Fotografar quem fotografa carrega sempre uma camada extra de significado. É um exercício de espelhamento, um reconhecimento mútuo entre quem observa o mundo através de lentes e quem decide registrar esse observador. Foi com essa sensibilidade que capturei a imagem de Antonio Machado, o querido e respeitado Toninho, presidente da centenária Sociedade Fluminense de Fotografia (SFF),no aconchegante Espaço Jayme Moreira de Luna, fundador da SFF, situado no coração da instituição.
O ambiente da SFF transborda história em cada canto, respirando a sétima arte e a fotografia em sua essência mais pura. No momento em que fiz o registro, Toninho estava posicionado ao lado de uma verdadeira relíquia visual: uma fotografia impressionante de Heitor Villa-Lobos, Stefan Rosenbauer foi um prestigiado fotógrafo alemão e medalhista olímpico de esgrima que imigrou para o Brasil, onde fez história nos anos 1940 e 1950. Seu estúdio no Centro do Rio de Janeiro era frequentado por grandes personalidades brasileiras, incluindo o compositor Heitor Villa-Lobos, de quem era vizinho e amigo próximo. O trabalho de Rosenbauer ficou muito conhecido pelo uso marcante de luz e sombra, sendo comparado a um "Rembrandt moderno" e pela expressividade que capturava nos olhos dos retratados.
Contemplar aquela obra ao lado de Toninho foi uma experiência magnética. Ele falava daquela imagem com um orgulho legítimo, daqueles que iluminam o rosto e entregam a paixão genuína pela cultura e pela memória artística do nosso país. A fotografia de Villa-Lobos, capturada em um clássico e atemporal preto e branco, impressiona pela força. Nela, o maestro brasileiro aparece segurando um cigarro entre os dedos, enquanto direciona um olhar profundamente fixo, penetrante e intenso diretamente para a câmera de Stefan Rosenbauer.
A peça é imponente, emoldurada em uma arte de proporções generosas, estimo que alcance cerca de 1 metro por 80 centímetros, dominando o espaço com uma presença quase viva, como se o próprio maestro estivesse ali, vigiando e inspirando todos os frequentadores daquele salão.
Esse encontro marcante aconteceu durante a realização do inspirador evento “Artistas da ANE”, um projeto cultural vibrante lindamente coordenado e apresentado com maestria por Leda Mendes Jorge. O evento trouxe à tona a força da diversidade artística, transformando o espaço da SFF em um ponto de convergência para criadores, pensadores e admiradores da arte em suas múltiplas formas. A energia do encontro era palpável, unindo gerações e consolidando a fotografia e a cultura como pontes essenciais de diálogo humano.
A atmosfera de sensibilidade daquele dia foi potencializada por outra atração imperdível que movimenta os corredores da instituição: a exposição "Caminhos do Afeto", inaugurada no dia 29 de agosto de 2026, às 15h, na sede da Sociedade Fluminense de Fotografia na Rua Dr. Celestino, 115, Centro, Niterói.
A mostra exibe um conjunto tocante de fotografias que revelam a sensibilidade e o olhar único de seus talentosos artistas: Betina Longi da Silva, Bruno de Almeida Fonseca, Camila Caldas Coutinho, Clézio de Menezes, Davi Schiavoni Machado, Giselle Souza do Espirito Santo, Higor Pires de Sousa, Jacy Therezinha Caldas Coutinho, José Antonio de Souza Amador, Jullyana de Souza Oliveira, Laura de Araújo Ferreira Braz, Leticia dos Santos Coelho, Liana Sales Ferreira, Ligia Ferreira Rocha, Lucas Figueiras de Mendonça Valente, Luiz Alexandre Bragança dos Santos, Luiz Andre de Souza Amador, Marcia Abdalla Ramos, Maria das Graças Infante Pereira, Matheus Ribeiro Habib da Fonseca, Olivia Shiavoni Machado, Patricia Mendes da Silva, Phillipy Raphael Pereira dos Santos, Renato Moreira de Oliveira, Sophia do Nascimento Gomes e Wanilda do Socorro Lopes.
Ver esses trabalhos é um lembrete urgente e poético sobre o poder democratizante da fotografia. A câmara, nas mãos desses alunos e criadores, transforma-se em um canal autêntico de expressão, provando que a arte não conhece barreiras físicas ou sensoriais. Cada enquadramento exposto revela perspectivas únicas, mundos particulares que merecem ser vistos, aplaudidos e integrados ao debate cultural contemporâneo. A iniciativa reforça o papel da SFF não apenas como um reduto de preservação histórica, mas como um espaço vivo, inclusivo e voltado para o futuro.
