segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

19 DE JANEIRO O NASCIMENTO DE EDGAR ALLAN POE - EFEMÉRIDES DO FOCUS PORTAL CULTURAL –

 

Retrato de Edgar Allan Poe, provavelmente tirado em junho de 1849 em Lowell, Massachusetts por um fotógrafo desconhecido. O retrato, conhecido como daguerreótipo "Annie", foi entregue a Annie L. Richmond, amiga de Poe.


Há 217 anos, no dia 19 de janeiro de 1809, nascia em Boston, Massachusetts, uma das figuras mais enigmáticas e fascinantes da literatura mundial: Edgar Allan Poe. Sua vida, marcada por tragédias pessoais, dificuldades financeiras e uma genialidade literária incomparável, transformou-o em um ícone eterno da cultura ocidental. Poe faleceu em Baltimore, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, deixando um legado que continua a inspirar escritores, artistas e leitores até hoje.

 

Edgar nasceu como Edgar Poe, filho dos atores David Poe Jr. e Elizabeth Arnold Hopkins Poe. Seu pai abandonou a família quando ele tinha pouco mais de um ano, e sua mãe morreu de tuberculose em 1811, deixando Edgar e seus irmãos órfãos. O destino dos três foi dividido: o irmão mais velho, Henry, foi enviado a parentes; a irmã mais nova, Rosalie, foi adotada por outra família; e Edgar foi acolhido por John Allan e sua esposa Frances, em Richmond, Virgínia. Embora nunca tenha sido formalmente adotado, recebeu o sobrenome Allan, passando a ser conhecido como Edgar Allan Poe.

 

A relação com John Allan, no entanto, foi sempre turbulenta. Enquanto Frances demonstrava afeto e cuidado, John mantinha distância e severidade, criando um ambiente de constantes conflitos que moldariam o caráter inquieto e rebelde do jovem Poe.

 

Poe estudou por um breve período na Universidade da Virgínia, mas sua vida acadêmica foi marcada por dívidas, festas e desentendimentos com o pai adotivo. Após abandonar os estudos, alistou-se no exército, onde permaneceu por dois anos. Tentou também a carreira militar em West Point, mas foi expulso por indisciplina.

 

Em 1827, publicou anonimamente sua primeira coletânea de poemas, Tamerlane and Other Poems. Embora tenha passado despercebida, essa obra marcou o início de sua trajetória literária. Nos anos seguintes, Poe dedicou-se à poesia, mas logo percebeu que a prosa lhe oferecia maiores possibilidades de expressão e reconhecimento.

 

Durante a década de 1830, Poe trabalhou como editor e crítico literário em diversas revistas e jornais. Sua escrita afiada e exigente lhe rendeu tanto admiradores quanto inimigos. Foi nesse período que começou a se destacar como contista, explorando temas sombrios, psicológicos e fantásticos.

 

Histórias como Manuscrito encontrado numa garrafa e A Queda da Casa de Usher revelaram sua habilidade em criar atmosferas de mistério e terror, estabelecendo-o como um mestre do gênero. Além disso, Poe é considerado o inventor da ficção policial, graças a contos como Os Assassinatos da Rua Morgue, que introduziram o arquétipo do detetive analítico e influenciaram diretamente autores como Arthur Conan Doyle.

 

Em Baltimore, Poe casou-se com sua prima Virginia Clemm, então com apenas 13 anos. Apesar da diferença de idade, o casamento foi marcado por afeto e companheirismo. Contudo, a saúde frágil de Virginia trouxe sofrimento constante ao escritor. Ela morreu de tuberculose em 1847, dois anos após a publicação de The Raven (O Corvo), obra que consagrou Poe internacionalmente.

 

A morte de Virginia mergulhou Poe em profunda melancolia, intensificando o tom sombrio de seus escritos. Poemas como Annabel Lee refletem essa dor e permanecem como testemunhos líricos de sua paixão e perda.

 

Em 1845, O Corvo foi publicado e rapidamente se tornou um fenômeno cultural. O poema, com sua cadência hipnótica e atmosfera lúgubre, consolidou Poe como um dos grandes nomes da literatura americana. No entanto, o sucesso não trouxe estabilidade financeira. Poe continuava a enfrentar dificuldades econômicas e lutava para sustentar seus projetos, como o jornal The Stylus, que nunca chegou a ser lançado.

 

Sua morte, em 1849, permanece envolta em mistério. Encontrado em estado de delírio nas ruas de Baltimore, faleceu poucos dias depois. As causas foram atribuídas a uma série de hipóteses: alcoolismo, doenças, envenenamento, até mesmo assassinato. O enigma de sua morte apenas reforçou o caráter enigmático de sua figura.

 

Apesar de sua vida breve e conturbada, Poe deixou uma obra vasta e impactante. Seus contos de terror psicológico, suas críticas literárias e sua poesia melancólica influenciaram não apenas a literatura, mas também áreas como a cosmologia e a criptografia.

 

Autores como Baudelaire e Mallarmé traduziram e divulgaram seus textos na França, tornando-o referência para o simbolismo europeu. No século XX, sua presença se expandiu para o cinema, a música e a televisão, consolidando-o como um ícone cultural. Hoje, suas casas são preservadas como museus, e sua imagem continua a inspirar artistas e leitores em todo o mundo.

