Hoje, a quarta-feira amanheceu com um peso de meio de semana, aquela urgência de quem precisa dar conta de tudo antes que o relógio decida encerrar o expediente. O café, no entanto, veio diferente. Ou talvez tenha sido o reflexo da luz na janela.
Lembrei-me dos versos de Florbela, daquela capacidade quase alquímica que o amor tem de reescrever a paisagem. Dizem que o céu não era, em outros tempos, desse azul oceânico que vemos agora. Dizem que, antes de um certo olhar cruzar o caminho de outro, o firmamento era branco como um lírio, desprovido de cor, talvez um pouco desprovido de sentido.
A crônica da vida, se olharmos bem de perto, é feita dessas pequenas transformações cromáticas. O amor é o pincel que, quando toca o cotidiano, não altera apenas o que está lá fora, mas o que pulsa aqui dentro. É a descoberta de que o céu só ganhou cor porque, lá no alto, alguém também quis ser visto.
Há uma doçura, um primor, como diz a poetisa, em notar que o mundo não é uma constante. Ele flutua de acordo com a nossa capacidade de enxergar o outro. O "ciúme" do céu, que se tornou da mesma cor, não é uma mácula, é um convite: a natureza tenta imitar a beleza de quem amamos para não se sentir tão pequena diante da intensidade daquele instante.
Nesta quarta-feira, entre e-mails, boletos e a pressa de chegar ao fim de semana, convido você a parar. Não para respirar fundo, isso é básico, mas para olhar para o lado. Para o detalhe. Para o céu, que talvez estivesse esperando apenas o seu olhar de hoje para decidir que tonalidade ele teria.
Às vezes, a gente só precisa de um verso ou de um encontro para entender que, no fim das contas, a cor do dia é sempre aquela que a gente escolhe enxergar nos olhos de quem amamos.
© Alberto
Araújo
Focus
Portal Cultural
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