O Focus Portal Cultural, Sob a Curadoria do jornalista Alberto Araújo, Celebra com distinção aos 129 anos da Academia Brasileira De Letras.
20 de julho
de 2026. Mais do que uma efeméride no calendário, este aniversário marca a
solidez de uma instituição que, há mais de um século, atua como guardiã da
nossa identidade linguística e literária. Ao longo desta trajetória, a ABL tem
se consolidado como um ponto de convergência fundamental para o pensamento brasileiro,
promovendo o diálogo entre o passado que nos fundou e o futuro que,
constantemente, tentamos decifrar.
É com respeito
à memória e à produção intelectual que move esta Casa, que o Focus Portal Cultural estende
suas congratulações a cada um de seus integrantes. Convidamos nossos leitores a
uma reflexão sobre a importância da preservação das letras como um exercício de
cidadania e um ato de resistência cultural.
A IMORTALIDADE COMO EXERCÍCIO DE MEMÓRIA
129 ANOS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
A existência de uma instituição como a Academia Brasileira de Letras (ABL) ao longo de 129 anos não se mede pelo calendário linear, mas pela capacidade de tecer, através dos séculos, o fio que conecta o efêmero à perenidade. Quando Machado de Assis e seus pares idealizaram o Petit Trianon carioca como morada das letras, não buscavam erguer uma fortaleza inabalável contra o tempo, mas sim criar um organismo vivo, capaz de metabolizar as transformações da língua e as metamorfoses da alma brasileira.
Vivemos em uma era de obsolescência programada, onde a informação se esgota no momento em que é consumida. Diante desse turbilhão, a Academia, com quase um século e três décadas de existência, impõe-se não como um monumento estático, mas como um campo de tensão. Ela é o espaço onde a palavra, essa entidade caprichosa e mutável, encontra um porto de guarda.
A filosofia da imortalidade, conferida aos seus membros, não deve ser entendida como uma apoteose da vaidade individual, mas como um compromisso com a continuidade do pensamento. A "imortalidade" aqui é um conceito dialético: o acadêmico passa, mas o exercício da reflexão permanece. É a tentativa humana, talvez a mais nobre e desesperada, de deixar marcas na areia do tempo que não sejam imediatamente tragadas pela maré do esquecimento.
A ABL, ao celebrar seus 129 anos, reafirma um axioma fundamental: a língua portuguesa não é apenas um instrumento de comunicação, mas o próprio alicerce de nossa identidade. Ela é o lugar onde o brasileiro se reconhece, se nomeia e se projeta.
No seio da Academia, a língua é tratada com um rigor que não deve ser confundido com rigidez. Pelo contrário, trata-se de um respeito visceral pela nossa matéria-prima. Filósofos e escritores que por ali passaram compreenderam que o idioma é uma entidade orgânica; ele cresce, adoece, se cura e se renova. A missão da ABL, nestes quase 130 anos, tem sido a de ser o fiel da balança entre a necessária preservação da estrutura que nos dá inteligibilidade e a abertura urgente às inovações que a vida cotidiana impõe à sintaxe.
Não há cultura sem arquivo, e não há memória sem o cultivo da palavra. Ao preservar a norma culta, a Academia oferece uma referência, um ponto de ancoragem para que a língua não se disperse em ruído. É um ato de resistência contra a fragmentação do pensamento.
Completar 129 anos é, acima de tudo, um exercício de humildade perante o fluxo da história. A Academia Brasileira de Letras atravessou regimes políticos, revoluções tecnológicas, mudanças profundas nos costumes e as dores de um país que se refaz constantemente.
O que a mantém relevante? A resposta reside na sua natureza de ser um espaço de mediação. A ABL não é um santuário isolado da realidade, mas um lugar onde a erudição deve, necessariamente, dialogar com o agora. A cultura brasileira é plural, barroca, sincrética e contraditória. O desafio da Academia tem sido, e continua sendo, o de abraçar essa pluralidade sem perder a essência do rigor intelectual.
O ato de escrever, o foco central da casa é, na sua essência, um ato de solidão. Contudo, ao institucionalizar esse gesto, a ABL transforma a solidão do escritor em um projeto coletivo. É um paradoxo belíssimo: o indivíduo que cria, em diálogo com o coletivo que preserva.
Ao olharmos para esses 129 anos, não celebramos apenas o acúmulo de obras, mas a persistência de um ideal. Num mundo que valoriza o imediatismo, a ABL representa a "demora", o tempo necessário para pensar, para lapidar o texto, para refletir sobre a condição humana.
A memória não é apenas olhar para trás; é a matéria de que é feito o futuro. Uma nação que não cultiva sua literatura, que não honra seus pensadores, é uma nação que caminha às cegas. A Academia, em sua maturidade centenária, convida-nos a essa lucidez. Ela nos recorda que somos herdeiros de uma vasta biblioteca e que, em cada frase que escrevemos, carregamos a responsabilidade de honrar esse legado.
A celebração de 129 anos de uma instituição que coloca a palavra como o centro gravitacional de suas preocupações é, fundamentalmente, uma celebração da inteligência humana. É a afirmação de que, apesar da finitude que nos é imposta pela natureza, podemos, através da arte e do pensamento, habitar o tempo de modo mais denso, mais crítico e, finalmente, mais humano.
A Academia Brasileira de Letras segue o seu curso, navegando não em águas calmas, mas nas correntes agitadas da cultura. Ela não é o ponto final de uma trajetória, mas um eterno devir.
Ao celebrarmos esta data, não olhamos para a ABL como uma relíquia, mas como um laboratório contínuo de nossa própria identidade. A verdadeira homenagem que podemos prestar a esses 129 anos não é a reverência distanciada, mas a participação ativa no debate sobre o que significa, hoje, ser brasileiro e usar a língua para construir sentido em um mundo que parece, a cada dia, ter perdido o seu.
Que a Academia continue a ser esse espaço de inquietação, de diálogo e, sobretudo, de permanência na mudança. Pois, como nos ensina a própria literatura, a imortalidade é apenas o nome que damos à capacidade das ideias de sobreviverem ao corpo que as concebeu.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural




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