 

OBRAS IMORTAIS

 

Entre suas criações mais célebres estão:

The Raven (O Corvo, 1845) – poema que lhe trouxe fama imediata.

Annabel Lee (1849) – poesia lírica e melancólica, escrita pouco antes de sua morte.

Histórias Extraordinárias (1837) – coletânea que reúne contos como A Queda da Casa de Usher, O Gato Preto e O Barril de Amontillado.

Os Assassinatos da Rua Morgue – marco inicial da ficção policial.

 

Cada uma dessas obras revela a genialidade de Poe em explorar os limites da mente humana, o medo, a obsessão e a fragilidade da existência.

 

Celebrar o nascimento de Edgar Allan Poe é reconhecer a força da imaginação e da palavra. Sua vida, marcada por dor e genialidade, deu origem a uma obra que transcende séculos e fronteiras. Poe não apenas inventou novos gêneros literários, mas também nos ensinou que o mistério, o terror e a beleza podem coexistir na arte.

 

No dia 19 de janeiro, lembramos não apenas o nascimento de um escritor, mas o surgimento de um mito literário que continua a ecoar em cada verso de O Corvo, em cada conto sombrio, em cada leitor que se deixa envolver pelo fascínio do trágico.

 

© Alberto Araújo


Placa em homenagem ao escritor no centro de Boston, marcando o local aproximado de seu nascimento no início do século XIX


Poe foi enterrado originalmente na parte de trás do cemitério de Westminster, sem uma lápide. A lápide da imagem marca, hoje em dia, o lugar original

Ilustração do artista Yan Dargent baseada no conto "O Escaravelho de Ouro", publicada no artigo Edgard Poë et ses oeuvres ("Edgar Poe e suas obras", 1862), de Jules Verne


Retrato de Elizabeth Arnold Hopkins Poe, a mãe de Edgar Allan Poe


Retrato de Virginia Clem, a prima de Poe 
que se tornaria a esposa do escritor





06 - ECOS DO PARNASO – RAUL DE LEONI - FOCUS PORTAL CULTURAL

O Focus Portal Cultural, fiel à sua missão de preservar e celebrar a memória literária, desde já assinala com saudades no seu quadro “Ecos do  Parnaso” o Centenário de Encantamento de Raul de Leoni Ramos, a ser lembrado em 21 de novembro de 2026. Escritor consagrado e Patrono da Cadeira 38 da Academia Niteroiense de Letras, Raul de Leoni permanece como referência de sensibilidade e vigor poético. Sua obra foi especialmente admirada por nossa também saudosa Neide Barros Rêgo, que ocupou a mesma Cadeira com dignidade e honra, sucedendo Gercy Pinheiro de Souza e, antes dele, os acadêmicos Antônio Ramos de Lacerda e Abeylard Pereira Gomes. Neide, em diversas ocasiões, declamou brilhantemente os poemas de Raul de Leoni em palcos culturais, perpetuando o elo entre o passado e o presente da nossa tradição literária. Neste gesto de antecipação e reverência, prestamos também tributo à nossa saudosa companheira Neide Barros Rêgo, admirada por todos nós, que ocupou a mesma Cadeira com dignidade e honra. Neide deu vida aos versos de Raul de Leoni em palcos culturais e deixou registrada sua presença literária na Coletânea Mulheres Extraordinárias – Volume 2 da Rede Sem Fronteiras - coordenada por Dyandreia Portugal, nas páginas 488 a 493, onde homenageia a igualmente saudosa Maria Sabina.

Raul de Leoni Ramos nasceu em Petrópolis, em 30 de outubro de 1895, e faleceu em Itaipava, distrito de Petrópolis, em 21 de novembro de 1926. Sua vida breve, marcada pela intensidade e pelo brilho intelectual, deixou uma marca indelével na literatura brasileira. Filho de Carolino de Leoni Ramos e de Augusta Villaboim de Leoni Ramos, cresceu em um ambiente de cultura e erudição que moldou sua sensibilidade poética. 

Concluiu os cursos primário e secundário no Rio de Janeiro e, ainda adolescente, viajou pela Europa, absorvendo influências culturais que ampliaram sua visão de mundo. Em 1917, tornou-se diplomata, iniciando uma carreira que lhe proporcionou contato com diferentes realidades e tradições literárias. Dois anos depois, em 1919, publicou Ode a um Poeta Morto, obra que lhe conferiu notoriedade nos círculos literários. 

Em 1922, Raul de Leoni lançou Luz Mediterrânea, livro que se tornaria um marco de sua produção poética. A obra, iniciada com o poema Pórtico e encerrada com Diálogo Final, revela uma maturidade estética rara, mesclando simbolismo, modernismo e técnica parnasiana. Seus versos, de métrica impecável, carregam metáforas profundas e reflexões filosóficas que encantaram gerações. 

Os Poemas Inacabados, que o poeta pediu para sua esposa destruir ao pressentir a morte, acabaram preservados e incorporados às edições posteriores de Luz Mediterrânea. Esse gesto revela a consciência aguda de Raul sobre a finitude da vida e a eternidade da arte. 

A obra de Raul de Leoni foi estudada e exaltada por nomes como Agrippino Grieco, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Medeiros de Albuquerque, Alceu Amoroso Lima, Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira, Afonso Arinos de Melo Franco, Tasso da Silveira e Sérgio Milliet. Todos reconheceram nele um poeta de transição, capaz de unir o rigor clássico à modernidade emergente. 

Seus sonetos, escritos em decassílabos, são considerados dos mais perfeitos da língua portuguesa. O soneto Argila, por exemplo, foi descrito por Agrippino Grieco como um poema que "todo brasileiro deveria saber de cor". 

Raul de Leoni é lembrado como um poeta de grandeza solitária. Sua poesia une filosofia panteísta a um espírito helênico, aproximando-se da estética platônica e do simbolismo. Essa combinação confere à sua obra uma harmonia singular, marcada pela musicalidade e pela profundidade das ideias. 

Embora sua poesia contenha formas clássicas, ela é permeada por um espírito de modernidade que a torna atemporal. Essa característica assegura a Raul de Leoni um lugar na seleta plêiade dos poetas imortais. 

Após sua morte em Itaipava, o corpo de Raul foi conduzido a Petrópolis, onde recebeu homenagens e foi sepultado à sombra do Cruzeiro das Almas. A cidade ergueu-lhe um mausoléu e deu seu nome a um trecho da Rua Sete de Setembro, perpetuando sua memória. 

De todos os poetas brasileiros, Raul de Leoni foi o único que não sofreu rejeição da corrente modernista. Seus versos, doces e esclarecedores, circulavam nos cadernos de poesia dos jovens da época, que encontravam neles simplicidade e profundidade. 

O centenário de Raul de Leoni é mais do que uma celebração: é um convite à reflexão sobre a força da poesia e sua capacidade de atravessar o tempo. Sua obra, marcada pela perfeição formal e pela riqueza filosófica, continua a ecoar como um canto imortal. 

Raul de Leoni não foi apenas um poeta de sua época. Foi, e permanece sendo, um poeta de todos os tempos. Sua voz, que se extinguiu cedo, ressoa ainda hoje, lembrando-nos que a verdadeira arte é aquela que transcende a vida e se eterniza na memória coletiva. 

A poesia de Raul de Leoni é marcada por uma tensão criativa entre tradição e inovação. Seus versos revelam uma técnica apurada, fruto da influência parnasiana, mas também uma abertura para o simbolismo e o modernismo. Essa mescla o torna um poeta de transição, capaz de dialogar com diferentes escolas literárias sem se prender a nenhuma delas.

O ritmo peculiar de sua versificação, aliado a uma filosofia panteísta e a um espírito helênico, confere à sua obra uma dimensão universal. Raul de Leoni não se limita a cantar a beleza da forma; ele busca, em seus versos, a essência da existência e a harmonia do cosmos.

Críticos como Manuel Bandeira e Sérgio Milliet destacaram a musicalidade de seus sonetos, que se aproximam da perfeição formal. Já Alceu Amoroso Lima ressaltou a profundidade filosófica de sua poesia, capaz de unir simplicidade e erudição. 

A ligação de Raul de Leoni com Petrópolis é indissociável. A cidade não apenas foi seu berço e seu túmulo, mas também cenário de sua vida e inspiração de sua obra. O mausoléu erguido em sua memória e o trecho da Rua Sete de Setembro que leva seu nome são testemunhos da gratidão de Petrópolis a seu filho ilustre. 

Celebrar o centenário de Raul de Leoni é também celebrar a tradição cultural de Petrópolis, cidade que sempre foi um polo de arte e literatura no Brasil.

Raul de Leoni é um poeta que transcende o tempo. Sua obra, marcada pela perfeição formal e pela profundidade filosófica, continua a inspirar leitores e críticos. No centenário de seu nascimento, sua voz ressoa mais forte do que nunca, lembrando-nos que a verdadeira poesia é aquela que, mesmo diante da morte, permanece viva. 

Raul de Leoni é, em suma, um eco do Parnaso: um poeta imortal, cuja obra ilumina o presente e aponta para o futuro.


POEMA DE RAUL DE LEONI

 

HISTÓRIA ANTIGA

de Raul de Leoni

 

No meu grande otimismo de inocente,

Eu nunca soube por que foi… um dia,

Ela me olhou indiferentemente,

Perguntei-lhe por que era… Não sabia…

 

Desde então, transformou-se de repente

A nossa intimidade correntia

Em saudações de simples cortesia

E a vida foi andando para frente…

 

Nunca mais nos falamos… vai distante…

Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante

Em que seu mudo olhar no meu repousa,

 

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,

Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,

Mas que é tarde demais para dizê-la…

 

******

 

VELHA NATUREZA

de Raul de Leoni

 

Tudo que a velha Natureza gera

Vai sempre rumo do melhor futuro;

Ela fecunda com o ânimo seguro

De quem muito medita e delibera…

 

O seu gênio de artista mais se esmera

Na teoria sutil do claro-escuro,

Com que exalta a verdade mais austera,

Frisando em tudo o símbolo mais puro…

 

Só faz o Mau e o Hediondo para efeito

De projetar mais longe e sem nuance

A alma cheia de luz do que é perfeito,

 

Como cavou o Abismo nas entranhas,

Para dar mais relevo e mais alcance

À soberba estatura das montanhas…

 

Espaço cultural que abriga galerias de arte, teatro, cinema e a Biblioteca Central Municipal Gabriela Mistral, considerada a 3ª mais importante do estado do Rio de Janeiro. O nome do Centro homenageia o poeta petropolitano, falecido prematuramente de tuberculose, aos 30 anos, em 1925, e o da biblioteca à escritora chilena, primeira latino-americana a receber o Nobel de Literatura. 

O Centro de Cultura Raul de Leoni é um complexo cultural fundado em 30 de janeiro de 1977. Prédio em concreto e vidro fumê com três andares, abriga o Teatro Afonso Arinos (com capacidade para 150 lugares); a Biblioteca Municipal (Gabriela Mistral), considerada a terceira maior do estado, com grande acervo raro e que também disponibiliza publicações em Braile; um cinema (Cine Humberto Mauro), uma sala de música (Sala Guiomar Novaes), duas salas multiusos (Sala Sylvia Orthof e Multiuso), uma Sala Alternativa (para exposições de artes visuais) e três galerias (Van Dijk, Aloysio Magalhães e Djanira) destinadas às artes visuais.










© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural





ODE A UM BALUARTE DAS NOSSAS LETRAS - HOMENAGEM A MARIA AMÉLIA PALLADINO


​Há Presenças, reitero o que sempre digo, é isso mesmo com “P” maiúsculo, que não apenas ocupam Cadeiras acadêmicas, mas que se tornam, elas mesmas, o alicerce sobre o qual repousa a nossa identidade cultural. Falar da acadêmica Maria Amélia Palladino, Presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras, é falar de uma dedicação que ultrapassa o protocolo e alcança a alma da nossa língua.

​Olavo Bilac, em seus versos imortais, descreveu o português como "esplendor e sepultura", uma "ganga impura" que esconde o ouro nativo. Que a Língua Portuguesa é o esplendor de uma nova cultura que brilha, mas é também a sepultura do latim, a língua-mãe que lhe deu origem.

Maria Amélia é a ourives dessa língua. Com uma civilidade rara e uma elegância que parece vir de outros tempos, mas que se faz urgentemente necessária no agora, ela exerce a exclusividade de ser a ponte entre o passado glorioso e o nosso presente sedento de beleza.

​Representar poetas do quilate de Camões, Fernando Pessoa, Olavo Bilac e Manuel Bandeira não é tarefa para muitos. Requer mais do que conhecimento técnico; exige uma sensibilidade que capta o "arrolo da saudade" e o "trom da procela".

Maria Amélia não apenas cita esses mestres; ela os personifica ao nos entregar, com generosidade, a herança que eles deixaram. Ao ouvi-la ou ao seguir sua liderança, sentimos que Camões não está mais no "exílio amargo", mas vivo em cada palavra bem dita; sentimos que o "gênio sem ventura" finalmente encontrou acolhimento em sua gestão.

​Sua trajetória na Academia Luso-Brasileira de Letras é um testemunho de amor ao idioma rude e doloroso, transmutando-o em afeto e união. Para todos nós, amantes da poesia, Maria Amélia Palladino é a voz materna que Bilac evocou, aquela que nos chama de "meu filho" através da literatura, lembrando-nos de onde viemos e para onde a beleza pode nos levar.

​Esta dedicatória é um preito de gratidão. Obrigado, Maria Amélia, por sua exclusividade em cuidar do que temos de mais sagrado: a nossa palavra. Por sua civilidade, que educa e inspira. E, acima de tudo, por ser a defensora incansável desse oceano largo que une Brasil e Portugal em um só coração poético. 


Soneto Língua Portuguesa - Olavo Bilac -  
Declamado pelo Mundo do Poema de Portugal


LÍNGUA PORTUGUESA 


Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura;

Ouro nativo, que, na ganga impura,

A bruta mina entre os cascalhos vela... 

Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura!

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceanos largos!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

 

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

MARIA AMÉLIA PALLADINO - A ARQUITETURA DA PALAVRA E O HORIZONTE DA CULTURA 

Entre os sinos que ecoam pelas ladeiras de São João del-Rei e o sopro das tradições que moldam a alma mineira, ergue-se a figura de Maria Amélia Amaral Palladino como uma presença que transcende o tempo. Sua trajetória não é apenas biográfica: é um mosaico cultural, uma tessitura de saberes que une o rigor acadêmico à delicadeza da poesia, a disciplina do direito à liberdade da literatura. Em sua vida, cada gesto parece traduzir a convicção de que a palavra é mais do que instrumento, é destino, é raiz, é ponte. 

Nascida em uma terra onde o passado colonial se manifesta em cada pedra e em cada bronze que ressoa, Maria Amélia cresceu imersa na consciência de que a história não é apenas lembrança, mas matéria viva. Desde cedo, compreendeu que o idioma é o fio invisível que conecta gerações, e que nele repousa a identidade de um povo. Ao escolher a linguagem como morada, ela assumiu um compromisso com a preservação e a reinvenção da cultura. 

Sua formação acadêmica revela a amplitude de sua vocação. Licenciada em Letras Anglo-Germânicas e bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Maria Amélia construiu uma base sólida em dois campos que, à primeira vista, poderiam parecer distantes. No entanto, em sua trajetória, o jurídico e o literário se entrelaçam: a norma e a metáfora, o raciocínio lógico e a imaginação criadora. Essa síntese é o que lhe confere singularidade. 

