terça-feira, 4 de agosto de 2026

LUZILÂNDIA, TERRA DE ÁGUA E BRONZE - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

 

O rio Parnaíba corre como uma veia aberta no coração de Luzilândia, levando consigo histórias, murmúrios e lembranças de um povo que aprendeu a viver entre o trabalho e a poesia. Às suas margens, o tempo parece se deter diante da arte,  e é ali, onde o sol se debruça sobre as águas, que duas esculturas se erguem como testemunhas da alma da cidade: A Lavandeira e O Pescador, obras do artista Hostyano Machado. 

Essas figuras de ferro e sonho não são apenas monumentos; são fragmentos de vida, moldados pela memória coletiva e pela sensibilidade de um artista que soube transformar o cotidiano em eternidade. 

A LAVANDEIRA 

Na orla de Luzilândia, o vento sopra sobre o corpo metálico da Lavandeira, e o rio parece reconhecer nela uma antiga companheira. Hostyano Machado, com sua arte vigorosa e delicada, deu forma à mulher que lavava roupas nas águas do Parnaíba, mas também lavava o tempo, as dores e os dias. 

A Lavandeira é um tributo à força feminina, à cultura das mulheres que transformaram o trabalho em canto. Suas mãos, agora de ferro, parecem ainda mergulhar nas águas, como se buscassem o reflexo das que vieram antes. O monumento é uma celebração da resistência e da beleza simples, da dignidade que nasce do esforço. 

O sol, ao tocar o metal, faz brilhar o suor imaginário dessas mulheres. E o rio, cúmplice, devolve o brilho em ondas suaves. A Lavandeira é mais que uma escultura, é uma oração silenciosa, um gesto de gratidão àquelas que, entre sabão e espuma, lavaram também os sonhos da cidade. 

O PESCADOR 

No Porto das Pedras, o Pescador lança sua rede ao infinito. A obra, inaugurada em 10 de abril de 2011, homenageia os pescadores locais e o senhor Antonio Paulo Pereira Oliveira, ex-presidente da Colônia de Pescadores Z-12. Hostyano Machado, novamente, fez do ferro um corpo vivo, capaz de narrar a saga dos homens que enfrentam o rio com coragem e fé.

A rede, feita de arame e imaginação, parece capturar o próprio vento. Cada nó é uma história, cada curva um destino. O Pescador não está apenas à beira do rio, ele está à beira do tempo. Representa todos os que acordam antes do sol, que conhecem o silêncio das águas e o peso da espera. 

O monumento é uma metáfora da vida: lançar a rede é acreditar, mesmo sem saber o que virá. É um gesto de esperança, repetido geração após geração. E quando o sol se põe sobre o Parnaíba, o Pescador parece mover-se, como se o ferro respirasse. 

RIO PARNAÍBA 

Entre a Lavandeira e o Pescador, o rio é o fio que une as duas histórias. Ele corre como um poema líquido, levando consigo o reflexo das esculturas e o murmúrio das lembranças. O Parnaíba é testemunha e protagonista, viu nascer a cidade, viu crescer seus filhos, viu o trabalho transformar-se em arte.

Nas margens do rio, o tempo se dissolve. As águas carregam o perfume do sabão e o sal do suor. O Parnaíba é espelho e memória, é o coração pulsante de Luzilândia. 

HOSTYANO MACHADO 

O artista que deu forma a essas obras é um alquimista do ferro. Hostyano Machado soube enxergar poesia onde muitos viam apenas rotina. Suas esculturas não são frias, são quentes de humanidade. Ele moldou o ferro como quem escreve versos, transformando o trabalho em símbolo, o gesto em eternidade. 

Em Luzilândia, suas obras não apenas decoram o espaço: elas o definem. São marcos de identidade, pontos de encontro entre o passado e o presente. 

LUZILÂNDIA 

Minha terra natal, onde o sol parece nascer com saudade e o vento sopra lembranças. Luzilândia é feita de gente que trabalha, canta e sonha. É uma cidade que aprendeu a transformar o esforço em beleza, o cotidiano em arte. 

Entre o brilho do rio e o som das cigarras, as esculturas se tornam parte da paisagem, como se sempre tivessem estado ali, guardando o segredo das águas. 

A Lavandeira e o Pescador são mais que monumentos: são símbolos de uma identidade. Representam o elo entre o passado e o presente, entre o ferro e a carne, entre o rio e o coração.

Quando o sol se põe sobre o Parnaíba, as duas figuras parecem conversar. A Lavandeira fala de esforço e pureza; o Pescador responde com paciência e fé. Entre eles, o rio murmura histórias que só a arte sabe ouvir. 

Luzilândia, com suas margens e seus monumentos, é um poema que o tempo não apaga. E cada visitante que passa pela orla leva consigo um pouco dessa poesia, o brilho do ferro, o perfume da água, o eco do trabalho transformado em eternidade. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 










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