Celebrando os 38 anos da estreia. Lançado
em 1988, Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso) não é apenas um filme; é uma
declaração de amor eterna à sétima arte. Sob a direção magistral de Giuseppe
Tornatore, a obra italiana transcendeu fronteiras para se tornar um hino
universal à nostalgia, à amizade e à capacidade que as imagens têm de moldar a
identidade de um indivíduo. Em uma época em que o mundo começava a ser
transformado pelo ruído da modernidade, o longa de Tornatore surgiu como uma
pausa necessária, um convite ao introspectivo e ao sensível.
Giuseppe
Tornatore concebeu esta obra como uma verdadeira crônica da memória. Ambientado
em uma pequena vila na Sicília, o filme narra a trajetória de Salvatore, ou
"Totó", desde sua infância na Itália pós-Segunda Guerra Mundial até
sua vida adulta como um cineasta consagrado. O diretor utiliza uma linguagem
visual elegante, com movimentos de câmera que transmitem intimidade e o peso do
tempo, permitindo que o espectador se sinta um habitante daquele cinema, a sala
de projeção que funciona como o coração pulsante da aldeia.
A força
de Cinema Paradiso reside, fundamentalmente, na química entre seu elenco.
Philippe Noiret, na pele de Alfredo, o projecionista rude, porém profundamente
amoroso, entrega uma atuação antológica. Alfredo é o mentor, o guru, a figura
paterna que Totó perdera na guerra. Do outro lado, o jovem Salvatore é
interpretado pelo cativante Salvatore Cascio, cuja curiosidade nos conduz ao
deslumbramento pela luz projetada no anteparo. Na fase adulta, Jacques Perrin
traz a melancolia de um homem que, embora tenha conquistado o mundo, carrega
consigo a saudade insuperável de suas raízes.
Além da
direção e atuação, a excelência técnica é inegável. A trilha sonora composta
por Ennio Morricone e seu filho, Andrea, é o elemento que mais profundamente
toca a alma do público. O "Tema de Amor" é um lamento musical que
ressoa com a dor do adeus e a beleza da reconciliação com o passado.
A relação
entre Totó e Alfredo é o alicerce emocional da obra. Mais do que um aprendizado
técnico sobre a mecânica das máquinas, Alfredo ensina a Totó como ver o mundo.
O momento de maior sacrifício ocorre quando Alfredo aconselha o adolescente a
partir, a nunca olhar para trás, querendo que o pupilo alcance seu potencial
sem as amarras da estagnação daquela pequena vila.
A cena
final é uma das mais emblemáticas da história do cinema. Trata-se de uma
montagem de beijos censurados pelo padre local ao longo dos anos, guardados e
editados por Alfredo como um presente póstumo. Quando Totó assiste a essa
bobina, a música de Morricone atinge seu ápice emocional. Aquele rolo de filme
é o testamento de um pai para um filho: uma mensagem de que, mesmo ausente,
Alfredo continuou cuidando do crescimento de Totó. O "Fim" (Fine) que
vemos na tela é, na verdade, um novo começo. Salvatore compreende que, para
criar sua própria arte, ele precisou se afastar, mas que o olhar do mentor
sempre esteve presente, editando os cortes da sua realidade.
Para nós,
que vivemos da palavra e da imagem, Cinema Paradiso nos deixa a lição suprema:
o nosso papel como "projecionistas" da cultura é o de resguardador da
memória.
A
montagem final, o presente derradeiro de Alfredo, é composta por fragmentos de
obras clássicas que Totó via na infância. Estes são os filmes que compõem o
legado censurado:
Arroz
Amargo (Riso Amaro, 1949) – Com Vittorio Gassman e Silvana Mangano.
Jejum de
Amor (His Girl Friday, 1940) – Com Cary Grant e Rosalind Russell.
O
Proscrito (The Outlaw, 1943) – Com Jane Russell.
Obsessão
(Ossessione, 1943) – Com Massimo Girotti e Clara Calamai.
Em Busca
do Ouro (The Gold Rush, 1925) – Com Charlie Chaplin e Georgia Hale.
