"Estou tão velha, corte-me as
unhas.
Estou tão velha, escove-me os dentes.
Cubra-me, temo estar despida.
Cansada já, aos quinze minutos do
segundo mistério,
cochila e deixa cair o terço
que reza pra que eu nasça forte
e vire uma santa de peso.
Ô mãe, mãezinha, minha querida,
santa é a senhora,
que não tem culpa de nada.
Os fetos já sabem tudo."
O vídeo traz uma interpretação tocante e intimista de Adélia Prado lendo o poema "A recitação do rosário", presente no seu livro O Jardim das Oliveiras.
TEMAS PRINCIPAIS:
A Velhice e a Vulnerabilidade:
O poema inicia exposto à fragilidade do corpo que envelhece. Pedidos simples do cotidiano, corte-me as unhas, escove-me os dentes, cubra-me, revelam a dependência física e o pudor inocente da velhice, marcada pelo receio da exposição "temo estar despida".
O Devoto e a Maternidade:
A cena da mãe que dorme rezando o terço retrata o amor maternal incondicional e a perseverança espiritual, mesmo diante do cansaço físico. A mãe reza pela força e pela virtude da filha "que reza pra que eu nasça forte e vire uma santa de peso", demonstrando a entrega que atravessa gerações.
A Desmistificação e o Amor Filial:
A poetisa inverte o conceito de santidade. Para ela, a verdadeira "santa" não é uma pessoa distante ou idealizada, mas a própria mãe simples e imperfeita, que não tem culpa de nada. É um ato de carinho e perdão existencial.
A Intuição Primordial:
A frase final: "Os fetos já sabem tudo", introduz uma dimensão mística e poética profunda. Sugere que a compreensão da vida, dos laços afetivos e da finitude já habita a consciência do ser humano antes mesmo de nascer, unindo o início e o fim da existência no mesmo mistério.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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