Homenagem
do Focus Portal Cultural
ao Profissional de Letras no Brasil
Há
sentimentos que as estatísticas não explicam e que a pressa do cotidiano teima
em tentar apagar, mas que encontram abrigo seguro na solidez de uma página
escrita. Hoje, 21 de maio, o Brasil interrompe o ruído mecânico de seus dias
para celebrar uma das funções mais nobres, antigas e vitais da civilização: o
Dia do Profissional de Letras. Como jornalista, escritor e alguém que traz na
alma a essência nordestina, onde a palavra é simultaneamente compromisso,
melodia e sobrevivência, sinto um orgulho profundo e inabalável de pertencer a
esta linhagem de resguardador da linguagem.
Celebrar
esta data nas páginas do Focus Portal Cultural não é apenas cumprir um
calendário formal; é realizar um ato de fé na capacidade humana de se
reinventar através do verbo. O letrólogo, o professor, o revisor, o tradutor, o
crítico e o escritor não lidam apenas com regras gramaticais ou estruturas
sintáticas. O que fazemos, na verdade, é moldar a argila do pensamento humano,
transformando o silêncio do mundo em pontes de comunicação, beleza e reflexão.
"A
palavra escrita é o fio que une o passado ao futuro, o cinzel que esculpe a
identidade de um povo. Alberto Araújo"
Para
compreender a magnitude desta profissão, basta olhar para a história do Brasil
através do prisma de suas letras. Nossa identidade nacional não foi construída
apenas por tratados políticos ou delimitações geográficas, mas sim pela ponta
da pena de homens e mulheres que ousaram traduzir o sentimento de ser
brasileiro.
Muitas
vezes, o senso comum reduz o profissional de letras à figura do professor em
sala de aula. Embora a docência seja uma das missões mais sagradas e urgentes
do nosso país, a atuação daquele que se forma em Letras explode em múltiplos e
ricos horizontes.
O
Professor é aquele que abre as cortinas do mundo para o estudante, ensinando-o
não apenas a decodificar símbolos, mas a interpretar a realidade, a questionar
as entrelinhas e a se expressar com clareza e autonomia.
O
Revisor e o Editor, são os artesãos invisíveis. Aqueles que limpam as arestas
do texto, garantindo que o brilho da ideia original não se perca na escuridão
do erro ou da ambiguidade. Eles lapidam o diamante bruto entregue pelo autor.
O
Tradutor, é o verdadeiro construtor de pontes universais. Sem o tradutor, as
fronteiras geográficas seriam também barreiras mentais intransponíveis. É ele
quem permite que Homero, Shakespeare, Cervantes ou Virgínia Woolf falem
fluentemente o português de nossos dias.
O
Escritor e o Cronista, ah! Aqueles que capturam o efêmero, transformando o
cotidiano banal em patrimônio eterno da humanidade.
Pertencer
a esse universo é compreender que a língua portuguesa é um território vasto,
dinâmico e generoso. Um idioma que acolhe desde o lirismo mais erudito até a
riqueza das expressões populares e das variantes regionais que tornam o Brasil
esse mosaico cultural inigualável.
Quando
celebramos os profissionais de letras, estamos homenageando a espinha dorsal da
nossa cultura. São eles que mantêm viva a chama da nossa memória coletiva.
Pensar nas letras brasileiras é evocar as estruturas monumentais que sustentam
nossa sensibilidade. É impossível caminhar por essa estrada sem reverenciar as
instituições e os líderes que guiam nossos passos intelectuais.
A
Academia Brasileira de Letras (ABL) surge como o fanal maior dessa salvaguarda.
Ao olharmos para a Casa de Machado de Assis, nosso bruxo do Cosme Velho, que
com sua ironia fina e domínio cirúrgico do idioma fundou os alicerces da nossa
literatura, enxergamos a própria consagração do profissional de letras. Ao
longo de mais de um século, a ABL tem sido o espaço onde a tradição e a
inovação dialogam, abrigando mentes brilhantes que moldaram o nosso modo de ver
o mundo.
Olhamos
também para a força descentralizada que ecoa em cada estado, como a aguerrida e
centenária Academia Fluminense de Letras (AFL). Sediada com orgulho em nossa
Niterói. A AFL cumpre no Rio de Janeiro o papel fundamental de interiorizar,
defender e oxigenar a produção literária regional, provando que a literatura é
um organismo vivo, pulsante e acessível a todas as franjas da sociedade.
Mais
do que um baluarte das tradições, a AFL teve sua relevância eternizada ao receber
o justo título de Patrimônio Cultural Imaterial de Niterói. Essa honraria máxima
chancela o valor de cada palestra, de cada posse, de cada debate e de cada
moção de reconhecimento que emana de seus salões, mostrando que a história
niteroiense e a literatura fluminense caminham de mãos dadas.
No
vasto mosaico cultural que define a nossa "Cidade Sorriso", poucas
instituições traduzem tão bem o espírito de união e preservação identitária
quanto o Elos Clube de Niterói. Parte de uma comunidade internacional que cruza
oceanos para conectar os povos de língua portuguesa, o Elos ultrapassa o papel
de um clube de convivência: ele é uma verdadeira fortaleza de fomento às artes,
à literatura e à cidadania.
O
reconhecimento máximo dessa trajetória veio de forma meritória, ao ser
agraciado com o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de
Janeiro. Essa chancela oficial não é apenas uma homenagem ao passado glorioso
da instituição, mas o reconhecimento vivo de sua relevância no presente.
Significa que os encontros literários, as celebrações e as pontes afetivas
construídas pelo clube são essenciais para a própria alma fluminense.
Mas
este texto, além de um abraço fraterno de parabéns aos meus pares, deseja ser
um manifesto, um clamor direcionado a você, leitor. Quero usar o espaço desta
curadoria para fazer um convite urgente: escreva.
Vivemos
em uma era marcada pela velocidade avassaladora das telas, pela efemeridade das
mensagens que se apagam em vinte e quatro horas e pela superficialidade das
interações digitais. Nesse cenário de pressa e dispersão, o ato de sentar e
escrever torna-se uma revolução silenciosa.
Por
que você deve escrever?
Porque
a escrita tem o poder mágico de organizar o caos que carregamos dentro de nós.
Quando colocamos uma ideia no papel, nós a tiramos do plano abstrato da
angústia ou do desejo e a transformamos em realidade concreta. Escrever é um
exercício de autoconhecimento, de coragem e, acima de tudo, de generosidade.
Não
se intimide pela busca de uma perfeição inexistente. A literatura não pertence
apenas aos imortais das academias; ela nasce no peito de qualquer um que sinta
a necessidade de registrar sua própria verdade. Escreva uma crônica sobre o
entardecer que você observa da sua janela, um poema de amor para quem ilumina
seus dias, um diário com suas memórias de infância, ou um manifesto sobre as
injustiças que machucam seus olhos.
Ao
escrever, você deixa de ser uma mera testemunha passiva da história para se
tornar narrador do seu próprio tempo. Suas palavras podem ser o consolo, a
inspiração ou o estalo de lucidez que alguém do outro lado do mundo, ou do
outro lado do tempo precisava encontrar.
Neste
dia de festa, é fundamental evocarmos os nomes daqueles que transformaram as
letras brasileiras em uma luz de sensibilidade e técnica. Beber na fonte dos
grandes mestres é o que nos mantém firmes no propósito de continuar produzindo
cultura.
Como
esquecer a profundidade de Cecília Meireles, que com seu lirismo melancólico e
preciso nos ensinou sobre a impermanência das coisas? Ler Cecília é compreender
que a poesia é a música que a alma faz sem precisar de instrumentos. Como
esquecer a mineiridade universal de Carlos Drummond de Andrade, que de sua
pedra no caminho construiu um monumento de questionamento existencial e social?
Devemos
saudar a ousadia mística de Clarice Lispector, que levou a língua portuguesa a
lugares psicológicos nunca antes visitados, e a grandiosidade de João Guimarães
Rosa, que reinventou o próprio idioma para dar voz à imensidão do sertão e à
alma humana.
Olhando
para a nossa história literária, percebemos que o profissional de letras é,
antes de tudo, um apaixonado pela humanidade. E essa paixão precisa ser
alimentada diariamente por novas vozes que se somem a esse coro monumental.
No
Focus Portal Cultural, renovamos diariamente o compromisso de ser uma vitrine
democrática e vigorosa para a cultura brasileira e universal. Entendemos que
apoiar o profissional de letras é apoiar a própria educação e o senso crítico
do nosso povo. Um país que não valoriza seus escritores, seus professores de literatura
e seus linguistas é um país condenado a falar a língua da ignorância e do
esquecimento.
Neste
21 de maio, meu peito se enche de gratidão por cada colega de profissão que, em
escritórios silenciosos, em salas de aula barulhentas, nas redações de jornais
ou nas editoras independentes, continua acreditando no poder transformador da
palavra. Nós somos os tecelões da realidade. Enquanto houver uma mente disposta
a pensar e uma mão disposta a escrever, a barbárie não vencerá.
Aos
meus irmãos de ofício, aos mestres que me guiaram e continuam guiando, aos
acadêmicos que sustentam nossas instituições com dignidade e a cada novo
escritor que digita timidamente suas primeiras linhas: os meus mais sinceros e
calorosos parabéns.
Que
continuemos espalhando asas através das palavras, fincando nossas raízes na
rica herança que recebemos e mirando os horizontes infinitos que a literatura
sempre nos proporciona. Viva o Profissional de Letras! Viva a Língua
Portuguesa!
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural