A literatura universal não é apenas um repositório de histórias, mas o mapeamento genético da subjetividade. Quando William Shakespeare concebeu Hamlet no alvorecer do século XVII, ele não estava apenas escrevendo uma tragédia de vingança; ele estava antecipando o maior golpe narcísico da humanidade, que Sigmund Freud formalizaria séculos depois: a descoberta de que o homem não é o centro de si mesmo. O "ser ou não ser" shakespeariano é, em última análise, o grito de um sujeito que descobre que sua "casa" mental, o seu "Eu", é habitada por estranhos, fantasmas e desejos inomináveis.
I. O Golpe Narcísico: "O Eu não é senhor em sua própria casa"
A célebre frase de Freud ressoa nas ameias do castelo de Elsinore. Para a psicanálise, o sujeito é dividido. A ideia de uma consciência plena, capaz de governar todas as ações, é uma ilusão que remonta ao racionalismo. Ao analisarmos Hamlet, percebemos que ele encarna a transição dolorosa entre o homem medieval (guiado pelo destino e pela honra externa) e o homem moderno (assombrado pela dúvida interna).
Diferente da tese de John Locke, que sugere a tabula rasa, a mente como uma folha em branco preenchida pela experiência, a psicanálise sugere que o papel já vem marcado por "tintas invisíveis": o inconsciente. Hamlet não consegue agir não por falta de evidências, mas porque o crime de seu tio Cláudio é um espelho de seus próprios desejos reprimidos. O Complexo de Édipo encontra em Hamlet sua versão mais refinada: o príncipe hesita em matar o tio porque, no fundo, o tio realizou o desejo que o próprio Hamlet mantinha oculto no inconsciente: eliminar o pai e possuir a mãe.
II.
A Trindade de Elsinore: ID, Ego e Superego em Cena
Podemos interpretar a dinâmica da peça como o colapso das instâncias psíquicas:
O Fantasma (Superego Primitivo): No teatro da mente humana, o Fantasma do Rei Hamlet é a personificação clínica do Superego. Ele impõe uma demanda paralisante: "Vinga meu assassinato, mas não corrompas tua mente nem tentes nada contra tua mãe". É a armadilha do Superego: exige uma ação ao mesmo tempo que impõe uma restrição moral severa. O Fantasma representa o Pai Simbólico que, mesmo morto, continua a governar o psiquismo do filho.
Hamlet
(O Ego Sitiado): O príncipe tenta equilibrar a realidade brutal, as exigências
do fantasma e seus impulsos destrutivos. Seu adiamento (procrastinação) é a
defesa de um ego que se descobre paralisado. Ele vive a luta de um indivíduo
tentando nascer enquanto um espectro autoritário o mantém preso ao passado e à
melancolia.
Cláudio (O ID Desenfreado): O usurpador representa o impulso puramente egoico de poder e satisfação imediata. Contudo, nem mesmo ele escapa da "casa que não tem dono": na cena em que tenta rezar, Cláudio descobre que sua vontade quer o perdão, mas seu desejo não quer abrir mão da coroa.
III. Ofélia e a Fragmentação do Ego: O Espelho Estilhaçado
Se Hamlet sofre por ter um "Eu" dividido, Ofélia sofre por não possuir um "Eu" que lhe pertença. Ela é definida por três figuras masculinas: o pai (Polônio), o irmão (Laertes) e o amante (Hamlet). Para a psicanálise, Ofélia é mantida em um estado de "folha em branco" que só pode ser escrita pelos outros.
Sua loucura é uma manifestação do inconsciente rompendo a superfície. Ao perder a razão, ela finalmente fala através de metáforas. O seu afogamento representa o retorno ao Narcisismo Primário, um estado onde não há separação entre o sujeito e o mundo. Incapaz de lutar em uma sociedade disposta a engolir os fracos, Ofélia entrega-se à inércia. É o grau zero da subjetividade.
IV. A Tensão entre a Vontade e o Meio: Gertrude e a Contemporaneidade
A Rainha Gertrude pode ser analisada sob a ótica da carência afetiva. Se Hamlet é a moralidade paralisada, Gertrude é a tentativa de ignorar a dor através do princípio do prazer imediato. Ao casar-se rapidamente, ela foge do luto, representando o Ego que busca segurança a qualquer custo.
Essa dinâmica nos traz à angústia contemporânea. Ao chegarmos à fase adulta, somos bombardeados por inseguranças. Hamlet é o primeiro herói literário a sofrer de ansiedade existencial moderna. Ele percebe que o "teatro do mundo" exige máscaras. A lição de Freud é que a consciência da nossa própria divisão é o primeiro passo para a cura. Ao entender que não somos donos do nosso "Eu", passamos de escravos das paixões a observadores delas. Horácio, o sobrevivente, representa a razão temperada pelo afeto.
Fechamento: A Atemporalidade de Elsinore
Hamlet permanece atual porque a estrutura do conflito humano não mudou. A verdadeira "ação" de Hamlet não está na ponta da espada, mas na profundidade de seus solilóquios. A obra de Shakespeare nos ensina que o ser humano é uma construção precária entre o instinto e a lei.
Reconhecer
que o "Eu" não é senhor absoluto é, talvez, a maior liberdade que a
cultura pode nos oferecer. Ser "senhor de si" não é ter controle
absoluto, mas ter a coragem de olhar para os próprios fantasmas e, ainda assim,
escolher como agir. Elsinore não é um castelo na Dinamarca; é a arquitetura da
nossa própria mente. É nessa insurgência da consciência que encontramos a
resistência ao cinismo contemporâneo.
Referências
Bibliográficas
ALBUQUERQUE, Carol. Hamlet de Shakespeare: resumo e interpretação
psicanalítica. Psicanálise Clínica/Psicanálise e Cultura, 2024.
BLOOM, Harold. Shakespeare: A Invenção do Humano. Tradução de José
Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos (1900). Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. IV e V. Rio
de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1917). In: Obras Completas, volume
12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos.
Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Uma dificuldade no caminho da psicanálise (1917).
[Onde se encontra a frase sobre o "Eu não ser senhor em sua própria
casa"]. In: Obras Completas, volume 14. São Paulo: Companhia das Letras,
2010.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação
(1958-1959). Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. [Obra
onde Lacan dedica sete lições à análise de Hamlet].
LOCKE, John. Ensaio sobre o Entendimento Humano. Tradução de Pedro
Paulo Pimenta. São Paulo: Editora UNESP, 2012.
SHAKESPEARE, William. Hamlet. Tradução de Lawrence Flores Pereira. São
Paulo: Companhia das Letras, 2015. (Edição bilíngue).
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Alberto Araújo
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