Em títulos como Mundo de Dentro, Seiva da Terra, O Vento Sopra Onde Quer e Rastros e Palavras, a natureza sobressai. Qual é a mensagem central que você busca transmitir sobre a conexão entre o ser humano e o meio ambiente?
Resposta: A conexão entre o ser humano, o meio ambiente, a espiritualidade e a arte são intenções presentes, ou como tema principal ou como pano de fundo, em tudo que escrevo. Transmitir uma mensagem que reforce o olhar de respeito, amor e cuidado para com tudo que envolve a natureza e estimular o sentimento no olhar fazem parte da finalidade dos meus trabalhos.
8. Além de escrever, você ilustra suas próprias obras com traços simples e expressivos. Como funciona esse diálogo entre a sua mão que escreve e a sua mão que pinta?
Resposta: Creio na arte como um vetor de encantamento que auxilia na comunicação. A imagem adoça, amacia, convida o olhar. A ilustração, em desenho ou pintura, traz leveza a quem lê e a quem escreve. E a mão é o veículo que dá forma e aproxima o traço da palavra num diálogo contemplativo e complementar.
9. Em O Lampião do Eremita e Alma e Raiz, notamos uma busca pelo autoconhecimento. O ato de escrever para você é uma forma de oração ou de meditação?
Resposta: Entendo a meditação e a oração
como conversas profundas, íntimas e amigas com a Presença Espiritual dentro de
nós. O ato de escrever organiza a conversa e, no meu caso, passa a participar
da meditação.
10. Como você enxerga o papel da simplicidade na arte e na literatura contemporânea?
Resposta: Assim como em todos os setores da vida, a Simplicidade é fundamental na arte e literatura de qualquer tempo. Quando a arte e a literatura se perdem da simplicidade e complicam a linguagem, elas se afastam dos seus mais importantes propósitos: chamar, encantar, transmitir, comunicar.
11. Como e quando surgiu a ideia de escrever Carta a Vincent: A Alma e a Humanidade de um Artista? Qual foi o "estalo" inicial?
Resposta: Surgiu a partir do tanto que aprecio a arte de Vincent van Gogh. Então a ideia foi surgindo e tomando forma, motivada pela gratidão diante do tanto que esse mestre da pintura me encantou, influenciou e inspirou no caminho da arte.
12. Por que escolher a estrutura de uma carta dirigida diretamente a Vincent van Gogh, tratando-o como um interlocutor presente?
Resposta: Na verdade, eu só queria poder dizer a ele tudo que penso sobre ele e sua arte. Talvez tenha sido a única maneira possível para fazer isso.
13. Van Gogh é frequentemente rotulado apenas como o "gênio atormentado". O seu livro busca resgatar outro lado desse artista? Que lado é esse?
Resposta: Não há dúvida de que Vincent era um gênio e tinha um temperamento forte. Porém, era incompreendido porque pensava à frente do seu tempo. Mas não era atormentado do jeito que dizem. Sua emoção à flor da pele foi chamada de tormento por quem não percebeu e respeitou a grandeza e intensidade que o habitavam. Era tão generoso que, ao ser ferido acidentalmente, ele não acusou o autor do disparo por ser ainda um menino; daí, deixou que pensassem que ele mesmo se ferira... E contaram que foi suicídio. Tudo que o livro conta sobre este episódio foi baseado no livro Van Gogh: A Vida, biografia premiada dos escritores Steven Naifeh e Gregory White Smith. O resto ficou por conta de quem quis fazer dele um pintor atormentado. Mas o que importa é que Vincent, além de ser um artista fantástico, era um homem lúcido, bondoso e inteligente.
14. O livro é dividido em duas partes: um perfil biográfico focado na alma-humanidade de Vincent e a carta fantasiosa. Como foi estruturar essas duas dimensões?
