Habitar a música é tornar-se parte de sua respiração secreta. Licia Lucas, aclamada como “Dama do Piano”, não se limita a deslizar pelas teclas: ela as transforma em portais para uma tradição que atravessa séculos.
Nascida no interior de São Paulo e consagrada nos palcos mais prestigiosos do mundo, sua presença não é apenas técnica, mas ontológica: cada acorde é uma afirmação de pertença a uma linhagem de mestres que moldaram a história da música clássica ocidental.
Em sua arte, o piano deixa de ser instrumento e se converte em morada. O ouvinte, ao acompanhá-la, não assiste a uma execução, mas participa de uma experiência de revelação, como se a música fosse um território habitado, e Licia sua guardiã.
Ao ouvi-la, é impossível não notar a herança de nomes como Vincenzo Vitale e Homero de Magalhães, ou não recordar a delicadeza espiritual de Guiomar Novaes, com quem Licia é frequentemente comparada pela crítica internacional. Sua trajetória é um mapa geográfico e afetivo que vai do Conservatório de Santa Cecília, em Roma, às históricas salas de concerto de Moscou e São Petersburgo, onde sua arte foi selada com aplausos entusiásticos e medalhas de ouro entregues por lendas como Arturo Benedetti Michelangeli.
Mas a grandeza de Licia Lucas não se encerra no virtuosismo técnico. Quando Presidente da Academia Nacional de Música e defensora da pedagogia musical, ela compreendeu a arte como patrimônio universal e ferramenta de transformação social. No brilho de seu toque, o piano deixa de ser objeto físico para se tornar uma voz, voz que traduz a arquitetura divina de Bach, o lirismo de Chopin e a força brasileira de nossa própria identidade cultural.
Nesta entrevista exclusiva para o Focus Portal Cultural, mergulhamos na mente e no coração desta intérprete extraordinária. Licia nos conduz por uma jornada entre a disciplina vienense, a paixão russa e a eterna busca pela beleza intangível que mora entre uma nota e outra.
A ENTREVISTA
1 - Licia, como foi o seu primeiro despertar para o piano no interior de São Paulo? Foi algo natural pela influência da professora Nayl Cavalcante Lucas em família?
Resposta: Sim, foi algo natural pela influência de
Nayl. A Nayl fez com que eu sentisse na prática o que eu antes só intuía, ou
seja a existência de um universo musical e cultural.
2 - Qual é a sua lembrança mais remota de sentar ao piano e sentir que aquele instrumento seria a sua voz para o mundo?
Resposta: Foi a leitura da Sonata Patética de Beethoven.
3
- Você saiu do interior de São Paulo (Piquete) e veio morar no Rio de Janeiro e
depois em Niterói. Como foi essa transição e de que forma as cidades do Rio de
Janeiro e Niterói influenciaram o início da sua fase profissional?
Resposta: Nesta época com a Nayl senti um mundo
do qual só intuía antes. Paralelamente as aulas com a Nayl estudei no Rio no
Colégio Francês “Sacre Coeur de Marie” em Copacabana e então comecei a
frequentar o Teatro Municipal do Rio e outros Centros Culturais. Minha própria
família amava as artes e a cultura em geral.
4
- O que Niterói representa hoje no seu mapa afetivo e na sua rotina de criação
e estudo?
Resposta: Estou muito ligada à cidade e às suas
instituições culturais, pertenço à Academia Fluminense de Letras, à Academia
Brasileira Rotária de Letras do Estado do Rio de Janeiro (ABROL), ao Cenáculo
Fluminense de história e Letras, ao Elos
Clube de Niterói e ao Rotary Clube de Niterói Norte. Sinto-me muito honrada de
ser membro dessas reconhecidas instituições.
5
- Na Escola Nacional de Música, você estudou com Neida Cavalcante Montarroyos.
O que foi mais marcante nesse período acadêmico no Brasil?
Resposta: As minhas apresentações na Escola
Nacional de Música, entre elas aquelas da Classe de Neyda Montarroyos
apresentando importantes obras completas como os 24 prelúdios de Chopin que
anos mais tarde gravaria no Rio de Janeiro para o Selo L’ART. Também foram marcantes
na Escola Nacional de Música as aulas teóricas e práticas ministradas por
professores de alto nível.
6
- Você foi aluna de Homero de Magalhães, discípulo de Alfred Cortot. Qual é a
principal lição ou “segredo” dessa linhagem que você carrega consigo até hoje
ao tocar?
Resposta: Eu já estava imersa na cultura francesa pelo meu colégio francês de formação no Rio de Janeiro. Foi só necessário traduzi-la para a linguagem musical.
7
- Estudar com Homero trouxe para você o quê de específico da escola francesa?
