O telão da memória se abre hoje para
celebrar uma vida inteiramente dedicada à beleza. Neste 18 de outubro, o Focus
Portal Cultural rende homenagens aos 88 anos do nascimento de Neide
Barros Rêgo (1938–2022), uma das personalidades mais completas e
fascinantes da literatura e do canto lírico no Brasil. Longe de ser apenas uma
data no calendário, este aniversário é um convite à reverência e ao resgate de
uma mulher que transformou palcos, academias e páginas de livros em verdadeiros
santuários da arte. Neide não emudeceu; sua voz apenas ganhou dimensões sutis
na memória afetiva do nosso país e na vastidão do movimento esperantista
internacional.
Falar de Neide Barros Rêgo é evocar a
síntese perfeita da elegância, da sensibilidade poética, do compromisso com a
arte e da fraternidade universal. Cantora lírica, poetisa de traço refinado,
declamadora de presença magnética e escritora incansável, Neide foi e continua
sendo um dos baluartes mais reluzentes da nossa cultura.
Conhecer Neide Barros Rêgo nos palcos
da vida foi como passar por um rito de encantamento. Não havia como
presenciá-la e permanecer indiferente. Minha memória afetiva guarda com rara
nitidez e extrema reverência os momentos em que a vi atuar no lendário Centro
Cultural Maria Sabina, espaço, embora hoje desativado, do qual ela foi e sempre
será a eterna Diretora e alma condutora.
No palco do Maria Sabina, Neide
exercia um verdadeiro sacerdócio artístico. Sua postura era a personificação da
nobreza: a espinha ereta, o olhar sereno e profundo, o domínio absoluto do
espaço e do tempo. Quando ela se postava diante do público para declamar ou
cantar, a atmosfera ao redor se transformava instantaneamente. O silêncio na
plateia não era apenas atenção; era um respeito fiel e sagrado diante de uma
intérprete que não apenas pronunciava palavras ou emitia notas, mas desenhava a
alma da poesia no ar.
Sua performance conjugava a imponência
técnica da cantora lírica à alma ardente da poetisa que sente cada sílaba.
Neide no palco era luz pura, uma presença cenográfica que combinava autoridade
estética, doçura no acolhimento e uma paixão vibrante pelas artes. O Centro
Cultural Maria Sabina não era apenas uma casa de cultura sob sua direção; era a
extensão do seu próprio coração, um abrigo acolhedor para poetas, músicos e
sonhadores de todas as origens.
Se a dimensão pública e artística de
Neide a imortalizou nos palcos e nos livros, é na intimidade do lar e na
urdidura dos afetos familiares que encontramos a verdadeira nascente de sua
força criativa. A vida de uma mulher que fez do lirismo o seu sacerdócio nunca
esteve desvinculada dos abraços que a ampararam, do riso compartilhado e do
amor geracional que semeou ao longo das décadas.
Nascida na acolhedora São Tomás de
Aquino, em Minas Gerais, filha de Wanda Paschoal Martini de Barros e Francisco
das Chagas Barros, a sensibilidade de Neide foi forjada desde cedo na casa
paterna. Essa história de sensibilidade começou no aconchego do lar, entre os
laços e a cumplicidade de uma harmoniosa constelação de irmãos: a saudosa Nilce
(hoje em memória viva no Parnaso), a inseparável irmã gêmea Nilde, a
própria Neide, e os amados Nilo, Nara e Naida. Uma
irmandade de nomes em sintonia e almas entrelaçadas pela fraternidade mineira,
onde declamações, modinhas e afetos sempre foram o verdadeiro alimento da alma.
Na tapeçaria misteriosa e bela de sua
biografia, destaca-se a presença vital de sua irmã gêmea, Nilde Barros
Diuana, que permanece entre nós como a guardiã viva de suas memórias mais
ternas e das histórias de infância compartilhadas desde o ventre. A relação com
Nilde sempre brought à tona o mistério do espelhamento do afeto: duas almas ligadas
pela origem e pelo sangue, perpetuando o carinho que ultrapassa as próprias
barreiras do tempo.
Ao lado do seu inseparável e saudoso
esposo, Walmir Ventura Rêgo, Neide ergueu uma sólida tapeçaria familiar.
A maternidade foi para ela uma de suas expressões mais sublimes: plantou a
semente do sensível no coração dos seus amados filhos, Marise e Marcelo
Barros Rego. Crescer sob o olhar e o acalanto de uma mãe que cantava a vida
em forma de poesia fez do lar um porto seguro, onde o afeto e a modéstia sempre
andaram de mãos dadas.
Essa bênção familiar floresceu e se
expandiu: Neide Barros Rêgo deixa um lindo legado através de sua família. É mãe
de Marisa Rêgo, mãe de João Marcelo e de Marcelo Barros Rêgo pai de Gabriela
Pereira Rêgo, Felipe Soschino Rêgo e Lucas Rêgo, que carregam no olhar o
orgulho de pertencerem a essa nobre linhagem.
Se a poesia de Neide encontrou no
português a sua casa maternal, foi na língua esperanto que sua voz ganhou asas
globais. A partir de 1965, Neide abraçou o esperanto, o idioma neutro e
fraterno idealizado por Ludwik Lejzer Zamenhof, não apenas como uma ferramenta linguística,
mas como um ideal de vida e de união entre os povos do mundo.
Cravou seu nome na história do
movimento esperantista planetário como uma de suas mais expressivas e aclamadas
intérpretes. Cantando e declamando em esperanto, Neide levou a doçura e o
lirismo da alma brasileira aos mais diversos cantos da Terra. Representou o
Brasil com distinção ímpar em congressos nacionais e internacionais em países
como França, Áustria e Argentina.