Resposta: A carta que chamo de imaginária foi se formando pela vontade de dizer a Vincent o que sinto pela sua arte. A ideia foi surgindo e tudo foi acontecendo na medida em que o sentimento comandava e o lado intelectual se metia pouco.
15. Durante as suas pesquisas para o livro, o que
mais a surpreendeu nas cartas reais de Van Gogh para seu irmão Theo?
Resposta: Chamou minha atenção a delicadeza interior de Vincent, sua necessidade e alegria em descrever para o irmão amado o que ele sentia enquanto pintava a natureza e via tudo à sua volta, como se tocava com as cores, as paisagens, o céu estrelado. Sua alma transbordava enquanto escrevia sobre as coisas e pessoas que ele pintava. De fato, hoje, as cartas se tornaram testemunho e registro da maneira de ser de Vincent van Gogh: sua espiritualidade, sensibilidade, simplicidade, seu genial, diferenciado e indiscutível talento.
16. Em sua análise, qual é a principal lição espiritual ou humana que a vida de Van Gogh deixa para nós no século XXI?
Resposta: A lição de que a emoção que envolve alguém que quer significar a própria vida, que quer, desesperadamente, amar e ser amado, que sofre em busca de compreensão e de abrigo, que esse alguém, ainda assim, pode encontrar um consolo na contemplação da natureza e do Divino que nela se revela, e pode fazer isso através da expressão da Arte. Vincent rezava diante das estrelas.
17. O livro foi publicado em parceria pela POD Editora e a Fundação Cultural Avatar. Como se deu essa união editorial?
Resposta: A união da POD Editora e a Fundação Cultural Avatar existe há muitos anos e não sei como começou. O fato de editarem alguns dos meus livros foi uma grande e boa oportunidade que me chegou através do convite da então Presidente da FCA, Ana Maria Caldeira, a quem sou imensamente grata.
18. No livro e na exposição, você apresenta releituras de telas icônicas de Van Gogh. Qual foi o critério para escolher as 10 obras do mestre holandês a serem trabalhadas?
Resposta: Foram dois os critérios. O primeiro foi só uma questão de escolha pessoal e que tivessem alguma relação com alguma parte do texto. O segundo foi que as imagens escolhidas estivessem em domínio público.
19. Como foi o processo criativo de obras suas como Visita ao Pôr do Sol de Van Gogh, Araucária na Noite Estrelada ou Saco de Farinha em Contexto de Vincent? Como colocar a sua identidade sem perder a essência dele?
Resposta: A releitura é uma aula de arte.
São muitos os artistas que fizeram releituras. O próprio Van Gogh fez muitas.
Mas para reler é preciso respeitar a obra que vai ser relida e saber que você
não é o protagonista; o autor da obra original é o protagonista. À medida que o
trabalho avança, nota-se que cresce a intimidade com a obra. Com a simplicidade
presente, portanto, saber que releitura não é cópia e não pretende alcançar a
beleza do original. Quem pinta a partir de uma obra já existente se deixa
contagiar pela emoção que o original produz em seu olhar para que a arte seja
condutora. Então, sem fugir ao tema, a releitura ganhará a expressão de quem a
pinta sem ferir o original.
20. Telas como Noite Estrelada sobre o Ródano, O Semeador, Os Comedores de Batatas e Girassóis possuem energias muito distintas. Qual delas exigiu mais de você emocionalmente?
Resposta: São energias distintas que retratam diferentes circunstâncias em diferentes momentos da vida de Vincent. Cada uma delas nos envia impressões marcantes. A meu ver, dentre elas, Noite Estrelada sobre o Ródano revela alguma coisa mais leve. Talvez seja a paz da noite estrelada e das luzes da cidade refletidas no rio. Na verdade, todas elas são maravilhosas.
21. Em Araucária na Noite Estrelada, você insere um elemento tipicamente brasileiro-sul-americano em um cenário vangoghiano. Qual é o simbolismo desse encontro cultural?
