quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O ARQUITETO DA CENA TROPICAL: LEOPOLDO FRÓES E A GENEALOGIA DO ATOR MODERNO NO BRASIL - Efemérides do Focus Portal Cultural - © Alberto Araújo


Celebrar os 144 anos de nascimento de Leopoldo Constantino Fróes da Cruz exige suplantar a mera efeméride cronológica. 

Nascido em Niterói nascido em 30.09.1882 e falecido em 02.03.1932 precocemente em Davos-Platz, na Suíça, Fróes representa um divisor de águas na história das artes cênicas, do cinema e do associativismo cultural no Brasil. Mais do que a figura lendária que dominou os palcos do eixo Rio-São Paulo nas décadas de 1910 e 1920, o artista encarnou a própria transição do melodrama oitocentista para a comédia de costumes moderna, operando como uma ponte viva entre o apuro técnico europeu e a brasilidade emergente do teatro popular do início do século XX. 

Filho de uma família abastada, Fróes chegou a diplomar-se em Direito, mas a vocação para o tablado falou mais alto. Ao abandonar a jurisprudência para desespero paternal, buscou em Portugal a consolidação de sua arte. 

Diferente da formação acadêmica e teórica convencional, o adestramento cênico de Leopoldo Fróes deu-se no atrito direto com o espectador, em um itinerário mambembe de vila em vila. 

Foi sob a tutela de mestres do teatro lusitano, como o ator e empresário José Ricardo, que o jovem artista absorveu os segredos do gesto, a economia das inflexões e a plasticidade interpretativa. Nos três anos em que transitou por revistas, mágicas, operetas e zarzuelas, Fróes lapidou uma versatilidade ímpar. Capaz de ir da voz gutural e metálica do drama ao tom bonachão da comédia rasgada, ele integrou a elegância e a sobriedade europeias ao pulsar comunicativo do teatro ligeiro.

A consolidação de Leopoldo Fróes no lendário Teatro Trianon revelou uma das facetas mais instigantes de sua práxis: a tensão harmônica entre a aura de astro e a construção técnica do personagem. Se, por um lado, o público era fascinado pelo seu encanto pessoal, voz abaritonada e presença estonteante como galã cômico, por outro, depoimentos de intelectuais e memorialistas como Alfredo Mesquita e Viriato Correa revelam um virtuose da caracterização.

Em peças como Genro de muitas sogras, de Artur Azevedo, Fróes despia-se de sua vaidade para compor tipos grotescos, o sacristão de barriga empinada, cabelos ruivos e olhar néscio-sibilino, provando que sua genialidade não dependia unicamente do charme individual. 

Inserido na dinâmica do chamado "teatro digestivo" ou de costumes, caracterizado pelo sistema de sessões, rotatividade frenética de repertório e tipos sociais fixos, Fróes transformou a contingência em linguagem. Notório por entrar em cena sem o texto decorado na íntegra desenvolveu o uso do "caco", a improvisação verbal, não como desleixo, mas como uma refinada ferramenta cênica. Ao enxertar bordões, cacos e tiradas adaptadas à temperatura da plateia, o ator tornava-se coautor do espetáculo. As expressões cunhadas no calor do palco extravasavam o teatro e passavam a integrar o vocabulário cotidiano das ruas do Rio de Janeiro. 

A relevância de Leopoldo Fróes estende-se para além da ribalta. Na condição de ator-empresário à frente da Companhia Leopoldo Fróes, ele assumiu a responsabilidade pela gestão cultural e pela renovação dos elencos nacionais, sendo o responsável direto por impulsionar a carreira de ícones como Dulcina de Moraes. 

Sentindo na pele a precariedade e a instabilidade da vida artística de sua época, Fróes liderou uma das ações sociais mais marcantes e duradouras da cultura brasileira: a fundação do Retiro dos Artistas, em 1918. A instituição, que até hoje serve de porto seguro e acolhimento para profissionais da cena na velhice, permanece como o monumento de sua empatia e visão corporativa da classe artística. 

Além disso, Fróes transitou por múltiplos suportes. Na música, demonstrou sua veia poética e melodiosa, compondo sucessos como o tango/canção "A Mimosa" (1921). Na nascente indústria cinematográfica brasileira, emprestou sua expressividade aos filmes Perdida (1916) e Minha Noite de Núpcias (1931).

A celebração da memória cultural do Brasil exige o constante exercício de escavação historiográfica, especialmente quando se trata de restituir a dimensão de figuras que moldaram a sensibilidade de uma época. 

Leopoldo Constantino Fróes da Cruz inscreve-se nesse ecossistema não apenas como o “rei da comédia” das décadas de 1910 e 1920, mas como um intelectual prático cuja vida e legado articulam a experiência urbana de sua terra natal, Niterói, à consolidação de uma linguagem cênica genuinamente nacional. 

A narrativa seminal de Leopoldo Fróes reflete as tensões sociais do Brasil da Primeira República. Filho das elites fluminenses, diplomou-se em Direito para atender aos anseios familiares e chegou a ocupar um posto diplomático em legações brasileiras em Paris e Londres. Contudo, o ambiente burocrático e cerimonioso das embaixadas sucumbiu à vocação cênica. Fróes abandonou a carreira diplomática, sendo raramente visto nos gabinetes europeus, para estrear nos palcos de Portugal na peça O Rei Maldito.