Sua atuação ultrapassou as
apresentações ao vivo: tornou-se membro vitalício e delegada da Associação
Universal de Esperanto (UEA). Em seu canal oficial no YouTube, deixou
registrado para a eternidade um acervo inestimável de áudios e vídeos onde sua
voz lírica dá vida a canções e poemas no idioma universal, servindo até hoje
como referência para aprendizes e admiradores da cultura esperantista ao redor
do globo. Neide provou que a arte verdadeira não precisa de passaporte, pois
fala a linguagem direta do coração humano.
Como escritora e poetisa, Neide Barros
Rêgo deixou uma obra marcada pela delicadeza métrica, pela profundidade lírica
e pelo domínio formal das trovas e do verso livre. Autora do marcante livro Revelação
(2004), destacou-se também por sua generosidade intelectual. Ela não buscava o
brilho solitário; gostava de iluminar os caminhos alheios.
Prova disso foi a organização da
antologia monumental Água Escondida (1994), trabalho no qual reuniu e
catalogou poemas de centenas de autores de Niterói, dando visibilidade e voz a
múltiplos talentos que, sem sua sensibilidade curatorial, talvez permanecessem
no esquecimento. Neide era uma agregadora, uma verdadeira tecelã de redes
poéticas.
Sua maestria com as palavras foi
reconhecida com prêmios de prestígio internacional e nacional, acumulando
láureas em concursos literários na Holanda, Bulgária, Rússia, Itália e por todo
o território brasileiro. Atuante e respeitada na União Brasileira de Trovadores
(UBT), alcançou o ápice do reconhecimento institucional ao ser empossada, em
2003, na Academia Fluminense de Letras (AFL), ocupando com altivez a Cadeira
número 11 da Classe de Belas-Artes.
A trajetória de Neide na Cadeira 11 da
AFL carrega um simbolismo profundo ao resgatarmos a presença da mestra que
inspirou sua jornada: a lendária professora e intelectual brasileira Maria
Sabina de Albuquerque. Neide foi aluna dileta de Maria Sabina no consagrado
Curso Olavo Bilac, onde apurou com maestria a Arte de Dizer, a dicção e a
impostação vocal que mais tarde fascinariam multidões. Foi em homenagem a essa
mestra que Neide fundou e dirigiu o Centro Cultural Maria Sabina.
Com o encantamento de Neide e sua
passagem para o Parnaso em dezembro de 2022, abriu-se um hiato de saudade na
Academia Fluminense de Letras. Contudo, a providência e o afeto reservavam uma
sucessão à altura: quem assumiu a honrosa missão de sucedê-la na Cadeira 11 foi
sua querida cunhada, a distinta acadêmica, professora e poetisa Maria das
Graças Alves de Azevedo Rego, chamada carinhosamente por Gracinha Rego.
Gracinha Rego não representa apenas o
cumprimento de uma praxe acadêmica, mas sim um ato de amor, respeito e
perpetuação. Ela traz para a Academia a sua própria competência estética e a
delicadeza de manter viva a chama espiritual e poética de sua inesquecível
cunhada.
Desenhou-se, assim, um círculo
perfeito no destino das artes: Maria Sabina formou Neide; Neide fundou o centro
cultural, encantou o Brasil e brilhou na Academia; e Gracinha Rego assumiu o
cetro da memória para que essa linhagem cultural continue a ecoar.
"As grandes almas não deixam
heranças materiais passageiras; deixam antologias de afeto, pontes de luz e
sucessoras de amor."
Em 11 de dezembro de 2022, aos 84
anos, a voz física de Neide Barros Rêgo calou-se em Niterói, em decorrência de
um câncer de pâncreas. A cidade, a Academia Fluminense de Letras, o movimento
esperantista e o cenário cultural brasileiro vestiram-se de saudade. Mas a
partida de uma grande artista é apenas uma ilusão dos sentidos; o que é feito
de beleza pura não se extingue.
Celebrar os seus 88 anos neste 18 de
outubro é reafirmar que Neide continua viva entre nós. Ela vive na memória
daqueles que tiveram o privilégio de vê-la brilhar nos palcos; na cumplicidade
de sua irmã Nilde; nos registros fonográficos e poéticos gravados no tempo; e
na esperança de um mundo mais irmão, do qual foi embaixadora e cantora.
Neide Barros Rêgo foi, em essência,
uma estrofe perfeita no poema da vida brasileira. Uma mulher que fez da
existência um acorde de luz, dignidade e afeto.
À nossa eterna diretora, poetisa e
Diva do Lirismo: parabéns pelos seus 88 anos de história inesquecível. O Focus
Portal Cultural rende hoje sua mais profunda e emocionada homenagem a esta
estrela que jamais deixará de brilhar no firmamento da nossa arte.
Aplausos eternos, Neide. A sua canção
continua.
UMA PRECE DE LUZ E UM ABRAÇO FRATERNO A NILDE BARROS DIUANA
Neste 18 de outubro, em que as
memórias e as melodias se voltam para o céu em honra aos 88 anos de nascimento
de Neide, nossos corações e nossas melhores energias voltam-se também, com
infinito carinho, para a sua querida irmã gêmea, Nilde Barros Diuana.
Sendo o espelhamento vivo de uma
história bonita e compartilhada desde as primeiras batidas do coração, Nilde
permanece entre nós como a guardiã dessa essência e desse afeto que o tempo não
apaga.
A equipe do Focus Portal Cultural,
juntamente com todos os amigos, leitores e admiradores dessa linda família,
abraça Nilde Barros Diuana neste dia tão especial. Que a vida continue a
lhe abençoar com muita saúde, paz, serenidade e o aconchego permanente daqueles
que a amam.
A você, Nilde, o nosso afeto, o nosso respeito e a nossa mais carinhosa homenagem.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural






































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