Certas delicadezas só o afeto e a convivência intelectual sabem lapidar. Quando a estimada confreira Liane Arêas desembarca de Portugal e me traz em mãos a 86ª edição do Almanaque Bertrand, 2026-2027, o tempo parece desacelerar para dar lugar à gratidão. Esta já é a quarta vez que a querida amiga, com seu bom gosto ímpar e sensibilidade de sempre, me presenteia com essa preciosa publicação lusitana. Que presentão! Há gestos que não apenas agradam, mas verdadeiramente adocicam a vida, alimentam a memória e renovam nosso amor pelas artes e pela cultura.
O Almanaque Bertrand é muito mais do que um anuário; é um fragmento vivo e pulsante da história da Livraria Bertrand, o secular templo das letras no Chiado, em Lisboa, reconhecido como a livraria mais antiga do mundo em funcionamento contínuo. Nascida na primeira metade do século XVIII pelas mãos dos irmãos Bertrand, a casa editorial transformou o seu almanaque em uma verdadeira tradição bibliográfica.
Editado anualmente entre 1899, na histórica tiragem lançada para o ano de 1900 e 1970, edição de 1971, foram 72 volumes marcantes antes de um hiato de quatro décadas.
Em 2011, para júbilo dos bibliófilos, a publicação renasceu, firmando-se definitivamente como objeto de culto, memória e afetividade.
Esta edição de 2026-2027 traz uma densidade histórica especial ao celebrar meio século da Constituição Portuguesa sob o mote "À prova do tempo". Revestido por uma capa impactante assinada pelo mestre André Carrilho, o volume combina a profundidade dos ensaios de Maria Inácia Rezola, sobre os bastidores da construção da Carta Magna lusa e de Patrícia Reis, que reflete sobre a inestimável liberdade de escrever conquistada após o 25 de Abril, com a verve sutil das letras contemporâneas.
Entretanto, o grande encanto do Almanaque Bertrand reside justamente na sua forma única de mesclar erudição e leveza. Percorrer suas páginas é fazer um passeio interior por efemérides literárias, fases da Lua, estações do ano, mapas de fusos horários, poemas, contos, crônicas, caricaturas e adivinhações que desafiam a argúcia do leitor com cálculos e interpretações refinadas, uma tradição centenária que atravessa gerações sem perder o viço.
Ter ao alcance do olhar e do manuseio esse pedaço da memória lusa, trazido pelas mãos generosas de Liane Arêas, é um privilégio que aquece o coração. O Almanaque Bertrand nos lembra de que a vida se torna infinitamente mais saborosa quando celebrada entre páginas bem escritas e amizades que sabem presentear com o que há de mais nobre: a cultura e o afeto. Obrigado!
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural




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