Dizem
que o Brasil começou pelo mar, mas a alma brasileira, essa nasceu no sertão.
Ela não brotou das caravelas com seus panos rasgados pelo vento do Atlântico;
ela ganhou forma e fôlego na terra vermelha, no calhau esturricado, na poeira
fina que sobe aos céus quando o vento passa assobiando. O Nordeste não é apenas
uma região geográfica delimitada por paralelos, mapas e divisas políticas. O
Nordeste é, antes de tudo, um sentimento. Um estado de espírito que transborda,
uma liturgia diária de resistência, uma poesia sem métrica estrita, mas de
compasso perfeito. O Nordeste é um hino de amor.
Um
hino cantado em tom maior e menor, na mesma toada. Começa logo cedo, antes
mesmo de o sol rasgar o horizonte com suas lâminas de fogo. O dia no Nordeste
não amanhece manso; ele desponta com uma urgência luminosa. O galo canta no
terreiro e a vida já se põe de pé, saudando a claridade com a mesma reverência
com que o devoto saúda o altar.
A
neblina matinal que teima em cobrir os campos de cana na Zona da Mata ou a
caatinga cinzenta do sertão profundo logo se dissipa, dando lugar a um azul do
céu que parece não ter fim. É o primeiro verso dessa canção diária: a certeza
de que, apesar da lida dura, o dia traz consigo a promessa de reinvenção.
Haverá
quem olhe para a secura do chão nordestino e enxergue apenas a ausência. Erro
crassíssimo de quem só sabe amar o que é fácil, o que vem pronto e regado a
abundância. O sertanejo, esse poeta de enxada e calo na mão, sabe que o amor
verdadeiro não é aquele que encontra tudo pronto, mas aquele que constrói a
beleza a partir do nada. Quando a seca aperta, quando os açudes descem ao fundo
e a terra racha como a pele de um ancião sábio, é que o hino ganha seus acordes
mais profundos. Não é um hino de desespero; é um canto de obstinação. É a prece
silenciosa que sobe da terra em direção a São José, pedindo a graça da primeira
chuva. E quando a chuva finalmente desponta, ah, quando o primeiro trovão ronca
lá no alto e o cheiro da terra molhada sobe como incenso sagrado, o Nordeste
inteiro se ajoelha em gratidão. A lama vira festa, o riacho vira canto, e a
caatinga, antes cinza e austera, veste-se de um verde esplendoroso, numa
ressurreição que desafia a própria morte. Se isso não é amor à vida, o que mais
seria?
Mas
o Nordeste tem muitas caras, muitas vozes, muitas cores que se fundem num
caleidoscópio fascinante. O amor aqui se manifesta de maneiras infinitas,
mudando de sotaque e de paisagem a cada légua percorrida.
Vá
ao litoral e sinta o abraço do mar. Não é um mar qualquer; é o mar de águas
mornas, esverdeadas e transparentes que banham recifes de corais seculares. É o
mar das jangadas que cortam as ondas como grandes gaivotas de pano branco,
levando o pescador para o seu romance diário com as profundezas. Nas praias de
Pernambuco, do Ceará, da Paraíba, do Rio Grande do Norte, de Alagoas, de
Sergipe, do Piauí e da Bahia, o vento alísio sopra histórias de navegantes, de
lendas de Iemanjá, de promessas cumpridas na areia. As mulheres dos pescadores
ficam na beira da praia, fitando o horizonte com os olhos cheios de esperança,
tecendo redes e guardando saudades. O amor, ali, tem o sal da maresia e o ritmo
compassado das ondas que vêm e vão, num eterno ciclo de partida e regresso.
Entre
na mata, embrenhe-se pelos tabuleiros, sinta o cheiro doce da umidade e da
jaqueira madura. A Zona da Mata é o lado verde e farto dessa história, onde os
canaviais balançam ao vento como um mar de esmeraldas. É a terra dos engenhos
antigos, das usinas que cospem fumaça no céu, mas também é o berço do maracatu,
do coco de roda, das festas de terreiro que misturam o sagrado e o profano numa
comunhão única. Ali, o hino ganha o batuque pesado do alfaiá, o som estridente
da cuíca, o brilho das lantejoulas nos trajes reais. É a alegria que
transborda, o grito de liberdade que ecoa desde os tempos em que a senzala
resistia sonhando com a aurora.
E
vá ao sertão. Ah, o sertão... O coração pulsante e indomável do Nordeste. É no
sertão que o hino de amor atinge o seu tom mais dramático e sublime. É a terra
de Antônio Conselheiro e de Lampião, de Padre Cícero e de tantos anônimos que
fizeram da coragem a sua segunda pele. No sertão, o tempo parece caminhar mais
devagar, obedecendo ao ritmo do sol e da lua. As casas coloridas de caiadura
nas vilas poeirentas parecem sorrir para quem passa. E a hospitalidade? Ah, a
hospitalidade do sertanejo é um monumento à dignidade humana. Por mais pobre
que seja a mesa, há sempre um lugar para o forasteiro. O café quente servido
numa xícara esmaltada, o pedaço de queijo coalho tostado na chapa, a rapadura
doce que desmancha na boca, tudo é oferecido com uma generosidade que desarma
qualquer desconfiança. "Sente-se, puxe um banquinho, puxe uma prosa",
diz o anfitrião, como se o visitante fosse da família desde sempre.
O
Nordeste é uma terra que pensa em versos. Seria impossível separar a identidade
nordestina da sua literatura oral e escrita, da sua música que embala o Brasil
inteiro. O cancioneiro nordestino é a partitura oficial desse hino de amor.
