Há na
arquitetura do tempo certas fronteiras invisíveis que nos interpelam sobre a
efemeridade e a insistência do ser. O equinócio não é mera cifra astronômica ou
dado de calendário; é o exato ponto de inflexão em que o cosmos redimensiona a
luz e a sombra, suspendendo o mundo por um breve instante de balanço
ontológico. Hoje, dia 22 de setembro, às 21h05min, a estação mais colorida do
ano cruza oficialmente esse limiar temporal. Mas aqui do alto do meu terceiro
andar em Icaraí, a promessa da primavera recusa a subordinação ao relógio. Ela
se antecipa como uma intuição metafísica, anunciando-se na consistência morna
do ar, na modulação oblíqua da luz sobre a alvenaria e, sobretudo, nessa
persistência irredutível da physis que teima em brotar, desafiando a lógica
estéril do asfalto e do concreto.
Mirando a
rua lá embaixo, a perspectiva se transfigura em cartografia urbana e
existencial. Icaraí pulsa com seu ritmo sincopado, uma sinfonia metropolitana
embalada pelo trânsito da Ary Parreiras e da Avenida Alberto Francisco Torres,
pontuada pelo murmúrio atemporal das ondas que lambem a orla. Contudo,
contemplada desta altura intermediária, a calçada redime-se em poesia. Os ipês
e as amendoeiras que estruturam o relevo do bairro ensaiam uma coreografia silenciosa,
preparando suas copas para a eclosão cromática que converterá o cinismo do
cinza em texturas impressionistas de amarelo, roxo e rosa.
A primavera
que se instaura nesta noite transcende o fito puramente estacional;
constitui-se como um imperativo categórico à alegria. Se o inverno atua como
força centrípeta, encolhendo os corpos, amortecendo os passos e sepultando os
sorrisos sob a rigidez dos casacos e o sopro gélido do oceano, a primavera
opera como abertura irrestrita. Foi esse chamamento que me compeliu a
escancarei a varanda. Deixei que a brisa vespertina invadisse o espaço trazendo
consigo o hibridismo olfativo da terra úmida e da maresia visceral de Niterói.
Olhando para
o jardim da Shirley na varanda, contemplo o milagre cotidiano em sua manifestação
mais sincera. Ali, o vaso de primavera, a bougainville que parecia adormecida
em seu silêncio invernal, ostenta agora suas primeiras brácteas vibrantes,
quais estandartes coloridos a saudar a festa iminente. A natureza desconhece a
pressa, mas jamais abdica de seu desígnio. Ela nos legado a mais bela lição
filosófica: por mais rigoroso, austero e aparentemente infindável que tenha
sido o inverno, seja ele climático ou existencial, subsiste em nós uma força
interior irredutível que nos impele inexoravelmente ao recomeço.
Festejar a
primavera a partir do terceiro andar é exercitar uma fenomenologia da
esperança. É reconhecer que, mesmo sob o império da técnica, dos prédios
espelhados e da urgência contemporânea, a beleza nos intercepta à revelia. Basta
o refinamento do olhar para flagrar a renovação nos interstícios do real: no
sobressalto límpido do canto dos bem-te-vis ao alvorecer, na cadência cromática
das vestes de quem caminha apressado no plano térreo, na respiração que
subitamente se desata e se faz leve.
Quando o
relógio marcar 21h05min e o equinócio se consumar no zênite, farei um brinde
silencioso ao alto, ao asfalto e a este mirante particular. Que venha a estação
das flores, da dilatação dos dias, da porosidade dos afetos e da alegria irrefreável.
O concreto ao redor impõe sua dureza, mas a vida, ah, a vida, persiste em sua insubstituível
teimosia de florir.
© Alberto
Araújo
Focus Portal Cultural


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