terça-feira, 5 de maio de 2026

RIO DAS OSTRAS: A CAPITAL DO JAZZ NO LITORAL FLUMINENSE - CRÔNICA CULTURAL © ALBERTO ARAÚJO

No coração da Costa do Sol, a apenas algumas horas da capital carioca, ergue-se uma cidade que conseguiu reinventar sua identidade sem perder o encanto natural de suas praias e lagoas. Rio das Ostras, antes conhecida apenas como refúgio de pescadores e destino de veranistas, hoje é celebrada como a capital do Jazz no Brasil. Mais do que um título, essa consagração traduz uma transformação cultural que colocou o município em destaque no cenário internacional. 

A história de Rio das Ostras é marcada por contrastes. De um lado, a simplicidade das comunidades que viviam da pesca artesanal e do cultivo de pequenas roças; de outro, a força da modernização impulsionada pelos royalties do petróleo e pela expansão urbana. Essa combinação permitiu que a cidade crescesse sem perder o vínculo com suas raízes. O mar continua sendo protagonista, mas agora divide espaço com palcos, esculturas monumentais e festivais que atraem visitantes de várias partes do mundo. 

Foi no início dos anos 2000 que Rio das Ostras ousou dar um passo diferente. Enquanto outras cidades litorâneas apostavam em ritmos populares de massa, o município decidiu investir em jazz e blues. A escolha parecia arriscada: como convencer turistas e moradores a trocar o axé e o pagode por improvisos sofisticados e harmonias complexas? O resultado surpreendeu. Em pouco tempo, o festival local tornou-se referência, reunindo artistas consagrados e revelando novos talentos. Hoje, é considerado o maior evento gratuito de jazz da América Latina, com palcos espalhados pela cidade e uma atmosfera que transforma o balneário em uma verdadeira metrópole cultural durante os dias de celebração. 

O festival não é apenas um acontecimento anual; ele moldou a identidade de Rio das Ostras. Cafés, bares e praças passaram a receber apresentações musicais ao longo do ano. Escolas de música se multiplicaram, e jovens talentos encontram incentivo para seguir carreira. O jazz deixou de ser um gênero distante e elitizado para se tornar parte da rotina da cidade. É comum ver famílias inteiras acompanhando shows ao ar livre, crianças aprendendo instrumentos e turistas encantados com a qualidade das apresentações. 

Mas Rio das Ostras não se resume à música. A cidade também se destaca por sua relação com a arte e a memória. A escultura monumental da baleia jubarte, instalada em Costazul, tornou-se símbolo do município. Com seus 20 metros de comprimento, a obra celebra a presença frequente desses gigantes marinhos na costa fluminense e reforça o vínculo da cidade com o oceano. Além disso, sítios arqueológicos como sambaquis milenares revelam que a região já era habitada há milhares de anos, guardando vestígios de culturas ancestrais que conviviam em harmonia com o ambiente. 

O magnetismo cultural e natural de Rio das Ostras tem reflexo direto na demografia. Nos últimos anos, milhares de pessoas escolheram o município como novo lar. O crescimento populacional é um dos mais acelerados do estado, impulsionado pela infraestrutura em expansão, pela tranquilidade das praias e pela sensação de segurança que a cidade transmite. Diferente de grandes centros urbanos, Rio das Ostras oferece um cotidiano mais sereno, sem abrir mão de serviços modernos e oportunidades de trabalho. 

O festival de jazz não é apenas um espetáculo artístico; ele movimenta a economia local de forma significativa. Hotéis, pousadas e restaurantes registram lotação máxima durante os dias de evento. Artesãos e comerciantes aproveitam para expor seus produtos, e a cidade inteira se beneficia do fluxo de visitantes. Estudos apontam que o retorno financeiro do festival é expressivo, justificando o investimento público e privado na manutenção da programação. Mais do que entretenimento, o jazz tornou-se motor de desenvolvimento. 

Quem chega a Rio das Ostras encontra uma combinação rara: praias de águas calmas, lagoas de beleza singular, trilhas ecológicas e uma agenda cultural vibrante. Costazul, Praia da Tartaruga, Lagoa de Iriry e Boca da Barra são apenas alguns dos cenários que encantam moradores e turistas. A cada esquina, a cidade revela um detalhe que reforça sua vocação para acolher. Não é à toa que tantos escolhem fixar residência ali, buscando equilíbrio entre trabalho, lazer e qualidade de vida.

O desafio agora é manter o ritmo de crescimento sem perder a essência. Rio das Ostras precisa continuar investindo em cultura, preservação ambiental e infraestrutura urbana. O título de capital do Jazz não é apenas uma honraria; é uma responsabilidade. Significa ser referência, inspirar outras cidades e mostrar que é possível transformar música em ferramenta de cidadania e desenvolvimento. 

Rio das Ostras é mais do que um destino turístico. É um exemplo de como uma cidade pode reinventar-se a partir da cultura, valorizando suas raízes e projetando-se para o mundo. Ao unir praias tranquilas, patrimônio histórico e um festival de jazz de relevância internacional, o município consolidou-se como a capital do Jazz no Brasil. Uma cidade que cresce, acolhe e encanta e que prova que a música pode ser o coração pulsante de uma comunidade inteira. 

© Alberto Araújo

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segunda-feira, 4 de maio de 2026

31 - A ARQUITETURA DO INVISÍVEL: O MAPA DA EXISTÊNCIA EM JOÃO 14 ENSAIO ACADÊMICO-JORNALÍSTICO © ALBERTO ARAÚJO

Há capítulos na Bíblia que funcionam como janelas abertas para o coração humano. João 14 é um desses momentos raros, em que palavras ditas em meio à dor se transformam em pilares de esperança. O cenário é a Última Ceia: um ambiente carregado de tensão, onde Jesus prepara seus discípulos para enfrentar o vazio da ausência. Não é apenas um texto religioso; é uma reflexão sobre perda, identidade e futuro. 

