Sob a curadoria do jornalista e escritor Alberto Araújo, trazemos a lume, no quadro EFEMÉRIDES do Focus Portal Cultural, uma homenagem solene neste dia 23 de maio de 2026. Celebramos hoje o transcurso dos exatos 145 anos do nascimento de uma das presenças mais intrépidas, audaciosas e brilhantes da história da aviação mundial: Artur de Sacadura Freire Cabral, universalmente conhecido como Sacadura Cabral. Este espaço, dedicado ao resgate e à preservação da memória histórica, cultural e literária, convida o leitor a uma viagem no tempo, unindo continentes, cruzando oceanos e desaguando no Rio de Janeiro, em um rincão muito especial do município de Niterói, onde a eternidade do feito deste herói dos céus e de seu inseparável companheiro, Gago Coutinho, se materializou na pedra e no bronze de um obelisco imponente, situado na Praça Lusitânia, na Praia de Icaraí.
Para compreender a magnitude da efeméride que hoje assinalamos, é imperioso voltarmos às páginas da história para o dia 23 de maio de 1881, na antiga e nobre freguesia de São Pedro, em Celorico da Beira, Portugal. Foi ali, entre as paisagens austeras e carregadas de história da Beira Alta, que nasceu Sacadura Cabral. Desde a sua juventude, o destino parecia apontá-lo para os grandes horizontes. Ingressando na Marinha Portuguesa em 1897 como aluno da Escola Naval, cedo demonstrou uma inteligência fulgurante, uma precisão matemática incomum e uma determinação férrea. Seus primeiros passos profissionais foram dados na hidrografia e na cartografia, ciências que exigiam um rigor milimétrico e que, mais tarde, seriam fundamentais para as suas incursões aéreas.
O início do século XX testemunhava o nascimento da aviação, e Sacadura Cabral percebeu, de imediato, que o futuro da soberania e da ligação entre as nações passaria por aquela nova e perigosa fronteira: o céu. Enviado a França para obter o diploma de piloto aviador, ele não apenas se tornou um dos primeiros instrutores da Escola Militar de Aviação, mas também assumiu um papel de liderança institucional indispensável, tornando-se diretor dos serviços de Aeronáutica Naval e comandante de esquadrilha na Base Naval de Lisboa.
Durante a Primeira Guerra Mundial, sua atuação nas ex-colônias africanas de Portugal foi marcante. Foi exatamente nesse cenário ultramarino, em meio às vastidões da África, que os caminhos de Sacadura Cabral e de Carlos Viegas Gago Coutinho se cruzaram. Gago Coutinho, também oficial da Marinha, era um geógrafo e cartógrafo de mente brilhante. Da união entre a destreza técnica de pilotagem e visão estratégica de Sacadura com o gênio matemático e astronômico de Gago Coutinho, nasceu uma das duplas mais famosas da história da ciência aplicada à navegação global.
A grande consagração internacional da dupla ocorreria no ano de 1922, em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil. Sacadura Cabral concebeu um plano que muitos consideravam uma loucura suicida: realizar a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, unindo Lisboa ao Rio de Janeiro. A epopeia protagonizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral foi, em todos os sentidos, um teste supremo de limites humanos e tecnológicos. A bordo do hidroavião batizado apropriadamente de "Lusitânia", um aparelho monomotor Fairey III-D modificado, os aeronautas iniciaram sua jornada em 30 de março de 1922.
A travessia foi uma sucessão de atos de bravura e perícia sem precedentes. No total, os aeronautas percorreram mais de 8 mil quilômetros em uma jornada que durou 79 dias. O que hoje o homem moderno faz confortavelmente em poucas horas dentro de jatos comerciais de última geração, na época exigiu impressionantes 62 horas de voo efetivo sobre o oceano desconhecido, enfrentando contratempos técnicos severos, tempestades, a perda de aeronaves consecutivas e a imensidão assustadora do horizonte marítimo. Quando o "Lusitânia" original sofreu uma avaria irreparável em um pouso forçado perto do arquipélago de São Pedro e São Paulo, o governo português enviou outros aparelhos para que a missão continuasse, demonstrando que o orgulho de uma nação estava em jogo.
O grande triunfo científico da viagem residiu na genialidade de Gago Coutinho, que utilizou um sextante clássico de marinha adaptado com um horizonte artificial de bolha de água, desenvolvido em parceria com o próprio Sacadura Cabral. Essa invenção revolucionária permitiu que a aeronave encontrasse com precisão cirúrgica os minúsculos pontos de terra no meio do Atlântico após escalas estratégicas, como em Cabo Verde e em Fernando de Noronha, provando ao mundo que a navegação aérea astronômica era perfeitamente viável. Ao chegarem finalmente ao Rio de Janeiro, então capital federal do Brasil, a apoteose foi indescritível. Após a monumental travessia, Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram aclamados de forma febril e apaixonada tanto em Portugal quanto no Brasil. Eles foram recebidos como verdadeiros deuses do ar, símbolos vivos da fraternidade luso-brasileira, unindo os dois lados do oceano não mais pelas caravelas de Pedro Álvares Cabral, mas pelas asas da modernidade.
