O
NAVIO DA AURORA
Poema
de © Alberto Araújo
I
Estamos
em pleno mar... No véu da aurora
Brinca
o sol, flamejante centelha;
E
as ondas após ele correm... cantam,
Como
coros de aves que se espelham.
Estamos
em pleno mar... Do firmamento
Caem
estrelas como pétalas vivas...
O
mar em troca acende suas chamas,
—
Constelações de águas fugitivas.
Estamos
em pleno mar... Dois infinitos
Ali
se abraçam num enlace puro,
Azuis,
dourados, livres, luminosos...
Qual
dos dois é o céu? qual é futuro?
II
Cantai,
marujos! Cantai sem medo,
Que
o vento é harpa, que o mar é verso!
O
brigue avança como sonho aceso,
E
cada vela é página do universo.
Do
Português a saudade ecoa,
Do
Índio a prece se levanta,
Do
Africano a força ressoa,
E
o mundo inteiro canta e canta!
III
Mas
que vejo eu aí... Que quadro sublime!
Não
há correntes, não há ferros, não há crime.
É
canto de esperança! É dança de alegria!
Meu
Deus! meu Deus! que doce poesia!
IV
Era
um sonho radiante... o tombadilho
Que
das lanternas reflete o brilho,
Em
festa a se banhar.
Tinir
de risos... estalar de palmas...
Legiões
de homens livres como almas,
Felizes
a dançar.
Homens
e mulheres, erguendo seus filhos,
Mostram
ao mundo futuros tranquilos,
E
a vida que se refaz.
Outras
moças, de olhos iluminados,
No
turbilhão de abraços libertados,
Cantando
a paz que jaz.
V
Senhor
Deus dos libertados!
Dizei-me
vós, Senhor Deus!
Se
é loucura... se é verdade
Tanta
esperança perante os céus?!
Ó
mar, por que não guardas
Com
a esponja de tuas vagas
Este
canto em teu clarão?
Astros!
noites! tempestades!
Rolai
das imensidades!
Protegei
o sonho, tufão!
VI
Existe
um povo que a bandeira ergue
Para
cobrir justiça e valentia!
E
deixa-a transformar-se nesta festa,
Em
manto puro de alegria!
Meu
Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que
radiante na gávea se anuncia?
Silêncio,
Musa... canta, canta tanto,
Que
o pavilhão se lave no teu canto!
Auriverde
pendão de minha terra,
Que
a brisa do Brasil beija e levanta,
Estandarte
que a luz do sol encerra
E
as promessas divinas da esperança...
Tu
que, da liberdade após a guerra,
Foste
hasteado dos heróis na lança,
Antes
te houvessem roto na batalha,
Que
servires ao mundo como mortalha!
Publicado
em 1869, O Navio Negreiro de Castro Alves consolidou-se como um dos textos mais
emblemáticos da literatura abolicionista brasileira. Sua força retórica e
imagética transformou o poema em símbolo da denúncia contra a escravidão,
inscrevendo o autor como “poeta dos escravos”.
A
versão aqui apresentada não pretende substituir o clássico, mas sim propor uma
releitura poética que dialoga com sua estrutura e grandiosidade formal. Se no
texto original o mar é palco de horror e opressão, nesta recriação o oceano
surge como metáfora de liberdade, esperança e união dos povos.
Trata-se,
portanto, de um exercício de transposição temática: a mesma cadência épica, o
mesmo ritmo de imagens grandiosas, mas em direção a um conteúdo que celebra a
dignidade humana. Essa operação literária inscreve o poema como homenagem
crítica, que reconhece a força histórica de Castro Alves e, ao mesmo tempo,
abre espaço para novas interpretações do mar como símbolo universal.
Assim,
a obra se configura como uma releitura poética e um diálogo literário,
reafirmando que os clássicos não se esgotam em si mesmos, mas inspiram novas
vozes, novos cantos e novas viagens.
Poema
O Navio Negreiro – Castro Alves
I
'Stamos
em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca
o luar — dourada borboleta;
E
as vagas após ele correm... cansam
Como
turba de infantes inquieta.
'Stamos
em pleno mar... Do firmamento
Os
astros saltam como espumas de ouro...
