Dr. Antônio Braga, Pres. do CREMERJ, Dr. J. Camargo, Dr. Maurício Magalhães, Drª Ana Magalhães e a escritora Ana Maria Tourinho e Dr. Euderson Kang Tourinho.
Em um momento crucial para a saúde pública e a formação profissional no país, Porto Alegre transformou-se no epicentro dos debates sobre o futuro da prática médica brasileira. Nos dias 28 e 29 de agosto de 2026, o auditório do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (CREMERS) recebeu o Encontro das Academias de Medicina do Brasil. O evento reuniu expoentes da medicina nacional com uma meta clara e urgente: ultrapassar o mero debate teórico e converter as crescentes preocupações com a formação acadêmica em diretrizes práticas e mandatórias.
Organizado pela Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM) em cooperação com a Academia Nacional de Medicina (ANM), o simpósio demarcou uma postura propositiva. Diante do cenário de proliferação desordenada de faculdades de medicina pelo território nacional, movimento que hoje enfrenta complexas disputas judiciais e questionamentos técnicos quanto à qualidade do ensino, as instituições presentes focaram em estruturar mecanismos de proteção à sociedade e ao exercício da medicina.
A conferência inaugural do encontro trouxe à tona um dos temas mais críticos da rotina médica. Ministrada pelo Presidente da Academia Nacional de Medicina, o acadêmico e psiquiatra Antonio Egídio Nardi, a palestra abordou o tema "Suicídio de médicos: Por que tantos médicos se matam?".
Nardi apresentou estatísticas preocupantes sobre a incidência de distúrbios psíquicos entre acadêmicos e profissionais formados. O impacto da alta competitividade, somado à carga de exaustão extrema, privação de sono e isolamento social, foi apontado como um fator que compromete a integridade dos médicos desde o ingresso na faculdade. O alerta enfatizou a necessidade imediata de reestruturar o ambiente acadêmico, promovendo suporte psicológico e garantindo condições dignas de vida e trabalho durante e após a graduação.
O tom de urgência do evento foi sintetizado nas palavras do Presidente da ASRM, Sérgio de Paula Ramos, médico psiquiatra e psicanalista, reeleito por unanimidade para a presidência da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM) para a gestão de 2026 a 2027.
"Nossa responsabilidade é transformar reflexão em proposta, conhecimento em compromisso e debate em ações concretas".
No segundo dia, as atividades se concentraram em torno do painel interativo “Face ao atual momento do ensino médico, o que a Academia propõe?”. Representantes acadêmicos de diversos estados, entre eles São Paulo, Distrito Federal, Rio Grande do Norte, Bahia, Paraná e Santa Catarina, compartilharam panoramas regionais e discutiram os principais desafios enfrentados na formação médica.
O encontro possibilitou alinhar propostas e estabelecer diretrizes voltadas para a criação de critérios de avaliação mais rigorosos, além de mecanismos de fiscalização que garantam qualidade e responsabilidade no ensino. A troca de experiências entre diferentes regiões reforçou a importância de uma atuação conjunta e integrada, capaz de responder às demandas atuais da educação médica e de projetar caminhos para o futuro da profissão.
Esse momento destacou o papel da
Academia como espaço de reflexão e construção coletiva, reafirmando seu compromisso
com a excelência e a ética na formação de novos profissionais.
Como
resultado dos debates, foi redigida e assinada a Carta
de Porto Alegre, documento público que reúne as
principais diretrizes das academias médicas. O texto será encaminhado diretamente
aos órgãos governamentais e autoridades federais em Brasília, consolidando o
posicionamento institucional diante dos desafios atuais do ensino médico.
A Carta se fundamenta em três eixos centrais de ação: Primeiramente, no âmbito do Exame Nacional Obrigatório, propõe-se a criação de uma avaliação nacional gerida diretamente pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) como pré-requisito para a concessão do registro profissional (CRM), garantindo um nível mínimo de competência técnica e prática antes que o graduado receba autorização para o atendimento de pacientes.
Em segundo lugar, no eixo de Regulação do Ensino, o documento exige critérios rigorosos para a abertura ou expansão de vagas de graduação, incluindo a presença de hospitais de ensino estruturados, leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) suficientes e um corpo docente altamente qualificado, visando conter a expansão irresponsável de cursos sem infraestrutura adequada.
Por fim, no pilar de Interiorização Humana, sugere-se a formulação de políticas públicas estruturadas para a fixação de médicos em regiões periféricas e do interior do país, contemplando carreiras de Estado e incentivos técnicos para distribuir os profissionais de forma equilibrada por todo o território nacional, sem comprometer a qualidade da assistência prestada à população.
A relevância das deliberações em Porto Alegre foi reforçada pela presença de importantes entidades de classe e representações regionais. O evento contou com o suporte do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (SIMERS) e da Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS). A Academia de Medicina do Rio de Janeiro esteve representada pelos acadêmicos Euderson Tourinho e Hilton Koch.
A articulação entre a academia e as
entidades sindicais e associativas reflete um posicionamento coeso da
comunidade médica. O consenso firmado ao término do evento estabelece que a
preservação da qualidade no ensino médico é a principal garantia para a
segurança e a saúde da população brasileira nos próximos anos.
A noite foi marcada por elegância e cultura. A vice-presidente cultural mundial da Rede Sem Fronteiras, Ana Maria Tourinho, esteve presente acompanhada de seu esposo, o médico Dr. Euderson Kang Tourinho, representando a Academia de Medicina do Rio de Janeiro. A presença da elite da medicina brasileira deu ao encontro um caráter distinto e sofisticado, reforçando a relevância do evento.
O ambiente foi enriquecido por música ao vivo: O talentoso baixista interpretava peças de música clássica e até trechos de óperas, criando uma atmosfera refinada que dialogava com o espírito da ocasião. Entre os convidados, destacou-se o Dr. Gilberto Schwartsmann, médico, escritor e colecionador de livros raros, cuja trajetória une ciência e literatura. Que autografou o seu livro: Gilberto Schwartsmann – Monólogo de um certo Fiódor Dostoiévski.
Foi, sem dúvida, uma noite memorável, em que medicina, arte e cultura se entrelaçaram, reafirmando o papel das academias e instituições em promover encontros que unem conhecimento, sensibilidade e tradição.
Créditos das fotos: Compartilhadas gentilmente pela Ana Maria Tourinho
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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