Ao retornar ao Brasil em 1915, ingressando na Companhia Dias Braga e fundando posteriormente sua própria empresa com Lucília Peres, Fróes iniciou uma revolução silenciosa, porém profunda, na arte dramática. Ele é reconhecido pela historiografia como a primeira tentativa sistemática, pós-João Caetano, de conferir à dicção e à prolação brasileiras o status de curso estético. Em um teatro dominado por prosódias lusas ou artificialismos empolados, Fróes introduziu uma elocução fluida, natural e sofisticada, sintonizada com a fala urbana do Rio de Janeiro e de São Paulo. 

Essa busca por uma expressão própria manifestou-se também na dramaturgia e na escrita musical. Sob o pseudônimo de João da Ega, escreveu peças como Mimosa e Outro Amor. A música-tema de Mimosa, composta e gravada por ele em 1921, permanece como seu único registro fonográfico oficial como cantor, revelando a multiplicidade de um artista total.

Ao longo de sua trajetória, Fróes atuou em mais de 160 montagens, estabelecendo recordes históricos para o teatro brasileiro da época. O espetáculo Flores de Sombra, de Cláudio de Sousa, tornou-se um marco sem precedentes ao ultrapassar a barreira de 100 apresentações consecutivas. 

Outro estrondoso sucesso foi O Simpático Jeremias, de Gastão Tojeiro, comédia que arrebatou multidões e consolidou seu prestígio como o principal cômico e galã de sua geração. 

No entanto, o cinema reservou a Fróes uma relação ambivalente de fascínio e tragédia:

O Cinema Mudo (Perdida, 1916): Sua estreia no cinema mudo não recebeu o acolhimento crítico esperado, afastando-o das telas por quinze anos para dedicar-se exclusivamente ao palco.

O Cinema Falado (Minha Noite de Núpcias, 1931): Contratado pela gigante americana Paramount para rodar em Paris a superprodução falada em português ao lado da estrela portuguesa Beatriz Costa, Fróes alcançou o ápice da popularidade internacional. Contudo, a produção em solo europeu cobrou um preço fatal: exposto ao rigoroso inverno da Europa central durante as gravações, o artista contraiu uma severa afecção pulmonar que evoluiu para tuberculose. 

A contribuição mais duradoura de Fróes para o tecido social brasileiro transcende a estética cênica. Diante da ausência de leis trabalhistas e de previdência para a classe artística no início do século XX, o ator mobilizou intelectuais, artistas e jornalistas, entre eles Irineu Marinho, fundador do jornal O Globo, Eduardo Leite e Mário Magalhães, para criar a Casa dos Artistas em 1918.

Como seu primeiro presidente, Fróes viabilizou em 1919 a doação de um amplo terreno em Jacarepaguá, de propriedade do empresário Frederico Figner, fundando o Retiro dos Artistas. Tendo como primeiros moradores o casal de atores Madalena e Domingos Marchisio, a instituição permanece até os dias atuais como um marco pioneiro de amparo e dignidade para a velhice dos trabalhadores das artes no Brasil.

A memória de Leopoldo Fróes entrelaça-se de forma singular com a topografia e a história de Niterói, gerando um mito urbano recorrente sobre a famosa via beira-mar que conecta a praia de Icaraí ao Saco de São Francisco:

A dimensão intelectual e pública de Fróes manifesta-se no fato de ser ele o Patrono da Cadeira nº 45 da Academia Niteroiense de Letras, além de batizar o Teatro Leopoldo Fróes, em Santo Amaro em São Paulo, o monumento erguido em 1968 na Praça Saldanha Marinho em Santa Maria, RS e diversos logradouros pelo país. 

Como primeiro presidente da associação, Fróes articulou em 1919 a doação de um extenso terreno em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, pertencente ao empresário Frederico Figner. Ali foi erguido o Retiro dos Artistas, que acolheu como primeiros moradores o casal Madalena e Domingos Marchisio. Preservado até os dias atuais com dezenas de residências, o espaço continua a prestar assistência integral e dignidade a profissionais idosos das artes, constituindo o monumento mais duradouro da generosidade de seu patrono. 

O vínculo entre Leopoldo Fróes e sua terra natal desdobra-se em homenagens institucionais e em uma das curiosidades urbanas mais fascinantes da cidade de Niterói: a história da Estrada Fróes. Ao contrário do senso comum, a via que conecta a praia de Icaraí ao Saco de São Francisco não foi aberta em homenagem ao artista, mas sim construída e custeada no século XIX por seu tio-avô, o Major Luís José de Menezes Fróes (1825–1905), com o intuito de escoar a produção agrícola de suas terras. Décadas mais tarde, ao rebatizar oficialmente o trecho como Estrada Leopoldo Fróes, o poder público municipal uniu a infraestrutura histórica da família ao tributo ao célebre ator niteroiense. 

A cidade de Niterói guarda com profundo carinho a memória de seu filho ilustre Patrono da Cadeira nº 45 da Academia Niteroiense de Letras, integrando seu legado à densa teia patrimonial e cultural do município: 

Fortaleza de Santa Cruz da Barra: Erguida a partir de 1555 na entrada da Baía de Guanabara, antecede a fundação do Rio de Janeiro e de Niterói, constituindo o principal baluarte defensivo do Brasil colonial e imperial.

Caminho Niemeyer e Teatro Popular: Complexo arquitetônico à beira-mar que posiciona Niterói como o segundo maior acervo de obras de Oscar Niemeyer no mundo, culminando na silhueta do Museu de Arte Contemporânea (MAC). 

Ilha de Boa Viagem: Sede da histórica Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem (1650), tradicional ponto de devoção dos navegantes coloniais, além de antiga fortificação militar. 

Parque da Cidade: Localizado no alto do morro da Viração, o espaço que hoje atrai visitantes pela vista panorâmica serviu historicamente como ponto estratégico de vigilância contra invasões e incursões piratas na costa fluminense. 

Em âmbito nacional, o nome de Leopoldo Fróes batiza o Teatro Leopoldo Fróes (no bairro de Santo Amaro, em São Paulo), um busto memorial erguido em 1968 na Praça Saldanha Marinho, fruto da antiga Escola de Teatro Leopoldo Fróes em Santa Maria, RS e diversos logradouros em capitais como o Rio de Janeiro. 

A trajetória de Leopoldo Fróes sintetiza um momento fundacional da sensibilidade cênica e da cultura urbana no Brasil. Ao equacionar a intuição interpretativa ao rigor da bagagem técnica, o apelo popular à sofisticação estética e o brilho individual à responsabilidade social com a classe artística, Fróes não apenas manobrou plateias ao seu bel-prazer; ele ajudou a desenhar os contornos da brasilidade nos palcos.

Ao unir a sensibilidade artística ao compromisso humano e ao afeto por sua terra natal, Leopoldo Fróes permanece como uma presença central e luminosa na compreensão do Brasil moderno, onde a arte cênica e a vida social se fundem em um projeto contínuo de civilidade e cultura.

Ao unir a sensibilidade artística à responsabilidade social e à memória de sua terra, Leopoldo Fróes permanece como uma presença central na compreensão do Brasil moderno, onde a arte do palco e a vida urbana se fundem em um projeto coletivo de civilidade. 

Internado no Sanatório Davos-Platz, na Suíça, Leopoldo Fróes faleceu precocemente no dia 02 de março de 1932, aos 49 anos, no clímax de sua maturidade artística. 

FONTES BIOGRÁFICAS

MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo. As mil e uma vidas de Leopoldo Fróes (1966) — É a biografia fundamental e mais completa já publicada sobre o artista.

TOMÉ, Alfredo. Leopoldo Fróis e o teatro brasileiro (1942) — Estudo clássico publicado dez anos após a morte de Fróes, fonte de muitos relatos sobre sua formação em Portugal e técnica atorial.

RABETTI, Beti. Os três artigos citados (da Profa. Dra. Beti Rabetti, UNIRIO/UNICAMP) tratam justamente do modo de atuar, da tradição popular e da formação da comédia de costumes com autores como Gastão Tojeiro e Armando Gonzaga.

CHIARADIA, Maria Filomena V. A dissertação sobre a Companhia do Teatro São José e Paschoal Segreto contextualiza o mercado do teatro de revista e burleta.

MAGALDI, Sábato. Panorama do Teatro Brasileiro — O manual de história do teatro mais respeitado no Brasil.

TROTTA, Rosyane. Analisa o teatro brasileiro das décadas de 1920 e 1930.

VELLOSO, Mônica Pimenta. A cultura das ruas no Rio de Janeiro (1900-30) — Analisa a linguagem urbana, piadas, hábitos e a vida carioca da época de Fróes.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 












 

A SUBLIME HARMONIZAÇÃO DO TEMPO: O PIANO SUAVE DE MARCELO MORAES CAETANO NO MÚSICA NO MUSEU

A música erudita possui o dom singular de transcender a efemeridade do cotidiano, convertendo o tempo cronológico em uma experiência estética profunda e reflexiva. É sob o signo dessa elevação cultural que o aclamado projeto Música no Museu, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado e da Cidade do Rio de Janeiro,  reafirma seu compromisso inestimável com a democratização da alta cultura e a preservação da memória artística em nosso país.

 

No dia 7 de outubro de 2026, quarta-feira, às 12h30min, o suntuoso CCBB RJ abre suas portas para um recital memorável conduzido pelo virtuosismo pianista e Maestro Marcelo Moraes Caetano. Em uma apresentação intimista no 4º andar, com capacidade limitada a 90 lugares, o público será convidado a uma verdadeira viagem analítica pelas nuances do pensamento musical ocidental.

 

O repertório selecionado pelo mestre traz a mestria contrapontística e a iluminação espiritual de Händel e Bach, desdobrando-se no vigor dramático e na profundidade estrutural de Beethoven, até culminar na sensibilidade poética e na técnica transcendental de Liszt.

 

Uma oportunidade ímpar para contemplar a arte pianística em sua máxima expressão, onde a erudição se encontra com o encanto do Patrimônio Histórico Cultural do Rio de Janeiro.  


CELEBRAÇÃO AO TALENTO E À ARTE DO MAESTRO MARCELO MORAES CAETANO 

Efusivos aplausos à entrega impecável e ao brilhantismo do pianista e maestro Marcelo Moraes Caetano. Com uma técnica refinada e uma sensibilidade expressiva singular, seu trabalho transcende a simples execução musical, transformando cada nota em uma verdadeira experiência poética e contemplativa.

Sua dedicação em interpretar gigantes da história da música, de Bach e Händel ao vigor de Beethoven e à profundidade de Liszt enriquece o cenário cultural e mexe com a alma do público. Que sua trajetória continue iluminando e inspirando todos nós através do poder transformador da arte!

 © Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



 

BIBLIOTECA DE ZAANDAM CELEBRA A LÍNGUA PORTUGUESA NO DIA DAS CRIANÇAS COM LITERATURA, ARTE E GASTRONOMIA BRASILEIRA

No próximo dia 12 de outubro de 2026, data em que se comemora o Dia das Crianças no Brasil, a Biblioteca de Zaandam (De Bieb Zaandam), na Holanda, será palco de uma edição especial da Festa de Leitura Multilíngue (Voorleesfeest), inteiramente voltada à Língua Portuguesa e à cultura brasileira. 

Com programação das 15h às 16h30min, o evento é organizado pela escritora e produtora cultural Lúcia Boonstra e voltado para crianças de 4 a 12 anos e suas famílias. A tarde comemorativa trará como destaque o lançamento do livro infantil bilíngue "Veludo e a Lua" (Veludo en de Maan), de autoria de Lúcia Boonstra, com ilustrações de Cival Einstein.

Além da contação de histórias, o público infantil poderá participar de oficinas artísticas de colagem e pintura. A programação cultural conta ainda com a presença e apresentação da cantora e artista Ivy Lemos, além de uma degustação de bebidas e salgados típicos brasileiros. 

Um dos momentos mais marcantes da celebração será a inauguração oficial da prateleira dedicada aos autores da Rede Sem Fronteiras. A iniciativa é fruto de mais de um ano de articulação e negociações para viabilizar a doação, o cadastramento e a incorporação das obras ao acervo fixo da biblioteca. 

Devidamente plastificados e catalogados, os livros passam a integrar a coleção oficial da De Bieb Zaandam, garantindo acesso permanente da comunidade de leitores lusófonos da região da Zaanstreek à literatura em língua portuguesa. 

SERVIÇO 

Evento: Festa de Leitura de Português do Brasil (Braziliaans-Portugees Voorleesfeest)

Data: Segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Horário: Das 15h às 16h30min

Local: De Bieb Zaandam (Biblioteca de Zaandam)

Faixa etária: 4 a 12 anos

Organização: Lúcia Boonstra

Apoio/Patrocínio: Tapiandbowls, Salgados Suelen 2D e Marise Cristsen

Apoio Cultural: Rede Sem Fronteiras



terça-feira, 29 de setembro de 2026

O EXPRESSIVO JARDIM DA SHIRLEY 2026 - TEXTO ALBERTO ARAÚJO


Bem-vindo ao Jardim da Shirley, um verdadeiro refúgio de tranquilidade, vida e cores! Localizado em um ambiente acolhedor e iluminado por janelas de vidro que revelam a paisagem externa, este espaço celebra o cuidado e a beleza da natureza dedicados pela minha Shirley em cada detalhe.

 

Entre as espécies que trazem charme e vitalidade ao jardim interno, destacam-se rosas delicadas cobertas por gotas de orvalho, orquídeas em tons vibrantes de vinho e uma grande variedade de folhagens viçosas, como samambaias suspensas, begônias coloridas, costelas-de-adão e cactos trançados. Além disso, vasos com flores em tons de rosa, laranja e amarelo trazem alegria e contraste para as prateleiras e bancadas de madeira.

 

Cada planta no Jardim da Shirley reflete o carinho, a paciência e o amor pela jardinagem. É o lugar perfeito quando buscamos inspiração, paz e o contato renovador com o verde dentro de casa.

 

© Alberto Araújo

 

Fundo musical canção "Beautiful", interpretada pelo cantor sul-coreano Crush, trilha sonora do dorama Goblin.

 

Letra traduzida para Português

 

É uma vida linda,

Eu estarei ao seu lado.

É uma vida linda,

Estarei bem atrás de você.

Amor lindo,

Se eu estiver com você debaixo deste céu,

Apenas respirar já é bom.

É uma vida linda, um dia lindo.

Viverei nas memórias de você.

Vida linda, dia lindo...

Por favor, fique ao meu lado.

Meu lindo amor, seu coração lindo.

É uma vida linda...

 

 



29 DE SETEMBRO DE 2026 MARCAMOS OS 118 ANOS DO ENCANTAMENTO DE MACHADO DE ASSIS - EFEMÉRIDES FOCUS PORTAL CULTURAL

"A vida é um dez por cento de o que fazemos, e noventa por cento de como a interpretamos." — Machado de Assis 

Era madrugada de 29 de setembro de 1908. Na modesta casa de número 18 da Rua do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, o relógio parecia hesitar em avançar as horas. Quando ponteiros e destinos se alinharam pouco depois das três da manhã, Joaquim Maria Machado de Assis fechou pela última vez os seus olhos argutos. O homem mulato, humilde de berço, autodidata tenaz e gênio colossal, despedia-se da matéria para iniciar a sua imortal travessia. Não morria apenas o fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras; silenciava-se a voz mais lúcida, irônica e profunda da alma brasileira. 

Hoje, ao completarmos exatos 118 anos deste "encantamento", termo poético que prefere a magia da permanência à frieza do fim, o Focus Portal Cultural reverencia Machado de Assis não como uma estátua de mármore soturna, mas como uma força viva que continua a nos espreitar por entre as páginas de nossos próprios dilemas. 

A trajetória de Machado desafiava as probabilidades de sua época. Nascido em 1839, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira açoriana, neto de escravizados libertos, ele cresceu nos morros cariocas enfrentando a gagueira, a epilepsia e as barreiras intransponíveis de um Brasil imperial profundamente desigual e escravocrata. Contudo, amparado por uma curiosidade devoradora e por um talento literário indomável, venceu o destino que lhe impunham. Tipógrafo, revisor, jornalista, funcionário público e, sobretudo, escritor total dominando o conto, o romance, a poesia e a crônica, Machado construiu uma obra que esculpiu os fundamentos da nossa modernidade estética e psicológica. 

