terça-feira, 18 de agosto de 2026

OS 44 ANOS DA ASSOCIAÇÃO NITEROIENSE DE ESCRITORES (ANE) – A GUARDIÃ DA PALAVRA E DO TEMPO


Há quarenta e quatro anos, Niterói não era apenas uma cidade contornada pelo mar e abraçada pela silhueta imponente da Baía de Guanabara; era, e continua sendo, um vasto território de beleza lírica e poética.

Em 14 de agosto de 1982, o auditório da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) transformou-se no epicentro de uma revolução silenciosa, porém indomável. Ali, no coração acadêmico da cidade, reuniram-se sonhadores empunhando não armas, mas versos, crônicas, romances, teses e o inegável anseio de dar guarida institucional à literatura produzida na terra de Arariboia. 

O que começou como um desdobramento espontâneo e audacioso, com o intuito inicial de estruturar uma seção fluminense do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, rapidamente ganhou asas próprias, soberanas e definitivas. A fundação da Associação Niteroiense de Escritores (ANE) não nasceu de gabinetes burocráticos, mas do entrosamento visceral entre mentes brilhantes que compreendiam a urgência de congregar talentos, divulgar obras e projetar os autores locais muito além de suas fronteiras geográficas. 

A lista de pioneiros que assinaram esse pacto com a posteridade é um verdadeiro panteão da cultura fluminense. Nomes como o inesquecível Luis Antônio Pimentel, que testemunhou e eternizou o nascimento da casa, Wanderlino Teixeira Leite Netto, Maria Regina Moura, Neusa Peçanha, Marilena Ribeiro Gomes, Sérgio Cid, Roberto dos Santos Almeida, Angelo Longo, Alaôr Eduardo Scisinio, Ricardo Fonseca de Pinho, Rui Marcenes, Gerson Vasconcelos, Maria Júlia de Aquino, Lucy Proença, Marly Guerra, Wandercy de Carvalho, Jacy Pacheco, Mário Sousa, Salvador Mata e Silva, Antônio Lopes dos Santos, Plínio Muylaert e Divaldo Gomes Ribeiro, o querido Zé Gamela, entre tantos outros, costuraram a rede que sustentaria o futuro literário do município.

Nos primeiros passos, a recém-nascida ANE demonstrou a resiliência típica dos grandes empreendimentos humanos. Sob o comando de diretorias provisórias e, posteriormente, da primeira gestão oficial eleita em 1983, encabeçada por Sérgio Cid, Rui Marcenes, Almanir Grego, Luís Antônio Pimentel e Luis Puccú, a instituição estruturou-se administrativamente, enfrentando os desafios de não ter sede própria com a nobreza de quem ocupa qualquer espaço transformando-o em templo.

Auditórios emprestados, recitais intimistas, exposições de arte e estandes de livros espalhados estrategicamente por pontos da cidade tornaram-se as trincheiras culturais da ANE. Era a literatura fazendo-se carne nas ruas, aproximando o autor do leitor comum, quebrando a falsa barreira de que a alta cultura pertence apenas a torres de marfim. 

Ao longo de quatro décadas e meia, a associação ramificou sua atuação em projetos antológicos que marcaram épocas. Quem não se recorda das icônicas Quintas Literárias e Quintas Requintadas, brilhantemente concebidas pela saudosa presidente Maria Regina Moura entre 1989 e 1993? Ou dos cobiçados concursos literários que revelaram e consagraram talentos através do Prêmio Silvestre Mônaco, do Concurso de Contos José Cândido de Carvalho e do Concurso de Poesias Jacy Pacheco?

A memória da ANE também se materializa nas páginas de suas concorridas Antologias, verdadeiros testamentos impressos que eternizam a poesia, a crônica e a prosa dos associados, com destaque especial para as edições comemorativas dos Jubileus de Pérola, Coral e Esmeralda. A isso se somam a inestimável Agenda Poética ANE (fruto da liderança de Heitor Carvalho Cruz), os tradicionais almoços de aniversário de 14 de agosto, o aconchegante Chá da Primavera em outubro e a solidariedade festiva do Natal do Poeta. 