Resposta: Não sei se há um simbolismo, mas, para mim, significa o encontro de duas belezas que eu amo: o quadro Noite Estrelada e a árvore Araucária. Quem sabe possa simbolizar um momento de aproximação entre Van Gogh e a árvore que, entre outros nomes, também chamam de Pinho Brasileiro? No mais, talvez tenha sido só um ato atrevido de quem fez a releitura.
22. Na apresentação multimídia da Fundação Avatar, a qual tivemos o privilégio de fazer a cobertura completa, as imagens das suas obras dialogavam com os originais e com frases de Van Gogh. Como foi ver essa fusão visual e literária tomar vida?
Resposta: Tem coisas que não se explicam pelo lado racional, como no caso da união das partes visual e literária na montagem do trabalho. Porque ali a arte tomou as rédeas, as coisas fluíram e a fusão aconteceu.
23. O professor Luiz Renato Vallejo ficou encarregado da apresentação dos slides no evento. Como a parceria com outros intelectuais enriquece um projeto dessa magnitude?
Resposta: As parcerias, às vezes, são providenciais. Luiz Renato Vallejo, Professor da UFF e atual Diretor Cultural da Fundação Cultural Avatar, com conhecimento tecnológico, inteligência, sensibilidade artística e incansável boa vontade, foi um parceiro providencial e fundamental na montagem e apresentação do trabalho. Sou muito grata a ele e à Fundação.
24. Uma maravilha! No dia 19 de fevereiro de 2024, a Fundação Cultural Avatar recebeu a palestra e o lançamento do livro. Qual foi a sensação de ver o espaço no Ingá lotado de admiradores da arte?
Resposta: Foi muito gratificante. Fiquei imensamente feliz e até surpresa ao ver a casa lotada de amigos e pessoas interessadas no assunto. Van Gogh continua atraindo os amantes da arte.
25. A abertura do evento foi feita por Ana
Caldeira, presidente da Fundação. Como a Avatar tem contribuído para a difusão
da arte e da espiritualidade em Niterói?
Resposta: Professora com grande boa vontade, competência administrativa, cultural e espiritual, Ana Maria Caldeira abriu portas e janelas para a edição e lançamento do livro. Esta é sempre a sua atitude diante dos eventos culturais que acontecem naquela casa. A instituição, certamente, agradece sua inestimável contribuição no campo da arte e dos encontros que ali acontecem.
A Fundação Cultural Avatar, criada pelo saudoso médico Jayme Treiger no início dos anos setenta do século XX, é uma instituição sem vínculo religioso e tem, entre seus objetivos, a busca e prática de valores pelos quais viver, o discernimento e ampliação da consciência através do estudo das religiões comparadas, da arte, da ciência e da espiritualidade. Tem portas abertas a todos que queiram participar de seus objetivos e atividades.
26. O evento contou com a presença de lideranças culturais da cidade, como Márcia Pessanha, presidente da AFL; Matilde Carone Slaibi Conti, do Elos Internacional; e Leda Mendes Jorge, da ANE. Como você avalia a união da comunidade literária niteroiense?
Resposta: Agradeço de coração a presença de tão ilustres e queridas pessoas que, com sua presença, enriqueceram a tarde e trouxeram luz ao evento. Da mesma forma, agradeço a todos mais que lá estiveram e participaram do momento. Quanto à união da comunidade literária niteroiense, creio no provérbio que diz que "A união faz a força". Portanto, no meu ponto de vista, a união no campo da literatura será sempre bem-vinda.
27. Estar cercada por seus familiares no evento, como Maria Cláudia, Marcelo José, Luiz André e sua neta Ana Helena, trouxe que tipo de emoção ao momento do autógrafo?
Resposta: Para mim, eles representam a presença do amor. Então, estarem ali naquele momento significou tranquilidade, proteção, segurança e abrigo.
28. Ver a primeira tiragem do livro esgotar rapidamente após o lançamento foi uma surpresa ou uma confirmação do poder da mensagem de Van Gogh ressignificada por você?
Resposta: Vi com alegre surpresa que a abordagem afetiva sobre figuras humanas extraordinárias é sempre atraente e até necessária. Tenho certeza de que o ponto de atração do evento foi o nome da estrela de primeira magnitude que brilha nos céus da História da Arte: Vincent van Gogh.
29. Em 31 de outubro de 2025, o livro ganhou uma nova dimensão com a Leitura Dramatizada na Loja Rosacruz, em Icaraí. Como foi ver suas palavras adaptadas para o teatro?
Resposta: Foi algo totalmente novo e
emocionante. Foi como se eu conhecesse o texto sem ser a autora do mesmo. Na
magia do teatro tudo ganha nova roupagem e um misterioso encantamento. A mesma
representação também aconteceu na Fundação e novamente a magia aconteceu.
30. A dramaturgia uniu trechos do livro, cartas a Theo, literatura, teatro e artes visuais. Que novidades emocionais o palco trouxe para a leitura da sua obra?
Resposta: Trouxe revelações, pelos motivos comentados na resposta anterior. O palco é lugar de despertar histórias e dar vida a cenas. E assim aconteceu com a montagem teatral de passagens do livro, na adaptação de Jurandi Siqueira.
31. O ambiente da Loja Rosacruz carrega uma
atmosfera de busca espiritual e reflexão. De que maneira esse local dialogou
com a proposta da noite "Entre cartas, tintas e girassóis"?
Resposta: Não posso responder pela Instituição. Mas, entre os participantes da apresentação e os frequentadores da casa que estavam presentes, tenho a impressão de que houve um diálogo muito harmonioso.
32. Para esse evento, uma nova edição do livro foi impressa. Como é saber que a obra continua viva e gerando novos desdobramentos performáticos?
Resposta: Para um autor, uma nova edição vale como uma resposta a dizer que o trabalho valeu a pena. E isso é bom demais. Quanto aos desdobramentos performáticos, eles são uma boa consequência e, quando se mantêm na intenção e no contexto da obra, são sempre bem-vindos.
33. No grupo de WhatsApp Foculistas, você é reconhecida como "Geógrafa de Almas" e pela generosidade de seus comentários e "recadinhos" afetuosos. Qual a importância do afeto e da partilha diária na construção da cultura?
Resposta: Na construção de tudo na vida, é bom que haja gentileza, caso contrário, a construção desaba. Não só na cultura, como nas coisas comuns do dia a dia, é preciso atitudes afetuosas. Quanto à partilha, ela é como um chamado para o dever. Porque o Bem, quando engavetado, não traz benefício para ninguém. Afinal, o egoísmo é algo a ser vencido para que o coração humano seja de fato humano.
34. Alberto Araújo escreveu sobre você: "Gilda é raiz e é vento. É seiva e é chama". Como você recebe essa homenagem e esse reconhecimento dos seus pares?
Resposta: Há generosidade e poesia em tais palavras, então as recebo como um presente precioso e bondoso pelo qual expresso total Gratidão.
35. Para você, a literatura e a pintura são exercícios estéticos ou modos essenciais de estar no mundo com mais humanidade?
Resposta: Vejo-as como atividades e serviços essenciais à vida. Sendo estéticas, podem e devem também ser éticas. Havendo compromisso e entendimento nesse sentido, tanto a pintura como a literatura são agentes da maior importância para se estar no mundo com mais humanidade.
36. Van Gogh vendeu apenas um quadro em vida e enfrentou muita incompreensão. O que a história dele ensina aos artistas e escritores contemporâneos que lutam por espaço?
