Luzilândia sempre foi uma cidade marcada por histórias que se entrelaçam com a vida de seus filhos mais ilustres. Quem nasceu e cresceu ali sabe que cada esquina guarda lembranças, cada praça carrega conversas antigas, e cada rosto traz consigo a memória de um tempo em que a política se confundia com o cotidiano. É nesse cenário que se inscreve a trajetória de Raimundo Nonato Marques, homem simples, mas de presença firme, cuja vida se tornou inseparável da própria história da cidade.
Nascido em Mocambinho, hoje Joca Marques, nome que homenageia seu irmão. Raimundo cresceu entre o trabalho duro da lavoura e a música que embalava os fins de tarde. O cavaquinho que tocava ao lado do pai não era apenas instrumento, mas símbolo de uma alma que sabia transformar esforço em harmonia. Mais tarde, o comércio lhe deu sustento, mas foi na política que encontrou o espaço para servir e liderar.
A política em Luzilândia nunca foi apenas disputa de cargos; era, sobretudo, uma extensão das relações familiares e comunitárias. Raimundo Marques, antes mesmo de se lançar candidato, apoiou o irmão Joca, que se tornou prefeito após longa trajetória como vereador. Esse gesto inicial já mostrava sua vocação: mais do que buscar poder, Raimundo queria construir continuidade, dar voz àqueles que acreditavam na força da união.
Com o tempo, sua própria carreira política se consolidou. Em 1976, eleito pela primeira vez, Raimundo inaugurou um ciclo de mandatos que se estenderia por décadas, sempre intercalados com sucessores que carregavam o mesmo sobrenome ou a mesma confiança. Era como se a cidade tivesse encontrado nele um eixo de estabilidade, alguém capaz de garantir que Luzilândia não se perdesse em meio às turbulências da política estadual e nacional.
O curioso é que, apesar de tantas vitórias, Raimundo nunca deixou de ser o homem simples que caminhava pelas ruas, conversava nas feiras e recebia amigos em sua propriedade rural. Conviver com ele era perceber que a política não o afastava das pessoas; ao contrário, o aproximava ainda mais. Ele sabia ouvir, sabia aconselhar, e tinha uma paciência rara para lidar com os conflitos que surgiam.
Casado com Valmércia, pai de Ramon e Raimundo Filho, Raimundo Marques carregava consigo o orgulho da família. Era comum vê-lo falar dos filhos com brilho nos olhos, como se cada conquista deles fosse também uma vitória da cidade. Essa dimensão humana, muitas vezes esquecida nos relatos oficiais, é o que mais permanece na memória de quem o conheceu.
Mas a história de Raimundo também foi marcada pela tragédia. Em 1997, um crime bárbaro interrompeu sua trajetória. Aos 70 anos, foi assassinado em sua propriedade rural, vítima de um pistoleiro. O episódio abalou profundamente Luzilândia, não apenas pela violência, mas pelo simbolismo: era como se a cidade tivesse perdido não só um prefeito, mas um pai, um vizinho, um amigo. As investigações apontaram para rivalidades políticas, mas, anos depois, o suposto mandante foi absolvido. O crime, embora juridicamente encerrado, permanece como ferida aberta na memória coletiva.
Ainda assim, quando se fala de Raimundo Marques, não é a tragédia que vem primeiro à mente. É sua trajetória de lavrador, músico, comerciante e político. É o homem que ajudou a eleger sucessores, que acreditava na força da família e da comunidade, que caminhava com serenidade pelas ruas de Luzilândia. É o prefeito que, mesmo após sua morte, continua presente nas conversas, nos relatos e nas lembranças.
Luzilândia, com suas praças e suas histórias, guarda Raimundo como parte inseparável de sua identidade. E nós, que convivemos com ele, sabemos que sua vida não se resume a cargos ou mandatos. Raimundo Marques foi, acima de tudo, expressão de uma cidade que se reconhece em seus filhos e que, mesmo diante da dor, encontra força para seguir adiante.
© Alberto Araújo


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