terça-feira, 22 de setembro de 2026

O DESPERTAR DA VARANDA: A PRIMAVERA QUE CHEGA AO TERCEIRO ANDAR - CRÔNICA © ALBERTO ARAÚJO

 

Há na arquitetura do tempo certas fronteiras invisíveis que nos interpelam sobre a efemeridade e a insistência do ser. O equinócio não é mera cifra astronômica ou dado de calendário; é o exato ponto de inflexão em que o cosmos redimensiona a luz e a sombra, suspendendo o mundo por um breve instante de balanço ontológico. Hoje, dia 22 de setembro, às 21h05min, a estação mais colorida do ano cruza oficialmente esse limiar temporal. Mas aqui do alto do meu terceiro andar em Icaraí, a promessa da primavera recusa a subordinação ao relógio. Ela se antecipa como uma intuição metafísica, anunciando-se na consistência morna do ar, na modulação oblíqua da luz sobre a alvenaria e, sobretudo, nessa persistência irredutível da physis que teima em brotar, desafiando a lógica estéril do asfalto e do concreto.

 

Mirando a rua lá embaixo, a perspectiva se transfigura em cartografia urbana e existencial. Icaraí pulsa com seu ritmo sincopado, uma sinfonia metropolitana embalada pelo trânsito da Ary Parreiras e da Avenida Alberto Francisco Torres, pontuada pelo murmúrio atemporal das ondas que lambem a orla. Contudo, contemplada desta altura intermediária, a calçada redime-se em poesia. Os ipês e as amendoeiras que estruturam o relevo do bairro ensaiam uma coreografia silenciosa, preparando suas copas para a eclosão cromática que converterá o cinismo do cinza em texturas impressionistas de amarelo, roxo e rosa.

 

A primavera que se instaura nesta noite transcende o fito puramente estacional; constitui-se como um imperativo categórico à alegria. Se o inverno atua como força centrípeta, encolhendo os corpos, amortecendo os passos e sepultando os sorrisos sob a rigidez dos casacos e o sopro gélido do oceano, a primavera opera como abertura irrestrita. Foi esse chamamento que me compeliu a escancarei a varanda. Deixei que a brisa vespertina invadisse o espaço trazendo consigo o hibridismo olfativo da terra úmida e da maresia visceral de Niterói.

 

Olhando para o jardim da Shirley na varanda, contemplo o milagre cotidiano em sua manifestação mais sincera. Ali, o vaso de primavera, a bougainville que parecia adormecida em seu silêncio invernal, ostenta agora suas primeiras brácteas vibrantes, quais estandartes coloridos a saudar a festa iminente. A natureza desconhece a pressa, mas jamais abdica de seu desígnio. Ela nos legado a mais bela lição filosófica: por mais rigoroso, austero e aparentemente infindável que tenha sido o inverno, seja ele climático ou existencial, subsiste em nós uma força interior irredutível que nos impele inexoravelmente ao recomeço.

 

Festejar a primavera a partir do terceiro andar é exercitar uma fenomenologia da esperança. É reconhecer que, mesmo sob o império da técnica, dos prédios espelhados e da urgência contemporânea, a beleza nos intercepta à revelia. Basta o refinamento do olhar para flagrar a renovação nos interstícios do real: no sobressalto límpido do canto dos bem-te-vis ao alvorecer, na cadência cromática das vestes de quem caminha apressado no plano térreo, na respiração que subitamente se desata e se faz leve.

 

Quando o relógio marcar 21h05min e o equinócio se consumar no zênite, farei um brinde silencioso ao alto, ao asfalto e a este mirante particular. Que venha a estação das flores, da dilatação dos dias, da porosidade dos afetos e da alegria irrefreável. O concreto ao redor impõe sua dureza, mas a vida,  ah, a vida, persiste em sua insubstituível teimosia de florir.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural





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