Contudo, a tragédia costuma andar de mãos dadas com os heróis românticos. Apenas dois anos após a glória absoluta, o destino ceifou a vida de Sacadura Cabral de forma prematura e misteriosa. No dia 15 de novembro de 1924, enquanto realizava o voo de transporte de um avião Fokker recém-adquirido de Amsterdã para Lisboa, Sacadura desapareceu sobre as águas gélidas e turbulentas do Mar do Norte. O corpo do intrépido aviador nunca foi encontrado pelas equipes de resgate; do aparelho sinistrado, foi recolhido apenas um único flutuador. O mar, que ele tanto desafiara a partir dos céus, recolheu seu corpo para a eternidade, deixando órfã uma nação e transformando o herói em mito imperecível.
Mas a história não se apaga com as brumas do Mar do Norte. Ela permanece viva nos monumentos e no tecido urbano das cidades que testemunharam a passagem e a consagração desses homens. E é aqui que a narrativa desta efeméride se aproxima fisicamente de nós, descendo dos céus e das páginas biográficas diretamente para o solo fluminense, mais especificamente para a bela Niterói, a nossa "Cidade Sorriso".
Existem lugares que parecem pequenos demais para conter a grandeza da história, mas que, justamente por isso, se tornam resguardadores silenciosos de feitos imensos. A Praça Lusitânia, em Niterói, é um desses lugares.
Discreta, quase escondida no final da Praia de Icaraí, diante do mar que se abre em azul e espuma, ela abriga um monumento que não é apenas pedra e bronze: é memória condensada em forma de obelisco.
A história da aviação mundial não é feita apenas de hangares e pistas de asfalto, mas também de símbolos que resistem ao tempo em nossas praças. Em Niterói, a Praia de Icaraí guarda um desses marcos silenciosos: a Praça Lusitânia. O nome, que evoca as raízes portuguesas, é a moldura para um obelisco histórico que celebra um dos maiores feitos do século XX: a Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, realizada em 1922.
A epopeia protagonizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral foi um teste de limites. A bordo do hidroavião Lusitânia, os aeronautas percorreram mais de 8 mil quilômetros em uma jornada que durou 79 dias. O que hoje fazemos em poucas horas, na época exigiu 62 horas de voo sobre o oceano desconhecido, enfrentando contratempos técnicos e a imensidão do horizonte. A precisão de Coutinho, com seu sextante modificado, garantiu que a aeronave encontrasse o Brasil após escalas estratégicas.
A relação dessa dupla com a "Cidade Sorriso" foi consolidada cinco anos após o feito. Em 1927, os próprios heróis do ar cruzaram a baía para inaugurar o monumento em Icaraí. Naquela ocasião, Niterói vestiu-se de gala. Os aviadores foram recebidos com honras de Estado no Palácio Arariboia, então sede do governo municipal, onde a diplomacia e a admiração popular se encontraram.
Hoje, o obelisco da Praça Lusitânia é mais do que um marco geográfico; é um lembrete da audácia humana. Situado próximo à Igreja de São Judas Tadeu, o monumento convida moradores e turistas a olharem para o céu e recordarem que, sob aquelas mesmas estrelas, Gago Coutinho traçou o caminho que uniu definitivamente os continentes pelo ar.
Inaugurada em 1923, a praça assinala a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. O feito, que uniu Portugal e Brasil pelos céus, encontra ali sua tradução simbólica: uma escadaria de granito que conduz a uma esfera coroada pela cruz de malta. O desenho é simples, mas carrega uma densidade cultural que ultrapassa a estética. É como se cada degrau fosse uma metáfora da ascensão humana rumo ao desconhecido, e cada face do monumento fosse uma página escrita no livro da coragem.
A placa de bronze, com sua inscrição solene, não é apenas explicativa; é testemunho. Ela lembra que, em tempos em que voar era quase um ato de fé, dois portugueses ousaram transformar o céu em estrada. E Niterói, cidade voltada para o mar e para o horizonte, tornou-se guardadora desse gesto. A Praça Lusitânia não é monumental pela escala, mas pela ideia: ali se celebra a união de povos através da ciência e da audácia.
As comemorações de sua inauguração, com sessão solene no Teatro Municipal João Caetano e aclamação popular nas ruas, revelam o quanto o feito foi sentido como patrimônio coletivo. Não se tratava apenas de celebrar aviadores, mas de afirmar que o Atlântico, tantas vezes palco de travessias coloniais, podia agora ser ponte de fraternidade. O obelisco de Icaraí é, nesse sentido, um contra-discurso ao esquecimento: ele inscreve no espaço urbano a memória de que o céu também pode ser navegável.
Hoje, quem passa pela praça talvez veja apenas um jardim modesto, um monumento antigo, uma referência geográfica. Mas quem se detém percebe que ali repousa uma narrativa maior: a de que a cidade guarda, em sua paisagem, um pedaço dessa epopeia lusitana. A Praça Lusitânia é, portanto, mais do que um ponto de encontro; é um lugar de memória, onde o Atlântico se faz presente não como barreira, mas como caminho.
Celebrar seus 103 anos, em 2026, é celebrar também a permanência da história nos interstícios da vida urbana. É reconhecer que, entre prédios, restaurantes e igrejas, há um obelisco que nos lembra de que o céu já foi conquistado por mãos que sabiam unir cálculo e coragem. E que, mesmo em uma pequena praça, cabe o infinito.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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