terça-feira, 4 de agosto de 2026

O BANCO NA PRAÇA, O TEMPO E A SÉTIMA ARTE CRÔNICA DE UMA SAUDADE FELIZ EM NITERÓI - A WILMA MARTINS TEIXEIRA COUTINHO E SÁVIO SOARES DE SOUSA (IN MEMORIAM) © ALBERTO ARAÚJO

A tela do celular, computador acende numa claridade súbita, dessas que o algoritmo engendra com sua implacável mania de arbitrar o tempo. É o Facebook, com a sua cirurgia estética da memória, trazendo à tona uma daquelas fotografias que parecem desafiar a própria efemeridade dos dias. Ali estão eles, sentados placidamente no banco verde da Praça de Icaraí, tendo como testemunhas mudas as palmeiras imperiais, o vai-e-vem da gente niteroiense e o salitre brando da baía. Na imagem, que respira uma calmaria solar, a companheira Wilma Martins Teixeira sorri com a leveza de quem carrega a juventude na alma, exibindo o livro Ressurreição do Soneto. Ao lado dela, compondo um quadro de rara simbiose intelectual e humana, está o meu saudoso mestre, Sávio Soares de Sousa Procurador de justiça, advogado, jornalista, poeta de ofício, prosador de escol, guardião altivo da palavra e, acima de tudo, um inesgotável oráculo da sétima arte. 

Contemplar essa lembrança digital não provoca em mim a picada lancinante da dor absoluta, mas sim um sortilégio agridoce: uma saudade feliz. É feliz porque Sávio, embora tenha partido para o invisível e definitivo palco em 25 de maio de 2022, aos 97 anos deixou sua marca cravada a ferro e fogo na arquitetura do meu pensamento. E é imensamente feliz porque Wilma continua aqui, altaneira e luminosa, escrevendo suas poesias, caminhando firme pelos seus noventa e nove anos recém-completados no último dia 31 de maio de 2026. Quase um século de pulsação, de lucidez e de um humor refinado que desafia os calendários, abrigando em seu olhar a sabedoria dos que viram o mundo mudar sem perder a capacidade de se encantar com o essencial. 

A Praça de Icaraí, pano de fundo deste meu registro inesquecível, evoca o clima festivo do projeto dos Escritores ao Ar Livre, evento que sacudiu a cultura de Niterói ao ocupar os espaços públicos com o sopro democrático dos livros. Estar ali ao lado de Sávio e Wilma era habitar o centro exato do mundo. Sávio tinha essa rara propriedade: onde quer que estivesse, criava um fuso horário próprio, feito de silêncios respeitosos, tiradas espirituosas e uma erudição que nunca pesava nos ombros, antes parecendo um manto diáfano e acolhedor. 

Foi com Sávio Soares de Sousa que aprendi a olhar para uma tela de cinema não como um mero passatempo de fim de semana, mas como um templo de epifanias. Antes dele, eu assistia a filmes; depois dele, passei a habitá-los. Sávio falava de John Ford, de Ingmar Bergman, de Federico Fellini, de François Truffaut e dos clássicos da era de ouro de Hollywood com a mesma devoção com que um teólogo comenta os textos sagrados. Ele destrinchava os planos-sequência, o silêncio expressivo de um close, a melancolia de um contrassutil e a poesia escondida na montagem como quem revela segredos de um universo paralelo.

Lembro-me das manhãs-tardes em que nos perdíamos em infindáveis diálogos sobre a estética do olhar. Sávio não ensinava apenas a técnica ou a história do cinema; ele moldava uma sensibilidade. Ensinou-me a decodificar as sombras, a escutar a respiração dos atores na penumbra da sala escura e a compreender que a vida, afinal, é uma imensa película em permanente projeção. Por causa dele, tornei-me cinéfilo de carteirinha e de coração. Cada vez que apagam as luzes de uma sala de cinema e o feixe de luz corta a poeira em suspensão até bater na tela branca, sinto a presença tutelar de Sávio sentado na poltrona ao lado, pronto para sussurrar um comentário definitivo e genial. O cinema é a arte de esculpir o tempo com luz e sombra; Sávio esculpia a amizade com a mesma paciência de um deus, fazendo do verbo e da película a pátria definitiva dos poetas.

E há Wilma, nessa equação perfeita entre o passado que reverenciamos e o presente que celebramos com fervor. Chegar aos 99 anos com a vivacidade que ela ostenta é um manifesto poético contra a tirania do tempo. Wilma é a própria encarnação da resistência afetuosa. Na foto na Praça de Icaraí, segurando o exemplar de “Ressurreição do Soneto” obra que sintetiza a maestria lírica de Sávio, ela abençoa o instante, fixando-o na eternidade. O livro em suas mãos não é apenas papel e tinta; é o símbolo de uma aliança indissolúvel entre a literatura, a amizade e a cidade de Niterói, que abriga em suas esquinas tantas histórias não ditas.

Pensar em Sávio, ausente desde maio de 2022, e em Wilma, celebrando sua 99ª primavera em maio de 2026, é perceber que o tempo cronológico é apenas uma convenção burocrática dos relógios. Na dimensão da arte e da memória afetiva, todos coexistem no mesmo plano eterno. Sávio continua vivo nas páginas de seus sonetos, na cinefilia que plantou no peito dos discípulos e na saudade que nos reconcilia com o belo. Wilma continua viva no passo firme, no sorriso cúmplice e na coragem de quem atravessou um século colecionando instantes de rara beleza.

Quando o Facebook joga na nossa cara essa lembrança digital, ele não faz mais do que nos lembrar de quem realmente somos: seres feitos de tempo, mas habitados pelo eterno. Naquele banco de praça, sob o sol generoso de Icaraí, a poesia e o cinema deram as mãos. E enquanto eu olhar para essa fotografia, saberei que o mestre Sávio continua a acender as luzes da sala escura, e a querida Wilma continua a segurar, com firmeza e graça, o livro da nossa própria história. 

Niterói, 04 agosto de 2026

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 






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