sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A POÉTICA DO INÉDITO - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Existe uma beleza indescritível guardada nas esquinas que nunca dobramos, nos livros que continuam intocados na estante à espera de uma tarde chuvosa e nos abraços que ainda habitam o campo das intenções. Carlos Drummond de Andrade, com aquela precisão cirúrgica de quem entendia a alma humana como ninguém, sabia que o tempo não perdoa a inércia, mas também nos legou uma verdade consoladora: o futuro está repleto de vazios férteis, prontos para serem semeados. Sentir falta do que não vivemos não precisa ser um exercício de melancolia cinzenta; pode ser, antes de tudo, a mais pura celebração da esperança. 

Pense nisso como um mapa do tesouro que se expande a cada passo que você dá. Se a vida fosse apenas a repetição exata do que planejamos, perderíamos o encanto soberano do imprevisto. As melhores memórias da nossa existência são, muitas vezes, aquelas que nem sequer sabíamos que estábamos colecionando. Aquele café tomado numa cidade estranha porque o trem atrasou, a conversa despretensiosa com um desconhecido na fila da padaria que mudou o seu dia, ou a decisão impulsiva de mudar a rota para ver o pôr do sol do outro lado da baía. São fragmentos de um universo paralelo de possibilidades que escolhemos habitar. 

Mas o que dizer daquilo que ainda está por vir? O que dizer daquelas versões de nós mesmos que ainda não tiveram tempo de nascer? 

A nostalgia preventiva, longe de ser um peso, funciona como um convite à audácia. Ela nos lembra de que a nossa capacidade de amar, de nos espantar e de nos encantar é inesgotável. Cada amanhecer traz consigo uma nova safra de experiências que, se não forem vividas agora, permanecerão como promessas sussurradas pelo vento. É reconfortante saber que a nossa história não está pronta, engessada ou terminada. Há sempre uma página em branco nos esperando, exigindo apenas a coragem da nossa tinta. 

Portanto, em vez de lamentar as rotas alternativas que ficaram para trás, que tal olharmos para o horizonte com a curiosidade de uma criança? A vida não economiza espetáculos para quem se dispõe a prestar atenção. O mundo está cheio de músicas que ainda não ouvimos, de sabores que vão nos surpreender na primeira garfada e de sorrisos que ainda vão iluminar dias que hoje parecem cinzentos.

Sinta falta, sim. Sinta aquela coceira boa na alma que pede movimento, que deseja o mundo, que quer desbravar o desconhecido. Deixe que essa saudade antecipada seja o motor que te empurra para fora da zona de conforto, que te faz dizer "sim" para um convite inesperado ou que te encoraja a começar aquele projeto que você tanto adiou. O porvir é um oceano imenso e a sua embarcação é forte. Navegue sem medo do que ainda não viu, porque o melhor da sua história ainda está por ser escrito. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




 

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