No
coração pulsante do Rio de Janeiro, onde o caos se torna sinfonia e a pressa é
o ritmo natural da vida, ergue-se um monumento que poucos cariocas e menos
ainda os visitantes, observam com a devida reverência. Não é apenas uma torre;
é o guardião do tempo. Lá no alto da Central do Brasil, o imenso relógio de
quatro faces não apenas marca as horas; ele dita o compasso da metrópole.
Inaugurado em 1943, sob o olhar atento e a égide política de Getúlio Vargas,
aquele colosso de concreto e metal consolidou-se como o maior relógio de quatro
faces do mundo, um título que carrega com a sobriedade de quem já viu o século
mudar, as tecnologias florescerem e gerações inteiras correrem sob suas
engrenagens.
Para
compreender a magnitude dessa estrutura, precisamos voltar os olhos para a
década de 1940. O Brasil vivia sob o Estado Novo, um período de projetos
grandiosos, de arquitetura monumental e de uma busca incessante pela
modernidade. A Central do Brasil, o entroncamento ferroviário que conectava a
alma do país à sua capital cosmopolita, precisava de um marco. Não bastava que
os trens chegassem e partissem; era preciso que houvesse uma autoridade
cronométrica, algo que pudesse ser visto de quase todos os pontos do centro da
cidade, um bastião de precisão em meio à euforia urbana.
Quando o
relógio foi inaugurado, ele não era apenas um objeto de utilidade pública; era
uma declaração de intenções. Imagine o cenário: o Rio de Janeiro fervilhando em
meio à Segunda Guerra Mundial, a estação fervilhando de gente, carregadores,
soldados, mercadorias. Lá no alto, os ponteiros começaram a girar, movidos por
um mecanismo que, na época, era o ápice da engenharia mecânica. Seus
mostradores, imensos, exigiam que a cidade olhasse para cima.
Diferente
dos relógios digitais que hoje carregamos no pulso ou no bolso, precisos, invisíveis,
desprovidos de alma, o relógio da Central é físico, mecânico e imponente. Seus
ponteiros são gigantes de metal que cortam o céu, e o seu tique-taque é um
segredo guardado por poucos funcionários que, ao longo das décadas, dedicaram
suas vidas à manutenção daquele coração de engrenagens.
Cada uma
das quatro faces possui metros de diâmetro, o que, por si só, já desafia a
escala humana. O fato de serem quatro faces, cada uma orientada para um ponto
cardeal, confere à torre uma onipresença quase divina. Não importa se você vem
da Praça da República, se desce pela Avenida Presidente Vargas ou se emerge dos
túneis vindos da Zona Sul; o relógio estará lá, observando, registrando.
Ele é o
maior do mundo em sua categoria. E, ao contrário de outros marcos
arquitetônicos que se tornam obsoletos, o relógio da Central adquiriu com o
tempo uma camada extra de verniz: a da nostalgia. Hoje, ele é o ponto de
encontro implícito. "Nos vemos sob o relógio", dizem os passageiros,
sem precisar explicar qual. É o ponto de referência que não falha, a bússola
temporal em um mundo que perdeu o sentido do tempo.
O que a
crônica do tempo nos ensina é que ele não é apenas a medida do decorrido, mas a
medida da esperança. Sob o relógio da Central, o tempo tem nuances diferentes.
Existe o tempo da pressa do trabalhador, que corre para não perder o último
trem das 23h. Existe o tempo da espera, daquele que aguarda alguém que vem de
longe, com a ansiedade estampada no rosto, olhando constantemente para cima,
comparando o relógio do pulso com o gigante da torre.
Getúlio
Vargas, um político que entendia a importância da imagem e da permanência,
certamente vislumbrou isso ao autorizar a construção de uma estrutura tão
ostensiva. 1943 foi um ano de viradas históricas, e a inauguração daquele
símbolo serviu como uma âncora de estabilidade em um mundo em chamas.
A ironia,
contudo, é que os governos passam, os sistemas mudam, as ideologias se
transformam, mas o relógio permanece. Ele viu o Rio deixar de ser a capital,
viu a estação sofrer reformas, viu a tecnologia substituir o vapor pela
eletricidade, e, ainda assim, seus ponteiros continuam a seguir sua rota
circular inexorável. Ele é, em última análise, um testemunho da resiliência
urbana.
Há uma
beleza melancólica em ser o "maior do mundo". É uma responsabilidade
que exige manutenção constante, uma atenção que hoje, muitas vezes, falta às
grandes obras. O relógio exige graxa, reparos, cuidados. Ele demanda que o ser
humano não o esqueça. Em muitas manhãs cinzentas, quando a neblina envolve a
torre, o relógio parece um fantasma de ferro, um gigante adormecido que, mesmo
parado no tempo, continua a marcar a história do Rio de Janeiro.
Quem
observa o relógio da Central não deve apenas ver a hora. Deve ver a história
escrita em números romanos ou arábicos, dependendo da restauração, a história
de uma cidade que sempre quis ser grande, que sempre se projetou para o mundo
como uma metrópole de monumentos.
Se
pudéssemos perguntar ao relógio o que ele viu, o que ele nos diria? Ele falaria
das despedidas emocionantes na plataforma 1. Ele contaria sobre os encontros
furtivos nos saguões. Ele descreveria o cheiro do café misturado com a fumaça
das composições e o barulho ensurdecedor da massa humana que flui como um rio
subterrâneo, alheia ao fato de que, lá em cima, há um sentinela que nunca
dorme.
Hoje,
vivemos na era da precisão atômica. Nossos celulares estão sincronizados com
satélites que orbitam a Terra a milhares de quilômetros de distância. A
necessidade de um relógio público para saber a hora perdeu o sentido prático.
E, todavia, o relógio da Central continua essencial.
Ele nos
serve como lembrete de que a nossa existência é feita de momentos, não apenas
de dados. Ele é a ponte entre a nossa necessidade de organização e a nossa sede
de permanência. Ao passar pela Central, olhe para cima. Não para checar o
horário, mas para cumprimentar o veterano de 1943. Reconheça que ali está uma
peça viva da nossa identidade.
Enquanto
a cidade lá embaixo se transforma, se reconstrói e se reinventa, o relógio
continua a girar. Ele nos lembra de que o Rio de Janeiro, apesar de todas as
suas dores e contradições, é uma cidade que tem tempo para ser grandiosa. É o
relógio de Getúlio, é o relógio da Central, é o nosso relógio. E, enquanto ele
mantiver suas quatro faces voltadas para os quatro cantos da nossa metrópole, o
tempo continuará sendo, ironicamente, algo que podemos compartilhar.
Crédito
da foto: Rafa Pereira - Diário do Rio
© Alberto
Araújo
Focus
Portal Cultural
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O
RELÓGIO DA CENTRAL DO BRASIL - 83 ANOS DE TEMPO E GLÓRIA NA TORRE DA CENTRAL
No
horizonte vertiginoso do Centro do Rio de Janeiro, onde o caos urbano se funde
à história, existe um sentinela que, há mais de oito décadas, observa a cidade
mudar, crescer e se reinventar. Não é um monumento estático de pedra, nem uma
estátua de bronze. É um gigante de ferro, engrenagens e luz que, mesmo em meio
à velocidade do cotidiano, dita o ritmo da metrópole. O Relógio da Central do
Brasil ou, mais precisamente, o Relógio do Edifício Dom Pedro II, completa 83
anos de existência, consolidando-se não apenas como um marco da engenharia, mas
como um testemunho vivo do projeto de modernidade que o Brasil almejou no
século XX.
Era
1943. O Brasil vivia sob a égide do Estado Novo e o Rio de Janeiro, então
capital federal, respirava ares de transformação urbana. Foi nesse contexto que
Getúlio Vargas inaugurou o Edifício Dom Pedro II, a sede da Central do Brasil.
O prédio, um monumento em estilo art déco, não foi projetado para ser apenas
funcional; ele foi pensado para ser um símbolo de progresso. Com seus 135
metros de altura, chegou a ostentar o título de estrutura de concreto mais alta
do mundo, uma façanha que ecoava a ambição do país à época.
No
topo dessa torre, a IBM, multinacional que já imprimia sua marca na inovação
tecnológica, instalou o que se tornaria a joia da coroa da edificação: um
relógio de quatro faces, com dez metros de diâmetro cada. Enquanto o mundo
estava voltado para os horrores da Segunda Guerra Mundial, o Rio inaugurava um
gigante que, em silêncio, marcava o tempo com uma precisão que viria a definir
a pontualidade carioca por gerações.
É
um fato que, por vezes, escapa à memória dos próprios cariocas: o nosso relógio
é maior que o emblemático Big Ben de Londres. A comparação não é apenas uma
questão de bairrismo, mas de números monumentais. Enquanto o relógio londrino
possui sete metros de diâmetro, o da Central ostenta imponentes dez metros. Se
olharmos para a estrutura que os abriga, a torre da Central, com seus 32
andares e mais de 100 metros de altura dedicada apenas à torre do relógio,
supera a estrutura do parlamento britânico.
No
entanto, o Relógio da Central não carrega a aura de "ponto turístico
obrigatório" que o seu equivalente britânico possui. Talvez pela
localização, talvez pelo cotidiano apressado que nos impede de olhar para cima,
o relógio tornou-se um gigante invisível. Ele permanece ali, imponente,
marcando o tempo de quem desce na estação ou caminha pela Praça Cristiano
Otoni, muitas vezes ignorado pela sua própria grandiosidade.
O
que muitos desconhecem sobre o funcionamento deste colosso são as histórias
escondidas em seus últimos andares. Imagine subir 21 andares para chegar à base
das quatro faces do relógio. No passado, este não era um local de manutenção
esporádica; era um local de residência. Havia quatro suítes instaladas nas
entranhas da torre, onde funcionários viviam e dormiam, em um plantão
ininterrupto para garantir que os ponteiros, pesando quase 500 kg no total, não
falhassem.
O
ponteiro dos minutos, com seus 7,5 metros de comprimento e 270 kg, movia-se em
perfeita sincronia com o ponteiro das horas, de 5,35 metros e 182 kg. O cuidado
exigido era quase ritualístico. O relógio não era uma máquina fria; era uma
entidade que dependia da presença humana constante para manter a precisão.
Hoje,
a realidade é outra. Desde a reforma de 2018, o sistema foi automatizado. As
suítes, que um dia foram o lar dos guardiões do tempo, agora repousam em
silêncio, testemunhas de uma era onde a técnica exigia o sacrifício pessoal. A
manutenção, embora continue sendo diária e especializada, não exige mais a
presença noturna do homem nas alturas. O prédio hoje abriga a Secretaria
Estadual de Administração Penitenciária (SEAP), que zelou pela preservação do
monumento após anos de descaso.
A
história do relógio não é feita apenas de glórias. Na década de 90, o tempo
quase parou, literalmente. Pichações, vandalismo e a falta de manutenção
fizeram com que o relógio perdesse o seu compasso. O descompasso entre as faces
e a hora real tornou-se um símbolo de um Rio de Janeiro que, por vezes, parecia
ter perdido o ritmo.
O
tombamento pelo IPHAN, em 1996, não foi apenas um ato burocrático; foi um
pedido de socorro e uma declaração de importância cultural. Reconhecer o
relógio como patrimônio foi a maneira encontrada para garantir que o gigante
voltasse a marcar as horas com a dignidade que a sua arquitetura art déco
exige. Desde então, o relógio luta para se manter como um farol no Centro da
cidade.
Ao
completar 83 anos, o Relógio da Central do Brasil é mais do que um cronômetro
urbano. Ele é um lembrete. Num mundo cada vez mais digital, onde o tempo é
medido em frações de segundos em telas de smartphones, a existência de um
monstro mecânico que ainda gira suas engrenagens a 100 metros de altura é um
ato de resistência poética.
Ele
é o "Guardião de Concreto" que viu a transição da capital para
Brasília, a transformação da Central do Brasil em um entroncamento de ferrovias
e metrô, e as sucessivas crises e renascimentos do centro da cidade. Ele
permanece lá, impassível, enquanto milhares de pessoas, sob seus pés, correm
contra o tempo que ele, com tanta soberania, dita.
Talvez,
para comemorar estes 83 anos, não precisemos de festas ou monumentos novos.
Talvez o maior presente para esse ícone carioca seja simplesmente voltarmos a
olhar para ele. Ao atravessar a praça, ao sair da estação ou ao passar de carro
pela Avenida Marechal Floriano, reserve um segundo. Olhe para o topo, para a
estrutura que ainda desafia o Big Ben, e reconheça: o gigante ainda respira, o
tempo ainda corre, e o Rio, sob o olhar atento deste relógio, continua a sua
marcha incansável pela história.
O
relógio é a alma da Central. E, enquanto seus ponteiros girarem, a identidade do
Rio de Janeiro estará, sempre, em perfeita hora certa.
Texto
e pesquisa
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural