Tudo flui, e no grande jardim da Criação, o homem é um transeunte que busca na origem o sentido do destino. Há geografias que não apenas nos contêm, mas nos inventam; elas nos marcam antes mesmo de sabermos articular a primeira palavra, habitando-nos com o som das correntes e o ritmo ancestral da terra. Luzilândia, Piauí. O próprio nome já evoca a claridade, o fulgor de uma aurora que recusa a efemeridade e decide ser permanência. Foi ali, sob os cuidados insones de minha mãe Maria, cujo nome carrega a doçura e a fortaleza dos pilares do mundo, que meus olhos se abriram para o milagre da existência.
Minha infância foi abençoada por uma dupla tutela: o olhar vigilante e terno de Santa Luzia, guardiã da visão e da luz que afasta as sombras, e o murmúrio perpétuo do Velho Monge. O rio Parnaíba, esse colosso líquido que serpenteia de norte a sul, não é apenas um acidente geográfico; é o próprio tempo em estado fluido. Ele nasce longe, na imensidão altaneira da Serra da Chapada das Mangabeiras, na tríplice divisa onde o Piauí, a Bahia e o Tocantins se abracejam no extremo sul piauiense, numa região sacralizada e protegida pelo Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba. É dali que ele irrompe, da fusão secreta e generosa de três veias d’água primordiais: o rio Água Quente, o rio Curriola e o rio das Lontras.
Crescer banhado por essas águas foi ser batizado não apenas pelas mãos humanas, mas pela própria correnteza da história. Lembro-me do Padre Jonas, cuja presença solene e bondosa celebrou meu batismo, selando minha alma aquilo que é perene. As águas do Velho Monge embalaram meus passos de guri, ensinaram-me a escutar o silêncio das margens e a compreender que a vida é um fluxo contínuo, onde nada estaciona, mas tudo se transforma. Cresci ouvindo o segredo do rio: ele vai, mas nunca se vai de todo; ele leva, mas também traz. E foi assim, entre a bênção materna, a proteção celeste e a sinfonia fluvial, que comecei a desenhar os contornos do meu destino.
A vida, contudo, é uma vocação para a travessia. O homem que se prende à margem desconhece a vastidão do oceano para onde o rio inexoravelmente caminha. Chegou o tempo em que precisei desatar os botes e navegar para além do horizonte conhecido. Desloquei-me para outro território, rumei em direção a novas paisagens geográficas e existenciais.
Nessa nova terra, finquei raízes sem esquecer as sementes. Vim para constituir família com minha Shirley, o porto mais seguro que um navegador pode encontrar em meio às borrascas do mundo. Construí um lar, abracei afetos cotidianos, descobri a felicidade genuína nos detalhes simples do dia a dia, no riso compartilhado, na respiração mansa dos que amamos. Compreendi, então, que a pátria de um homem não é apenas o lugar onde nasce, mas o espaço onde o seu coração decide fincar âncora e fazer morada.
A distância física de Luzilândia jamais significou exílio; foi, antes de tudo, uma expansão. O rio Parnaíba continuou a correr dentro de mim, mas agora desaguando em um delta mais largo, onde couberam novos sonhos, novas lutas e a consolidação de uma trajetória intelectual que vinha se gestando desde os primeiros anos de contemplação e leitura.
O menino banhado pelo Velho Monge descobriu cedo que a palavra escrita é a única ferramenta capaz de vencer a efemeridade do tempo. Se o rio molda a terra, a literatura esculpe a alma humana. Nesse caminhar, a poesia e a reflexão filosófica tornaram-se minhas companheiras inseparáveis. Escrever deixou de ser um ato solitário para se transformar em um diálogo universal.
Com honra e reverência ao ofício da escrita, alcancei assento em inúmeras Academias de Letras, tanto em âmbito nacional quanto internacional. Cada cadeira acadêmica que ocupo não é um troféu de vaidade, mas um altar de responsabilidade. Representar a voz da cultura, debater os rumos do pensamento e preservar a dignidade da língua é manter acesa a lamparina que Santa Luzia abençoou na minha infância.
Os livros publicados são marcos dessa jornada, marcos de tinta e papel que revelam as dores, os amores, os espantos e as epifanias de uma vida dedicada à arte. Neles, o leitor atento consegue ouvir o eco do rio Parnaíba, o perfume da terra piauiense e a pulsação de um coração que nunca deixou de ser o do menino ribeirinho. Publicar um livro é lançar uma garrafa ao mar do tempo, na esperança de que alguém, em algum lugar, resgate aquela mensagem e se reconheça nela.