Com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1881, ele implodiu o romantismo piegas e inaugurou o Realismo no Brasil. Ali nascia um narrador liberto até mesmo das convenções da vida: um defunto-autor que, do repouso do túmulo, decidia esmiuçar sem piedade as hipocrisias da sociedade decaída. Mais tarde, com Dom Casmurro (1899), Quincas Borba, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, Machado converteu-se no mais implacável cirurgião do coração humano. 

Em especial, a ambiguidade vertiginosa de Dom Casmurro permanece como um dos maiores enigmas da literatura universal. Pela voz de Bento Santiago  o Casmurro amargurado que reconstrói a própria história na velhice, Machado nos convida a entrar em um labirinto onde a verdade jamais se deixa alcançar por inteiro. A célebre e lancinante pergunta sobre os olhos de Capitu "olhos de ressaca... de cigana oblíqua e dissimulada" não é apenas o eco do tormento de um marido obcecado; é um espelho afiado apontado para todos nós, que frequentemente julgamos o mundo a partir de nossas próprias inseguranças. O Bruxo do Cosme Velho não escreveu um livro sobre a culpa ou a inocência de uma mulher; ele escreveu um tratado definitivo sobre a impossibilidade de conhecermos plenamente o outro. Entre seminários, ruas do Rio antigo, a Capela de Santa Luzia e a lembrança luminosa dos tempos de defunto na Rua de Matacavalos, Machado ergueu um monumento à incerteza. 

Suas tramas não precisavam de grandes eventos históricos; bastavam-lhe a sala de visitas, o olhar trocado de soslaio, a ambiguidade de uma Capitu ou o peso sufocante de uma classe dominante obcecada por aparências. Ele nos ensinou que a grande tragédia do homem contemporâneo reside nos pequenos egoísmos cotidianos. 

Quando partiu em 1908, o Rio de Janeiro parou. Intelectuais, poetas e o povo anônimo marcaram presença no velório realizado na Academia Brasileira de Letras. Ali, na voz vibrante de Rui Barbosa, o Brasil percebeu a magnitude da perda: "Era em sua alma um vaso de amenidade e melancolia". No entanto, o tempo tratou de provar que a genialidade machadiana não cabia nos limites do túmulo ou nas atas acadêmicas. O tempo multiplicou seus leitores, traduziu suas obras para dezenas de idiomas e transformou o seu legado em espelho indispensável para compreender quem fomos, quem somos e quem talvez temamos ser. 

Marcar os 118 anos do encantamento de Machado de Assis no Focus Portal Cultural é um ato de resistência da palavra e da inteligência. É reconhecer que, em tempos ruidosos e polarizados, a ironia fina, a dúvida metódica, a compaixão discreta e o rigor estilístico do Machado permanecem como holofotes indispensáveis. Machado continua vivo porque suas indagações sobre a alma humana continuam abertas.

Que quem releu um capítulo de suas obras hoje ou abriu seus contos pela primeira vez redescubra o encanto inexaurível desse gigante. Longa vida à memória e à literatura de Machado de Assis!

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 



 

PRÊMIO JABUTI ANUNCIA SEMIFINALISTAS E ABRE VOTAÇÃO POPULAR PARA CATEGORIA CULTURA DIGITAL

Público poderá votar, de 29 de setembro a 9 de outubro, nos dez semifinalistas da nova categoria voltada a criadores de conteúdo

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) divulga os dez semifinalistas de cada categoria da 68ª edição do Prêmio Jabuti. A lista completa e os nomes dos jurados já estão disponíveis no site da premiação. O público também poderá votar a partir de hoje nos dez semifinalistas de Incentivo à Leitura - Cultura Digital, nova categoria criada para reconhecer iniciativas que utilizam as plataformas digitais para valorizar o livro e estimular a leitura. A votação segue até 9 de outubro, às 12h. Os cinco finalistas serão anunciados em 14 de outubro.

Os premiados das 23 categorias, distribuídas nos quatro eixos, Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação, além do Livro do Ano, serão conhecidos em 27 de outubro de 2026, durante a cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti, na Sala São Paulo, na capital paulista, em evento exclusivo para convidados.

A edição de 2026 conta com 4.675 obras e projetos inscritos. A lista completa dos semifinalistas, os nomes dos jurados e todas as informações oficiais sobre a premiação estão disponíveis no site do Prêmio Jabuti.

A presidente da CBL, Sevani Matos, destaca a importância desta etapa: "Chegar à etapa dos semifinalistas é um momento importante do Prêmio Jabuti, porque dá visibilidade ao trabalho de autores, ilustradores, editores e demais profissionais envolvidos na criação e circulação dos livros. A cada edição, o prêmio reafirma a diversidade e a qualidade da produção brasileira e a importância do livro e da leitura para a sociedade."

Para o curador do Prêmio Jabuti, Hubert Alquéres, a nova categoria responde a uma mudança na forma como as pessoas chegam aos livros: "A nova categoria reconhece uma transformação importante na relação entre livros e leitores. As plataformas digitais se tornaram espaços de descoberta, recomendação e formação de comunidades de leitura. Para avaliar essa atuação, reunimos um colegiado de formações e experiências diversas, que observará a qualidade da mediação, o engajamento, o impacto cultural e a diversidade de obras, autores e públicos.

O 68º Prêmio Jabuti também traz uma mudança importante na disputa pelo Livro do Ano, principal distinção da premiação. A partir desta edição, obras inscritas nas categorias Escritor Estreante – Poesia e Escritor Estreante – Romance passam a concorrer ao título.

 

 

Além da estatueta e do prêmio de R$ 70 mil, o vencedor do Livro do Ano poderá escolher participar de uma das principais feiras internacionais do livro (Londres, Bolonha, Frankfurt ou Guadalajara), com despesas custeadas pela CBL e uma programação de palestras e encontros profissionais durante o evento.

Os vencedores de cada uma das 23 categorias receberão a estatueta do Jabuti e um prêmio de R$ 5 mil.

Como funciona a avaliação da categoria “Incentivo à Leitura – Cultura Digital”

A avaliação foi realizada em duas etapas, com o objetivo de garantir uma análise aprofundada das diferentes formas de atuação dos inscritos no ambiente digital e ampliar a diversidade de olhares. Na primeira fase, os 12 jurados foram distribuídos, por sorteio, em quatro colegiados de três integrantes, preservando-se o equilíbrio de gênero e a diversidade de experiências e campos de atuação. Os colegiados avaliaram os indicados de forma independente e selecionaram 13 perfis cada.

Na segunda etapa, cada jurado analisou as 39 iniciativas selecionadas pelos outros três colegiados. Dessa forma, as iniciativas que avançaram na primeira fase passaram, ao longo das duas etapas, pela análise dos 12 jurados. A consolidação das avaliações definiu os dez semifinalistas, que seguem para a votação popular.

Na votação popular, cada pessoa poderá votar uma única vez. Votos múltiplos, irregulares ou identificados como suspeitos poderão ser desconsiderados pela organização. Os cinco mais votados serão os finalistas da categoria, anunciados em 14 de outubro.

Nesta edição, o Prêmio Jabuti conta com os patrocínios do Itaú Unibanco, Mercado Livre e Skeelo. A premiação também tem apoio institucional da TecHub e da Gráfica Santa Marta.

Sobre o Prêmio Jabuti

Criado em 1958, o Prêmio Jabuti consolidou-se como uma das principais distinções da literatura brasileira e como referência no mercado editorial. Reconhecido como patrimônio cultural, valoriza diferentes elos da cadeia do livro, celebra a diversidade da produção nacional e acompanha, ao lado dos leitores, as transformações da sociedade brasileira.

 Sobre o Itaú Unibanco

 

O Itaú Unibanco é o maior banco privado da América Latina em volume de receita e carteira de crédito, com presença em 18 países e mais de 70 milhões de clientes. Como banco universal, atua de forma integrada em Varejo, Atacado e Investimentos, oferecendo soluções financeiras para pessoas, empreendedores e empresas de diferentes portes. O banco possui posição de liderança em segmentos como alta renda e agronegócio e investe continuamente em tecnologia e inovação — com uso intensivo de dados e inteligência artificial — para aprimorar a experiência dos clientes e ampliar sua atuação consultiva. Seu propósito é promover o bem-estar financeiro e contribuir para a prosperidade do país, apoiando clientes com soluções e assessoria em suas jornadas de crescimento, inclusão social e transição para uma economia de baixo carbono.

Sobre o Skeelo

O Skeelo nasceu em 2019, com o propósito de posicionar a leitura no centro da vida contemporânea e democratizar o acesso aos livros. Hoje, é um dos principais ecossistemas de leitura digital da América Latina, conectando leitores a histórias e conhecimento por meio da tecnologia. Com mais de 2,8 milhões de usuários ativos mensais nas plataformas Skeelo e Skoob, mais de 22 milhões de downloads e mais de 1 bilhão de minutos de leitura, a empresa mantém parcerias com grandes editoras e integra benefícios de mais de 200 marcas. Reconhecido como uma das melhores empresas para trabalhar no Mercado Editorial (GPTW), o Skeelo também conquistou o Selo B Corp e expande sua presença global com operações estratégicas no Brasil, México, Colômbia, Argentina, Uruguai e Espanha. Saiba mais acessando o site Skeelo.

Sobre o Mercado Livre

Fundado em 1999, o MercadoLibre, Inc. (NASDAQ: MELI) é a empresa líder em e-commerce e tecnologia financeira na América Latina, com operações em 18 países. Oferece um ecossistema completo de soluções para que pessoas e empresas possam comprar, vender, anunciar, obter crédito e seguros, receber pagamentos, enviar dinheiro, poupar e pagar por produtos e serviços, tanto online quanto offline. O Mercado Livre busca facilitar o acesso ao comércio e aos serviços financeiros na América Latina, um mercado que oferece grandes oportunidades e alto potencial de crescimento. A empresa utiliza tecnologia de ponta para criar soluções intuitivas adaptadas à cultura local, com o propósito de transformar a vida de milhões de pessoas na região. Mais informações em Link.

Sobre a TECHUB

A TECHUB é um ecossistema integrado de soluções tecnológicas que atende empresas em todo o Brasil. Com mais de 35 anos de experiência no mercado, a companhia atua por meio de cinco verticais de negócio: Devices, focada na locação de equipamentos de TI; Connect, especializada em inteligência de dados e conectividade; Automation, com soluções de identificação, rótulos, etiquetas e rastreabilidade; digital, voltada à digitalização de processos; e Graphics, dedicada a soluções para o setor gráfico. Com sede em São Paulo e presença nacional, a TECHUB se diferencia por sua abordagem consultiva, orientada à entrega de valor e eficiência para os clientes, além de manter um forte compromisso com sustentabilidade e boas práticas de governança (ESG). Em reconhecimento à sua cultura organizacional, a empresa conquistou, em 2025, a certificação Great Place to Work (GPTW) pela quarta vez. 


