MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA nasceu em Alcalá de Henares, c. no dia 29 de setembro de 1547 e faleceu em Madrid, no dia 22 de abril de 1616.
Antes de dar ao mundo a maior obra-prima do romance ocidental, Miguel de Cervantes Saavedra foi um homem marcado pelo chumbo, pelo ferro e pelo mofo das prisões. Não há romantismo de gabinete na gênese de Dom Quixote: o homem que batizou para sempre o espanhol como "a língua de Cervantes" escreveu suas páginas mais imortais não com a comodidade dos afortunados, mas com a fúria e a resiliência de quem conheceu os porões do mundo.
Nascido sob o céu incerto de Alcalá de Henares no fim de setembro de 1547, o segundo filho do modesto cirurgião-barbeiro Rodrigo de Cervantes e da destemida Leonor de Cortinas cresceu no ritmo sobressaltado das dívidas da família, aprendendo desde cedo a marchar entre a escassez e a incerteza.
A juventude de Cervantes não foi escrita sobre papel de seda, mas a ferro e fogo. Em 1569, fugindo de Madrid após um duelo que lhe rendeu um mandado de prisão, encontrou abrigo em Roma e, logo depois, na infantaria da Marinha Espanhola. A bordo da galé Marquesa, em meio ao estrondo de canhões na Batalha de Lepanto (1571), o jovem soldado enfrentou a febre e as arcabuzadas otomanas. O saldo daquele combate marcaria seu corpo para sempre: duas feridas no peito e a inutilização definitiva do braço esquerdo. Nascia o "Manco de Lepanto", uma alcunha que carregaria não com pesar, mas com orgulho mítico
Contudo, a tragédia ainda reservava novos capítulos. Em 1575, a caminho de casa, sua embarcação foi aprisionada por corsários berberes. Arrastado para Argel, viveu cinco longos anos como escravo. Esboçou quatro tentativas de fuga cinematográficas, mantendo a altivez e a liderança entre os cativos até ser finalmente resgatado pela ordem dos padres Trinitários em 1580.
De volta a uma Espanha sufocada por crises econômicas, Cervantes viveu o cotidiano duro de quem precisava recolher grãos e impostos para a Coroa. Ironicamente, foram os infortúnios financeiros e uma breve prisão por irregularidades contábeis que abriram as portas da imortalidade: reza a tradição que foi na escuridão da Caverna de Medrano, em Argamasilla de Alba, que sua mente genial começou a tecer as loucuras e verdades de Dom Quixote.
Publicado em duas partes (1605 e 1615), o livro rompeu as estruturas da literatura ao reinventar a arte de narrar. Ao lado de tesouros como as Novelas Exemplares, o poema Viagem do Parnaso e o romance pósfumo Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda (1617), Cervantes fincou a pedra fundamental da ficção moderna.
Nos seus últimos dias, amparado pela Ordem Terceira Franciscana e pelo mecenato do Conde de Lemos, o mestre residiu em Madrid. Partiu em 22 de abril de 1616, vitimado pelo diabetes. Seu sepultamento, ocorrido no dia seguinte no Convento das Monjas Trinitárias Descalças, eternizou o 23 de abril como o Dia Mundial do Livro.
Quase quatro séculos depois, em 2015, a antropologia forense resgatou seus fragmentos ósseos do esquecimento, devolvendo às honras de Estado o homem que, mesmo ferido e empobrecido, deu ao mundo a eterna lição de que o espírito humano é invencível diante do tempo.
© Alberto
Araújo
Focus Portal Cultural
A
história do engenhoso fidalgo Dom Quixote e de seu fiel escudeiro Sancho Pança
conquista leitores geração após geração. O clássico de Miguel de Cervantes é
considerado o expoente máximo da literatura espanhola e, em 2002, foi eleito
por uma comissão de escritores de 54 países o melhor livro de ficção de todos
os tempos. Em homenagem aos 400 anos de morte de Miguel de Cervantes, a Nova
Fronteira traz ao público esta edição especial, com a obra integral em dois
volumes. O texto de Cervantes é acompanhado das belíssimas ilustrações do francês
Gustave Doré, um dos mais fantásticos artistas do século XIX.
As aventuras do Cavaleiro da Triste Figura e de seu fiel escudeiro, Sancho Pança, são recontadas por meio de um texto dinâmico e acessível, nenhum moinho de vento a ser enfrentado. As ilustrações contribuem para o caráter clássico do livro, e há um apêndice sobre o autor e Quixote na literatura, pintura e cinema.
Obra
precursora do romance moderno, o primeiro volume de Dom Quixote é publicado
pela Antofágica com artes que representaram o livro desde o século 17 até
ilustrações inéditas dos dias de hoje. Com tradução de Paula Renata de Araújo e
Silvia Massimini Felix, o livro é vertido do idioma original por mulheres pela
primeira vez no Brasil. Publicado em 1605, Dom Quixote é considerado o grande
clássico da literatura espanhola e uma das principais obras da literatura
mundial. Ao narrar a vida de um admirador de romances de cavalaria que resolve
se tornar ele próprio um cavaleiro andante, Miguel de Cervantes escreveu um
livro rico em perspectivas e que traz reflexões para o leitor a cada causo. Uma
obra que ultrapassa a sátira de histórias medievais e narra acontecimentos
tanto divertidos quanto trágicos, passando também pelos grandes dilemas
universais da existência humana: amor, medo, orgulho, vaidade e loucura. Louco,
porém nem tanto. Quando acompanha as aventuras do cavaleiro gentil ao lado de
seu fiel escudeiro Sancho Pança, o leitor nota que suas fantasias, como a cena
dos gigantes moinhos de vento, acabam sendo desmentidas por uma realidade dura,
às vezes violenta. Assim, nestas incursões idealistas, que dissolvem as
fronteiras entre vida e literatura, o leitor pode se identificar com o
protagonista e entender que podemos não estar tão distantes assim do famoso
Quixote. Esta edição é a primeira do mundo a contar com uma pesquisa de imagens
que representam o livro desde o século 17, além de trazer pinturas de uma gama
seleta de artistas atuais. A seleção de imagens proporciona ao leitor um
passeio por representações de Dom Quixote ao longo de diferentes tempos e geografias,
e conta com nomes como Portinari, Doré, Dalí, Cézanne, Daumier, Goya, Romanelli
e muitos outros, em quase 100 artes. A apresentação é assinada especialmente
por Sergio Drummond, fundador da Antofágica, que convida, com emoção, o leitor
para a história que o fez amar literatura e arte. Nos posfácios, o psicanalista
Christian Dunker disserta sobre a tão famosa loucura quixotesca, a pesquisadora
Maria Augusta da Costa Vieira (USP) faz uma análise sobre o leitor e a leitura
em Dom Quixote, o acadêmico espanhol José Manuel Lucía Megías (Universidade
Complutense de Madri) comenta a pesquisa iconográfica e as representações
visuais do cavaleiro, e as tradutoras Paula Renata de Araújo e Silvia Massimini
Felix escrevem um testemunho sobre a árdua e prazerosa tarefa de tradução. O QR
Code na cinta direciona a duas videoaulas sobre o livro, disponíveis no
YouTube, com Maria Augusta da Costa Vieira, Professora Titular de Literatura
Espanhola da Universidade de São Paulo e a maior especialista em Cervantes no Brasil.













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