Como professora, Maria Amélia não se limitou a transmitir conteúdos. Sua presença em sala de aula foi sempre a de uma artesã da consciência, moldando o pensamento de seus alunos com a delicadeza de quem sabe que ensinar é, antes de tudo, despertar. Para ela, a gramática não é um conjunto de regras áridas, mas a engenharia do pensamento; cada frase bem construída é uma janela para o mundo. Ao manejar o giz, ela não apenas escrevia palavras, mas desenhava horizontes. 

A trajetória de Maria Amélia é marcada por distinções que refletem sua relevância cultural. O título de Bacharel Honoris Causa pelo Colégio Pedro II, o Prêmio Carlos Drummond de Andrade em Itabira e a Medalha de Mérito Militar pela ABRAMMIL são marcos que revelam a amplitude de sua influência. Esses reconhecimentos não são apenas honrarias: são testemunhos de uma vida dedicada à cultura, à educação e à literatura. 

Hoje, como presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras, Maria Amélia exerce um papel que vai além da representação institucional. Sob sua liderança, a língua portuguesa reafirma-se como espaço de encontro entre Brasil e Portugal, como ponte viva entre continentes e tradições. Sua atuação é a de uma curadora da memória e da vitalidade da língua, garantindo que o idioma de Camões e Machado de Assis continue a pulsar com vigor. 

Maria Amélia não é apenas professora e acadêmica: é também escritora e ensaísta. Sua obra revela uma capacidade rara de unir ritmo e substância, convidando o leitor a mergulhar em uma temporalidade distinta daquela da pressa contemporânea. Em seus textos, há sempre um convite à contemplação, à escuta do silêncio que habita as palavras. Ela decifra as entrelinhas, revelando a alma da literatura.

A grandeza de Maria Amélia reside na sua capacidade de ser, ao mesmo tempo, raiz e voo. Raiz porque se mantém fincada na tradição, bebendo das fontes clássicas e respeitando o legado dos que vieram antes. Voo porque sua escrita é universal, ultrapassando fronteiras e buscando novos horizontes para a expressão humana. Essa dualidade é o que a torna única: ela preserva e renova, guarda e expande. 

Celebrar Maria Amélia Palladino é celebrar a vitalidade da cultura. Sua trajetória nos lembra que a educação é o caminho para a liberdade e que o conhecimento não é peso, mas alimento para a alma. Em cada gesto, ela reafirma que a literatura é nossa pátria comum, e que a palavra, quando tratada com nobreza, torna-se eterna. 

Maria Amélia Palladino é mais do que uma acadêmica ou escritora: é uma presença que ilumina. Sua vida é testemunho de que a cultura não é algo estático, mas um patrimônio vivo, pulsante, que precisa ser constantemente cuidado e reinventado. Ao olharmos para sua trajetória, vemos uma mulher que, com serenidade e firmeza, mantém acesa a chama da palavra e da cultura, garantindo que elas continuem a brilhar intensamente, mesmo diante das incertezas do tempo.

 

PARA ANA MARIA TOURINHO

Belém chega aos seus 410 anos em 2026, pulsando ao som do Carimbó, ritmo que traduz a alma do Pará e faz da cidade um palco de festa e memória. É música que nasce da terra e do povo, que embala corpos e corações, lembrando que tradição é também futuro. 

Ana Maria Tourinho, filha de Belém, nos presenteou com palavras sobre o Piauí, costurando afetos entre lugares e histórias. O Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, fará o lançamento do livro e a exposição nacional fotográfica “Serra da Capivara - As descobertas e o legado de Niéde Guidon na Área Arqueológica de São Raimundo Nonato”, de André Pessoa, e a projeção de filmes, documentários, bate papo com autores e autoridades, em homenagens aos 93 anos de Niéde Guidon para o dia 8 março de 2026.

Hoje, em retribuição, lhe oferecemos um vídeo que extraímos do Facebook que celebra sua cidade, com suas cores vivas, sua gente e sua cultura. O Carimbó, com sua batida ancestral, nos lembra que cada terra guarda sua poesia, e cada voz que a narra é ponte entre mundos. 

Ana, que escreve com alma, mostra que pertencemos a mais de um chão: ao que nascemos e ao que escolhemos amar. Que Belém, com seus 410 anos, seja também um abraço a você, escritora que transforma raízes em asas.  

@ Alberto Araújo




domingo, 18 de janeiro de 2026

A VIDA TECIDA EM ELOS - A RESILIÊNCIA E O PROPÓSITO DE RELIANE DE CARVALHO – HOMENAGEM DO FOCUS PORTAL CULTURAL

 

Existem trajetórias que nos lembram de que a vida não é apenas um caminhar cronológico, mas uma sucessão de renascimentos. Hoje, o Focus Portal Cultural tem o privilégio de compartilhar um relato que transborda humanidade, força e uma dedicação inabalável à cultura e ao próximo. Recebemos, com muita distinção, um vídeo-testemunho de nossa companheira Reliane de Carvalho, Presidente do Elos Clube de Lisboa, que generosamente nos abriu as janelas de sua alma.

