Falar de Tarcísio Rivello de Azevedo é evocar, de imediato, a presença de um autêntico gentleman. Em uma época em que as relações humanas muitas vezes se desgastam na pressa e no pragmatismo, ele mantinha a têmpera dos homens de coração profundamente bondoso, qual a sua fidalguia não vinha de títulos, mas da pureza e da integridade de seu caráter. Em 2026, quando o calendário nos aponta o curso de três anos desde o seu encantamento, resgatar a sua trajetória não é um mero ato de nostalgia, mas sim um dever de cultura, de afeto e de justiça com um homem que fez da vida um exercício contínuo de lealdade.
Quem caminha pela Praia de Icaraí, em Niterói, com os olhos voltados para o contorno suave da Baía de Guanabara, consegue quase tatear a elegância que ali habitava. Era ali, diante desse cenário poético, que Tarcísio residia com sua esposa, a adorável Rita Rivello. Mais do que companheiros de jornada, Tarcísio e Rita traduziam uma união harmoniosa, admirada por todos os amigos e profundamente reverenciada pela comunidade rotariana, onde Rita atua como uma valorosa companheira.
A integridade foi a grande bússola de Tarcísio, tendo a justiça como norte em toda a sua carreira. Ele possuía o olhar generoso do verdadeiro mestre: jamais perseguiu um funcionário sequer sob sua liderança; ao contrário, identificava o potencial nos olhos de cada aluno e o incentivava, com entusiasmo e firmeza, a seguir e progredir na carreira escolhida.
A história desse grande nome da medicina fluminense começou a ser desenhada nos pátios da juventude. O jovem Tarcísio iniciou sua formação escolar em colégio particular, tendo concluído o curso primário no tradicional Colégio Salesiano de Santa Rosa, em Niterói. Foi nessa mesma instituição que ele deu os primeiros passos no curso ginasial, uma etapa fundamental para consolidar seus valores humanos e intelectuais.
Posteriormente, o destino o conduziu ao Colégio Plínio Leite, onde completou seus estudos ginasiais e cursou o antigo Científico. Ali, cercado por livros e fórmulas, o jovem estudante refinou sua inclinação natural pelas ciências biológicas, preparando o espírito para o grande desafio que bateria à sua porta no meio daquela década.
O ano de 1966 marcou a grande travessia de sua vida. Após ser aprovado no rigoroso exame vestibular, Tarcísio ingressou no primeiro ano do Curso de Medicina na Faculdade Fluminense da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. A faculdade tornava-se o palco definitivo de sua consagração e o solo onde ele esculpiria seu destino profissional.
Durante o Curso de Medicina, sua busca por conhecimento prático foi incansável. Compreendendo que a arte de curar exige vivência prática além das atividades curriculares, ele frequentou diversos serviços de saúde para completar sua formação, voltada desde o início para a Cirurgia. Essa obstinação o levou a especializar-se em Angiologia e Cirurgia Vascular, especialidades que exerceu com maestria e dedicação ininterrupta a partir de 1971.
Ainda no período formativo do final dos anos 1960, Tarcísio demonstrou uma energia admirável. Entre 20 de novembro e 22 de dezembro de 1967, realizou o Curso de Extensão Universitária sobre "Eletrocardiografia", promovido sob os auspícios do Diretório Acadêmico Barros Terra. Em janeiro de 1968, buscou novos horizontes na 13ª Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, completando o Curso Básico de Anestesiologia e realizando um valioso estágio naquele serviço do Dr. Darcy Monteiro durante os anos de 1967 e 1968.
A colação de grau ocorreu em 1970, marcando o encerramento de um ciclo brilhante na Faculdade Fluminense de Medicina da UFF. Longe de acomodar-se com o diploma, o recém-formado dedicou o ano de sua formatura a uma verdadeira maratona de aperfeiçoamento no Rio de Janeiro. Em março de 1970, concluiu o Curso de Angiologia do Hospital da Gamboa, promovido pela Sociedade Brasileira de Angiologia. Entre junho e dezembro, frequentou o Curso de Cirurgia Vascular Periférica da Academia Brasileira de Medicina Militar. Em julho, somou ao currículo o Curso Internacional sobre Afecções Vasculares Periféricas no Hospital da Beneficência Portuguesa e, em agosto, o Curso de Atualização sobre Cirurgia do Aparelho Digestivo na Academia Nacional de Medicina. Para coroar esse ano profícuo, em outubro, participou do III Curso de Atualização em Cirurgia Vascular Periférica do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
Com essa bagagem robusta, em 1971, participou do Curso de Especialização em Angiologia da Escola de Pós-Graduação da PUC-RJ. O reconhecimento oficial veio em 1973, quando prestou exames escritos, prático-orais e provas de títulos, obtendo o cobiçado título de especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular pela Associação Médica Brasileira e pela Sociedade Brasileira de Angiologia & Cirurgia Vascular.
Paralelamente ao médico e cirurgião habilidoso, habitava em Tarcísio a alma generosa do educador. Seu interesse pelo ensino manifestou-se de forma precoce, quando ainda era estudante de medicina. Em 1967, atuando como Monitor de Anatomia Regional (Topográfica), ele já ministrava aulas de aplicação médico-cirúrgico para o curso excedente do segundo ano médico da Faculdade de Medicina da UFF, atividade realizada sob a respeitada chefia do Professor Dioclécio Dantas de Araújo. Essa dedicação repetiu-se em 1968, ano em que acumulou a função de preparar peças anatômicas e ministrar aulas para o curso normal do segundo ano da faculdade, sempre sob a orientação do mesmo chefe.
O vínculo de Tarcísio com o Departamento de Morfologia da UFF foi sólido e multifacetado nos anos finais de sua graduação: atuou como Auxiliar Acadêmico no Departamento de Morfologia (Anatômico) do Instituto Biomédico de 1º de janeiro de 1968 a 16 de dezembro de 1970; trabalhou como Monitor de Anatomia Humana de junho de 1969 a dezembro de 1970; e concluiu esse ciclo como Interno do Departamento de Morfologia no período de junho a dezembro de 1970.
Ao colar grau, a transição para o magistério superior foi um passo natural. Iniciou suas atividades docentes na UFF como Professor Auxiliar de ensino em 1973. Com o amadurecimento de sua didática e a dedicação contínua à pesquisa, passou a Professor Assistente em 1980 e, em janeiro de 1985, conquistou o cargo de Professor Adjunto, mantendo-se sempre ligado à área de Anatomia Humana do Curso de Medicina, disciplina na qual viria a se consagrar como Professor Titular.
Sua preocupação com a qualidade e o aprimoramento do Ensino Superior o levou a buscar ferramentas pedagógicas modernas. Em 1976, concluiu o curso de aperfeiçoamento em Metodologia do Ensino Superior, promovido pela Faculdade de Educação da UFF, perfazendo um total de 180 horas-aula. No ano seguinte, em 1977, ingressou no curso de Pós-Graduação - Mestrado em Educação na UFF. Escolhendo a área de Administração de Sistemas Educacionais como sua concentração, Tarcísio defendeu a tese intitulada "Um diagnóstico do ensino médico no estado do rio de janeiro", obtendo o louvável conceito final 9 (nove).
Expandindo ainda mais suas fronteiras acadêmicas e científicas, o professor obteve o título de Doutor em Ciências Morfológicas – Anatomia Humana pela renomada Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM). Esse sólido doutorado evidenciou seu compromisso inabalável com a excelência científica, com a promoção do conhecimento médico e com o aprimoramento constante da prática clínica.
A liderança de Tarcísio Rivello de Azevedo na Universidade Federal Fluminense foi marcante e abrangeu as mais diversas instâncias administrativas. Ao longo de sua carreira, ele atuou em múltiplos cargos de destaque, incluindo o de chefe de departamento, diretor do Centro de Ciências Médicas e membro ativo do valioso Conselho de Curadores da instituição. Fora dos muros universitários, sua relevância científica foi reconhecida ao exercer o cargo de presidente do Conselho Científico da Academia de Medicina do Estado do Rio de Janeiro e ao atuar como professor titular da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular.
Contudo, foi na gestão hospitalar que sua capacidade administrativa alcançou o ápice. Tarcísio foi o diretor do Instituto Biomédico da UFF entre os anos de 1999 a 2002, mas seu maior legado estrutural foi construído no Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP). Ele liderou o HUAP por impressionantes 16 anos, exercendo o cargo de Diretor Geral de 2006 até 2016 e, posteriormente, assumindo a função de Superintendente do hospital no período de 2016 a 2022.
Gerenciar um hospital desse porte exige coragem e sensibilidade, qualidades que Tarcísio demonstrou em abundância. Durante sua longa e vitoriosa trajetória na superintendência e diretoria, ele enfrentou com profundo comprometimento e determinação os desafios que se apresentaram. O momento mais agudo e dramático dessa jornada ocorreu diante da crise da Pandemia da Covid-19, um dos períodos mais difíceis da história da saúde mundial. Naquela circunstância sem precedentes, a liderança firme e a visão estratégica do Professor Tarcísio foram fundamentais para manter a eficiência da gestão hospitalar e garantir o atendimento seguro e humanizado à comunidade em meio à adversidade.
No dia 19 de julho de 2023, aos 77 anos de idade, o Professor Tarcísio Rivello de Azevedo encerrou sua jornada terrena, deixando familiares, em especial sua amada esposa Rita Rivello, uma legião de amigos admirados e gerações de profissionais formados sob seus ensinamentos.
A UFF reconheceu de forma solene a contribuição inestimável do Professor Tarcísio para a educação, para a saúde pública e para a construção da história da instituição. Sua memória jamais será apagada; ela será eternamente lembrada e honrada por meio da continuidade de seu trabalho pedagógico e do compromisso constante de oferecer serviços de excelência à comunidade e à sociedade.
Para o Focus Portal Cultural, registrar a biografia de Tarcísio é celebrar o humanismo em sua forma mais pura. Ele foi o exemplo vivo de que a ciência e a gestão pública ganham alma quando conduzidas por um coração bondoso, íntegro e leal. Que o seu exemplo continue a circular como sangue novo pelas artérias da nossa cultura e do nosso saber.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural








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