Imagine o ambiente: os discípulos estão reunidos, mas o ar está denso. Jesus havia acabado de anunciar três golpes devastadores, que partiria em breve, que seria traído por um amigo próximo e que Pedro, o mais corajoso, o negaria. É nesse contexto de colapso emocional que Ele pronuncia uma frase que atravessa os séculos: “Não se perturbe o vosso coração.” 

No grego original, a palavra usada para “perturbar” (tarassesthō) não é leve. Ela descreve águas agitadas por ventos fortes, como um mar em tempestade. Jesus não está oferecendo um otimismo superficial, mas uma ordem firme: não deixem que o coração seja arrastado pelo tumulto. Ele propõe uma confiança sólida, comparável a uma âncora lançada em meio ao caos. 

Um dos pontos mais mal interpretados da tradição cristã é a expressão “na casa de meu Pai há muitas moradas.” Durante séculos, muitos imaginaram mansões celestiais, como se o céu fosse um condomínio de luxo. Mas o termo grego significa “lugares de permanência”, não construções físicas. 

Na cultura judaica, a “casa do pai” era símbolo de segurança, herança e pertencimento. Jesus está desconstruindo a ideia de espaço físico para apresentar uma geografia espiritual. Preparar um lugar não é erguer paredes, mas abrir a possibilidade de viver em comunhão com Deus. O céu, portanto, não é apenas um destino após a morte, mas um estado de presença e relação já acessível no presente. 

Tomé, sempre prático e cético, verbaliza a dúvida que muitos carregam, está no Versículo, Jo 14,5: Disse-lhe Tomé: “Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?”.  O contexto é quando Jesus está na Última Ceia, falando aos discípulos sobre sua partida para a casa do Pai e a preparação de um lugar para eles. Jesus respondeu: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim" em Jo 14,6. 

Essa pergunta traduz a insegurança humana diante do desconhecido. Queremos mapas, direções claras, garantias. A resposta de Jesus é uma das declarações mais fortes do Evangelho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.” Aqui, Ele não se coloca como um guia que aponta uma estrada, mas como a própria estrada. 

Caminho: Ele elimina o abismo entre o humano e o divino.

Verdade: Ele desmascara ilusões e mostra a realidade última.

Vida: Ele transcende a biologia, oferecendo existência plena. 

Seguir Jesus não é cumprir regras, mas relacionar-se com uma Pessoa que se torna o próprio percurso. 

Se Tomé representa o cético, Filipe encarna o místico impaciente. Ele pede: “Mostra-nos o Pai, isso nos basta!” Essa passagem se encontra no Evangelho segundo João, Capítulo 14, versículo 9. 

É o clamor humano por uma prova visível da divindade. Queremos ver para crer. A resposta de Jesus é carregada de ternura e revelação: “Quem me viu, viu o Pai.”  

Essa frase é o coração do Cristianismo. Deus não é uma entidade distante, escondida atrás de nuvens ou leis frias. Se quisermos saber como Deus age diante da dor, da exclusão ou do perdão, basta olhar para Jesus. Ele é a face humana de Deus. O invisível se torna visível.

O discurso culmina em uma promessa surpreendente: “Vocês farão obras maiores do que estas.” Como superar milagres sobre a natureza e a morte? A chave está na escala, não na intensidade. Enquanto Jesus estava limitado a uma região específica, Sua partida abriu espaço para que a mensagem se espalhasse pelo mundo inteiro. 

As “obras maiores” não são necessariamente mais espetaculares, mas mais abrangentes. Ao partir, Jesus retira a limitação geográfica de Sua presença física. O "maior" refere-se à expansão: a mensagem que antes estava restrita às poeirentas estradas da Galileia agora habita a arte, a ética, a ciência e o consolo de bilhões ao longo de dois milênios. As obras maiores são o testemunho de uma influência que o tempo não conseguiu apagar.

João 14:1-12 não é apenas um discurso de despedida. É um manifesto de esperança. Jesus não entrega um mapa detalhado, mas oferece Sua mão. Ele nos ensina que o destino final não é um lugar físico, mas uma Pessoa. O lar verdadeiro não é feito de tijolos, mas da presença de quem prometeu nunca nos deixar órfãos.

João 14 é uma arquitetura invisível, um mapa da existência que não se desenha em ruas ou cidades, mas em relações e confiança. Ele nos convida a trocar a ansiedade pelo descanso, a dúvida pela fé, e a solidão pela certeza de que há um lugar preparado, não em termos de espaço, mas em termos de pertencimento. O Evangelho nos ensina que o destino final não é um lugar no mapa cósmico, mas uma Pessoa. Conhecer o Filho é, por extensão, encontrar o caminho de volta para casa um lar que não é feito de tijolos, mas de uma presença que prometeu nunca nos deixar órfãos. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BROWN, Raymond E. The Gospel According to John (XIII–XXI). New York: Doubleday, 1970. Um dos comentários mais respeitados sobre João, com análise detalhada do contexto histórico e teológico. Essencial para aprofundar a leitura acadêmica.

BONHOEFFER, Dietrich. Discipleship. Minneapolis: Fortress Press, 2001. Reflete sobre seguir Cristo como Caminho, oferecendo uma perspectiva prática e radical da fé.

CULLMANN, Oscar. Christ and Time. Philadelphia: Westminster Press, 1964. Estudo sobre a dimensão histórica da fé cristã, útil para entender a promessa das “obras maiores”.

BORTOLINI, José. O Evangelho de João. São Paulo: Paulus, 2003. Comentário popular e pastoral, escrito em linguagem acessível, muito usado em grupos de estudo bíblico no Brasil.

LOPES, Hernandes Dias. João: O Evangelho do Filho de Deus. São Paulo: Hagnos, 2010. Comentário evangélico brasileiro, com aplicação prática e foco na espiritualidade cotidiana.

CARSON, D. A. The Gospel According to John. Grand Rapids: Eerdmans, 1991. Comentário evangélico clássico, com foco na aplicação prática e na defesa da historicidade do texto.

