quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A RECITAÇÃO DO ROSÁRIO - AUTORA ADÉLIA PRADO ANÁLISE E REFLEXÃO SOBRE O POEMA POR ALBERTO ARAÚJO


"Estou tão velha, corte-me as unhas.

Estou tão velha, escove-me os dentes.

Cubra-me, temo estar despida.

Cansada já, aos quinze minutos do segundo mistério,

cochila e deixa cair o terço

que reza pra que eu nasça forte

e vire uma santa de peso.

Ô mãe, mãezinha, minha querida,

santa é a senhora,

que não tem culpa de nada.

Os fetos já sabem tudo."

O vídeo traz uma interpretação tocante e intimista de Adélia Prado lendo o poema "A recitação do rosário", presente no seu livro O Jardim das Oliveiras. 

TEMAS PRINCIPAIS:

A Velhice e a Vulnerabilidade:

O poema inicia exposto à fragilidade do corpo que envelhece. Pedidos simples do cotidiano, corte-me as unhas, escove-me os dentes, cubra-me, revelam a dependência física e o pudor inocente da velhice, marcada pelo receio da exposição "temo estar despida". 

O Devoto e a Maternidade: 

A cena da mãe que dorme rezando o terço retrata o amor maternal incondicional e a perseverança espiritual, mesmo diante do cansaço físico. A mãe reza pela força e pela virtude da filha "que reza pra que eu nasça forte e vire uma santa de peso", demonstrando a entrega que atravessa gerações. 

A Desmistificação e o Amor Filial: 

A poetisa inverte o conceito de santidade. Para ela, a verdadeira "santa" não é uma pessoa distante ou idealizada, mas a própria mãe simples e imperfeita, que não tem culpa de nada. É um ato de carinho e perdão existencial.

A Intuição Primordial: 

A frase final: "Os fetos já sabem tudo", introduz uma dimensão mística e poética profunda. Sugere que a compreensão da vida, dos laços afetivos e da finitude já habita a consciência do ser humano antes mesmo de nascer, unindo o início e o fim da existência no mesmo mistério. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




 

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