Para mais informações: www.techub.com.br.

Para mais informações:

Assessoria de imprensa

Danthi Comunicação Integrada


 

MARIA HELENA ALMEIDA PEREIRA E SYLVIA MARIA FASCIOTTI: O DOM DE ACOLHER E SERVIR - HOMENAGEM DO FOCUS PORTAL CULTURAL EM 30 DE SETEMBRO — DIA DA SECRETÁRIA

No calendário das homenagens, há datas que celebram profissões. Mas há também aquelas que exaltam vocações. O Dia da Secretária, celebrado em 30 de setembro, é uma dessas ocasiões especiais, quando reconhecemos pessoas que transformam a organização em harmonia, o trabalho em convivência e a eficiência em gesto humano. 

O Focus Portal Cultural presta sua justa e calorosa homenagem a duas companheiras extraordinárias que fazem da dedicação uma arte cotidiana: MARIA HELENA ALMEIDA PEREIRA e SYLVIA MARIA FASCIOTTI, secretárias do Rotary de Niterói. Mulheres admiráveis que personificam a empatia, o companheirismo e o verdadeiro espírito de servir. 

Cada uma delas imprime à nossa instituição uma marca única e inconfundível. Sylvia traz consigo a essência da precisão e do cuidado institucional, guardando com maestria a memória e a organização de nossos passos, seja através dos boletins detalhados das reuniões ou da condução exemplar das atas, sempre zelando pela clareza e pelo registro vivo da nossa história. Já Maria Helena encarna a essência glamourosa e acolhedora de receber bem, brilhando com sua elegância natural ao abraçar a todos os presentes em nossas noites de festividades e reuniões administrativas, fazendo com que cada convidado se sinta em casa. 

Em cada recepção calorosa, em cada palavra amiga e em cada atenção dispensada aos companheiros, elas revelam uma qualidade rara: a capacidade de acolher. Seus sorrisos abrem portas, sua sensibilidade aproxima pessoas e sua presença ajuda a construir pontes de fraternidade. Mais do que organizar agendas e atividades, elas cultivam relações humanas, fortalecendo os laços que unem nossa instituição. 

A cultura também se manifesta nesses gestos silenciosos e refinados. Afinal, civilização é respeito, convivência e cuidado com o próximo. E é justamente isso que Maria Helena e Sylvia oferecem diariamente: um exemplo de humanidade, talento e dedicação que inspira e engrandece o ambiente ao seu redor. 

Neste 30 de setembro, ao homenagearmos essas duas companheiras incomparáveis, estendemos nosso reconhecimento a todas as secretárias das instituições públicas, privadas e sociais. Profissionais que, com discrição, competência e afeto, ajudam a mover a engrenagem da sociedade.

Nossa profunda gratidão a Maria Helena Almeida Pereira e Sylvia Maria Fasciotti, que fazem do servir uma expressão de amor e do acolhimento uma verdadeira obra de arte humana. 

FELIZ DIA DA SECRETÁRIA! 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



29 DE SETEMBRO DE 2026 – CELEBRAMOS OS 479 ANOS DO NASCIMENTO DE MIGUEL DE CERVANTES - EFEMÉRIDES DO FOCUS PORTAL CULTURAL


MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA nasceu em Alcalá de Henares, c. no dia 29 de setembro de 1547 e faleceu em Madrid, no dia 22 de abril de 1616. 

Antes de dar ao mundo a maior obra-prima do romance ocidental, Miguel de Cervantes Saavedra foi um homem marcado pelo chumbo, pelo ferro e pelo mofo das prisões. Não há romantismo de gabinete na gênese de Dom Quixote: o homem que batizou para sempre o espanhol como "a língua de Cervantes" escreveu suas páginas mais imortais não com a comodidade dos afortunados, mas com a fúria e a resiliência de quem conheceu os porões do mundo. 

Nascido sob o céu incerto de Alcalá de Henares no fim de setembro de 1547, o segundo filho do modesto cirurgião-barbeiro Rodrigo de Cervantes e da destemida Leonor de Cortinas cresceu no ritmo sobressaltado das dívidas da família, aprendendo desde cedo a marchar entre a escassez e a incerteza. 

A juventude de Cervantes não foi escrita sobre papel de seda, mas a ferro e fogo. Em 1569, fugindo de Madrid após um duelo que lhe rendeu um mandado de prisão, encontrou abrigo em Roma e, logo depois, na infantaria da Marinha Espanhola. A bordo da galé Marquesa, em meio ao estrondo de canhões na Batalha de Lepanto (1571), o jovem soldado enfrentou a febre e as arcabuzadas otomanas. O saldo daquele combate marcaria seu corpo para sempre: duas feridas no peito e a inutilização definitiva do braço esquerdo. Nascia o "Manco de Lepanto", uma alcunha que carregaria não com pesar, mas com orgulho mítico

Contudo, a tragédia ainda reservava novos capítulos. Em 1575, a caminho de casa, sua embarcação foi aprisionada por corsários berberes. Arrastado para Argel, viveu cinco longos anos como escravo. Esboçou quatro tentativas de fuga cinematográficas, mantendo a altivez e a liderança entre os cativos até ser finalmente resgatado pela ordem dos padres Trinitários em 1580. 

