terça-feira, 29 de setembro de 2026

29 DE SETEMBRO DE 2026 MARCAMOS OS 118 ANOS DO ENCANTAMENTO DE MACHADO DE ASSIS - EFEMÉRIDES FOCUS PORTAL CULTURAL

"A vida é um dez por cento de o que fazemos, e noventa por cento de como a interpretamos." — Machado de Assis 

Era madrugada de 29 de setembro de 1908. Na modesta casa de número 18 da Rua do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, o relógio parecia hesitar em avançar as horas. Quando ponteiros e destinos se alinharam pouco depois das três da manhã, Joaquim Maria Machado de Assis fechou pela última vez os seus olhos argutos. O homem mulato, humilde de berço, autodidata tenaz e gênio colossal, despedia-se da matéria para iniciar a sua imortal travessia. Não morria apenas o fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras; silenciava-se a voz mais lúcida, irônica e profunda da alma brasileira. 

Hoje, ao completarmos exatos 118 anos deste "encantamento", termo poético que prefere a magia da permanência à frieza do fim, o Focus Portal Cultural reverencia Machado de Assis não como uma estátua de mármore soturna, mas como uma força viva que continua a nos espreitar por entre as páginas de nossos próprios dilemas. 

A trajetória de Machado desafiava as probabilidades de sua época. Nascido em 1839, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira açoriana, neto de escravizados libertos, ele cresceu nos morros cariocas enfrentando a gagueira, a epilepsia e as barreiras intransponíveis de um Brasil imperial profundamente desigual e escravocrata. Contudo, amparado por uma curiosidade devoradora e por um talento literário indomável, venceu o destino que lhe impunham. Tipógrafo, revisor, jornalista, funcionário público e, sobretudo, escritor total dominando o conto, o romance, a poesia e a crônica, Machado construiu uma obra que esculpiu os fundamentos da nossa modernidade estética e psicológica. 

Com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1881, ele implodiu o romantismo piegas e inaugurou o Realismo no Brasil. Ali nascia um narrador liberto até mesmo das convenções da vida: um defunto-autor que, do repouso do túmulo, decidia esmiuçar sem piedade as hipocrisias da sociedade decaída. Mais tarde, com Dom Casmurro (1899), Quincas Borba, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, Machado converteu-se no mais implacável cirurgião do coração humano. 

Em especial, a ambiguidade vertiginosa de Dom Casmurro permanece como um dos maiores enigmas da literatura universal. Pela voz de Bento Santiago  o Casmurro amargurado que reconstrói a própria história na velhice, Machado nos convida a entrar em um labirinto onde a verdade jamais se deixa alcançar por inteiro. A célebre e lancinante pergunta sobre os olhos de Capitu "olhos de ressaca... de cigana oblíqua e dissimulada" não é apenas o eco do tormento de um marido obcecado; é um espelho afiado apontado para todos nós, que frequentemente julgamos o mundo a partir de nossas próprias inseguranças. O Bruxo do Cosme Velho não escreveu um livro sobre a culpa ou a inocência de uma mulher; ele escreveu um tratado definitivo sobre a impossibilidade de conhecermos plenamente o outro. Entre seminários, ruas do Rio antigo, a Capela de Santa Luzia e a lembrança luminosa dos tempos de defunto na Rua de Matacavalos, Machado ergueu um monumento à incerteza. 

Suas tramas não precisavam de grandes eventos históricos; bastavam-lhe a sala de visitas, o olhar trocado de soslaio, a ambiguidade de uma Capitu ou o peso sufocante de uma classe dominante obcecada por aparências. Ele nos ensinou que a grande tragédia do homem contemporâneo reside nos pequenos egoísmos cotidianos. 

Quando partiu em 1908, o Rio de Janeiro parou. Intelectuais, poetas e o povo anônimo marcaram presença no velório realizado na Academia Brasileira de Letras. Ali, na voz vibrante de Rui Barbosa, o Brasil percebeu a magnitude da perda: "Era em sua alma um vaso de amenidade e melancolia". No entanto, o tempo tratou de provar que a genialidade machadiana não cabia nos limites do túmulo ou nas atas acadêmicas. O tempo multiplicou seus leitores, traduziu suas obras para dezenas de idiomas e transformou o seu legado em espelho indispensável para compreender quem fomos, quem somos e quem talvez temamos ser. 

Marcar os 118 anos do encantamento de Machado de Assis no Focus Portal Cultural é um ato de resistência da palavra e da inteligência. É reconhecer que, em tempos ruidosos e polarizados, a ironia fina, a dúvida metódica, a compaixão discreta e o rigor estilístico do Machado permanecem como holofotes indispensáveis. Machado continua vivo porque suas indagações sobre a alma humana continuam abertas.

Que quem releu um capítulo de suas obras hoje ou abriu seus contos pela primeira vez redescubra o encanto inexaurível desse gigante. Longa vida à memória e à literatura de Machado de Assis!

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 



 

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