Resposta: Ensina que o valor de uma pessoa nem sempre está ligado ao sucesso imediato. Ensina a não desistir. O que se passou com Van Gogh é fortemente injusto, mas acontece. Muita coisa depende de nós, mas nem tudo. Vários fatores contribuem para vitórias e fracassos; desconhecemos as circunstâncias que envolvem as pessoas com suas histórias e bagagens. Então, o melhor é ouvir e cantar músicas como "Tocando em Frente" e "Segura na Mão de Deus, e vai". E, de fato, tocar em frente com esperança e fé.
37. Voltando ao passado: Se você pudesse entregar fisicamente sua "Carta a Vincent" nas mãos dele em Arles ou Saint-Rémy, o que diria a ele olhando em seus olhos?
Resposta: Talvez dissesse: "Você não me conhece, mas, quando puder, peço que leia esta carta. É uma mensagem de reconhecimento por você ter trazido tantas cores à Arte. Posso afirmar que a História da Arte seria bem menos apaixonante se nela faltasse você. Por sua vida doada à Beleza, receba a minha Admiração e Gratidão. Que a Paz e o Amor o envolvam."
38. Como você avalia o cenário cultural atual de Niterói e o papel de portais como o Focus Portal Cultural na difusão da arte local?
Resposta: A cidade tem uma grande vocação cultural impregnando sua atmosfera. Quanto ao Focus Portal Cultural, ele é um belo agente neste processo e contribui para a divulgação e avivamento das manifestações culturais. A cidade e os participantes da sua vida cultural agradecem e, ao Focus Portal Cultural, desejam vida longa.
39. Após viajar pelo universo de Van Gogh e publicar 19 obras, quais são os próximos cenários, temas ou projetos que estão germinando na sua mente?
Resposta: Por enquanto, posso dizer que tem dois livros chegando. Se Deus quiser, para antes do fim do ano.
40. Para encerrar: que conselho ou mensagem de esperança Gilda Uzeda deixa para os leitores que buscam encontrar beleza e sentido em meio às dores da vida?
Resposta: Não seria um conselho, apenas uma breve mensagem para dizer que o lado espiritual permeia a existência, então não convém deixá-lo de lado como algo irreal, abstrato e distante. Acrescentaria que a falta de bondade e de gentileza leva a conflitos e aumenta as dores da vida. Lembraria da frase que ensina que a vida nos chama ao cuidado diante dos sentimentos, ao dizer que "O Sentimento prevalece sobre o Intelecto" (M. Morya / H. Roerich no livro Coração, Série Agni Yoga). Por fim, lembraria que é muito bom saber ouvir e dialogar, porque ninguém é dono da verdade nem mora num pedestal. Então a beleza ganharia melhor sentido e traria mais espaço para a Paz.
Com
emoção e dever cumprido, o Focus
Portal Cultural, pela voz de seu diretor, jornalista e escritor Alberto Araújo, expressa a sua
mais sincera gratidão à proeminente escritora, acadêmica e artista plástica Gilda Uzeda por conceder esta
entrevista memorável.
Ouvir e registrar as palavras de Gilda Uzeda não é apenas
um exercício de jornalismo cultural; é um banquete para a alma e uma aula
magistral sobre como habitar o mundo com poesia, sabedoria e generosidade. Ao
longo de cada resposta, Gilda desvelou a essência de quem faz da literatura e
das artes plásticas um serviço diário à Humanidade. Sua capacidade única de
integrar o rigor da análise geográfica à imensidão do pensamento espiritual nos
lembra que a verdadeira cultura não divide acolhe, sintetiza e ilumina.
Como bem destacou ao longo deste diálogo enriquecedor, a
arte e a literatura só cumprem seu propósito mais elevado quando mantêm os pés
fincados na simplicidade, no afeto e na capacidade de encantar. A forma como
ressignificou a trajetória de Vincent van Gogh, libertando o mestre holandês
dos rótulos simplistas para resgatar sua profunda humanidade, bondade e
sensibilidade, reflete com exatidão o próprio olhar de Gilda sobre a vida: um
olhar que busca incansavelmente a luz, a beleza e a seiva criadora mesmo diante
das complexidades da existência.
Para nós, que acompanhamos de perto sua caminhada e temos
a honra de vivenciar sua presença constante em nossas jornadas culturais,
reiteramos que Gilda é verdadeiramente raiz e vento, seiva e chama. Raiz que sustenta a
tradição literária de Niterói e honra a Academia Niteroiense de Letras; vento
que espalha reflexão e ternura; seiva que nutre os corações sedentos de arte; e
chama que aquece nossos dias com seus recados afetuosos, suas análises
profundas e seu compromisso inabalável com a gentileza.
Reconhecer sua contribuição é celebrar a própria história
da cultura de nossa cidade e do nosso país. Gilda Uzeda nos ensina que o
conhecimento sem amor é estéril, e que a palavra escrita, quando nascida do
sentimento genuíno, tem a força atemporal de atravessar séculos e tocar
corações, assim como os céus estrelados que ela tão criteriosamente contempla e
pinta.
O Focus
Portal Cultural reafirma sua missão de ser morada e palco para vozes dessa
envergadura. Agradecemos imensamente a Gilda Uzeda pela dádiva de suas
reflexões, pela confiança em nosso trabalho e por continuar a nos presentear
com sua obra viva. Desejamos que os próximos frutos literários que já germinam
em seu horizonte venham banhados pela mesma luz e inspiração que sempre a
acompanharam.
Com admiração fraterna, respeito intelectual e a mais
viva gratidão,
© Alberto Araújo
Jornalista,
Escritor e Diretor do Focus Portal Cultural
BIOGRAFIA DE GILDA UZEDA
Gilda Pinheiro Guedes de Uzeda, nascida em Niterói, é
uma destacada escritora, artista plástica e geógrafa brasileira, cuja
trajetória une com sensibilidade a ciência, a literatura e a espiritualidade.
Formada com licenciatura e bacharelado em Geografia pelo Instituto de
Geociências da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde também atuou como professora
docente aposentada, Gilda construiu uma sólida base acadêmica que fundamenta
seu olhar atento e profundo sobre o mundo e a natureza.
Como acadêmica, ocupa com brilho a Cadeira 05 da
Academia Niteroiense de Letras, tendo como patrono o ilustre escritor Euclides
da Cunha, reafirmando o papel da palavra como instrumento transformador. Sua
vasta produção literária conta com dezenove livros publicados, entre eles obras
marcantes como Mundo de Dentro,
Rastros e Palavras, O vento sopra onde quer, Seiva da Terra, O Lampião do Eremita e Alma e Raiz. Seus textos,
costurados por prosa e poesia, exploram temas como a ecologia humana, o
autoconhecimento e a contemplação, estabelecendo uma conexão visceral entre o
ser humano e o meio ambiente.
Além da literatura, Gilda expressa sua genialidade nas
artes plásticas, ilustrando suas próprias publicações e criando releituras
magistrais que dialogam com grandes mestres da história da arte. Um dos
momentos mais emblemáticos de sua carreira recente é o lançamento da obra Carta a Vincent: A Alma e a
Humanidade de um Artista, publicada pela POD Editora em parceria com a
Fundação Cultural Avatar. O livro propõe um mergulho inovador na mente de
Vincent van Gogh, dividido entre um perfil biográfico sensível e uma carta
imaginária e poética endereçada ao pintor holandês, acompanhada por releituras
visuais exclusivas criadas por Gilda. A obra gerou grande repercussão cultural,
desdobrando-se em palestras magnas e leituras dramatizadas de grande sucesso em
espaços culturais de Niterói.
Reconhecida por sua erudição, generosidade intelectual e profunda delicadeza humana, Gilda Uzeda é uma presença viva e inspiradora no cenário cultural fluminense. Sua vida e obra configuram um verdadeiro manifesto poético, lembrando-nos constantemente de que a arte e a literatura exercem papéis vitais na ampliação da nossa humanidade.
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