As
Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood, 1938) – Com Olivia de
Havilland e Errol Flynn.
O Filho
do Sheik (The Son of the Sheik, 1926) – Com Rudolph Valentino e Vilma Banky.
A
Felicidade Não se Compra (It's A Wonderful Life, 1946) – Com James Stewart e
Donna Reed.
Belíssima
(Bellissima, 1951) – Com Anna Magnani e Gastone Renzelli.
A Terra
Treme (La Terra Trema, 1948).
Adeus às
Armas (A Farewell to Arms, 1932) – Com Gary Cooper e Helen Hayes.
Senso
(1954) – Com Farley Granger e Alida Valli.
Ao
fecharmos a última cena de Cinema Paradiso, somos invadidos por uma sensação
que vai muito além da melancolia narrativa. O filme de Giuseppe Tornatore não
se encerra quando os créditos sobem; ele reverbera como uma frequência
constante em nossa própria memória. Se a vida, como dizia o próprio Totó em sua
jornada adulta, é um processo de constantes partidas, o cinema se revela como a
única ferramenta capaz de tornar essas partidas suportáveis. A conclusão desta
obra-prima não reside no desfecho trágico ou triunfante de uma carreira, mas no
reconhecimento de que, embora o tempo seja um devorador inexorável, o olhar, o
olhar de um mentor, o olhar do artista, o olhar do espectador, é a única
resistência possível.
Ao
assistir à bobina de beijos que Alfredo guardou com tanto zelo, Salvatore não
está apenas vendo fragmentos de filmes censurados por uma moralidade obsoleta;
ele está recebendo um espelho. Alfredo, em sua sabedoria rústica, compreendeu
algo que Totó levaria décadas para entender: que o cinema não é apenas um
entretenimento para aliviar as dores da vida cotidiana na Sicília, mas o
repositório da nossa humanidade compartilhada. O ato de editar aqueles beijos,
tirando-os da tesoura do padre e colando-os na fita do amor, é um ato de
rebelião poética. É como se Alfredo dissesse ao seu pupilo: "A vida pode
tentar cortar o desejo, a arte pode ser censurada, a igreja pode ditar o que é
pecaminoso, mas o amor, na sua forma mais pura de paixão e movimento, é
eterno".
Essa
montagem final atua como uma cápsula do tempo existencial. Para o Salvatore
adulto, que retorna à sua vila natal para um funeral, o presente de Alfredo não
é um lembrete do passado, mas uma ferramenta de reconciliação. A saudade que
ele carrega, aquela que ele tentou suprimir durante anos de sucesso em Roma,
finalmente encontra um lugar para repousar. O cinema, aqui, funciona como o
"coração da memória". A tela que antes servia para Totó fugir da
realidade, agora serve para ele encarar a sua própria essência. É o encontro do
homem feito com a criança que ele nunca deixou de ser, mediado pela tecnologia
da projeção, essa luz que corta o escuro, essa iluminação que, tal qual a vida,
acontece no intervalo entre o antes e o depois.
Além do
afeto entre mentor e aprendiz, a obra nos convida a uma reflexão sobre a
própria longevidade da cultura. Vivemos em um tempo de efemeridade digital,
onde as imagens são consumidas, descartadas e substituídas em segundos. Cinema
Paradiso nos recorda o valor do "espaço sagrado". O cinema era um
local de comunhão, onde a comunidade, apesar de suas diferenças e tensões,
respirava o mesmo ar e sentia o mesmo impacto emocional. Tornatore não está
apenas homenageando o cinema clássico; ele está lamentando o fim da experiência
coletiva do sonho. Quando a sala de projeção é demolida para dar lugar a um
estacionamento, o filme nos alerta que o progresso, muitas vezes, é cego para o
que realmente sustenta a alma de uma civilização: os rituais de partilha.
Portanto,
o legado desta obra é um convite à curadoria da própria vida. Assim como
Alfredo guardou os beijos, cada um de nós é um projecionista da sua trajetória.
