terça-feira, 6 de outubro de 2026

GEOGRAFIA DE CACOS E CORES

Ela observa o mundo através de um único olho azul, cortando a névoa caótica que a consome. A íris, um oceano profundo de safira e azul-celeste, brilha com uma nitidez dolorosa em meio à ruína urbana. Ao seu redor, o rosto de perfeição clássica desmancha-se sob camadas implacáveis de tempo, cartazes rasgados e tintas industriais.

 

Manchas laranjas explodem como feridas vivas na pele, enquanto jornais amarelecidos e fragmentos de códigos impressos colam-se à sua essência, sufocando os traços delicados. Seus lábios, tingidos de um tom queimado, carregam marcas de um cotidiano mecânico, como se a própria cidade a estivesse reescrevendo.

 

No entanto, o olhar permanece intransigente. Ele resiste ao borrão da publicidade, ao barulho do asfalto e à decomposição das paredes de alvenaria. Ela é a síntese da alma humana na metrópole moderna: feita de cacos, cores e ruídos, mas teimando em enxergar a beleza que teima em brotar sob os escombros.

 

© Alberto Araújo 



 

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