Pense
no fole de oito baixos de uma sanfona chorosa. Quando o sanfoneiro aperta o
fole e tira dali os primeiros acordes de um xote, de um baião ou de um xaxado,
o chão parece tremer de emoção. É a voz de Luiz Gonzaga, o eterno Lua, que
continua ecoando nos terreiros, nas feiras livres, nos corações de quem ama a
boa terra. "O gibão do vaqueiro", "A Volta do Asa Branca",
"Xote das Meninas", não são apenas canções; são crônicas afetivas de
um povo que aprendeu a transformar a dor em beleza. A sanfona chora, mas o povo
dança. O fole ronca, mas o pé arrasta o chão com alegria. É a resiliência
transformada em arte.
E
o que dizer dos repentistas e violeiros que duelam com versos de improviso sob
a sombra de uma juazeiro? Duas violas afinadas, duas mentes brilhantes que
criam rimas ricas e métricas perfeitas na velocidade do pensamento. Eles falam
de amor, de política, de seca, de fé, de saudade. O desafio na viola é um ato
de amor à palavra, um duelo onde o vencedor é sempre a poesia.
Nas
feiras livres, verdadeiros corações pulsantes das cidades nordestinas, esse
hino se materializa em cores e cheiros. Lá estão os cordéis pendurados em
cordadores de barbante, com suas xilogravuras rústicas contando histórias de
milagres, de assombrações, de valentões e de amores impossíveis. Ao lado, as
barracas de ervas medicinais, de farinha d'água crocante, de carne de sol, de
rapadura e de artesanato em barro feito pelas mãos mágicas do Alto do Moura ou
de Juazeiro do Norte. Cada boneco de barro modelado por Mestre Vitalino e seus
seguidores carrega um pedaço da alma do povo: o trabalhador na lida, a rendeira
debruçada sobre o bilro, a mãe embalando o filho, o violeiro cantando ao luar.
Amar
o Nordeste exige coragem, porque a história desta região também foi escrita com
sangue, suor e lágrimas. O Brasil deve ao Nordeste a sua fundação econômica,
cultural e espiritual, mas muitas vezes pagou essa dívida com o esquecimento,
com o preconceito, com a seca tratada com descaso político.
Milhares
de filhos desta terra tiveram que arrumar suas vidas em malas de papelão e
pegar o pau-de-arara rumo ao Sul e ao Sudeste, empurrados pela fome e pela
falta de oportunidades. Quantas "Asas Brancas" não voaram chorando,
deixando para trás o terreiro, a mãe idosa, o amor da juventude? A saudade,
essa palavra que só o português traduz com tanta precisão, mas que no Nordeste
ganha um peso físico, virou companheira inseparável de milhões de retirantes.
No
entanto, mesmo na distância, o amor pelo Nordeste não esmaece; pelo contrário,
agiganta-se. O nordestino na diáspora guarda o sotaque como um tesouro sagrado,
cultiva a culinária na panela de barro improvisada na metrópole fria, e sonha
com o dia do retorno. E quando volta, seja nas férias de fim de ano, seja na
aposentadoria, beija o chão de sua terra natal com a mesma devoção de um
peregrino que chega a Jerusalém. A terra natal o acolhe de volta, porque o
Nordeste nunca esquece os seus filhos. Ele é uma mãe generosa que abre os
braços largos e diz: "Ainda bem que você voltou, meu filho".
O
Nordeste é um hino de amor porque ele nos ensina que a alegria não depende da
fartura material, mas da intensidade com que se vive cada instante. Ensina que
um prato de pirão com carne de sol partilhado entre amigos tem mais valor do
que qualquer banquete solitário. Ensina que a música pode nascer do choro e que
a esperança é uma planta que brota mesmo na pedra mais dura.
Olhar
para o Nordeste é olhar para o melhor de nós mesmos. É redescobrir a capacidade
de se encantar com um pôr do sol dourado sobre o Rio São Francisco, de se
emocionar com a procissão de velas na festa da padroeira, de gargalhar com as
piadas contadas na calçada ao frescor da brisa da noite.
Que
este hino continue a ser entoado por gerações e gerações, nas vozes dos poetas,
no toque das sanfonas, no pisar firme dos dançarinos de frevo, no silêncio
contemplativo do sertanejo ao entardecer. Porque enquanto houver um coração que
ame esta terra vermelha e azul, o Nordeste continuará a ser o que sempre foi e
sempre será: a mais bela, vibrante e eterna declaração de amor escrita na
história do Brasil.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural
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Gilda Uzeda disse: Alberto. Impressionante e bela esta crônica que nos traz
o Nordeste, não somente como uma região geográfica mas como porção profunda e
afetiva deste nosso chão brasileiro. Não dá para escolher frases porque o texto
inteiro é tocante e bonito. Salve a beleza do chão onde chove poesia! Salve os
cantadores, sanfoneiros e poetas! Salve
o coração sertanejo, da caatinga, da mata, dos verdes mares! Abraço 🌸Gilda
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Gilda, muito obrigado pelas palavras tão cheias de afeto! E você tem toda
razão, a nossa geografia é, antes de tudo, uma geografia de almas. Tudo o que escrevemos já
carrega, nas entrelinhas, essa mesma doçura e sensibilidade com que você sempre
interpreta a nossa arte. O importante é a sagrada interação. Salve o seu coração
generoso! Abraços do Alberto Araújo.
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Mimi Lück disse: Caro Alberto, essa é a maior declaração de
amor ao Nordeste que se pode conceber ! Você transformou a seca e a dor do
nordestino em um maravilhoso poema ! Parabéns!!!
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Mimi, muito obrigado pelo carinho imenso! Saber que você enxergou a minha
crônica como uma declaração de amor ao Nordeste é a maior recompensa para quem
escreve. Verdade, o nosso sertão tem suas dores, mas transborda uma beleza e
uma força que merecem ser cantadas e celebradas sempre. Abraços do Alberto
Araújo.