Resposta: Os franceses cultivam a clareza formal, até os menores detalhes; é uma tarefa fascinante levando-se em conta a importância e a extrema leveza de algumas obras.
8
- Em Roma, no Conservatório de Santa Cecília, você estudou com Vincenzo Vitale.
O que a técnica italiana acrescentou à sua mão pianística?
Resposta: As novidades introduzidas pelo Maestro
Vitale na didática pianística envolvem tanto a concepção musical como o aspecto
técnico, ele é focado na técnica inseparável da interpretação musical. O repertório básico do ensino de Vitale era o
Barroco Italiano e as obras virtuosísticas de Liszt.
Sobre o legato como técnica o próprio Vitale escreveu: “Executar uma passagem melódica em “legato” “cantabile”, com um som belo é também um fato técnico, de uma técnica de aprendizado difícil que os jovens pianistas hoje pedem para aprender já que a consideram indispensável e convencidos como estão de sua necessidade prática e com princípios teóricos bem fundamentados”.
9
- A escola vienense com Seidhofer e Hans Graf é conhecida pelo rigor. Como foi
adaptar sua alma brasileira a essa disciplina austríaca?
Resposta: Pessoalmente tive uma formação musical
muito rigorosa e estudar sempre me pareceu muito interessante e jamais um
esforço. O ensino de Graf e Seidhofer estava focado na interpretação musical.
Neste caso específico tive a grande
ajuda de Homero de Magalhães que depois de sua estadia na França se dedicou a
estudar em Viena por mais alguns anos, inclusive Regência.
Com Hans Graf entre diversas obras estudei também as Variações sobre um Tema de Paganini de Brahms, obra que anos depois viria a tocar e gravar com muita honra na Fazioli Concert Hall, na Itália.
10 - Sua formação une grandes escolas europeias: a italiana de Thalberg e Cesi e a vienense de Hans Graf e de Bruno Seidhofer. Como você consegue equilibrar essas tradições tão distintas na sua identidade como intérprete?
Resposta: Não há tanta contradição quanto poderia
parecer: na Europa sempre houve muito
intercambio entre países e escolas pianísticas; Thalberg por exemplo teve
influencias da técnica pianística italiana de Clementi através de Moscheles,
assim como de Mozart através de Hummel e
Cesi descende da Escola de Thalberg. A Escola Vienese de Hans Graf e de
Bruno Seidhofer descende da Escola de Leschetisky e de Czerny; e Leschetisky
durante 25 anos ensinou em São Petersburgo colaborando com o grande pianista russo Anton Rubinstein
na fundação do Conservatório de São Petersburgo.
É missão do intérprete incorporar na própria personalidade as diferentes escolas, bem como introduzir sua própria experiência.
11 - Sua carreira decolou ao vencer o concurso para solistas da OSB com o Maestro Eleazar de Carvalho. Como era a energia de estrear com Mozart sob a regência dele?
Resposta: Para Mozart o piano é parte de sua vida e de sua identidade artística, tendo escrito 27 concertos para piano e orquestra. Escolhi o Concerto Nº 26 de Mozart “Coroação” no Concurso para Solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira, vencendo o Primeiro Lugar. Então no Teatro Municipal do Rio de Janeiro fui a Solista deste Concerto com a OSB sob a regência do legendário Maestro Eleazar de Carvalho.
PROGRAMA DO CONCERTO COM A ORQUESTRA SINFÔNICA BRASILEIRA – TEATRO MUNCIPAL DO RIO DE JANEIRO – CONCERTO Nº 26 “COROAÇÃO” DE MOZART
Foi muito emocionante para mim, uma adolescente, estar no palco tocando com a melhor orquestra do Brasil na época e com o máximo expoente dos Regentes Brasileiros. O maestro Eleazar de Carvalho me dedicou as seguintes palavras: “À Licia Maria – esperando que o seu sucesso de hoje com a OSB no primeiro Teatro do Brasil – seja o primeiro de uma longa carreira que o seu talento merece.”
12 - No Concurso Viotti na Itália, você foi a mais jovem vencedora e recebeu a Medalha de Ouro das mãos de Arturo Benedetti Michelangeli. O que passou pela sua cabeça naquele momento e como esse prêmio moldou o início da sua carreira internacional?
Resposta: Para o Concurso Viotti de Vercelli me
preparei em Roma, em seguida a um convite do grande pianista italiano Giuseppe
Postiglione, vencedor do 2º Lugar no histórico Primeiro Concurso Internacional
de Piano do Rio de Janeiro em Agosto de 1957. O Juri deste 1º Concurso do Rio de Janeiro esteve
integrado entre outros por Lili Kraus,
Marguerite Long e Guiomar Novaes. Quero prestar aqui uma homenagem a ele, meu
primeiro professor na Itália, o brilhante pianista Giuseppe Postiglione que
conquistou com seu magnetismo e sua deslumbrante técnica ao Júri e ao público
que em 1957 lotou o Teatro Municipal do
Rio de Janeiro.
Voltando a minha participação no Concurso de Vercelli devo dizer que o Presidente do Júri era o excepcional pianista italiano Arturo Benedetti Michelangeli, legenda viva na Itália quem me concedeu a Medalha de Ouro, abrindo portas para minha carreira internacional.
13
- Ele chegou a lhe dar algum conselho ou fazer algum comentário sobre sua
performance?
Resposta: Em
uma época quando havia poucos concursos internacionais de piano, Postiglione
quis que eu participasse do Concurso de Vercelli- o que se demostrou
ser uma escolha acertada. Estudamos o programa durante 1 ano.
No Concurso, Michelangeli manifestou seu interesse pela variedade do meu toque e dinâmica, junto a seus companheiros de Banca.
14
- O jornal Diário Las Américas, de Miami, a chamou de “A Grande Dama do Piano”.
Como você lida com esses títulos que a crítica mundial lhe atribui?
LICIA LUCAS COM A MIAMI SYMPHONY ORCHESTRA
Resposta: Apresentei-me em Miami em 1992 com a
Orquestra Sinfônica de Miami no Teatro Guzman Center for the Permorming Arts, tocando na mesma noite, a Rapsódia sobre
um Tema de Paganini de Rachmaninoff e Noches en los Jardines de España de
Manuel de Falla.
Então, a propósito deste concerto o Jornal Diario Las Americas assim se expressou: “É uma grande Dama do Piano”. Eu naturalmente fico contente pelo reconhecimento ao meu trabalho.
15 - A comparação com Guiomar Novaes é constante. O que você mais admira no legado de Guiomar que tenta manter vivo em suas execuções?
Resposta: Escutei pessoalmente tocar Guiomar no
Teatro Municipal do Rio de Janeiro e o que eu mais admiro na sua forma de tocar
é sua nobreza e sua sinceridade.
16
- Ao ser comparada também a Vladimir Horowitz pela crítica brasileira, como você
enxerga a responsabilidade de manter viva essa “sinceridade gloriosa” na
interpretação clássica nos dias de hoje?
Resposta: O que mais admiro em Horowitz é sua
fantástica técnica ao serviço da música, e da sua essencialidade de execução
com profundo conhecimento musical. O Diário Popular de São Paulo me considerou
na Lista dos Melhores da Música comparando a minha interpretação com a dos
maiores pianistas como Vladimir Horowitz. Uma das minhas metas é manter viva a
rica tradição musical e pianística dos últimos três séculos.
17 - Você já solou em mais de 50 Orquestras Filarmônicas e Sinfônicas pelo mundo. Existe alguma dessas orquestras que a fez sentir algo que nenhuma outra conseguiu?
LICIA LUCAS GRAVANDO NA SALA
GLAZUNOV DE SÃO PETERSBURGO-RÚSSIA
Resposta: Durante o ensaio para a minha gravação do Concerto Nº1 de Tchaikovsky na Sala Glazunov do Conservatório de São Petersburgo da Rússia, com a Filarmónica de São Petersburgo, o Diretor responsável dos músicos da Orquestra, quando no ensaio comecei no piano a tocar os primeiros acordes do concerto, escutei que ele pulava no palco, exclamando: “ Você entendeu! Você entendeu o espírito russo!”
Senti-me reconhecida, porque
a minha concepção era de realizar um concerto de Tchaikovsky “nobre e solene”
conforme concordávamos eu e o Maestro Sladkovsky,o regente da Orquestra.
Anos depois senti a mesma
empatia com a mesma orquestra e seu público durante a minha execução do
Concerto Nº2 de Chopin, com a Filarmônica de São Petersburgo na Grande Sala da
Filarmônica.
18 - Tocar na Sala Tchaikovsky em Moscou é o sonho de qualquer pianista. Como você descreveria o silêncio daquela plateia russa antes de começar a tocar?
LICIA LUCAS NA SALA TCHAIKOVSKY DE MOSCOU
Resposta: Toquei na Sala Tchaikovsky de Moscou com a Filarmônica de Moscou. Esta apresentação assim foi descrita por Natalia Constantinova e Elena Tolstaia da Academia de Ciência da Rússia na Revista America Latina, Editora Ciência, Moscou:
“Na solene Cerimônia de
Inauguração na Sala P.I. Tchaikovsky veio a cena uma encantadora mulher tão
modesta quanto elegante. Logo que seus dedos tocaram os primeiros acordes, a
audiência sentiu que intervinha uma brilhante pianista capaz de competir com os
mais destacados pianistas do mundo. Somente a explosão de aplausos e júbilo
pode devolver o mundo para a realidade do acontecido.”
19
– Você gravou com a Filarmônica de São Petersburgo o Concerto Nº1 de
Tchaikovsky e com a Orquestra da Radio e TV de Moscou a Rapsódia sobre um Tema
de Paganini e o Concerto Nº2 de Rachmaninoff. Como é a sensação de tocar o
repertório russo justamente no coração da tradição pianística russa?
LICIA LUCAS GRAVANDO NA RADIO&TV DE MOSCOU
Resposta: É a sensação da universalidade da Música. É uma especial emoção e um sentimento muito gratificante tocar para um público conhecedor profundo das obras do repertório clássico.
20
- Natalia Constantinova escreveu que seu toque devolveu o Público para a
realidade do acontecido. Você sente que entra em um transe ou outra dimensão
quando está no palco?
Resposta: Entro em uma
grande concentração. O Primeiro violinista da orquestra quando toquei o concerto
Nº3 de Beethoven com a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo disse: “Você
não é somente a Grande Dama do Piano”, mas é também a “Dama de ferro do piano”.
Eu acrescentaria a minha grande concentração durante o concerto como fator de comunicação com cada pessoa do público.
21
- A gravação dos concertos de Tchaikovsky e Grieg em São Petersburgo foi um
marco. Como é gravar com músicos que têm o DNA desses compositores na alma?
Resposta: A gravação dos dois concertos teve um impacto muito grande no Brasil e no exterior, pois tive uma grande acolhida pela crítica especializada, pelo público e pelos músicos.
22
- Você gravou o 2º Concerto de Bartók para a TV Globo no Rio. Como foi a
experiência de levar um repertório tão complexo para a televisão nacional?
Resposta: Fui o primeiro pianista brasileiro a
tocar no Brasil o Concerto Nº 2 de Bartók, considerado de grande dificuldade
técnica. O toquei com a Orquestra Sinfônica Nacional na Sala Cecilia Meireles e
foi gravado também na TV Globo do Rio de Janeiro. O concerto foi apresentado
numerosas vezes na TV Globo, o que me gratificou muito pelo interesse do
público. A experiência de tocar este maravilhoso concerto, considerado um dos
mais difíceis técnicas e musicalmente, representou para mim um marco no meu
desenvolvimento artístico.
23 - Você passou 4 anos como Coordenadora de Música na Nicarágua. O que a motivou a aceitar esse desafio de gestão cultural tão longe de casa?
LICIA LUCAS NO TEATRO
NACIONAL RUBEN DARIO – MANÀGUA, NICARÁGUA.
Resposta: Fui convidada para reestruturar os cursos de piano da Escola Nacional de Música e as atividades em todo o país do Coro e da Orquestra Sinfônica Nacional e consequentemente fui nomeada Coordenadora de Música Clássica do Ministério da Cultura.
24
- Como foi fundar a Academia Nicaraguense de Música e ver o nascimento da
Orquestra Jovem daquele país?
Resposta: Um dos meus sonhos e metas era a criação da Orquestra Sinfônica Jovem e a Academia de Música, o qual se concretizou ainda sob minha orientação muitos anos depois da minha partida da Nicarágua.
25
- Você recebeu a medalha de “Mecenas da Arte” na Nicarágua. Acredita que o
artista tem o dever de ser também um embaixador da cultura?
Resposta: Sim, o artista deve dividir tudo o que entender e sentir musicalmente com as pessoas em volta dele de diferentes formas: público, alunos, etc.
26 - Além de solista, você teve um papel fundamental na estruturação do ensino de música na Nicarágua e no Brasil. Como a experiência de ensinar e coordenar projetos culturais influencia a sua forma de interpretar uma obra no palco?
Resposta: Creio que me faz sentir ainda mais próxima do público com o qual eu tenha convivido em tantas nessas diferentes formas.
27
- Suas palestras e masterclasses passam por diversos países. O que você mais
busca transmitir para um jovem que está começando agora no piano?
Resposta: Realizei palestras e masterclasses sobre o piano em diversos países, além do Brasil nos Estados Unidos, México, América Central, Sul América, Itália, buscando transmitir que se cultive o mais que puder musical e tecnicamente a tradição, sem abrir mão do desenvolvimento de sua voz pessoal.
28
– O L’Osservatore Romano citou sua “inteligência e admirável intuição poética”.
Para você, a música é mais racional/arquitetônica ou mais intuitiva?
Resposta: A Música se desenvolve incessantemente através
do binômio Razão x Emoção. Ambas são importantes num dialogo permanente de
pergunta e resposta.
29
- No contexto das celebrações de Johann Sebastian Bach, como você define a
importância da “arquitetura sonora” dele para o desenvolvimento técnico e
espiritual de um pianista?
LICIA LUCAS GRAVANDO O
CONCERTO DE BACH EM FÁ MENOR COM A ARPEGGIONE KAMMERORCHESTER DA AUSTRIA NA
MIAMI INTERNATIONAL UNIVERSITY
Resposta: Bach se desenvolve com total honestidade musical, jamais escreve uma nota fora desse contexto; com isto, automaticamente o pianista vivencia vários contextos significativos, assim como várias possibilidades de se expressar.
30
- O Diário Popular de São Paulo disse que sua interpretação emparelha com a de
Vladimir Horowitz. Você se sente próxima da estética dele?
Resposta: Sinto-me próxima de sua busca estética dentro de seu próprio perfil.
31
- Seus CDs passam pelo Barroco, Chopin e Bartók. Existe algum compositor ou
obra que você sinta que melhor traduz a sua voz atual no piano?
Resposta: O que sem dúvida mais me fascina na
experiência musical pianística é precisamente a variedade das diferentes obras
nascidas das mais diferentes inspirações e formações.
32
- De todos os seus CDs, do “Il Barocco” ao “Licia Lucas in Russia”, qual deles
você daria para alguém que nunca ouviu seu trabalho para que ela te conhecesse?
Resposta: Daria “Il Barocco” pela importância da
música italiana na formação da música ocidental. Tudo nasce alí.
33-
Como você se sentiu ao gravar e se apresentar na “Fazioli Concert Hall” considerada
hoje em dia como uma das salas de Concerto de maior prestigio da Itália e da
Europa?
LICIA LUCAS NO HALL DA SALA
FAZIOLI COM O PRESIDENTE E FUNDADOR PAOLO FAZIOLI
Resposta: A Sala Fazioli “Fazioli Concert Hall” leva o nome do Engenheiro e pianista italiano Paolo Fazioli, presidente e fundador da famosa fábrica de pianos Fazioli, localizada em Sacile ao norte da Itália a 60km de Veneza. A eterna procura do som ideal para o piano levou ao seu fundador a reunir especialistas em acústica e música e apresentar em 1978 a ideia da construção de um novo piano, fazendo uma reengenharia na arte da construção do piano. A madeira usada na construção do piano tem a mesma origem das madeiras que foram utilizadas na construção dos famosos violinos Stradivarius. Hoje em dia o piano Fazioli é considerado um dos melhores do mundo. No piano Fazioli e na Sala Fazioli gravei e me apresentei com grande sucesso de público e de crítica. No meu recital na Sala Fazioli dois anos depois da minha gravação foram vendidos todos os meus CDs. O meu recital assim foi recebido pela crítica especializada por Valentina Silvestrini: “Para a pianista Licia Lucas os aplausos dos músicos”.
34- Como é a sua rotina de estudo hoje? O piano ainda lhe apresenta mistérios novos todos os dias?
Resposta: Sem dúvida! Decifrar esse intrincado
universo é um enorme prazer.
Eu estudo todos os dias pela manhã. Começo por obras novas e retomo obras de repertório. As vezes escuto minhas gravações ou gravações antológicas, sempre reservando um espaço de tempo para o ócio criativo, para desfrutar diferentes formas do “ócio criativo” tão elogiado pelos italianos.
35
- Você é Membro Titular e foi Presidente da Academia Nacional de Música. Como
você vê o papel das Academias na preservação da memória musical do Brasil?
Resposta: Mais do que preservação da memória vejo
as Academias como atualização para o público e alunos de diferentes aspectos da
atividade musical: entrevistas com novos compositores, professores atuantes e
interpretes.
36 - Você é coautora do livro “A Genealogia do Piano” com Marne Serrano. Como surgiu a ideia de documentar essas linhagens pedagógicas?
Resposta: “Este livro nasce da indagação, se
reforça com a lógica dos fatos, se expande aos leitores em fraternal partilha e
também constitui para mim, uma grande emoção escrever esta obra sobre o
desenvolvimento das Escolas Pianísticas no mundo através dos grandes pianistas
e legendários professores, desde Mozart, Clementi Beethoven, passando por
Czerny, Liszt, Thalberg, Leschetisky, Anton Rubinstein, Chopin até nossos dias.
37
- No livro, vocês mapeiam como o conhecimento passa de mestre para aluno. Como
você se sente sendo um elo vivo dessa corrente que passa por Thalberg, Cesi e
Liszt?
Resposta: Relembro com esta obra, experiências
que venho experimentando em várias oportunidades durante minha vida artística,
revivo pessoas, lugares e fatos, especialmente a Grande Sala da Filarmônica de
São Petersburgo – e a Sala Glazunov do Conservatório “Rimsky Korsakov” (fundado
por Anton Rubinstein em 1862, na mesma cidade de São Petersburgo, Rússia) –
lugares estes repletos de vários personagens deste livro, presenças na Historia
da Música.
38
- Como foi o processo de mapear essas linhagens que conectam os grandes mestres
do passado aos intérpretes de hoje, e o quanto essa consciência histórica mudou
a sua própria forma de tocar?
Resposta: Esta obra segue a Genealogia, a qual permite conhecer as principais correntes de execução e ensino pianísticas desde Mozart, Clementi e Beethoven, até nossos dias. Identificando as principais características de cada escola através de seus líderes e mestres, assim como suas posteriores ramificações no tempo. Na descendência apresentamos os discípulos sobre os quais houve maior influência e que deram continuidade às escolas, apresentando esta descendência mediante árvores com ramificação cronológica.
39
- Neste encontro de gerações e histórias, como você gostaria que o seu nome
fosse lembrado pelos futuros historiadores da música?
Resposta: Neste percurso, nomes familiares de compositores, professores, revisores e intérpretes que parecem talvez flutuar em um vago universo musical adquirem perfis e vão se situar em suas constelações; esperamos que seu legado se torne mais claro e sua herança mais acessível. Gostaria de ser vista hoje e sempre como uma pessoa que ama a música e o piano.
40
- Para encerrar, Licia: se o piano pudesse falar com palavras humanas, o que
você acha que ele diria sobre a sua parceria de uma vida inteira com ele?
Resposta: Eu diria Muito obrigada por sua eterna companhia.
41-
A quem você agradeceria por todos os dons recebidos?
Resposta: Agradeço a Deus tantos dons inenarráveis:
família, amigos, alunos, oportunidades únicas e personalidades excepcionais com
quem eu tenho travado contato. E Obrigada, Alberto, por através desta conversa
me devolver a mim mesma...
**************
Ao percorrer a trajetória de Licia Lucas, o que se revela não é apenas a biografia de uma pianista consagrada, mas o testemunho de uma vida dedicada a transformar o piano em filosofia e memória viva. Desde o primeiro despertar no interior de São Paulo, sob a influência de Nayl Cavalcante Lucas, até os palcos de Moscou, Viena e Roma, sua jornada é marcada por uma busca incessante de clareza, rigor e transcendência. Cada etapa de sua formação, com Homero de Magalhães, Vincenzo Vitale, Hans Graf e Bruno Seidhofer, acrescentou camadas de tradição que ela soube incorporar em sua própria identidade artística, sem jamais perder o vínculo com sua raiz brasileira.
Sua carreira internacional, impulsionada por vitórias como o Concurso Viotti na Itália e pela consagração junto à Orquestra Sinfônica Brasileira sob Eleazar de Carvalho, é também uma narrativa de reconhecimento: de Michelangeli à crítica de Miami, de comparações com Guiomar Novaes e Horowitz às gravações em São Petersburgo, Licia foi constantemente situada entre os grandes nomes da história pianística. Mas o que a distingue não é apenas o virtuosismo técnico, e sim a capacidade de traduzir em som a arquitetura divina de Bach, o lirismo de Chopin e a força cultural do Brasil.
Ao longo de sua vida, Licia não se limitou ao palco. Sua atuação como coordenadora na Nicarágua, fundadora de instituições musicais e presidente da Academia Nacional de Música mostra que ela compreende a arte como patrimônio universal e como ferramenta de transformação social. Para ela, ensinar e estruturar projetos culturais é prolongar o gesto artístico, é ampliar a comunicação com o público e perpetuar tradições que não podem se perder.
Em suas palavras, a música é sempre diálogo entre razão e emoção, entre rigor e intuição. Essa consciência histórica, que ela sistematizou no livro A Genealogia do Piano, reforça sua condição de elo vivo entre mestres do passado e intérpretes do presente. Licia sabe que o intérprete não é mero executor, mas mediador de linhagens, guardião de memórias e criador de novas possibilidades.
Hoje, ao ser chamada de “Grande Dama do Piano” ou “Dama de Ferro”, Licia Lucas responde com humildade e concentração. Para ela, o piano é companheiro eterno, voz que fala por si mesma e que devolve ao público a experiência de beleza intangível. Sua rotina diária de estudo, permeada pelo “ócio criativo” tão caro aos italianos, mostra que mesmo após décadas de carreira, o instrumento ainda lhe apresenta mistérios novos.
Assim, Licia Lucas é mais do que uma intérprete: é uma filósofa da música, uma pedagoga da tradição e uma embaixadora cultural. Sua vida é prova de que o piano pode ser ao mesmo tempo técnica, emoção, memória e transcendência. E é com esse espírito que ela nos recebe nesta conversa, oferecendo não apenas respostas, mas reflexões que nos devolvem a nós mesmos.
CONCLUSÃO
Ao final desta longa conversa, o que se revela é que Licia Lucas não é apenas uma intérprete consagrada, mas uma pensadora da música, alguém que transformou o piano em filosofia e memória viva. Sua trajetória, iniciada no interior de São Paulo sob a influência de Nayl Cavalcante Lucas, percorreu os palcos mais prestigiosos do mundo sem jamais perder o vínculo afetivo com suas origens. Cada etapa de sua formação, da clareza francesa de Homero de Magalhães à técnica italiana de Vincenzo Vitale, passando pelo rigor vienense de Hans Graf e Bruno Seidhofer, foi incorporada em sua identidade artística como quem recolhe fragmentos de uma tradição para compor uma obra maior: a própria vida.
O reconhecimento internacional, com vitórias em concursos e aplausos em salas históricas como a Tchaikovsky de Moscou e a Glazunov de São Petersburgo, não apagou sua humildade. Ao contrário, Licia sempre se viu como elo de uma corrente que conecta mestres e discípulos, tradição e futuro. Comparada a Guiomar Novaes e Vladimir Horowitz, ela responde com serenidade: o que importa não é o título, mas a sinceridade e a nobreza do gesto musical.
Sua atuação pedagógica e institucional, como presidente da Academia Nacional de Música, coordenadora cultural na Nicarágua e autora de A Genealogia do Piano, mostra que Licia compreende a arte como patrimônio universal e como ferramenta de transformação social. Para ela, ensinar é prolongar o gesto artístico, é ampliar a comunicação com o público e perpetuar tradições que não podem se perder.
Em suas palavras, a música é sempre diálogo entre razão e emoção, entre rigor e intuição. Essa consciência histórica reforça sua condição de guardiã de linhagens, mas também de criadora de novas pontes. Licia sabe que o intérprete não é mero executor, mas mediador de memórias e criador de possibilidades.
Hoje, ao ser chamada de “Grande Dama do Piano” ou “Dama de Ferro”, Licia responde com humildade e concentração. Para ela, o piano é companheiro eterno, voz que fala por si mesma e que devolve ao público a experiência de beleza intangível. Sua rotina diária de estudo, permeada pelo “ócio criativo” tão caro aos italianos, mostra que mesmo após décadas de carreira, o instrumento ainda lhe apresenta mistérios novos.
Se o piano pudesse falar, talvez dissesse que encontrou em Licia Lucas não apenas uma intérprete, mas uma parceira capaz de revelar sua alma. E é essa parceria, entre artista e instrumento, que nos devolve a certeza de que a música é memória viva e filosofia em movimento.
BIOGRAFIA DE LICIA LUCAS: A DAMA QUE HABITA O PIANO
O piano, para Licia Lucas, nunca foi apenas um instrumento: tornou-se território existencial, voz que atravessa séculos e morada espiritual. Sua arte não se limita a traduzir partituras, mas recria mundos, como se cada acorde fosse uma fundação de eternidade. Sua vida é uma travessia entre geografias e tempos, entre o interior de São Paulo e as salas consagradas de Viena, Roma e Moscou, entre a intimidade da memória e a vastidão da cultura universal.
Desde a infância, quando a professora Nayl Cavalcante Lucas lhe revelou que a música era mais do que intuição, Licia compreendeu que o piano seria sua voz para o mundo. A leitura da Sonata Patética de Beethoven não foi apenas um exercício técnico, mas um rito iniciático: ali se insinuava a promessa de que cada nota poderia conter a eternidade.
Sua formação é uma constelação de mestres e tradições. Com Homero de Magalhães, discípulo de Alfred Cortot, absorveu a clareza francesa; com Vincenzo Vitale, em Roma, aprendeu que técnica e interpretação são inseparáveis; com Hans Graf e Bruno Seidhofer, em Viena, experimentou o rigor que não sufoca, mas liberta. Cada escola, cada cidade, cada concerto foi incorporado à sua identidade como quem recolhe fragmentos de uma genealogia que remonta a Liszt, Thalberg, Czerny e Rubinstein.
Mas Licia não se limita ao virtuosismo. Sua grandeza está em compreender que a música é patrimônio universal e que o artista deve ser também pedagogo e embaixador cultural. Assim, presidiu a Academia Nacional de Música, coordenou projetos na Nicarágua, fundou orquestras jovens e escreveu, ao lado de Marne Serrano, o livro A Genealogia do Piano, onde mapeia as linhagens que conectam Mozart a nossos dias.
Comparada a Guiomar Novaes pela nobreza e sinceridade, e a Vladimir Horowitz pela técnica fulgurante, Licia responde com humildade: sua missão é manter viva a tradição, mas também oferecer ao público a beleza intangível que mora entre uma nota e outra. Em São Petersburgo, um violinista a chamou de “Dama de Ferro do Piano”; em Miami, a crítica a consagrou como “Grande Dama do Piano”. Ela sorri diante dos títulos, mas sabe que o verdadeiro reconhecimento está no silêncio reverente da plateia antes do primeiro acorde.
Sua interpretação da Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Gottschalk, é símbolo dessa fusão entre técnica e alma. Ao executar a obra, Licia não apenas celebra o hino pátrio, mas traduz o fascínio do compositor estrangeiro pelo Brasil, devolvendo ao público a sensação de que a música é também memória cultural e identidade nacional.
Hoje, após décadas de carreira, Licia continua a estudar diariamente, reservando espaço para o “ócio criativo” que os italianos tanto exaltam. Para ela, o piano ainda guarda mistérios, e cada manhã é uma nova iniciação.
Se o piano pudesse falar, talvez dissesse que encontrou em Licia Lucas não apenas uma intérprete, mas uma companheira capaz de revelar sua alma. E é essa parceria, entre artista e instrumento, que nos devolve a certeza de que a música é filosofia em movimento, memória viva e celebração da condição humana.
AGRADECIMENTO DO FOCUS PORTAL CULTURAL
O Focus Portal Cultural, sob a curadoria do jornalista Alberto Araújo, expressa sua gratidão mais profunda a Licia Lucas por ter permitido que adentrássemos em sua alma e revelássemos sua magnitude pianística. Não se trata apenas de uma entrevista, mas de um encontro espiritual, onde cada resposta foi uma chave que abriu portas para compreender a essência de uma artista que transformou o piano em filosofia e memória viva.
Ao longo desta conversa, Licia nos mostrou que sua trajetória não é apenas a de uma intérprete consagrada, mas a de uma guardiã de tradições, uma mediadora entre mestres do passado e discípulos do presente. Sua sede insaciável de aprender e divulgar a música clássica é testemunho de que a arte não se encerra em si mesma: ela se expande, se multiplica e se oferece como patrimônio universal.
A cada relato, sentimos que o piano não é para Licia um objeto físico, mas um companheiro eterno, uma voz que traduz tanto a arquitetura divina de Bach quanto o lirismo de Chopin, sem jamais esquecer a força da identidade cultural brasileira. Sua vida é uma travessia entre geografias e tempos, entre o interior de São Paulo e as salas consagradas de Viena, Roma e Moscou, entre a intimidade da memória e a vastidão da cultura universal.
Agradecemos por nos permitir testemunhar sua disciplina diária, sua entrega ao estudo, sua capacidade de transformar rigor em beleza e técnica em transcendência. Agradecemos por compartilhar conosco sua experiência como pedagoga, Diretora do Espaço Cultural São Judas Tadeu em Icaraí e acadêmica em diversas instituições brasileiras, mostrando que o artista não deve apenas tocar, mas também ensinar, estruturar e perpetuar.
Este agradecimento é também uma celebração: celebrar a mulher que foi chamada de “Grande Dama do Piano” e “Dama de Ferro”, mas que se reconhece, sobretudo como alguém que ama a música e o piano. Celebrar a intérprete que, ao tocar Gottschalk, devolve ao Brasil sua própria alma sonora. Celebrar a filósofa da música que nos lembra de que razão e emoção são inseparáveis, que cada acorde é memória e cada concerto é revelação.
Nosso agradecimento se estende também a Marne Serrano, esposo e empresário, cuja habilidade e profissionalismo ajudaram a organizar esta condução com delicadeza e rigor. Sua presença discreta, mas essencial, é parte da tessitura que sustenta a jornada artística de Licia, mostrando que a grandeza de uma intérprete também se constrói na parceria e no cuidado compartilhado.
Assim, celebramos não apenas a artista, mas o conjunto de forças que a cercam e a impulsionam. Licia Lucas e Marne Serrano nos lembram de que a música é feita de mãos que tocam, mas também de mãos que sustentam, de vozes que interpretam e de vozes que organizam, de sonhos que se tornam realidade porque são partilhados.
O Focus Portal Cultural agradece por este encontro que nos devolve a nós mesmos, e por esta oportunidade de testemunhar que o piano, em sua companhia, continuará sendo eternidade e memória viva.
©
Alberto Araújo
Jornalista,
escritor e acadêmico.
09
de agosto de 2026.



















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