MOLONEY, Francis J. The Gospel of John. Collegeville: Liturgical Press, 1998.  Parte da série Sacra Pagina, oferece uma leitura pastoral e acadêmica equilibrada, útil para compreender João 14 em sua dimensão espiritual.

SCHNACKENBURG, Rudolf. The Gospel According to St. John, Vol. 3. London: Burns & Oates, 1982. Obra monumental da exegese católica alemã, com profundidade filológica e teológica.

WRIGHT, N. T. John for Everyone, Part 2: Chapters 11–21. London: SPCK, 2004. Comentário acessível e pastoral, escrito em linguagem clara, ideal para conectar João 14 ao público contemporâneo.

TILLICH, Paul. The Courage to Be. New Haven: Yale University Press, 1952. Não é um comentário bíblico, mas uma obra filosófica que ilumina o sentido existencial da frase “Não se perturbe o vosso coração”.

STORNIOLO, Ivo. Comentário ao Evangelho de João. São Paulo: Paulus, 1992. Comentário católico brasileiro, com atenção ao contexto comunitário e pastoral.



MINHA DOCE CASA QUE EU AMO - POEMA DE @ ALBERTO ARAÚJO


Dentro destas paredes, encontrei o meu fôlego,

Uma arquitetura feita de luz e de verde.

Esta é a minha doce casa, a que eu amo.

Uma cortina suspensa de renda esmeralda cai do teto,

Frondes delicadas de uma samambaia,

Medindo o tempo não em horas, mas em crescimento,

Uma cachoeira vegetal congelada em sua descida.

Abaixo dela, a paciência silenciosa de uma orquídea,

Suas raízes como uma barba emaranhada e prateada,

Enroladas dentro de seu vaso transparente e simples,

Uma âncora no ar, uma residente silenciosa

Contente em existir entre dois mundos.

Na prateleira de madeira escura, um pequeno vaso de barro,

Vermelho terra e humilde, guarda uma vida de folhas minúsculas.

Um estudo de contrastes: o pequeno ao lado do grandioso,

A prova de que o lar é encontrado no detalhe mais sutil.

Desvio o olhar da pequenez para a vastidão,

Através do vidro que emoldura o mundo impossível,

Onde o oceano se espalha como uma mesa azul,

Um lugar plano e cintilante de sal e de vento.

E no horizonte, a grande cidade reduz-se a uma linha,

Um gráfico delicado de torres e janelas,

Sob o olhar das montanhas que já estavam aqui muito antes,

Gigantes adormecidos que guardam esta vista.

Entre a samambaia e o oceano, entre o vaso e o céu,

Aqui está o meu silêncio.

Aqui está o equilíbrio perfeito.

 

Minha doce casa, que eu amo, um lugar onde as plantas crescem

Enquanto eu encontro o meu próprio lugar para descansar.

E isso é o suficiente.

 

@ Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



domingo, 3 de maio de 2026

HOMENAGEM A NÉLIDA PIÑON: LEGADO E INSPIRAÇÃO © ALBERTO ARAÚJO EM MEMÓRIA E CELEBRAÇÃO (IN MEMORIAM)

Ao olhar para a foto que ilustra este texto, foto feita durante a Solenidade Posse da Diretoria da Academia Brasileira de Letras, em 2017, onde Nélida se tornava a Secretária–Geral da instituição, vejo muito mais do que um encontro fortuito. Vejo a materialização de uma admiração profunda, capturada no reflexo de um do sorriso discreto, e ao mesmo tempo muito eloquente.

Aquele sorriso, ligeiramente esboçado nos lábios de Nélida Piñon, não era apenas uma resposta à câmera; era a assinatura de sua alma. Uma alma que transbordava histórias, que via o mundo através de lentes repletas de poesia, e que, com uma delicadeza ímpar, traduzia a complexidade da condição humana em palavras que tocavam o âmago de quem as lia. 

Se hoje, 03 de maio de 2026, Nélida estivesse fisicamente entre nós, estaríamos celebrando os seus 89 anos, segundo site da Academia Brasileira de Letras seria mais um ano de sua vida vibrante e criativa. Mas o destino nos privou de sua presença física em dezembro de 2022. No entanto, sua obra, sua essência e seu legado permanecem mais vivos do que nunca.

Nélida Piñon não foi apenas uma escritora; ela foi uma instituição literária. Nascida no Rio de Janeiro, em 03 de maio de 1934, filha de imigrantes galegos, ela trouxe em seu DNA a mistura rica das culturas que formaram a alma brasileira. E foi essa herança que ela explorou com maestria em suas obras, entrelaçando a tradição oral e a escrita refinada, a história e a ficção, o pessoal e o universal. 

Sua trajetória literária começou cedo, com a publicação de seu primeiro romance, Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, em 1961. Desde então, sua caneta nunca parou. Com uma proliferação invejável, ela nos presenteou com obras-primas como A República dos Sonhos, Vozes do Deserto, Livro das Horas, O Pão de Cada Dia, e muitas outras que se tornaram indispensáveis para compreender a alma brasileira. 

Sua importância transcendeu as fronteiras do país. Nélida foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL), um marco histórico que rompeu barreiras e abriu caminho para futuras gerações de escritoras. Sua obra foi traduzida para inúmeros idiomas e recebeu prêmios de prestígio internacional, como o Prêmio Juan Rulfo de Literatura Latino-Americana e do Caribe e o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras, entre muitos outros.

O que torna a escrita de Nélida Piñon tão inspiradora? Para mim, a resposta reside em sua capacidade única de capturar a essência da vida com uma profundidade e uma sensibilidade raramente vistas. Seus textos não são apenas histórias; são convites para refletir sobre a existência, o amor, a perda, a esperança, o tempo e a memória. 

Nélida possuía o dom de dar voz aos silêncios, de revelar as emoções mais íntimas dos seus personagens, de transformar o ordinário em extraordinário. Suas palavras eram como pinceladas em uma tela, criando imagens vívidas que ficavam gravadas na mente do leitor.

Ao ler Nélida, somos transportados para mundos distantes e, ao mesmo tempo, tão familiares. Ela nos faz sentir a dor da perda e a alegria da descoberta. Ela nos ensina a olhar para o mundo com mais compaixão e a valorizar a beleza da vida em suas múltiplas formas. 

E é exatamente essa conexão profunda com a essência humana que vejo no sorriso discreto da foto. É o sorriso de quem conhecia os segredos do coração, de quem se deliciava com a beleza das palavras e de quem encontrava na literatura uma forma de se conectar com o mundo e com o próximo. 

Ao olhar para aquela foto, sinto a presença dela em cada uma das suas obras. Sinto o cheiro do papel envelhecido, o som das páginas sendo viradas, o toque das palavras em minha alma. Sinto a chama sagrada da literatura brasileira, que Nélida Piñon manteve acesa com tanto carinho e dedicação. 

Neste 3 de maio, convido vocês a se juntarem a mim na celebração da vida e da obra de Nélida Piñon. Que tal ler um de seus livros, ou reler seu favorito? Que tal compartilhar uma de suas frases inspiradoras nas redes sociais? Que tal simplesmente dedicar um momento de reflexão a tudo que ela nos deixou? 

A melhor maneira de homenagear a Dama da Literatura Brasileira é manter viva a sua obra e a sua mensagem. Vamos ler Nélida Piñon! Vamos nos inspirar por sua escrita! Vamos nos emocionar com suas histórias! Vamos celebrar a chama sagrada que ela nos deixou! 

Escrever este texto foi uma experiência profunda e emocionante. Ao relembrar a trajetória de Nélida Piñon e reler suas obras, senti-me mais uma vez tocado pela força e pela beleza de sua escrita. Espero que este texto possa inspirar outras pessoas a descobrirem ou redescobrirem a obra dessa grande escritora brasileira.

Nélida Piñon foi mais do que uma escritora; ela foi uma mentora, uma inspiração, uma voz que se levantou para defender a beleza e a importância da literatura. Sua ausência é sentida, mas sua obra permanece como um baluarte, iluminando nosso caminho e nos lembrando de que a literatura é a alma de um povo.

Que possamos todos nos inspirar pelo sorriso discreto de Nélida Piñon, e que possamos todos contribuir para manter viva a chama sagrada da literatura brasileira 

Viva Nélida Piñon! Viva a Literatura Brasileira! 

© Alberto Araújo




EUDERSON KANG TOURINHO: A SINFONIA ENTRE A CIÊNCIA, O OLHAR E A VIDA - HOMENAGEM DO FOCUS PORTAL CULTURAL

 

(Clicar na imagem para assistir ao vídeo)

Há homens que passam a vida decifrando o invisível. Alguns o fazem através das lentes precisas da medicina, onde cada sombra em um exame revela um segredo da vida; outros o fazem através do visor de uma câmera, onde a luz do sol de Rondônia ou o verde das matas brasileiras contam histórias que as palavras não alcançam. Dr. Euderson Kang Tourinho é o raro expoente que habita esses dois mundos com a mesma maestria e, acima de tudo, com a mesma alegria.

Hoje, o calendário nos convida a celebrar o nascimento deste pioneiro. Mas, para nós do Focus Portal Cultural, o aniversário de Euderson não é apenas uma efeméride: é a exaltação de um espírito que se mantém jovem, curioso e profundamente humano. 

Enquanto a medicina brasileira o reconhece como o mestre que introduziu técnicas revolucionárias, transformando o diagnóstico por imagem em uma ciência de absoluta precisão, seus amigos o reconhecem pelo sorriso largo e pela elegância no trato. Euderson não é apenas o acadêmico de currículo impecável, doutor pela UFRJ e membro honorário de prestigiadas instituições. Ele é a prova de que o conhecimento técnico, quando desprovido de humanismo, é infrutífero. E ele é tudo, menos infrutífero. 

Sua trajetória é banhada por uma sensibilidade única. O mesmo homem que analisa a complexidade de um nódulo tireoidiano é o artista que se emociona com a preservação do meio ambiente, expondo pelo mundo afora fotografias que são, na verdade, manifestos de amor à vida. 

A felicidade de Euderson encontra seu porto seguro e sua maior cúmplice em Ana Maria Tourinho. É impossível falar da luz que ele emana sem mencionar a parceria luminosa com a nossa Vice-Presidente Mundial Cultural da Rede Sem Fronteiras. Eles não são apenas um casal; são um "elos" de cultura e afeto. Juntos, eles transformam a convivência social em um exercício de acolhimento, fazendo da casa e da presença deles um refúgio de inteligência e bondade. 

Para Ana Maria, ele é o companheiro de todas as horas; para nós, o casal é o exemplo vivo de que a cultura e o amor são as pontes que realmente importam.

Nós, que temos a honra de caminhar ao lado de Euderson há tantos anos, sabemos que sua maior especialidade não está nos livros de radiologia, mas na arte de ser amigo. Ele é uma pessoa "agradável" no sentido mais profundo da palavra: alguém que agrega, que ouve e que celebra o sucesso alheio como se fosse seu. 

O Focus Portal Cultural hoje se veste de festa. Celebramos o médico pioneiro, o fotógrafo premiado e o cidadão do mundo. Mas, acima de tudo, celebramos o Euderson que nos ensina que o segredo da longevidade não está apenas na saúde do corpo, mas na disposição da alma em ser feliz.

Ao nosso querido Dr. Euderson Tourinho, nosso abraço fraterno. Que os horizontes continuem se abrindo para o seu olhar atento, e que a vida continue lhe retribuindo toda a beleza que você, através da ciência e da arte, tem oferecido ao mundo.

Parabéns, Euderson pelo seu dia!

