terça-feira, 18 de agosto de 2026

O DESCERRAR DA CORTINA: A ETERNA GLÓRIA DOS PALCOS E DA VIDA

A cena final não traz o som estridente de um choro, mas o silêncio reverente de quem sabe que assistiu à passagem de uma constelação. Há partidas que pesam como uma âncora no peito coletivo, e há aquelas que chegam com a suavidade de um libreto bem encenado, cumprindo o seu destino com a exatidão dos grandes clássicos. Nesta terça-feira, 18 de agosto, a teledramaturgia brasileira recolheu suas vestes mais nobres para aplaudir de pé. Descerra-se a cortina de veludo pesado e, no palco que a consagrou, a luz se concentra em um único ponto, eternizando a figura de Glória Menezes. Não há espaço para o luto definitivo onde houve tanta vida vibrante; o que fica é a herança de uma arte que desafiou o tempo. 

Seis décadas. Pense bem no que cabem em sessenta anos de ofício. Mudanças de épocas, transições da televisão em preto e branco para a alta definição vibrante, a metamorfose do teatro de resistência e a reinvenção constante do cinema nacional. Glória não apenas testemunhou essa travessia: ela foi uma das suas principais arquitetas. Com uma elegância que parecia brotar de sua essência e uma versatilidade capaz de transitar do drama mais visceral à comédia mais sutil com a naturalidade de quem respira, ela emprestou seu rosto, sua voz e sua alma a mulheres que se tornaram parte da biografia de todos nós. 

Impossível falar de Glória Menezes sem revisitar a galeria de retratos inesquecíveis que ela nos presenteou. Como não se lembrar da inesquecível e altiva socialite Laurinha Figueroa em Rainha da Sucata (1990)? Com um olhar que cortava o ar e uma postura impecável, ela deu vida a uma das antagonistas mais fascinantes da nossa história televisiva, unindo fragilidade e soberba em doses cirúrgicas. Laurinha era intensa, complexa, magnética, uma verdadeira aula de atuação entregue com a generosidade de quem dominava a arte do silêncio tanto quanto a força do texto. 

Décadas mais tarde, a mesma entrega apaixonada se fez presente em Totalmente Demais (2015), quando vestiu a pele de Stelinha, a sofisticada e espirituosa mãe do protagonista Arthur. Ali, já dona de uma maturidade artística incomparável, Glória provou que a jovialidade de um artista não reside na idade do corpo, mas na vivacidade do espírito. Stelinha arrancava sorrisos, impunha respeito e esbanjava o charme irrecusável de quem entendia perfeitamente o tom da comédia sofisticada. Entre o drama denso e o humor elegante, foram cerca de 40 trabalhos na televisão que ajudaram a pavimentar o próprio conceito de identidade cultural brasileira. 

E como falar de Glória sem mencionar o outro lado dessa moeda mágica? A sua trajetória confunde-se, de maneira sublime, com a de Tarcísio Meira. Juntos, formaram não apenas um casal na acepção comum da palavra, mas uma verdadeira instituição do afeto e da arte. Dentro e fora das telas, na ficção e na vida real, eles construíram uma parceria que desafiou a efemeridade do mundo moderno. 

Ver os dois em cena era testemunhar uma cumplicidade rara, daquelas em que os olhares diziam mais do que qualquer rubrica de roteiro. Compartilharam palcos, estúdios, aplausos e a intimidade de uma vida inteira dedicada a encantar o público. Quando Tarcísio partiu, parte do Brasil sentiu o eco daquele silêncio. Agora, a reunião se faz completa. Em alguma dimensão onde os textos nunca acabam e os aplausos jamais cessam, o casal mais célebre da nossa cultura volta a contracenar, agora livres das limitações do tempo terreno. É uma imagem reconfortante: o reencontro de duas legendas que escreveram sua história a tinta indelével. 

O Focus Portal Cultural despede-se hoje de um dos maiores pilares da nossa identidade artística, mas o faz com o coração aquecido pela certeza de que a arte de Glória Menezes é imune ao esquecimento. Ela não nos deixa; ela se integra à paisagem afetiva do país. 

Quando ligarmos a televisão e virmos as reapresentações de suas novelas, quando ouvirmos histórias sobre os bastidores dourados da nossa teledramaturgia, ou quando olharmos para novas gerações de atrizes que buscam nela um norte de dignidade profissional, saberemos que Glória continua aqui.

A cortina desce lentamente, o facho de luz do teatro diminui, mas a ovação do público ecoa para sempre. Boa viagem, Glória. Sua cena foi, e sempre será, magistral.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

18 de agosto de 2026, dia do falecimento da atriz Glória Meneses 


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Maria Helena Pereira disse: Querido Amigo Alberto, amei sua despedida da estrela maior da constelação da arte brasileira, até o meu pai, um português, que apenas assinatura, era fã ardorosa da estrela maior. Suas palavras são a coroação final da grande e magnífica estrela que nunca esqueceremos. Hoje no céu tem festa, o reencontro de Tarcisio e Glória, novamente juntos. Deus os abençoe com a reencarnação juntos novamente. Maria Helena.




 

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