Temos o dever de filtrar o que merece ser mantido no rolo de filme da nossa
existência e o que deve ser cortado para que o sentido prevaleça. Salvatore, ao
tocar a imagem projetada, toca a pele da vida que ele viveu. Ele entende que a
sua partida de casa não foi um abandono, mas a condição necessária para que ele
pudesse se tornar o homem que Alfredo, silenciosamente, ajudou a esculpir.
Terminamos
este ensaio, portanto, não com um ponto final, mas com uma reticência. O cinema
continua a rodar, mesmo quando as luzes da sala se apagam. Enquanto houver
alguém capaz de se emocionar com a luz projetada no anteparo, o Cinema Paradiso
continuará aberto, as cadeiras continuarão ocupadas pelos fantasmas de nossa
infância e Alfredo, com sua luva de projecionista, continuará ali, cuidando de
cada frame, garantindo que o amor que sentíamos, pelo mundo, pelos livros,
pelas pessoas e pela arte, nunca se perca na escuridão da modernidade. Afinal,
como bem nos ensina o filme, a beleza da vida não está na perfeição do corte,
mas na continuidade do sonho que nos mantém vivos.
NOTA DO
EDITOR
Vivemos,
hoje, o paradoxo da abundância. Nunca tivemos tantas telas à disposição e nunca
consumimos tanta imagem por minuto; contudo, o "Cinema Paradiso"
parece estar, cada vez mais, em ruínas. Em um cenário marcado por algoritmos
que fragmentam o olhar e pelo consumo individualizado que isola o espectador,
retornar ao clássico de Giuseppe Tornatore não é apenas um exercício de
nostalgia, é um ato de resistência.
Em 2026,
quando a tecnologia avança para simular a realidade com precisão assustadora, a
obra de Tornatore nos devolve o que a modernidade insiste em apagar: o sentido
da coletividade e o peso sagrado do afeto. A trajetória de Totó, mediada pelo
olhar atento de Alfredo, é um lembrete de que o cinema, mais do que
entretenimento, foi o pátio onde aprendemos a sonhar em conjunto.
Ao
revisitar este ensaio, convidamos nossos leitores a não apenas
"assistir" ao filme, mas a reencontrá-lo como quem revisita uma velha
casa da infância, aquela onde, apesar
das transformações do mundo lá fora, a luz do projetor continua a revelar, no
escuro, quem realmente somos. Que este texto sirva como um convite para
guardarmos, também nós, os nossos próprios rolos de filme: as memórias, os
amores e as lições que, editadas pelo tempo, compõem a verdadeira obra-prima de
nossas vidas.
© Alberto
Araújo
Focus
Portal Cultural
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ALDER,
Roberto. Giuseppe Tornatore: O Cinema da Memória e da Nostalgia. Edições
Cinematográficas, 2015. (Obra de referência para entender a poética do
diretor).
TORNATORE,
Giuseppe. Nuovo Cinema Paradiso: O Roteiro. Edição Comemorativa. Milão:
Bompiani, 2008.
BAZIN,
André. O que é o Cinema?. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac
Naify, 2014. (Fundamental para discutir a ontologia da imagem cinematográfica e
o realismo).
METZ,
Christian. A Significação no Cinema. Lisboa: Edições 70, 2002. (Essencial para
compreender como a montagem e a estrutura narrativa constroem sentido).
MULVEY,
Laura. Visual and Other Pleasures. Bloomington: Indiana University Press, 1989.
(Importante para contextualizar o "olhar" e a relação entre o
espectador e a tela, algo central na cena dos beijos censurados).
BONDANELLA,
Peter. Italian Cinema: From Neorealism to the Present. New York: Continuum,
2001. (O livro definitivo para situar Cinema Paradiso dentro da tradição do
cinema da Itália).
SORLIN,
Pierre. Italian National Cinema 1896-1996. London: Routledge, 1996. (Ajuda a
entender como o cinema italiano moldou a identidade cultural de sua época).
MICELI,
Sergio. Morricone, Music and Cinema. Oxford: Oxford University Press, 2020.
(Excelente análise sobre como a música de Morricone atua como elemento
narrativo e não apenas ornamental).
(Clicar na imagem para assistir ao vídeo)