segunda-feira, 31 de agosto de 2026

AS RAÍZES AÇORIANAS E O RESGATE HISTÓRICO DA CERTIDÃO DE NASCIMENTO DA MÃE DE MACHADO DE ASSIS - ENSAIO BIOGRÁFICO E HISTÓRICO DE © ALBERTO ARAÚJO

Falar de Joaquim Maria Machado de Assis é adentrar o coração pulsante da literatura Brasileira - Universal. Autodidata, Culto e Intelectual, filho de um pintor de paredes liberto e de uma lavadeira açoriana. Fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras, superou todas as barreiras sociais, econômicas e estruturais do século XIX, para erguer uma das Obras mais sofisticadas e profundas da História e das Letras.   

Autor de Obras-Primas Imortais: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Quincas Borba e O Alienista, Machado de Assis transpassou os limites de seu tempo. Sua escrita fascinante e investigadora da alma humana, e  suas contradições mais íntimas, desmontou as vaidades e futilidades da Elite Imperial Carioca. Refinou a arte da narrativa da época, com uma elegância e um humor crítico ímpar. 

Contudo, sua presença madura e consagrada - Intelectual, traziam raízes profundas, alicerçadas no afeto, na resistência familiar e na união da presença  feminina  extraordinária,  que moldaram a sua trajetória pessoal e artística. Entre essas personalidades, duas grandes mulheres ocupam papéis sagrados na existência de Machado: sua mãe, a açoriana Maria Leopoldina da Silva e sua esposa, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais.   

A trajetória literária e pessoal de Machado de Assis é inseparável de sua esposa, Carolina Augusta Xavier de Novais. Nascida na cidade do Porto, Portugal, Carolina era uma mulher culta, leitora voraz, de refinada sensibilidade e conhecimento artístico e inteligência vivaz. Quando se conheceram no Rio de Janeiro na década de 1860, apresentados pelo irmão dela, o poeta Faustino Xavier de Novais, a afinidade intelectual e afetiva entre Machado e Carolina foi imediata e avassaladora. 

Casaram-se em 1869, enfrentando velados preconceitos da época devido às diferenças sociais. A união durou 35 anos e constituiu o grande esteio emocional sobre o qual o escritor construiu sua maturidade literária. Carolina não foi apenas a esposa dedicada que cuidava da sua saúde delicada do marido, mas também sua primeira leitora, revisora atenta de seus manuscritos, intelectual e interlocutora  constante.

A atmosfera de paz e a cumplicidade construída ao lado de Carolina,  fortaleceu  Machado de Assis, a escrever suas maiores criações da fase Realista. A morte de Carolina, em 1904, mergulhou o escritor em uma dor profunda da qual jamais se recuperou inteiramente, imortalizado no comovente e doloroso poema "A Carolina", cujos versos guardam a saudade e o reconhecimento eterno à mulher que foi a luz e o  Porto Seguro de sua caminhada. 

Se Carolina representou a plenitude da maturidade e da criação literária, as raízes mais remotas e fundamentais da vida de Machado remontam ao Arquipélago dos Açores, em Portugal. A deslumbrante Ilha de São Miguel que vem a matriz maternal e o sangue lusitano do maior romancista brasileiro. 

Sua mãe, Maria Leopoldina da Silva, também referida em registros como Maria Leopoldina Machado da Câmara, era uma portuguesa açoriana, mulher humilde, de coragem extraordinária, que atravessou o oceano Atlântico em busca de novas oportunidades de vida no Brasil imperial.

No Rio de Janeiro, estabeleceu-se e trabalhou com imensa dignidade como lavadeira na Chácara do Livramento, propriedade pertencente a D. Maria José de Mendonça Carvalho, que viria a ser madrinha de batismo do futuro escritor. 

Maria Leopoldina casou-se com Francisco José de Assis, um pintor de paredes e descendente de escravizados libertos. Dessa união humilde no Morro do Livramento nasceu, em 21 de junho de 1839, o pequeno Joaquim Maria. Lamentavelmente, Maria Leopoldina faleceu precocemente quando Machado era ainda um menino de aproximadamente dez anos, vítima de tuberculose. 

Apesar dessa partida prematura, a presença materna e a herança açoriana sempre constituíram um elo genético, afetivo e histórico fundamental na genealogia de Machado. Durante décadas, contudo, os detalhes cartoriais exatos sobre os registros de nascimento e batismo de Maria Leopoldina na Ilha de São Miguel permaneceram distantes e inacessíveis para os pesquisadores brasileiros, constituindo uma importante lacuna documental na biografia do escritor. 

É exatamente neste ponto que a história ganha um capítulo de resgate cultural memorável e emocionante para a historiografia e para a literatura do Brasil.

No ano de 2018, a dedicada acadêmica, historiadora e pesquisadora Idalina Andrade Gonçalves, movida por seu vínculo afetivo e cultural, impulsionada por um rigoroso compromisso historiográfico, realizou uma viagem determinante à Ilha de São Miguel, nos Açores. 

Durante sua estada na Ilha, Idalina visitou a Presidência, do Governo Regional dos Açores, Palácio de Santana, nos Açores, na época o Presidente era o Dr. Vasco Cordeiro, e manteve diálogo direto com representantes do Governo dos Açores e autoridades de registros locais. Com notável persistência investigativa, rigor e profunda sensibilidade histórica, Idalina Andrade Gonçalves conseguiu localizar, autenticar e obter o documento oficial registrado em Cartório: a Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina, mãe de Machado de Assis.