A história de Reliane não é feita apenas de títulos ou cargos, mas de uma resiliência rara. Do chão vermelho de Deodápolis, no interior do Mato Grosso do Sul, às históricas calçadas de Lisboa, sua jornada foi marcada por desafios que fariam muitos recuarem. Enfrentar a fragilidade da vida em três momentos de coma profundo não a silenciou; pelo contrário, deu-lhe uma voz que entende o "cuidado" como a maior das artes. 

Como psicóloga, hipnoterapeuta e agora líder de uma das instituições mais nobres da lusofonia, Reliane encarna a essência do Elos Clube. Ela não apenas preside; ela sustenta o sentido de união entre os povos de língua portuguesa, honrando o legado de figuras como o saudoso Dr. Fernando Cardoso e projetando o movimento para um futuro onde a cultura é, acima de tudo, um porto seguro para o humano. 

A editoria do Focus Portal Cultural, gostaria de cumprimentar e felicitar publicamente Reliane de Carvalho. Sua trajetória é um exemplo de que a dor, quando transmutada em propósito, torna-se uma escola de luz. Sua dedicação ao Elos Clube de Lisboa é um presente para todos nós que acreditamos na força dos vínculos e na preservação da nossa identidade cultural. 

Convidamos todos os nossos leitores e amigos a mergulharem no vídeo publicado nesta revista e na transcrição emocionante. É mais do que um depoimento; é uma lição sobre como transformar a existência em uma ponte contínua de fraternidade. 

Reliane, receba o nosso aplauso e a nossa admiração.

© Alberto Araújo

Editor do Focus Portal Cultural

 

(CLICAR NA IMAGEM PARA VER O VÍDEO)

MEMÓRIAS E ELOS - UMA TRAJETÓRIA DE VIDA E PROPÓSITO

(transcrição do vídeo)

 

Não sei exatamente em que momento o Elos começou a existir dentro de mim; talvez porque certos pertencimentos não começam quando chegam, mas começam quando nos reconhecem desde sempre. Nasci em Deodápolis, no interior do Mato Grosso do Sul, uma cidade de horizontes largos, de chão vermelho e de pessoas profundamente ligadas à terra, onde o olhar aprende cedo a reconhecer o outro e o sentido nasce do vínculo, da proximidade e da partilha. Quando menina, deixava muitas vezes as brincadeiras para me sentar com um livro, não por isolamento, mas porque ali, entre letras, algo respirava dentro de mim. Era como se eu soubesse que a palavra podia ser abrigo, que o silêncio podia ser encontro e que a cultura podia ser casa. 

A arte chegou cedo, não como adorno, mas como necessidade: mãos que criavam o que o coração ainda não sabia dizer, roupas, imagens e arranjos que nasciam da alma antes mesmo de haver palavra. E a música? A música já entrava pela janela da minha infância, pela janela da vida: Beethoven, Mozart, Bach, Chopin e a ópera. Eram sons que eu ainda não sabia nomear, mas que o corpo já reconhecia. Depois, ainda criança, descobri a música do Brasil e o fado, ouvidos em silêncio e solitude, como se a saudade fosse um destino pronto a nascer em mim.

A vida cedo me ensinou que existir não é algo garantido. Aos nove anos, entrei em coma profundo devido ao diabetes tipo 1, diagnosticado tardiamente. Com o corpo suspenso e o tempo quieto, vi uma cidade inteira a rezar. Eu voltei sem sequelas visíveis, mas com uma outra forma de olhar o mundo: o mundo como algo que se cuida. Aprendi, então, que a dor sem sentido perde a dignidade, mas a dor como direção torna-se escola, e a vida com propósito chama. Escrevi o meu primeiro livro aos 12 anos e o publiquei aos 15. Nos recortes de jornal da época, não estavam apenas palavras; estava o início de um caminho. 

Aos poucos, a vida foi me conduzindo por projetos diferentes, mas com o mesmo centro: projetos de cuidado, de escuta e de construção. Lugares onde o humano precisava ser visto por inteiro, no corpo, na emoção, na história e no espaço onde vive. Depois, Lisboa chamou. Eu vim e quase não fiquei. Enfrentei outro coma, uma paragem cardiorrespiratória e a desfibrilação. A vida, mais uma vez, disse que ainda não havia acabado. E eu voltei, outra vez. 

Foi em Lisboa que me aproximei da psicologia e do estudo das emoções, esse mundo interno que tantas vezes ignoramos até que ele grite. Durante o mestrado, quando tudo parecia finalmente ganhar forma, o corpo voltou a silenciar-se: uma convulsão prolongada, um terceiro coma e a vida novamente suspensa por um fio invisível. Ainda assim, voltei sozinha e sem sequelas, como quem regressa porque ainda há caminho a percorrer e palavras por dizer. 

Foi também aqui que o Elos entrou definitivamente na minha vida, embora ele já existisse antes de mim. O Elos Internacional nasceu como nascem as ideias necessárias: quando o tempo já não suporta a distância entre povos que partilham a mesma língua e o mesmo sentido de humanidade. Em 8 de agosto de 1959, na praia de São Vicente, diante da enseada onde a memória das caravelas ainda respira, o médico santista Eduardo Dias Coelho, com 12 companheiros, transformou visão em gesto. Ali nasceu o Elos, não como um clube social, mas como um movimento cultural e humanista para aproximar povos, preservar a língua portuguesa e sustentar a fraternidade como valor civilizacional. Chamou-se primeiro "Clube das Oliveiras", símbolo da paz, mas depois encontrou o nome exato: Elos, porque ligar, unir e entrelaçar sempre foi a sua essência. 