De volta a uma Espanha sufocada por crises econômicas, Cervantes viveu o cotidiano duro de quem precisava recolher grãos e impostos para a Coroa. Ironicamente, foram os infortúnios financeiros e uma breve prisão por irregularidades contábeis que abriram as portas da imortalidade: reza a tradição que foi na escuridão da Caverna de Medrano, em Argamasilla de Alba, que sua mente genial começou a tecer as loucuras e verdades de Dom Quixote.

Publicado em duas partes (1605 e 1615), o livro rompeu as estruturas da literatura ao reinventar a arte de narrar. Ao lado de tesouros como as Novelas Exemplares, o poema Viagem do Parnaso e o romance pósfumo Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda (1617), Cervantes fincou a pedra fundamental da ficção moderna.

Nos seus últimos dias, amparado pela Ordem Terceira Franciscana e pelo mecenato do Conde de Lemos, o mestre residiu em Madrid. Partiu em 22 de abril de 1616, vitimado pelo diabetes. Seu sepultamento, ocorrido no dia seguinte no Convento das Monjas Trinitárias Descalças, eternizou o 23 de abril como o Dia Mundial do Livro. 

Quase quatro séculos depois, em 2015, a antropologia forense resgatou seus fragmentos ósseos do esquecimento, devolvendo às honras de Estado o homem que, mesmo ferido e empobrecido, deu ao mundo a eterna lição de que o espírito humano é invencível diante do tempo.

© Alberto Araújo

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A história do engenhoso fidalgo Dom Quixote e de seu fiel escudeiro Sancho Pança conquista leitores geração após geração. O clássico de Miguel de Cervantes é considerado o expoente máximo da literatura espanhola e, em 2002, foi eleito por uma comissão de escritores de 54 países o melhor livro de ficção de todos os tempos. Em homenagem aos 400 anos de morte de Miguel de Cervantes, a Nova Fronteira traz ao público esta edição especial, com a obra integral em dois volumes. O texto de Cervantes é acompanhado das belíssimas ilustrações do francês Gustave Doré, um dos mais fantásticos artistas do século XIX.

 

As aventuras do Cavaleiro da Triste Figura e de seu fiel escudeiro, Sancho Pança, são recontadas por meio de um texto dinâmico e acessível, nenhum moinho de vento a ser enfrentado. As ilustrações contribuem para o caráter clássico do livro, e há um apêndice sobre o autor e Quixote na literatura, pintura e cinema.

 

Obra precursora do romance moderno, o primeiro volume de Dom Quixote é publicado pela Antofágica com artes que representaram o livro desde o século 17 até ilustrações inéditas dos dias de hoje. Com tradução de Paula Renata de Araújo e Silvia Massimini Felix, o livro é vertido do idioma original por mulheres pela primeira vez no Brasil. Publicado em 1605, Dom Quixote é considerado o grande clássico da literatura espanhola e uma das principais obras da literatura mundial. Ao narrar a vida de um admirador de romances de cavalaria que resolve se tornar ele próprio um cavaleiro andante, Miguel de Cervantes escreveu um livro rico em perspectivas e que traz reflexões para o leitor a cada causo. Uma obra que ultrapassa a sátira de histórias medievais e narra acontecimentos tanto divertidos quanto trágicos, passando também pelos grandes dilemas universais da existência humana: amor, medo, orgulho, vaidade e loucura. Louco, porém nem tanto. Quando acompanha as aventuras do cavaleiro gentil ao lado de seu fiel escudeiro Sancho Pança, o leitor nota que suas fantasias, como a cena dos gigantes moinhos de vento, acabam sendo desmentidas por uma realidade dura, às vezes violenta. Assim, nestas incursões idealistas, que dissolvem as fronteiras entre vida e literatura, o leitor pode se identificar com o protagonista e entender que podemos não estar tão distantes assim do famoso Quixote. Esta edição é a primeira do mundo a contar com uma pesquisa de imagens que representam o livro desde o século 17, além de trazer pinturas de uma gama seleta de artistas atuais. A seleção de imagens proporciona ao leitor um passeio por representações de Dom Quixote ao longo de diferentes tempos e geografias, e conta com nomes como Portinari, Doré, Dalí, Cézanne, Daumier, Goya, Romanelli e muitos outros, em quase 100 artes. A apresentação é assinada especialmente por Sergio Drummond, fundador da Antofágica, que convida, com emoção, o leitor para a história que o fez amar literatura e arte. Nos posfácios, o psicanalista Christian Dunker disserta sobre a tão famosa loucura quixotesca, a pesquisadora Maria Augusta da Costa Vieira (USP) faz uma análise sobre o leitor e a leitura em Dom Quixote, o acadêmico espanhol José Manuel Lucía Megías (Universidade Complutense de Madri) comenta a pesquisa iconográfica e as representações visuais do cavaleiro, e as tradutoras Paula Renata de Araújo e Silvia Massimini Felix escrevem um testemunho sobre a árdua e prazerosa tarefa de tradução. O QR Code na cinta direciona a duas videoaulas sobre o livro, disponíveis no YouTube, com Maria Augusta da Costa Vieira, Professora Titular de Literatura Espanhola da Universidade de São Paulo e a maior especialista em Cervantes no Brasil.

 




Morte de Miguel de Cervantes