Tratava-se da Certidão histórica oficial lavrada na Ilha de São Miguel, a prova documental irrefutável e definitiva da origem açoriana da progenitora de Machado de Assis. Aquele documento histórico, preservado ao longo de séculos no meio do Atlântico, continha a precisão cartorial sobre os antepassados maternos do fundador da Academia Brasileira de Letras. 

Consciente da dimensão inestimável de sua descoberta para a memória Cultural do Brasil, Idalina ofereceu a certidão em mãos para a ABL,  instituição encarregada de guardar a memória do  Ilustre Escritor Machado de Assis.

No dia 5 de dezembro de 2018, concretizou-se a emocionante cerimônia de entrega formal desta relíquia histórica, realizada no Gabinete da Presidência da Academia Brasileira de Letras,  no Rio de Janeiro. 

Na ocasião, a ABL, era presidida pelo renomado poeta, ensaísta, tradutor e acadêmico Marco Lucchesi. A solenidade contou com a entrega oficial feita por Idalina Andrade Gonçalves, acompanhada pelo Embaixador Jaime Leitão, simbolizando o laço fraterno, diplomático e cultural que une o Brasil e Portugal, de modo especial a Região Autônoma dos Açores. 

A fotografia histórica registrada naquele dia 5 de dezembro de 2018 eternizou esse ato nobre de preservação patrimonial. Na imagem, a historiadora Idalina Andrade Gonçalves aparece entregando a valiosa Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina, ladeada pelo Presidente da ABL, Marco Lucchesi, pelo Embaixador Jaime Leitão e por testemunhas ilustres desse capítulo marcante para as letras nacionais, como a secretária do Gabinete da ABL, Gisela Araújo.

Atualmente, essa certidão de nascimento original, registrada em cartório na Ilha de São Miguel, encontra-se perfeitamente preservada no acervo da Academia Brasileira de Letras, onde integra o tesouro documental relativo ao Patrono e primeiro Presidente da  ABL. 

A incorporação da Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina ao patrimônio da Academia Brasileira de Letras desdobra-se em múltiplos significados de valor incalculável: O documento elimina dúvidas historiográficas e estabelece com exatidão cartorial a filiação, os nomes dos avós e a freguesia de origem da mãe de Machado de Assis na Ilha de São Miguel. Isso permite aos biógrafos um estudo muito mais denso da raiz materna do escritor. O resgate reafirma os profundos laços históricos e de povoamento entre os Açores e o Brasil. A própria existência de Machado de Assis, fruto da união entre uma açoriana e um brasileiro afrodescendente, simboliza a miscigenação e o encontro das culturas que definem a identidade do Povo Brasileiro. 

Sob a custódia da ABL, o documento junta-se aos manuscritos, edições raras  de Machado, ficando protegido contra a ação do tempo e acessível para a pesquisa acadêmica de futuras gerações. 

A ação abnegada e entusiasmada da historiadora Idalina Andrade Gonçalves evidencia o papel fundamental dos pesquisadores que se dedicam a resgatar e proteger as páginas esquecidas da nossa história. 

Ao contemplarmos a foto de 2018 e a certidão ali apresentada, não vemos apenas um pedaço de papel: contemplamos o registro que conecta o oceano Atlântico ao Morro do Livramento e ao Cosme Velho. É a prova documental de onde brotou a vida da mãe daquele que viria a ser o maior nome da literatura brasileira, eternizando a memória de Maria Leopoldina e o valioso presente de Idalina Andrade Gonçalves à cultura do nosso Brasil. Também, na postagem encontramos a foto do Presidente dos Açores, Dr. Vasco Cordeiro, na entrada do Palácio da Presidência recebendo a acadêmica Idalina. 

SOBRE IDALINA ANDRADE GONÇALVES 

Idalina Andrade Gonçalves é uma historiadora e pesquisadora dedicada cujos trabalhos acadêmicos e investigativos se concentram na preservação da memória e nos vínculos culturais e genealógicos entre o Brasil e Portugal, com especial destaque para a Região Autônoma dos Açores. 

O grande marco de sua trajetória e de sua contribuição para a historiografia literária brasileira ocorreu em 2018. Movida por um profundo rigor investigativo e por seu afeto cultural pelas raízes açorianas, Idalina empreendeu uma viagem determinante à Ilha de São Miguel, nos Açores. Após reuniões com autoridades locais, incluindo o então presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, ela conseguiu localizar, autenticar e obter o documento oficial e inédito: a Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina da Silva, mãe de Machado de Assis. 

Essa descoberta sanou uma lacuna secular na biografia do fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL). Retornando ao Brasil, Idalina fez a doação oficial dessa relíquia cartorial à ABL em uma cerimônia solene realizada em 05 de dezembro de 2018, eternizando seu papel fundamental no resgate da ancestralidade e da memória do maior nome da literatura brasileira.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural


Idalina Andrade Gonçalves ladeada do
Dr.  Vasco Cordeiro - Governo Regional dos Açores - 2018

A historiadora Idalina Andrade Gonçalves entregando a valiosa Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina, ladeada pelo Presidente da ABL, Marco Lucchesi, pelo Embaixador Jaime Leitão e a secretária do Gabinete da ABL, Gisela Araújo. 



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