O Elos não ficou parado; ele partiu, espalhou-se pelo Brasil, atravessou o Atlântico, chegou a Portugal e continuou seu caminho. Criou raízes em cidades da Europa, estendeu-se à África, alcançou comunidades na América do Norte e chegou à Ásia, sempre onde houvesse uma comunidade lusófona disposta a transformar língua em encontro e cultura em cuidado. O Elos tornou-se presença em muitos lugares do mundo, não como uma imposição ou estrutura rígida, mas como um espaço vivo onde a palavra reúne, a arte aproxima e o humano é o centro. 

Em 1963, o Elos chegou a Lisboa, onde criou raízes e tornou-se casa. O Elos Clube de Lisboa nasceu como um espaço de pensamento, cultura, arte e convivência, feito de encontros que atravessam gerações. Nunca foi apenas um clube; é um movimento humanista onde a palavra cria pontes e o encontro é uma escolha consciente. Por esta casa passaram muitas direções, muitas mãos e muitos nomes,  um trabalho silencioso que, embora nem sempre escrito em listas, permanece no tempo. 

Ao lado do Professor Doutor Fernando Cardoso, aprendi que liderar não é ocupar um lugar, é sustentar um sentido. Quando o Doutor Fernando partiu, em abril de 2025, o Elos ficou mais silencioso, pois algumas presenças são referências fundamentais. Assumi a presidência interinamente com respeito e responsabilidade e, em outubro de 2025, fui eleita Presidente do Elos Clube de Lisboa, não como uma conquista, mas como um compromisso. Hoje, caminho com uma direção que honra essa história e com cada elista que, pela sua presença, mantém essa corrente viva. Afinal, o Elos é feito de quem entra para ouvir, para partilhar e para sentir. 

Atualmente, divido meu tempo entre vários mundos: o Elos, a clínica, a hipnoterapia e uma nova formação em psicologia, transitando entre a Suíça e Viseu. Nesse mesmo gesto de cuidado, acompanho também pessoas em momentos decisivos de suas trajetórias, quando precisam escolher onde "pousar a vida". Trabalho com a compra e venda de casas por compreender que o espaço onde se vive modela silêncios, afetos, rotinas e até a forma como o futuro é imaginado. Uma casa não é apenas paredes; é o cenário onde a história continua a ser escrita. 

Nada disso me afasta do essencial; pelo contrário, ancora-me. Permaneço no cuidado da clínica, na responsabilidade da saúde e na construção diária do Elos, esse lugar onde a cultura também trata, onde a palavra também cuida e onde o humano encontra espaço para ser inteiro. Quando o humano é respeitado, quando a cultura é levada a sério e quando a emoção encontra lugar, a vida responde. O Elos é isso: uma ponte, uma casa, um rito de encontro. Se hoje estou aqui, é porque muitos vieram antes e muitos caminham comigo. Que esta corrente não se rompa; que o Elos continue a ser sentido, presença e humanidade.

 

 











A RESILIÊNCIA E O PROPÓSITO DE RELIANE DE CARVALHO

MONSENHOR JOÃO ALVES GUEDES - UMA VIDA DEDICADA À IGREJA E À CULTURA - HOMENAGEM DO FOCUS PORTAL CULTURAL

Há ocasiões na história em que a consideração pública ultrapassa a formalidade de uma honraria. São momentos em que a sociedade, por meio de suas instituições culturais e acadêmicas, se curva diante de uma trajetória que não apenas se inscreve nos anais da memória coletiva, mas que se torna patrimônio vivo de uma nação. É exatamente isso que se celebra quando falamos de Monsenhor João Alves Guedes, que recebeu o título de Destaque Nacional 2025, concedido pela Academia de Letras de São Pedro da Aldeia. 

Este título não é apenas um diploma ou uma certificação. Ele é a materialização de décadas de dedicação, de uma vida que se fez ponte entre a fé e a cultura, entre o sacerdócio e a educação, entre a espiritualidade e a preservação da identidade brasileira. Monsenhor Guedes, ao longo de sua caminhada, tornou-se mais do que um presbítero: tornou-se um símbolo. Símbolo da resistência cultural, da valorização da palavra, da força da tradição e da beleza da fé que se traduz em ação concreta. 

É raro encontrar personalidades que consigam transitar com naturalidade entre o altar e a tribuna acadêmica, entre a homilia e o discurso literário. Monsenhor Guedes é uma dessas raridades. Sua presença na Academia Niteroiense de Letras e na Academia Fides et Ratio é testemunho de sua capacidade de dialogar com o mundo das ideias, sem jamais perder de vista a essência de sua vocação sacerdotal. 

O reconhecimento da Academia de Letras de São Pedro da Aldeia não se limita a um gesto protocolar. Ele é, antes de tudo, um ato de justiça cultural. Reconhece-se, assim, que o trabalho de Monsenhor Guedes ultrapassa fronteiras regionais e se projeta em âmbito nacional e internacional. Sua voz ecoa não apenas nos púlpitos, mas também nos círculos intelectuais, nas rodas literárias, nos debates pedagógicos e nas reflexões filosóficas.