O
mar em troca acende as ardentias,
—
Constelações do líquido tesouro...
'Stamos
em pleno mar... Dois infinitos
Ali
se estreitam num abraço insano,
Azuis,
dourados, plácidos, sublimes...
Qual
dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos
em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao
quente arfar das virações marinhas,
Veleiro
brigue corre à flor dos mares,
Como
roçam na vaga as andorinhas...
Donde
vem? onde vai? Das naus errantes
Quem
sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste
saara os corcéis o pó levantam,
Galopam,
voam, mas não deixam traço.
Bem
feliz quem ali pode nest'hora
Sentir
deste painel a majestade!
Embaixo
— o mar em cima — o firmamento...
E
no mar e no céu — a imensidade!
Oh!
que doce harmonia traz-me a brisa!
Que
música suave ao longe soa!
Meu
Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas
vagas sem fim boiando à toa!
Homens
do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados
pelo sol dos quatro mundos!
Crianças
que a procela acalentara
No
berço destes pélagos profundos!
Esperai!
esperai! deixai que eu beba
Esta
selvagem, livre poesia
Orquestra
— é o mar, que ruge pela proa,
E
o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Por
que foges assim, barco ligeiro?
Por
que foges do pávido poeta?
Oh!
quem me dera acompanhar-te a esteira
Que
semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz!
Albatroz! águia do oceano,
Tu
que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode
as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz!
Albatroz! dá-me estas asas.
II
Que
importa do nauta o berço,
Donde
é filho, qual seu lar?
Ama
a cadência do verso
Que
lhe ensina o velho mar!
Cantai!
que a morte é divina!
Resvala
o brigue à bolina
Como
golfinho veloz.
Presa
ao mastro da mezena
Saudosa
bandeira acena
As
vagas que deixa após.
Do
Espanhol as cantilenas
Requebradas
de langor,
Lembram
as moças morenas,
As
andaluzas em flor!
Da
Itália o filho indolente
Canta
Veneza dormente,
—
Terra de amor e traição,
Ou
do golfo no regaço
Relembra
os versos de Tasso,
Junto
às lavas do vulcão!
O
Inglês — marinheiro frio,
Que
ao nascer no mar se achou,
(Porque
a Inglaterra é um navio,
Que
Deus na Mancha ancorou),
Rijo
entoa pátrias glórias,
Lembrando,
orgulhoso, histórias
De
Nelson e de Aboukir.. .
O
Francês — predestinado —
Canta
os louros do passado
E
os loureiros do porvir!
Os
marinheiros Helenos,
Que
a vaga jônia criou,
Belos
piratas morenos
Do
mar que Ulisses cortou,
Homens
que Fídias talhara,
Vão
cantando em noite clara
Versos
que Homero gemeu ...
Nautas
de todas as plagas,
Vós
sabeis achar nas vagas
As
melodias do céu! ...
III
Desce
do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce
mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como
o teu mergulhar no brigue voador!
Mas
que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É
canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que
cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era
um sonho dantesco... o tombadilho
Que
das luzernas avermelha o brilho.
Em
sangue a se banhar.
Tinir
de ferros... estalar de açoite...
Legiões
de homens negros como a noite,
Horrendos
a dançar...
Negras
mulheres, suspendendo às tetas
Magras
crianças, cujas bocas pretas
Rega
o sangue das mães:
Outras
moças, mas nuas e espantadas,
No
turbilhão de espectros arrastadas,
Em
ânsia e mágoa vãs!
E
ri-se a orquestra irônica, estridente...
E
da ronda fantástica a serpente
Faz
doudas espirais ...
Se
o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se
gritos... o chicote estala.
E
voam mais e mais...
Presa
nos elos de uma só cadeia,
A
multidão faminta cambaleia,
E
chora e dança ali!
Um
de raiva delira, outro enlouquece,
Outro,
que martírios embrutece,
Cantando,
geme e ri!
No
entanto o capitão manda a manobra,
E
após fitando o céu que se desdobra,
Tão
puro sobre o mar,
Diz
do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai
rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os
mais dançar!..."
E
ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E
da ronda fantástica a serpente
Faz
doudas espirais...
Qual
um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos,
ais, maldições, preces ressoam!
E
ri-se Satanás!...
V
Senhor
Deus dos desgraçados!
Dizei-me
vós, Senhor Deus!
Se
é loucura... se é verdade
Tanto
horror perante os céus?!
Ó
mar, por que não apagas
Co'a
esponja de tuas vagas
De
teu manto este borrão?...
Astros!
noites! tempestades!
Rolai
das imensidades!
Varrei
os mares, tufão!
Quem
são estes desgraçados
Que
não encontram em vós
Mais
que o rir calmo da turba
Que
excita a fúria do algoz?
Quem
são? Se a estrela se cala,
Se
a vaga à pressa resvala
Como
um cúmplice fugaz,
Perante
a noite confusa...
Dize-o
tu, severa Musa,
Musa
libérrima, audaz!...
São
os filhos do deserto,
Onde
a terra esposa a luz.
Onde
vive em campo aberto
A
tribo dos homens nus...
São
os guerreiros ousados
Que
com os tigres mosqueados
Combatem
na solidão.
Ontem
simples, fortes, bravos.
Hoje
míseros escravos,
Sem
luz, sem ar, sem razão. . .
São
mulheres desgraçadas,
Como
Agar o foi também.
Que
sedentas, alquebradas,
De
longe... bem longe vêm...
Trazendo
com tíbios passos,
Filhos
e algemas nos braços,
N'alma
— lágrimas e fel...
Como
Agar sofrendo tanto,
Que
nem o leite de pranto
Têm
que dar para Ismael.
Lá
nas areias infindas,
Das
palmeiras no país,
Nasceram
crianças lindas,
Viveram
moças gentis...
Passa
um dia a caravana,
Quando
a virgem na cabana
Cisma
da noite nos véus ...
...
Adeus, ó choça do monte,
...
Adeus, palmeiras da fonte!...
...
Adeus, amores... adeus!...
Depois,
o areal extenso...
Depois,
o oceano de pó.
Depois
no horizonte imenso
Desertos...
desertos só...
E
a fome, o cansaço, a sede...
Ai!
quanto infeliz que cede,
E
cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga
um lugar na cadeia,
Mas
o chacal sobre a areia
Acha
um corpo que roer.
Ontem
a Serra Leoa,
A
guerra, a caça ao leão,
O
sono dormido à toa
Sob
as tendas d'amplidão!
Hoje...
o porão negro, fundo,
Infecto,
apertado, imundo,
Tendo
a peste por jaguar...
E
o sono sempre cortado
Pelo
arranco de um finado,
E
o baque de um corpo ao mar...
Ontem
plena liberdade,
A
vontade por poder...
Hoje...
cúm'lo de maldade,
Nem
são livres p'ra morrer. .
Prende-os
a mesma corrente
—
Férrea, lúgubre serpente —
Nas
roscas da escravidão.
E
assim zombando da morte,
Dança
a lúgubre coorte
Ao
som do açoute... Irrisão!...
Senhor
Deus dos desgraçados!
Dizei-me
vós, Senhor Deus,
Se
eu deliro... ou se é verdade
Tanto
horror perante os céus?!...
Ó
mar, por que não apagas
Co'a
esponja de tuas vagas
Do
teu manto este borrão?
Astros!
noites! tempestades!
Rolai
das imensidades!
Varrei
os mares, tufão! ...
VI
Existe
um povo que a bandeira empresta
P'ra
cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E
deixa-a transformar-se nessa festa
Em
manto impuro de bacante fria!...
Meu
Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que
impudente na gávea tripudia?
Silêncio.
Musa... chora, e chora tanto
Que
o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde
pendão de minha terra,
Que
a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte
que a luz do sol encerra
E
as promessas divinas da esperança...
Tu
que, da liberdade após a guerra,
Foste
hasteado dos heróis na lança
Antes
te houvessem roto na batalha,
Que
servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade
atroz que a mente esmaga!
Extingue
nesta hora o brigue imundo
O
trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como
um íris no pélago profundo!
Mas
é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos,
heróis do Novo Mundo!
Andrada!
arranca esse pendão dos ares!
Colombo!
fecha a porta dos teus mares!
Créditos do vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=3j8XoDSoA-E
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