Carmelita Ferreira dos Santos nasceu em 07 de
setembro de 1921, em Barra de São Miguel, Alagoas, como quem já trazia no
coração o destino de ser flor. Filha de Anna Maria Ferreira e Leopoldino Ferreira dos Santos cresceu entre paisagens simples, mas carregadas de significado.
Desde cedo, sua presença irradiava delicadeza e imponência, como se o próprio
tempo tivesse escolhido moldar nela a imagem de uma mulher que seria lembrada
por gerações.
Vaidosa, Carmelita cultivava o gosto pela
elegância. Era senhora de porte altivo, que se vestia com esmero e se
apresentava como rainha em seus trajes. O tailleur, conjunto de casaco e
saia, era sua marca registrada. Em viagens
de navio ou avião, surgia sempre arrumada, impecável, como quem sabia que a
vida merecia ser celebrada em cada detalhe. Sua vaidade não era futilidade, mas
expressão de respeito por si mesma e pelos outros.
Gostava de dançar, de se divertir, de sentir a
música pulsar em sua alma. Era apaixonada pelo Restaurante & Casa de Forró
Cariri, na Orla de Atalaia, em Aracaju. Ali, na Passarela do Caranguejo,
batucava na mesa ao som de suas canções prediletas, sorria, se deixava levar
pela alegria contagiante. Carmelita era mulher que sabia transformar momentos
simples em celebrações inesquecíveis.
Casou-se três vezes. Primeiro, com Manuel Messias
de França Lopes, com quem construiu uma família sólida e cheia de amor. Juntos,
tiveram Carmen, Shirley, Swami e Handerson. Mais tarde, encontrou o amor
novamente em Reinaldo Vieira, com quem teve Daise. Já viúva pela segunda vez,
casou-se pela terceira vez, viveu um relacionamento feliz com Manoel Francisco
de Araújo, o Comandante Araújo.
Sua vida foi marcada por perdas e recomeços, mas em
cada etapa demonstrou coragem e serenidade. Carmelita não se deixou abater;
transformou cada dor em aprendizado, cada despedida em força, cada novo amor em
esperança.
Em sua casa, Carmelita reinava com simplicidade e
alegria. Gostava de ver os filhos, netos e genros reunidos, recebendo os
“mimos” que lhe ofereciam com carinho. Os natais eram sempre celebrados na casa
de seu filho Swami e de Marcinha, e em outras ocasiões importantes, na casa de
sua filha Shirley. Em cada encontro, havia risos, abraços e fartura. Todos os
filhos a adoravam, e ela retribuía com ternura infinita.
Carmelita viveu noventa e sete anos como quem
percorre um jardim. Cada dia era uma flor que se abria, cada gesto uma pétala
que se desprendia, cada palavra um perfume que se espalhava. Sua vida foi feita
de deslumbramentos, de viagens pelas estrelas e pelos mares, de passos
cuidadosos que desenhavam percursos únicos. Não houve arrependimentos; fez o
que tinha de fazer, viveu como quis viver, e foi até o fim com dignidade.
Carmelita
Ferreira dos Santos não foi apenas uma mulher de sua época; foi uma senhora que
soube transformar a vida em espetáculo. Conheceu muitos lugares, hospedou-se em
hotéis que pareciam prolongar o sonho da vida. Em Natal, no Rio Grande do
Norte, encantou-se com o Visual
Praia Hotel, localizado em Ponta Negra, famoso por sua vista
para o Morro do Careca. Ali, entre o mar e o horizonte, Carmelita contemplava a
grandeza da criação, como se cada onda fosse um aplauso à sua presença. Viajou
também para a Argentina com já estava com o seu terceiro esposo Manoel Araújo, no
entanto, viajou sozinha, onde descobriu novas paisagens, novas músicas, novos
sabores. Cada viagem era uma celebração, cada destino um capítulo de sua
história.
Carmelita
era senhora de semblante delicado, mas de espírito vibrante. Rugas suaves e
afeiçoadas. Gostava de passear, de se divertir, de sentir a vida em movimento.
Sua vaidade era expressão de alegria, sua elegância era reflexo de respeito. Em
cada viagem, em cada dança, em cada encontro, deixava marcas de ternura e
encantamento.
No dia 6 de abril de 2019, um sábado marcado pela
dor, Carmelita foi chamada pelo Senhor. Não foi acaso: era o mesmo dia da
semana em que Cristo ressuscitou, como se Deus tivesse escolhido a hora exata
para recolher sua flor mais delicada. Ela relutou, como quem não queria deixar
seu cantinho, sua casa, seu jardim. Mas, enfim, aceitou o chamado divino e
partiu acariciada pela mão do Altíssimo.
Na Capela do Cemitério Parque da Paz, familiares e
amigos se reuniram para celebrar sua vida. Entre lágrimas e orações, entre
cânticos e silêncios, todos reconheceram que Carmelita não havia partido, mas
apenas se transformado. Sua presença continuava viva na memória, nos gestos
repetidos, nas histórias contadas, nas músicas que embalavam as lembranças.
Hoje, ao recordar sua trajetória, não se fala de
despedida, mas de celebração. Carmelita permanece viva nos corações dos filhos,
netos, bisnetos, tataranetos, noras, genros e amigos. Permanece como inspiração
de esperança e fé, como exemplo de bondade e carisma, como símbolo de
serenidade e amor.
E, no entanto, a saudade também se faz presente.
Não apenas de Carmelita, mas também de seus filhos Daise, Swami e Handerson,
que já partiram para a casa do Altíssimo. A família, marcada por tantas perdas,
encontra consolo na certeza de que todos se reencontraram nos jardins eternos,
onde a Flor Branca da Paz continua a florescer.
Senhora Flor Branca da Paz, Carmelita Ferreira dos
Santos, sua vida foi poesia, sua partida foi silêncio, mas sua memória é
eternidade. Que sua paz continue a habitar os corações de todos nós, e que sua
lembrança seja sempre motivo de gratidão. Porque quase tudo passa, a
tempestade, a dor, o aguaceiro, até a alegria. Mas a saudade de quem partiu
nunca passa. Ela se transforma em presença invisível, em força que nos guia, em
amor que nos sustenta.
Sim,
Carmelita não se encontra mais entre nós. Também seus filhos Daise, Swami e
Handerson já partiram para a casa do Altíssimo. Mas sua memória permanece viva,
como flor branca que nunca murcha, como música que nunca se cala, como viagem
que nunca termina. Foi, e sempre será, a Senhora das Viagens e dos Encantos.
Uma mulher que soube viver com intensidade, que transformou a vida em poesia,
que fez da alegria sua marca e da paz sua herança.
E assim será, para sempre.
© Alberto Araújo
07 de setembro de 2026
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