Nessa teia de expansão cultural, nasceu o Focus Portal Cultural, um projeto que coroa minha missão no mundo. O portal não surgiu por acaso; ele foi concebido como um holofote, um ponto de convergência para divulgar todas as atividades das Academias de Letras, dar visibilidade aos criadores, e, acima de tudo, difundir a arte, a filosofia e a cultura mundial em sua mais pura essência.
Numa época em que o mundo muitas vezes se perde na pressa, na superficialidade e no ruído digital, o Focus Portal Cultural ergue-se como um oásis de profundidade. É o espaço onde o pensamento crítico encontra guarida, onde a filosofia dialoga com o cotidiano e onde a literatura ganha asas para voar além das fronteiras físicas. Através dele, faço ecoar a voz de poetas, pensadores e artistas, cumprindo o sagrado dever de perpetuar a beleza. O portal é a extensão da minha própria alma: um lugar de acolhimento para tudo o que enobrece o espírito humano.
Venho de um chão abençoado, banhado pela fartura e esculpido pela natureza em tons de verde intenso: a terra dos carnaubais altaneiros e dos extensos coqueirais. Sob o sol soberano do Nordeste, a carnaúba balança altiva, ensinando a resiliência a quem a observa, enquanto os rios e lagoas transbordam a fartura de peixes que sustentaram a vida e a infância do meu povo. Crescer nesse cenário de abundância natural foi a minha primeira escola; aprendi com a generosidade da terra que a vida se sustenta na partilha e na harmonia com os elementos.
A curiosidade pelo mundo e a sede de compreender as engrenagens da sociedade me impulsionaram por estradas acadêmicas e técnicas diversas. Formei-me em Licenciatura Plena em Letras-Português pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), templo onde aprendi a honrar a nossa língua materna e a decifrar a arquitetura dos textos. Mas a busca não parou nas margens das letras: especializei-me na exatidão e na organização da Contabilidade, estudei Zootecnia para compreender os ciclos da terra e dos animais, busquei o Normal Superior para me aprofundar na arte sagrada da pedagogia, além de dezenas de cursos de aperfeiçoamento técnico, inclusive em Computação.
Ao longo dessa jornada, recebi inúmeros troféus, comendas e o reconhecimento público que pontuam meu trabalho cultural. Contudo, se pudesse colocar todas essas graduações, diplomas e prêmios em uma balança, eu reconheceria sem hesitar: tudo isso é mera formação. Ferramentas de trabalho, chaves institucionais e adornos de prateleira que perdem o sentido se não servirem a um propósito maior. Para mim, o que busco, verdadeiramente, em cada amanhecer, é o amor das pessoas para poder entregar, sem reservas, o meu coração.
E é justamente na partilha desse coração que encontro o sentido supremo da caminhada. Tenho a graça inestimável de caminhar de mãos dadas com Shirley, a minha musa, artista e poetisa, companheira de todas as horas. É ela quem empresta ainda mais cor e poesia aos meus dias, sendo a inspiração silenciosa que habita os meus melhores versos e a presença terna que acolhe as minhas retinas. Viver ao lado de Shirley é compreender que o amor cotidiano é a mais alta forma de literatura, a morada definitiva onde a alma descansa e celebra o milagre de existir.
Hoje, ao celebrar meu aniversário natalício neste 23 de julho, o espelho do tempo me devolve a imagem de um homem que compreendeu o verdadeiro sentido da travessia. Fazer anos não é apenas somar calendários; é renovar o pacto com a vida, é perceber que cada ciclo que se fecha é apenas a curva que o rio faz para abraçar uma nova paisagem.
Filosoficamente, a existência humana é um eterno vir a ser. Heráclito dizia que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois nem as águas são as mesmas, nem nós somos os mesmos. Contudo, há uma essência que permanece, a nascente inesgotável da infância, o olhar de minha mãe Maria, a proteção luminosa de Santa Luzia, a bênção do Padre Jonas e a força primordial do Velho Monge que continua correndo em minhas veias.
Brindo a este 23 de julho com a serenidade de quem sabe que construiu uma história sólida, baseada no amor à família, na paixão pelas letras e no compromisso irrevogável com a cultura.
Que as águas do Parnaíba continuem a me guiar, que as Academias continuem a ser templos de diálogo, que os livros continuem a encontrar leitores, e que o Focus Portal Cultural com a sua pluralidade de ideias siga iluminando consciências.
A travessia continua, soberba e infinita. E eu sou, em cada gota deste rio e em cada verso escrito, eternamente grato pelo milagre de existir, criar e amar.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural










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