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



BIOGRAFIA DE EUDERSON KANG TOURINHO 

Acadêmico, professor, médico e artista, Euderson Kang Tourinho nasceu em 03 de maio de 1950, em Porto Velho, Rondônia, filho de Euro Tourinho e Maria do Carmo Kang Tourinho. Desde cedo, cresceu em um ambiente permeado pela cultura e pelo jornalismo, já que seu pai, Euro Tourinho, foi um dos mais importantes jornalistas da região Norte, fundador e diretor do jornal Alto Madeira, veículo que marcou gerações e se tornou referência na imprensa amazônica. Essa convivência com o universo da comunicação moldou em Euderson uma sensibilidade especial para compreender o papel da informação e da cultura na transformação da sociedade. 

Em 1975, formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Movido por uma curiosidade insaciável e pelo desejo de aprofundar o conhecimento científico, especializou-se em Radiologia, Medicina do Trabalho e Ultrassonografia. Realizou estágios de aperfeiçoamento no Japão e em Miami, nos Estados Unidos, experiências que ampliaram sua visão sobre a prática médica e o colocaram em contato com técnicas de ponta. 

Sua trajetória acadêmica foi consolidada com mestrado e doutorado em Radiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao longo das décadas, tornou-se referência nacional na ultrassonografia, introduzindo no Brasil métodos inovadores como a punção aspirativa com agulha fina para nódulos tireoidianos e a alcoolização desses nódulos. Essas técnicas revolucionaram o diagnóstico e o tratamento, permitindo abordagens menos invasivas e mais eficazes, e posicionaram o Dr. Euderson como pioneiro em sua área. 

Tourinho participou de centenas de congressos, simpósios e comissões científicas, sempre levando consigo a marca da inovação e da busca por excelência. Orientou dissertações de mestrado e doutorado, transmitindo às novas gerações não apenas conhecimento técnico, mas também valores éticos e humanistas. Sua atuação como professor foi marcada pela capacidade de inspirar, de despertar nos alunos a paixão pela ciência e pela investigação. 

Recebeu diversas homenagens, medalhas e prêmios, entre eles a Medalha de Mérito e o Prêmio João Luiz Campos Soares, reconhecimentos que simbolizam sua contribuição à medicina brasileira. 

Se na medicina Euderson se destacou pela precisão científica, na arte revelou sua sensibilidade estética. Fotógrafo premiado, realizou exposições no Brasil e no exterior, com foco no meio ambiente e na preservação da natureza. Suas imagens não eram apenas registros visuais, mas narrativas poéticas que uniam ciência e arte, técnica e emoção. A fotografia, para ele, era uma extensão da medicina: um olhar atento, capaz de revelar detalhes invisíveis ao olhar comum. 

Essa dimensão artística dialogava diretamente com sua herança familiar ligada ao jornalismo. Assim como seu pai utilizava a palavra impressa para informar e transformar, Euderson utilizava a imagem para sensibilizar e conscientizar. Cultura e ciência, em sua trajetória, nunca estiveram separadas: eram faces complementares de uma mesma missão.

O vínculo com o jornalismo foi constante. Filho de Euro Tourinho, um ícone da imprensa rondoniense, Euderson cresceu em meio às discussões sobre ética, informação e responsabilidade social. Embora tenha seguido a medicina como profissão, manteve viva a chama da comunicação, participando de debates culturais e científicos e contribuindo para a difusão de conhecimento em revistas, jornais e eventos acadêmicos. Sua biografia é, portanto, também um elo entre medicina e jornalismo, entre ciência e cultura, entre técnica e sensibilidade. 

Membro honorário de diversas academias, Dr. Euderson Kang Tourinho representa uma vida dedicada ao conhecimento, à arte e ao serviço à sociedade. Sua trajetória é marcada pela interdisciplinaridade: médico inovador, professor inspirador, artista sensível e herdeiro de uma tradição jornalística que valorizava a verdade e a cultura. 

A trajetória de Euderson Kang Tourinho não se limita ao campo da medicina e da arte, mas também se projeta no universo da comunicação. Em 2025, ao lado de sua esposa Ana Maria Tourinho, foi agraciado com o Troféu FENACOM de Jornalismo, reconhecimento que simboliza a excelência da comunicação e a valorização da tradição jornalística brasileira. 

Na solenidade, ambos foram celebrados como “nossos admiráveis confrades”, expressão que traduz a síntese entre tradição e diálogo contemporâneo. O prêmio destacou não apenas a herança familiar ligada ao jornalismo, mas também a capacidade de Euderson e Ana Maria de promover a integração entre ciência, cultura e comunicação. 

A cerimônia contou com a presença de autoridades e personalidades, entre elas o Governador de Rondônia, Coronel Marcos Rocha. Nesse contexto, a participação de Ana Maria Tourinho foi descrita como um elo geográfico e intelectual: a Paraíba abraçando Rondônia, e o Brasil se reconhecendo como unidade comunicacional. A premiação simbolizou, portanto, a união de diferentes regiões e tradições em torno de um mesmo ideal: a valorização da informação como instrumento de cidadania. 

O Troféu FENACOM 2025 consolidou a imagem de Euderson e Ana Maria Tourinho como figuras que transcendem fronteiras disciplinares, representando a convergência entre jornalismo, ciência e cultura. Esse reconhecimento reforça a dimensão comunicacional de sua biografia, evidenciando que sua atuação não se restringe ao campo médico, mas se estende à construção de pontes entre saberes e territórios. 

A trajetória de Euderson Kang Tourinho também se inscreve na história da Academia de Medicina do Rio de Janeiro (AMRJ), instituição que congrega expoentes da ciência médica nacional. Em solenidade realizada na Casa de Festas Spazio 26 Rio, situada na Real Grandeza, 26, Botafogo – Rio de Janeiro, Tourinho desempenhou o papel de orador oficial do evento. 

O ponto alto da cerimônia foi a apresentação dos novos imortais, cujas trajetórias formam um mosaico representativo da melhor ciência produzida no Brasil e no mundo. Em seu discurso, Tourinho destacou a relevância da interdisciplinaridade e da inovação como pilares da medicina contemporânea, conferindo à solenidade um caráter de celebração da ciência e da cultura. 

Entre os homenageados, ressaltou-se a recepção de José Oscar Reis Brito na Seção de Cirurgia (Cadeira Patrono Dr. Jayme Espectorov). Com especializações em Paris, Londres e Maastricht, Brito foi descrito por Tourinho como um “arquiteto do coração humano”, cuja atuação em projetos de vanguarda, como o uso de células-tronco e o prestigiado STICH Trial, exemplifica a cirurgia moderna como arte que salva vidas pela inovação. 

Na Seção de Medicina, o destaque recaiu sobre Regina Casz Schechtman, autoridade mundial em Dermatologia e Micologia, com carreira moldada na UERJ e na Universidade de Londres. Sua liderança no Instituto Rubem David Azulay e sua influência na FIDE e na Academia Americana de Dermatologia foram celebradas por Tourinho como um triunfo da clínica minuciosa. Em seu discurso, descreveu Regina como uma “decifradora de pergaminhos antigos”, metáfora que traduz sua habilidade ímpar em interpretar os sinais ocultos da pele humana. 

A noite foi coroada pela entrada do neurocientista Roberto Lent como Acadêmico Honorário. Professor Emérito da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Ciências, Lent é reconhecido por sua obra Cem Bilhões de Neurônios, que popularizou o conhecimento sobre o cérebro humano. Tourinho destacou sua contribuição como a união entre ciência de ponta e divulgação cultural, ressaltando o papel da neurociência na compreensão da humanidade.

A participação de Euderson Kang Tourinho como orador da solenidade reafirma sua posição de liderança intelectual e cultural, consolidando sua imagem como figura que transita entre ciência, arte e comunicação, e que contribui para a valorização da medicina brasileira em âmbito nacional e internacional.

O legado de Euderson transcende fronteiras. Ele inspira médicos que buscam novas técnicas, estudantes que desejam compreender a ciência em sua profundidade, artistas que veem na fotografia uma forma de expressão e jornalistas que acreditam no poder da informação como instrumento de transformação social. Sua vida é um testemunho de que ciência e cultura não são mundos separados, mas dimensões que se enriquecem mutuamente. 

© Alberto Araújo

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sábado, 2 de maio de 2026

O MUSEU DA NATUREZA: UM PORTAL NO CORAÇÃO DA SERRA DA CAPIVARA - © ALBERTO ARAÚJO - FOCUS PORTAL CULTURAL

 

No extremo sul do Piauí, aninhado entre as formações rochosas monumentais do Parque Nacional da Serra da Capivara, surge uma estrutura circular que parece ter brotado do solo: o Museu da Natureza. Inaugurado em 2018, este equipamento cultural é uma obra-prima que integra arquitetura, ciência e a vastidão do tempo geológico.

O Museu da Natureza, localizado no Parque Nacional da Serra da Capivara, Coronel José Dias, PI, é um espaço tecnológico e interativo que narra a evolução da vida e da região do semiárido. Projetado em forma de espiral, oferece experiências imersivas, fósseis, simulações de voo e exibições sobre mudanças climáticas e a Caatinga.

Enquanto o Museu do Homem Americano foca na trajetória humana, o Museu da Natureza propõe um mergulho ainda mais profundo. Ele narra a evolução da biodiversidade e as mudanças climáticas que moldaram a região ao longo de milhões de anos. Ao percorrer seus corredores em espiral,  uma metáfora para a própria passagem do tempo, o visitante descobre que o sertão piauiense já foi um fundo de mar e uma floresta úmida, habitada por uma megafauna impressionante.

Fósseis da Megafauna. O museu abriga réplicas e fósseis de criaturas gigantescas, como preguiças-terrestres e tigres-dentes-de-sabre, que outrora dominaram a paisagem hoje ocupada pela Caatinga.

Imersão Sensorial. Através de projeções de alta tecnologia, sons ambientes e exposições interativas, o museu faz com que a história da Terra "ganhe vida". É possível entender a formação do Sistema Solar, o surgimento da vida e as adaptações da fauna e flora locais.

Arquitetura Sustentável. O prédio, desenhado para se camuflar na paisagem, utiliza ventilação natural e luz solar, criando um ambiente que respeita a ecologia do entorno.

Como bem diz o vídeo, o Piauí revela ali a sua "beleza que sobrevive". O museu não é apenas um depósito de ossos e pedras, mas um testemunho da resiliência da vida. Ele celebra a Caatinga, o único bioma exclusivamente brasileiro, e mostra que a força da natureza atravessa os séculos, permanecendo vibrante e pulsante.

Visitar o Museu da Natureza é, acima de tudo, um exercício de humildade e admiração. É entender que fazemos parte de um ciclo contínuo de transformação, onde cada pedra furada e cada raiz de mandacaru guarda uma história esperando para ser lida.

© Alberto Araújo

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Informações Essenciais

 

Funcionamento: Quarta a domingo, das 13h às 19h (bilheteria fecha às 18h).

Ingresso: R$ 50,00, inteira. Meia entrada disponível para estudantes, idosos, crianças, menores de 12, pessoas com deficiência e grupos a partir de 10 pessoas.

Localização: Próximo ao Parque Nacional da Serra da Capivara, cerca de 524 km de Teresina.

Destaques: Exposições interativas, simulador de asa-delta sobre o parque, esqueleto de preguiça-gigante e filmes temáticos. O museu, criado pela arqueóloga Niède Guidon, é um dos poucos focados em ciência fora das grandes capitais brasileiras e funciona como um pilar de turismo sustentável e conservação na região

 













30 - O VERBO COMO ESPELHO DA ETERNIDADE - ENSAIO ACADÊMICO-CULTURAL © ALBERTO ARAÚJO

A história da humanidade não é escrita apenas pelos tratados de paz, pelas fronteiras movidas a ferro e fogo ou pelas descobertas científicas que alteram a nossa percepção da matéria. Existe uma história paralela, por vezes mais real do que a própria realidade, que reside nas páginas dobradas pelo tempo e nas palavras que sobreviveram aos incêndios das bibliotecas e ao esquecimento dos séculos. Esta é a história da literatura o esforço hercúleo do espírito humano para dar nome ao inominável, para organizar o caos da existência em estrofes e parágrafos, e para garantir que o pensamento de um indivíduo possa ecoar na consciência de outro, séculos após o seu último suspiro. 

A literatura é a tecnologia mais sofisticada de empatia e imortalidade que já concebemos. Enquanto a pintura captura o instante e a música a emoção abstrata, o texto literário captura a estrutura do pensamento. Quando abrimos um volume de um escritor clássico, não estamos meramente consumindo informações; estamos permitindo que um fantasma nos habite. Estamos cedendo nosso ritmo cardíaco e nossa imaginação para que as dúvidas de Hamlet, a melancolia de Bentinho ou o desespero de Raskólnikov voltem a pulsar. É nesse encontro místico entre o leitor e o autor que a cultura se solidifica. 

Falar de "escritores famosos da humanidade" exige, portanto, um olhar que vá além da fama comercial ou da presença em currículos escolares. Os grandes nomes que pontuam este ensaio são aqueles que operaram rupturas. Antes de Dante Alighieri, o inferno era um conceito vago; depois dele, tornou-se uma geografia detalhada de pecado e redenção. Antes de Miguel de Cervantes, a loucura era um estigma ou um castigo divino; com ele, a loucura tornou-se a dignidade de quem se recusa a aceitar um mundo desprovido de magia. 

O impacto desses autores é tamanha que eles moldaram as próprias línguas em que escreveram. O inglês moderno é, em grande parte, uma construção shakespeariana. O português brasileiro encontrou sua maturidade intelectual sob a pena irônica e cirúrgica de Machado de Assis. A alma russa, com sua vastidão e suas contradições, foi mapeada por Dostoiévski e Tolstói de tal maneira que a psicologia moderna ainda bebe nessas fontes para entender os abismos do eu.

Neste ensaio, propomos uma jornada pelos pilares desse templo invisível. Investigaremos como a palavra escrita deixou de ser um privilégio de castas para se tornar o grito de liberdade de uma consciência que se descobre única. Veremos como o romance evoluiu da epopeia heroica para o fluxo de consciência, acompanhando a própria fragmentação do homem moderno. A literatura é, em última análise, o registro de que estivemos aqui, de que sentimos, sofremos e, acima de tudo, de que tentamos compreender o mistério que é ser humano. Ao mergulharmos nestes perfis, não estamos apenas estudando o passado, mas buscando as chaves para decifrar o presente e as sombras que projetamos sobre o futuro. 

A sombra e a luz na alma russa: Dostoiévski e Tolstói 

Mergulhar na literatura russa do século XIX é como entrar em um tribunal onde a humanidade é julgada em sua instância máxima. Fiódor Dostoiévski e Lev Tolstói representam as duas faces de uma mesma moeda existencial. 

Fiódor Dostoiévski

Dostoiévski é o mestre do subsolo. Em obras como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, ele explora as profundezas abjetas da psique. Ele nos confronta com a ideia de que o homem é capaz do mais puro sacrifício e da mais vil crueldade, muitas vezes simultaneamente. Sua escrita é febril, urgente e profundamente espiritual, tratando a redenção como um caminho que passa, necessariamente, pelo sofrimento. 

Lev Tolstói 

Enquanto Dostoiévski olha para dentro, Tolstói olha para fora e para o todo. Guerra e Paz e Anna Karenina são monumentos à vida em sua totalidade. Tolstói captura o movimento das massas e o detalhe microscópico de um gesto doméstico com a mesma maestria. Para ele, a literatura era uma forma de buscar a verdade moral e a simplicidade em meio ao caos da civilização. 

O Arquiteto do Humano: William Shakespeare 

Se existe um ponto de partida inevitável em qualquer discussão sobre a imortalidade literária, este é o "Bardo de Avon". Shakespeare não apenas escreveu peças; ele inventou a psicologia moderna antes mesmo de o termo existir. Em suas tragédias e comédias, o autor inglês dissecou a ambição, o ciúme, a dúvida e o amor com uma precisão que ainda nos assombra. 

Por que Hamlet ainda ressoa? Porque a hesitação diante da ação é uma condição intrínseca ao ser humano. 

Ele não apenas usou a língua inglesa; ele a expandiu, criando milhares de palavras e expressões que utilizamos até hoje, muitas vezes sem saber a origem. 

Shakespeare provou que a literatura não precisa de um tempo específico para ser relevante. Suas obras são "não de uma era, mas para todos os tempos". 

O Engenho e a Loucura: Miguel de Cervantes

Não se pode falar de literatura sem mencionar o nascimento do romance moderno. Com Dom Quixote, Cervantes fez algo revolucionário: ele criou uma obra que era, ao mesmo tempo, uma paródia de gêneros antigos e uma exploração profunda da desilusão e do idealismo. 

A figura do "Cavaleiro da Triste Figura" é o arquétipo do sonhador que colide contra a realidade árida. Cervantes nos ensinou que a ficção pode ser uma ferramenta de crítica social e, mais importante, que a perspectiva do indivíduo por mais distorcida que seja tem valor estético e filosófico. 

A Revolução da Forma: James Joyce e Virginia Woolf 

Ao chegarmos no século XX, a literatura sofre uma ruptura sísmica. O foco muda da "trama" para a "consciência". 

James Joyce: Com Ulysses, Joyce levou a linguagem ao seu limite extremo. Ele demonstrou que um único dia na vida de um homem comum poderia conter a densidade de uma epopeia homérica.

Virginia Woolf: Woolf, por sua vez, refinou o "fluxo de consciência". Em Mrs. Dalloway e Ao Farol, ela capturou a fluidez do tempo e a fragilidade das conexões humanas. Sua escrita é quase impressionista, focando na maneira como a luz do pensamento atinge a realidade.

A Identidade e o Labirinto: Jorge Luis Borges e Machado de Assis. No Sul Global, dois gigantes redefiniram a sofisticação intelectual. 

Machado de Assis

O brasileiro Machado de Assis é, talvez, o maior mestre da ironia na literatura mundial. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ele quebra a "quarta parede" e subverte a narrativa com um pessimismo elegante e uma análise cirúrgica da sociedade de seu tempo. Machado não é apenas um autor nacional; é um autor universal que antecipou técnicas modernistas décadas antes de elas se tornarem moda na Europa. 

Jorge Luis Borges 

O argentino Borges transformou a literatura em metafísica. Seus contos são labirintos, bibliotecas infinitas e espelhos que refletem outros espelhos. Ele provou que a erudição pode ser uma forma de fantasia e que a leitura é, por si só, um ato de criação. 

Por que eles ainda importam? 

Os escritores citados neste ensaio não são apenas nomes em capas de livros clássicos; eles são os guardiões das nossas perguntas mais profundas. Eles nos deram o vocabulário para entender a dor, a alegria, a morte e o absurdo de existir.

Em um mundo cada vez mais dominado por conteúdos efêmeros e algoritmos de atenção rápida, retornar a esses mestres é um ato de resistência cultural. Eles nos lembram de que a literatura não é apenas entretenimento, mas a tecnologia mais sofisticada que o ser humano já inventou para conectar uma mente a outra, através do tempo e do espaço. 

A leitura desses autores não é uma tarefa acadêmica, é um diálogo vivo. Ao abrirmos um livro de Shakespeare ou de Machado de Assis, não estamos apenas lendo o passado; estamos sendo lidos por ele. E é nessa troca que a cultura se mantém vibrante e a humanidade, apesar de todos os seus erros, continua a se narrar. 

A Permanência da Palavra em um Mundo Efêmero

Ao final desta análise, torna-se evidente que a grandeza de um escritor não reside na sua capacidade de descrever o mundo, mas na sua habilidade de criar um mundo que se torne mais real do que a própria experiência sensorial. A literatura de fôlego, aquela que atravessa milênios e fronteiras geográficas, é a que consegue tocar em nervos expostos que a modernidade, com toda a sua pressa e ruído tecnológico, muitas vezes tenta anestesiar. 

Vivemos em uma era de saturação de informações, onde o texto é frequentemente reduzido a fragmentos de atenção rápida e caracteres limitados. Nesse cenário, o retorno aos clássicos e aos grandes ensaístas da cultura humana não é um ato de nostalgia passiva ou de pedantismo acadêmico; é, fundamentalmente, um ato de resistência existencial. Ler Woolf, Joyce, Borges ou Machado é retomar o controle sobre o próprio tempo. É recusar a superficialidade e aceitar o convite para a profundidade, para a ambiguidade e para a complexidade que são inerentes à nossa espécie.

A "fama" desses escritores, portanto, é um testemunho da sua utilidade vital. Eles são bússolas. Em tempos de crise moral, voltamos a Tolstói; em momentos de colapso político ou social, a voz de Orwell ou de Camus nos alerta sobre as armadilhas da tirania e da indiferença. A literatura é o arquivo das nossas falhas e o manual das nossas esperanças. Ela nos ensina que, embora as circunstâncias externas mudem, passamos da carruagem ao foguete, da carta escrita à mão à inteligência artificial, o núcleo do conflito humano permanece inalterado: o medo da morte, o desejo de ser amado, a busca por justiça e a eterna dúvida sobre o nosso propósito. 

Concluímos, portanto, que a cultura literária é o tecido conectivo da humanidade. É o que nos permite sentir luto por um personagem que nunca existiu ou compartilhar a angústia de um autor que viveu em um continente que nunca visitamos. Enquanto houver um leitor disposto a abrir um livro e um escritor capaz de transformar o silêncio em som, a humanidade terá uma chance de se salvar do esquecimento. A palavra escrita é o nosso maior legado; ela é a prova final de que, no imenso vazio do cosmos, fomos capazes de produzir sentido, beleza e, acima de tudo, consciência. O ensaio cultural é apenas um convite para que esse diálogo nunca termine. 

© Alberto Araújo

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Edição Crítica. Rio de Janeiro: Garnier, 1881 (ou edições modernas como as da Penguin Companhia).

BORGES, Jorge Luis. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. Tradução de Sergio Molina. São Paulo: Editora 34, 2002.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. Tradução direta do russo por Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2001.

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano Galindo. São Paulo: Penguin Companhia, 2012.

SHAKESPEARE, William. Hamlet. Tradução de Lawrence Flores Pereira. São Paulo: Penguin Companhia, 2015.

TOLSTÓI, Lev. Guerra e Paz. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

REFERÊNCIAS TEÓRICAS E CRÍTICAS

AUERBACH, Erich. Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2013. (Obra fundamental para entender a evolução do realismo desde Homero até Virgínia Woolf).

BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental: Os Livros e a Escola das Eras. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995. (Referência para a seleção de autores que definem a cultura ocidental).

BLOOM, Harold. Shakespeare: A Invenção do Humano. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.

CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 2004. (Especialmente o ensaio "O Direito à Literatura", que dialoga com a introdução do nosso texto).

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1997. (Base para a análise de Machado de Assis).

ELIOT, T.S. Tradição e Talento Individual. In: Ensaístas Ingleses. Lisboa: Verbo, 1972. (Analisa como o novo escritor altera nossa percepção dos clássicos).

FRANK, Joseph. Dostoievski: Os Anos de Provação, 1850-1859. São Paulo: Edusp, 1999. (A maior biografia e análise crítica sobre o autor russo).

STEINER, George. Tolstói ou Dostoiévski. São Paulo: Perspectiva, 2006. (Estudo comparativo clássico mencionado na análise da "alma russa").

BORGES, Jorge Luis. Curso de Literatura Inglesa. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. (Reforça a tese da conclusão sobre o papel do leitor na preservação da cultura).

PAGLIA, Camille. Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. (Para uma visão sobre os arquétipos literários).


Ensaio e pesquisa

© Alberto Araújo

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Machado de Assis 

Virginia Woolf

Miguel de Cervantes 

Fiódor Dostoiévski


William Shakespeare

Jorge Luís Borges

Liev Tolstói