Uma das maiores belezas da trajetória da ANE é o seu profundo espírito de comunhão. A instituição nunca caminhou isolada; pelo contrário, sempre estendeu as mãos para formar uma verdadeira federação do pensamento em Niterói. Ao longo de sua jornada, caminhou lado a lado com irmãs de cátedra e ofício, como a Academia Fluminense de Letras, a Academia Niteroiense de Letras, o Cenáculo Fluminense de História e Letras, o Instituto Histórico e Geográfico de Niterói, além de espaços fundamentais como o Centro Cultural Maria Sabina, fundado pela inesquecível poetisa e a sua diretora cultural Neide Barros Rêgo e o Parthenon Centro de Arte e Cultura, criação da expressiva artista plástica Veronica Debellian Accetta. 

As Antologias da ANE, concebidas com esmero pelo designer Mauro Carreiro Nolasco, transcendem o papel: são palcos de vivacidade e encontros onde a alma da literatura niteroiense ganha brilho próprio. Cada edição é um mosaico de vozes que celebram nossa identidade. Nesse ecossistema de resistência e beleza, dois pilares históricos merecem ser reverenciados com letras douradas ao celebrarmos estes 44 anos de uma trajetória que, graças a talentos assim, permanece sempre eterna e renovada.

Wanderlino Teixeira Leite Netto ergue-se como um verdadeiro minerador cultural de Niterói. Poeta, romancista e biógrafo de erudição ímpar, ele consagrou os dias a vasculhar e resgatar os tesouros submersos da nossa memória fluminense. Seus livros, como Passeio das Letras na Taba de Arariboia e Dança das Cadeiras, funcionam como enciclopédias sagradas que perpetuam a nossa ancestralidade artística, concedendo-lhe uma honraria imorredoura na ANE. 

E, brilha Leda Mendes Jorge: a alma, o compasso e a doçura que harmonizam o presente e conduzem o futuro da associação. Com sua sensibilidade de artista e líder inigualável, ela transforma cada encontro em poesia viva, mantendo acesa a chama da nossa literatura. 

Falar da ANE contemporânea é, inevitavelmente, curvar-se diante da presença luminosa de sua presidente, a acadêmica Leda Mendes Jorge. Poetisa de sensibilidade rara e musicista de talento consumado, Leda tem sido o baluarte que mantém a instituição viva, vibrante e profundamente acolhedora.

Em sua posse na Academia Fluminense de Letras, o ilustre acadêmico Marcos Almir Madeira sintetizou com precisão cirúrgica a essência da arte de Leda: “Em todas as suas criações, a poesia não traduz apenas estados d'alma porque é poesia de ideias, poesia suavemente marcada pela transparência do pensamento, leve como vestido de gaze. (...) Seus haicais são frações de ideias, ideais e vibrações de um coração rico. (...) Mas a colega é duas vezes artista: põe alma no papel quando espiritualiza as palavras em sua poesia e nas teclas do seu piano, quando o domina aos nossos olhos e nos conquista o coração. Arte sem igual: a alma nas mãos.

É essa mesma "alma nas mãos" que Leda transborda na presidência da ANE. Com uma elegância ímpar, simpatia agregadora e uma capacidade rara de congregar diferentes gerações de escritores, ela conduz a casa literária com o rigor de quem respeita a tradição e a leveza de quem sabe que a poesia precisa respirar livremente. Sob sua liderança, a instituição não apenas sobreviveu às intempéries dos tempos modernos, mas floresceu, abrigando hoje mais de 84 associados que encontram na associação um porto seguro para suas inquietações criativas. 

Chegar aos 44 anos em pleno agosto de 2026 é um triunfo da palavra sobre o esquecimento. Numa época em que o mundo acelera em direção à efemeridade digital, a Associação Niteroiense de Escritores permanece como um oásis onde o tempo desacelera para dar lugar à reflexão, ao debate estético e ao abraço fraterno entre autores veteranos e novos talentos.

Celebramos a ANE. Celebramos os fundadores que ousaram sonhar no auditório da UFF em 1982. Celebramos os poetas que já partiram, mas cujos versos continuam ecoando nas paredes invisíveis da nossa cultura. Celebramos cada associado que hoje empunha sua caneta para defender o valor do livro e da leitura. E celebramos, com profunda reverência e carinho, a presidente Leda Mendes Jorge, cujo sorriso e dedicação incansável continuam a engalanar a nossa história.

Que venham muitos outros capítulos. Que a taba de Arariboia siga renhida de versos, e que a Associação Niteroiense de Escritores continue a ser, por excelência, a guardiã eterna da nossa identidade, da nossa memória e do nosso sonho. Parabéns à ANE! Parabéns a Niterói, berço altaneiro de poetas e eternos criadores de mundos! 

© Alberto Araújo

Jornalista, escritor e Poeta

 





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