Entre o sonho da bola e o peso do destino
A obra Eldorado, o mais recente e ambicioso trabalho do quadrinista Marcello Quintanilha, consolida um movimento de aprofundamento estético e narrativo que já vinha se desenhando na trajetória do autor. Publicada no Brasil pela Editora Veneta, a HQ funciona como uma expansão temática e temporal de Luzes de Niterói, retomando um recorte histórico e personagens que orbitam o imaginário afetivo e social do criador.
O resultado é um drama familiar de fôlego, visceral e profundamente enraizado nas contradições da história brasileira entre as décadas de 1950 e 1970.
No centro da narrativa está Hélcio, personagem inspirado no próprio pai de Quintanilha. Dono de um talento nato para o futebol, o jovem nutre o sonho de transformar os gramados em seu futuro. No entanto, a aspiração esbarra na oposição severa de seu pai, Alício, patriarca pragmático e dono de um mercadinho na periferia de Duque de Caxias.
Enquanto o núcleo familiar tenta navegar por essas expectativas frustradas, a estrutura de aparente normalidade desaba quando o irmão mais novo de Hélcio, Luiz Alberto, se envolve em um episódio criminal. A partir daí, o que era um drama de aspirações esportivas converte-se em uma saga de sobrevivência e fatalidade, onde cada reviravolta reverbera no destino de toda a família.
Formalmente, Eldorado aposta em uma cronologia não-linear, fragmentada de propósito, mas conduzida com rigor técnico que mantém o leitor imerso na leitura.
A imersão temporal não depende apenas da trama, mas de um minucioso trabalho de reconstituição cultural:
Linguagem de época: O resgate de
expressões verbais genuínas do período.
Documentação visual: A inserção
orgânica de recortes e reproduções de páginas de jornais antigos.
Contexto macrossocial: Os grandes acontecimentos do país deixam de ser pano de fundo para assumirem um papel ativo, incidindo diretamente sobre as escolhas e tragédias dos personagens.
Na dimensão gráfica, Quintanilha dialoga com o estilo consagrado em Luzes de Niterói, mas subverte expectativas por meio de decisões editoriais específicas. As sequências mantêm o fôlego quase fotográfico e composições de página ousadas, que fogem deliberadamente das convenções tradicionais dos quadrinhos de gênero.
Nota editorial: Enquanto a concepção original do autor previa cores, a edição brasileira optou por um projeto gráfico integralmente em preto e branco. A escolha valoriza o uso expressivo das retículas e confere à obra uma textura visual analógica, acentuando o tom nostálgico e a atmosfera cinematográfica que marcam a narrativa.
Sem recorrer a facilidades dramáticas ou clichês melodramáticos, Marcello Quintanilha entrega em Eldorado uma obra catártica e densa. O quadrinho reafirma a rara habilidade de seu autor em equilibrar complexidade sociopolítica, densidade psicológica e uma leitura arrebatadora, confirmando-o como um dos nomes mais essenciais da nona arte contemporânea.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural








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