sábado, 3 de outubro de 2026

PERMANECER É UMA FORMA DE LINGUAGEM - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Permanecer é uma forma de linguagem. 

As árvores a praticam. O mar a desafia. As montanhas a aperfeiçoam. As pedras, contudo, parecem dominá-la.

Entre Icaraí e Ingá, localização exata, no trecho de transição da orla entre os dois bairros, a Pedra de Itapuca fala esse idioma silencioso há séculos. Enquanto a cidade escreve e reescreve a própria história, ela continua ali, traduzindo o tempo em matéria. 

Poucos símbolos urbanos carregam uma eloquência semelhante. Não porque sejam grandiosos, mas porque sobreviveram. A pedra que hoje emerge solitária das águas da Baía de Guanabara é mais do que uma formação geológica ou um cartão-postal de Niterói. É um fragmento da duração.

Seu nome já conta uma história. "Itapuca", palavra de origem tupi, significa "pedra fendida". A expressão fazia referência à forma original da rocha. Muito antes de os bairros de Icaraí e Ingá receberem seus contornos atuais, a pedra formava um arco natural ligado ao continente. O mar passava por baixo dela. A paisagem possuía uma arquitetura esculpida pela natureza ao longo de milhares de anos. 

Era uma obra sem arquiteto. 

Uma ponte de pedra construída pela lenta engenharia do tempo. 

A antiga Itapuca não separava terra e mar. Unia-os. Funcionava como um portal natural através do qual a água, a luz e os ventos circulavam livremente. Os indígenas que habitavam a região deram-lhe um nome que descrevia precisamente aquilo que viam: uma pedra aberta, partida, fendida pela própria geografia.

Muito antes de se tornar símbolo urbano, ela já era paisagem. Muito antes de figurar em fotografias, cartões-postais e brasões, já fazia parte do horizonte daqueles que habitavam a enseada. E talvez resida aí uma das razões de sua permanência afetiva: ela antecede a cidade que hoje a contempla. 

Em 1840, porém, a paisagem foi convocada a servir a outro projeto. 

O século XIX acreditava profundamente na ideia de progresso. Ruas precisavam ser abertas, caminhos precisavam ser traçados, obstáculos precisavam ser removidos. Para permitir o arruamento da região, o arco natural foi implodido. A pedra perdeu a forma que, durante séculos, justificara seu nome. 

O curioso é que o nome sobreviveu à forma. 

A fenda desapareceu. 

A memória da fenda permaneceu.

Talvez nenhuma imagem represente tão bem a relação entre tempo e civilização. Os homens alteraram a paisagem, mas não conseguiram apagar completamente sua história. O que restou da antiga estrutura transformou-se em algo novo: um monumento involuntário àquilo que deixou de existir. 

A Itapuca tornou-se um fragmento carregando a memória de um todo. 

Talvez por isso sua presença provoque uma espécie de fascínio silencioso.

Não é a maior pedra da costa fluminense. Não é a mais imponente. Não é a mais célebre. Ainda assim, tornou-se um dos principais símbolos de Niterói, figurando inclusive no brasão da cidade. Em 1985, foi tombada pelo patrimônio estadual, como se o poder público reconhecesse oficialmente aquilo que a população já sabia havia muito tempo: certas paisagens também merecem ser preservadas porque guardam parte da alma de uma cidade.

Símbolos raramente são escolhidos por acaso. 

Eles condensam significados que muitas vezes escapam à consciência coletiva. 

No caso da Itapuca, talvez o símbolo resida justamente em sua sobrevivência. A cidade mudou inúmeras vezes ao seu redor. A antiga vila transformou-se em município. O município transformou-se em cidade moderna. A linha da orla foi alterada. Novos bairros surgiram. Casas deram lugar a edifícios. Bondes desapareceram. Automóveis multiplicaram-se. O horizonte foi redesenhado por dezenas de gerações. 

A pedra assistiu a tudo. 

E continuou ali. 

Talvez o tempo não deva ser imaginado como um rio, mas como um escultor. Um escultor paciente, obstinado e invisível. Seu material não é apenas a rocha. São também as cidades, as instituições, os costumes e as pessoas. 

Tudo o que existe está sendo esculpido. 

A Pedra de Itapuca carrega as marcas desse trabalho. O sal a desgasta. O vento a corrói. As ondas retornam diariamente para continuar uma tarefa iniciada muito antes de qualquer mapa registrar a Baía de Guanabara. 

Entretanto, cada golpe das águas parece apenas reforçar aquilo que ela simboliza. 

A permanência. 

Não a permanência da imobilidade. 

A permanência da identidade. 

Porque permanecer não significa conservar intacta uma forma original. Significa atravessar mudanças sem perder completamente aquilo que se é. 

Nesse sentido, a Itapuca possui algo profundamente humano. 

Todos somos pedras fendidas. 

Em algum momento da vida perdemos partes de nós mesmos. Perdemos pessoas, lugares, certezas e versões antigas da nossa própria identidade. As experiências nos modificam continuamente. Ao final de muitos anos, já não somos os mesmos de antes. 

E, contudo, continuamos sendo nós. 

A pedra ensina essa lição sem palavras. 

Aquilo que lhe dava a forma original desapareceu. O arco deixou de existir. O continente afastou-se. O mundo ao redor mudou. Ainda assim, quando alguém pronuncia "Pedra de Itapuca", todos sabem exatamente do que se trata. 

A essência sobreviveu à transformação. 

Mas talvez a verdadeira razão de seu poder simbólico não esteja apenas naquilo que ela preservou. Esteja também naquilo que perdeu. 

Porque a Pedra de Itapuca não é apenas uma sobrevivente da paisagem. 

É também uma sobrevivente da memória. 

Toda cidade é construída duas vezes. 

Primeiro na matéria. 

Depois na lembrança. 

A primeira pertence à história. A segunda pertence à memória. 

A história registra datas, acontecimentos, obras e transformações. A memória guarda aquilo que os fatos, sozinhos, não conseguem explicar. Ela preserva afetos, significados e ausências.

No caso da Itapuca, as duas dimensões convivem sobre a mesma pedra.

A história informa que, em 1840, o arco natural foi destruído para permitir o arruamento da região. O registro é objetivo. Está nos arquivos. Nos estudos. Nos documentos. 

A memória opera de forma diferente. 

Ela continua procurando o arco onde já não existe arco. 

Continua enxergando, na pedra isolada que emerge das águas, a sombra daquilo que desapareceu. 

Talvez por isso a Itapuca desperte uma emoção difícil de definir. Seu valor não está apenas no que ela é. Está também naquilo que deixou de ser.

A presença da pedra carrega a ausência do arco. 

E poucas coisas falam tão profundamente à condição humana quanto as ausências. 

As cidades também são feitas delas. 

Sob cada avenida existe uma paisagem anterior. Sob cada edifício repousa uma versão desaparecida da cidade. Os mapas registram as mudanças. A memória insiste em conservar os vestígios.

A Pedra de Itapuca parece concentrar essa tensão entre o que foi perdido e o que permaneceu. Ela não testemunha apenas acontecimentos. Testemunha transformações. Não guarda apenas uma forma geológica. Guarda uma narrativa. 

Nesse sentido, aproxima-se mais de uma ruína do que de um monumento. 

Os monumentos celebram certezas. 

As ruínas provocam perguntas.

Diante de uma ruína, o olhar nunca repousa apenas sobre o que resta. Ele procura imaginar aquilo que falta. 

É exatamente esse movimento que a Itapuca produz.

Seu nome continua contando a história de uma pedra fendida. De uma abertura. De uma passagem entre a terra e o mar. Mas nossos olhos encontram apenas um fragmento isolado diante da baía. 

Entre a palavra e a paisagem existe uma lacuna. 

E é dentro dessa lacuna que a memória trabalha. 

Porque recordar não significa reconstruir o passado. 

Significa dialogar com aquilo que o tempo recusou preservar por inteiro.

Ao cair da tarde, especialmente nos dias em que a luz dourada repousa sobre a Baía de Guanabara e os edifícios de Icaraí começam a acender suas primeiras janelas, a pedra parece assumir outra dimensão. Deixa de ser apenas um elemento da paisagem e transforma-se em presença.

Uma presença antiga. 

Quase filosófica. 

À sua volta, a cidade acelera. Pessoas caminham pelo calçadão. Corredores passam apressados. Veículos percorrem a avenida. Novas fotografias são tiradas. Novas histórias começam. 

A pedra permanece.

Não como quem resiste ao tempo.

Mas como quem aprendeu a conviver com ele. 

Talvez seja essa a razão de ela continuar provocando admiração depois de tantos anos. Não porque represente o passado, mas porque revela uma verdade permanente sobre a condição humana. 

Tudo muda. 

Quase nada permanece inteiro.

E, ainda assim, certas coisas atravessam os séculos carregando consigo uma identidade que nem o mar, nem o vento, nem a intervenção dos homens conseguem apagar completamente. 

A antiga Itapuca desapareceu. 

A atual continua presente. 

E, paradoxalmente, ambas habitam a paisagem de Niterói. 

Uma pertence à história.

A outra pertence à memória. 

Entre Icaraí e o Ingá, diante das águas da baía, a velha pedra continua sustentando esse diálogo silencioso entre aquilo que foi e aquilo que permanece. 

E toda cidade precisa desses lugares. 

Porque uma cidade não é feita apenas de ruas, edifícios e infraestrutura. Uma cidade é feita das lembranças que seus habitantes compartilham. É feita das histórias que contam a si mesmos para compreender quem são.

A Pedra de Itapuca ocupa um lugar privilegiado nessa narrativa. Funciona como uma âncora lançada nas profundezas da memória niteroiense. Enquanto o tempo transforma a cidade, ela continua lembrando que toda identidade nasce do encontro entre presença e ausência, entre permanência e perda, entre história e lembrança. 

Assim, a velha pedra diante da Baía de Guanabara deixa de ser apenas paisagem.

Torna-se metáfora. 

A metáfora de que nada permanece exatamente como era.

Mas algumas coisas permanecem o suficiente para que não esqueçamos quem fomos. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




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