Estar ali, registrando Toninho Machado diante da imponente imagem de Villa-Lobos, em meio a um evento tão pulsante e a uma exposição tão significativa, fez-me refletir sobre o papel da nossa própria memória. A fotografia é, antes de tudo, uma forma de resistir ao esquecimento.
Toninho, com sua dedicação incansável à SFF, é parte vital dessa resistência cultural em Niterói. Ao congelar aquele instante, quis guardar não apenas a sua figura sorridente e orgulhosa, mas toda a atmosfera de um dia em que a arte se fez presente em sua totalidade: na história contada por Stephen Rosembaum, na música eterna de Villa-Lobos, na curadoria afetiva de Leda Mendes Jorge e na pureza do olhar dos fotógrafos da exposição Caminhos do Afeto. Um verdadeiro mosaico de afetos, capturado para a posteridade.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
UM POUCO SOBRE STEFAN ROSENBAUER
Stefan Rosenbauer foi um dos mais importantes nomes da fotografia e da esgrima no Brasil do século XX. Nascido em 24 de março de 1896, na cidade de Biberach an der Riß, na Alemanha, construiu uma trajetória marcada pela excelência esportiva e artística, deixando um legado reconhecido tanto na Europa quanto no Brasil.
Antes de se destacar como fotógrafo, Rosenbauer alcançou projeção internacional na esgrima. Integrante do tradicional Fechtclub Hermannia Frankfurt, foi campeão alemão de espada em 1931 e 1932, além de conquistar o título nacional de florete em 1933. Sua habilidade o levou a representar a Alemanha em importantes competições internacionais, incluindo o Campeonato Mundial de 1934, em Varsóvia, onde conquistou a medalha de bronze por equipes. Dois anos depois, integrou a seleção alemã que obteve a medalha de bronze no florete por equipes nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936.
Em 1939, diante das transformações políticas da Europa, mudou-se para o Brasil, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Naturalizou-se brasileiro e passou a defender o Fluminense Football Club, tornando-se uma das figuras de destaque da esgrima nacional. Competiu nas três armas da modalidade, florete, espada e sabre, acumulando títulos individuais e por equipes até encerrar sua carreira competitiva em 1954.
Paralelamente à vida esportiva, Rosenbauer desenvolveu uma notável carreira na fotografia. Formado na Alemanha, recebeu o título de Mestre da Arte Fotográfica em 1921, distinção que o habilitava a formar novos profissionais. Reconhecido desde jovem por sua competência técnica, obteve premiações importantes ainda em seu país de origem, consolidando reputação como retratista de excelência.
Ao chegar ao Brasil, reabriu seu estúdio fotográfico no Rio de Janeiro e introduziu técnicas modernas de iluminação, composição e retrato artístico que contribuíram significativamente para a evolução da fotografia brasileira. Seu trabalho destacou-se especialmente pelo refinado domínio da luz e sombra e pela produção de retratos clássicos que influenciaram gerações de fotógrafos.
Rosenbauer participou ativamente do movimento fotográfico brasileiro. Foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Arte Fotográfica (ABAF), atuou como consultor técnico do Photo Club Brasileiro e desempenhou papel relevante na Sociedade Fluminense de Fotografia. Como mestre e orientador, formou diversos profissionais que mais tarde se tornariam referências na fotografia nacional, entre eles Chico Albuquerque e Heinz Förtmann.
Seu estúdio tornou-se ponto de referência para artistas, intelectuais e personalidades da época. Retratou figuras como Heitor Villa-Lobos, Marechal Rondon e integrantes da histórica companhia teatral Os Artistas Unidos, liderada por Henriette Morineau. Seus retratos foram publicados em livros, jornais e revistas, transformando-se em registros valiosos da vida cultural brasileira.
O reconhecimento internacional veio também por meio da Fédération Internationale de l'Art Photographique (FIAP), que lhe concedeu, em 1957, o título de Artiste FIAP (AFIAP), em homenagem à qualidade de sua produção e aos serviços prestados à fotografia mundial.
Stefan Rosenbauer faleceu em 18 de agosto
de 1967, no Rio de Janeiro. Seu legado permanece vivo tanto no esporte quanto
na fotografia. Considerado um dos grandes retratistas de sua geração, deixou
uma extensa galeria de imagens que documenta com sensibilidade, elegância e
rigor artístico importantes personagens da sociedade brasileira do século XX.
Dia 2 de setembro de 2006
Festividades em homenagem ao dia
mundial da fotografia com a inauguração da galeria Jayme Moreira de Luna e das
salas Cesar Salamonde, Chakib Jabor, Luis Antonio Pimentel, Nair Avellar Nunes
e Walter Fialho Bittencourt. A abertura aconteceu no salão Octávio do Prado.
Neste dia também foram inauguradas duas exposições coletivas: "A Alma do
Vidro" e "Nós estávamos aqui nos anos 70".



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