Ela observa o
mundo através de um único olho azul, cortando a névoa caótica que a consome. A íris, um oceano profundo de safira e azul-celeste,
brilha com uma nitidez dolorosa em meio à ruína urbana. Ao seu redor, o rosto de perfeição clássica
desmancha-se sob camadas implacáveis de tempo, cartazes rasgados e tintas
industriais.
Manchas laranjas
explodem como feridas vivas na pele, enquanto jornais amarelecidos e fragmentos
de códigos impressos colam-se à sua essência, sufocando os traços delicados. Seus lábios, tingidos de um tom queimado, carregam
marcas de um cotidiano mecânico, como se a própria cidade a estivesse
reescrevendo.
No
entanto, o olhar permanece intransigente. Ele resiste ao borrão da publicidade, ao barulho do
asfalto e à decomposição das paredes de alvenaria. Ela é a síntese da alma humana na metrópole moderna:
feita de cacos, cores e ruídos, mas teimando em enxergar a beleza que teima em
brotar sob os escombros.
© Alberto Araújo
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