Ao receber o título de Patrimônio Cultural Brasileiro, Monsenhor Guedes inscreve seu nome entre aqueles que não apenas viveram sua vocação, mas que a transformaram em legado. Sua vida é testemunho de que a cultura e a fé não são esferas opostas, mas dimensões complementares da existência humana. 

Cada homenagem recebida, seja como cidadão honorário de municípios fluminenses, seja como Capelão Pontifício, é reflexo de uma trajetória que se construiu na humildade e na entrega. E é justamente essa humildade que torna sua figura ainda mais grandiosa. Monsenhor Guedes não reivindica para si a glória das honrarias. Ele as devolve à Igreja, à Mãe e Mestra que o formou, que o sustentou e que lhe deu sentido. 

Ao longo dos anos, Monsenhor Guedes se tornou referência não apenas para os fiéis que o acompanham, mas também para intelectuais, educadores e agentes culturais. Sua atuação pedagógica e acadêmica é marcada pela busca incessante de valorizar a cultura brasileira, de preservar tradições, de incentivar o estudo e de promover o diálogo entre fé e razão. 

Sua caminhada é exemplo de que a verdadeira grandeza não está em títulos ou em cargos, mas na capacidade de servir. Servir à Igreja, servir à cultura, servir à comunidade. É essa dimensão de serviço que o torna digno de cada homenagem recebida. 

O jornalista Alberto Araújo, pelo Focus Portal Cultural, felicita Monsenhor João Alves Guedes com palavras que não são apenas de congratulação, mas de reverência. Reverência a uma vida que se fez testemunho, reverência a uma trajetória que se tornou inspiração, reverência a um sacerdote que se fez patrimônio. 

Monsenhor Guedes, ao receber o título de Destaque Nacional 2025, nos lembra que toda honra deve ser devolvida à Igreja. Sua fala, que transcrevemos a seguir, é a expressão mais pura de sua humildade e de sua fé. É a voz de um homem que, mesmo reconhecido como intelectual e agente cultural, não se vê como protagonista, mas como instrumento.

MENSAGEM DE MONSENHOR JOÃO ALVES GUEDES

“O título, o destaque, a honra conferidos a um presbítero, tudo deve ser direcionado para a Igreja. O homenageado é o padre, mas a honraria, a espetacularidade da homenagem, é para a Igreja. Digo isto porque eu acabo de receber o título dado pela Academia Aldeense de Letras, da qual eu sou membro. É o destaque nacional de dois mil e vinte e cinco. A Igreja é que me proporcionou e proporciona esta, esta alegria. 

Sou da Academia Niteroiense de Letras (ANL) e da Academia Fides et Ratio (AFR – Fé e Razão), com sede no Rio de Janeiro, mas com abrangência internacional. Existem vários membros que são de outros países. 

Como também já recebi vários títulos: de Capelão Pontifício, que me facultou o título de Monsenhor; o título de Cidadão do Estado do Rio e do município de Rio Bonito, de São Pedro da Aldeia, e muitas outras homenagens das várias câmaras. Não só aqui do nosso Estado, mas fora do Estado. A quem eu devo isto? À Igreja. Porque, se eu não fosse padre, se eu não fosse o Monsenhor Guedes que recebeu o que eu tenho da Igreja, porque por mim só eu não conseguiria. 

Eu, neste final de ano, ao ser agraciado com esta homenagem de destaque nacional, do mundo da cultura, duas coisas eu tenho absoluta certeza. 

Não sou o destaque maior do que ninguém. Com certeza, não sou um grande intelectual, mas a minha Igreja é, e, portanto, a grande homenageada é a Mãe Igreja. Com esta pequena reflexão, eu louvo a Deus pela minha existência, pela minha vocação. Sou um cidadão padre muito feliz, mesmo não estando em linha nenhuma ou quase nada nos trabalhos. Meus trabalhos são muito acanhados. Sou feliz e agradeço a Deus.

Portanto, agradeço a distinção enorme pelo título que acabo de receber. Mas louvo ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo pela fé que a Trindade Santa me deu. Não é título, é verdade. E à minha Igreja, Mãe e Mestra, meus louvores, meus agradecimentos e a declaração do meu amor.” 

A homenagem ao Monsenhor João Alves Guedes não é apenas o reconhecimento de uma trajetória individual, mas a celebração de um legado coletivo que se confunde com a própria história da Igreja e da cultura brasileira. Sua vida, marcada pela humildade e pela entrega, é testemunho de que o verdadeiro destaque não está em títulos, mas na capacidade de servir e de transformar.

Ao ser elevado à condição de Destaque Nacional 2025, Monsenhor Guedes reafirma que toda honra pertence à Igreja, e que cada conquista é fruto da fé que sustenta sua vocação. Sua palavra, simples e profunda, ecoa como um cântico de gratidão e amor. 

Que esta distinção inspire novas gerações a compreender que a cultura e a fé caminham juntas, e que o sacerdócio, quando vivido com autenticidade, se torna fonte inesgotável de luz para a sociedade. Monsenhor Guedes é, portanto, mais do que um homenageado: é um farol que ilumina caminhos, um patrimônio que transcende fronteiras e um exemplo que permanecerá vivo na memória de todos que reconhecem na Igreja a grande Mãe e Mestra.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural