Falar de Roberto Burle Marx é adentrar um território onde a arte deixa de ser apenas contemplação para se tornar matéria viva, pulsante e enraizada no solo da pátria. Nascido em 04 de agosto de 1909, o mestre do paisagismo moderno, artista plástico, pintor, escultor, tapeceiro e ecologista completaria hoje 117 anos. Mais do que celebrar uma data no calendário, revisitar o legado de Burle Marx é compreender como a identidade visual, cultural e ambiental do Brasil foi profundamente transformada por um olhar que soube ver na nossa própria flora a verdadeira expressão da nossa alma.
A trajetória de Burle Marx é repleta de ironias poéticas e belas sincronicidades. Embora seja o grande sinônimo da tropicalidade brasileira, o estopim de sua paixão pela nossa flora não aconteceu sob o sol do Rio de Janeiro ou nos trópicos da Amazônia, mas sim a milhares de quilômetros de distância, no frio de Berlim.
Em 1928, devido a um problema nos olhos, jovem ainda, Burle Marx viajou com a família para a Alemanha. Foi ali, visitando o Jardim Botânico de Berlim, que ele se deparou com estufas repletas de plantas tropicais brasileiras. Vendo de perto espécimes que cresciam livremente em sua terra natal, muitas vezes ignoradas ou desprezadas pela elite brasileira da época, que preferia copiar o modelo europeu de jardins, o jovem artista sentiu uma espécie de epifania.
Como bem recordam aqueles que estudaram sua obra, aquela experiência operou uma catarse em sua sensibilidade. Burle Marx percebeu que a riqueza de nossa biodiversidade era um patrimônio estético inigualável. Ele se tornou, nas palavras de seus contemporâneos, "mais brasileiro mesmo longe do Brasil". Essa revelação mudou o rumo da sua vida e, por conseguinte, a história da arquitetura paisagística mundial.
De volta ao Brasil, Burle Marx ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, onde conviveu com grandes nomes da vanguarda, como Cândido Portinari e, posteriormente, com arquitetos modernistas do porte de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Foi com Lúcio Costa que realizou seu primeiro grande projeto público em 1934: a Praça de Casa Forte, no Recife. Ali, utilizou corajosamente plantas da Mata Atlântica e da Amazônia, incluindo a imponente vitória-régia, rompendo de vez com os cânones tradicionais importados.
A genialidade de Burle Marx consistia em tratar o jardim como uma verdadeira tela de pintura abstrata. Suas plantas não eram dispostas ao acaso; elas obedeciam a rigorosos estudos de cores, volumes, texturas e ritmos sazonais. Para ele, o piso, os espelhos d'água, as pedras e as massas vegetais compunham uma sinfonia visual. O famoso calçadão de Copacabana, o Parque do Ibirapuera em São Paulo, os jardins do Aterro do Flamengo e do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro são provas irrefutáveis de que sua arte era indissociável da arquitetura e do urbanismo.
Muito antes de o debate ambiental ocupar o centro das agendas políticas globais, Burle Marx já levantava a bandeira da conservação das florestas tropicais. Suas expedições pelos biomas brasileiros em busca de novas espécies, muitas das quais hoje levam seu nome científico, não tinham apenas um objetivo estético ou botânico, mas um profundo caráter de resgate e proteção.
Ele denunciava a destruição da natureza, alertava sobre a perda de espécies nativas e entendia que devastar a flora equivalia a apagar a memória do próprio povo. O seu célebre Sítio Santo Antônio da Bica (hoje Sítio Roberto Burle Marx), em Guaratiba, no Rio de Janeiro, transformou-se em um laboratório vivo e num santuário de preservação, doado por ele próprio ao IPHAN para garantir que as futuras gerações pudessem contemplar a grandeza da biodiversidade brasileira.
Embora o mundo o reconheça primordialmente como paisagista, reduzir Burle Marx a essa única faceta é diminuir um gênio renascentista. Ele era um artista completo. Pintava telas vibrantes influenciadas pelo cubismo e pelo abstracionismo, criava tapeçarias monumentais que adornavam edifícios públicos, desenhava joias exclusivas com pedras brasileiras e metais nobres, e surpreendia a todos com seu talento vocal, cantando com a mesma paixão com que desenhava uma praça.
Essa versatilidade vinha de berço, estimulada por sua mãe, Cecília Burle, exímia pianista que lhe ensinou a amar a música e o cultivo da terra simultaneamente. Para Burle Marx, todas as formas de arte convergiam para um único ponto: a exaltação da beleza e da vida.
Neste 4 de agosto de 2026, ao completarem-se 117 anos de seu nascimento, o legado de Roberto Burle Marx permanece vivo em cada traço sinuoso de suas praças, na sombra fresca de suas árvores nativas espalhadas por mais de vinte países, e na consciência ecológica que ajudou a despertar no coração do Brasil.
Ele não foi apenas um homem que plantou árvores; foi um semeador de ideias, um visionário que ensinou os brasileiros a olharem para o próprio quintal com orgulho e reverência. Que a celebração de sua data natalícia sirva para renovar o nosso compromisso com a beleza, com a conservação da natureza e com a coragem de sermos genuinamente fiéis às nossas raízes, tal como ele nos ensinou com a força inesgotável da sua arte.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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