Fotografar quem fotografa carrega
sempre uma camada extra de significado. É um exercício de espelhamento, um reconhecimento
mútuo entre quem observa o mundo através de lentes e quem decide registrar esse
observador. Foi com essa sensibilidade que capturei a imagem de Antonio
Machado, o querido e respeitado Toninho, presidente da octogenária Sociedade Fluminense
de Fotografia (SFF), na aconchegante Galeria Jayme Moreira de Luna, fundador da
SFF, situado no coração da instituição.
No dia 12 de outubro de 2026, a Sociedade
Fluminense de Fotografia (SFF) celebra seus 82 anos de fundação, data originada
em 12 de outubro de 1944. Ao longo de mais de oito décadas, a instituição tem
sido o coração pulsante da cultura, da preservação visual e do ensino
fotográfico em Niterói. Passado e futuro se encontram em seus espaços, onde a
tradição de grandes mestres da imagem continua a inspirar novas gerações de
fotógrafos e apaixonados pela arte.
O ambiente da SFF transborda história
em cada canto, respirando a sétima arte e a fotografia em sua essência mais
pura. No momento em que fiz o registro, Toninho estava posicionado ao lado de
uma verdadeira relíquia visual: uma fotografia impressionante de Heitor
Villa-Lobos, Stefan Rosenbauer foi um prestigiado fotógrafo alemão e medalhista
olímpico de esgrima que imigrou para o Brasil, onde fez história nos anos 1940
e 1950. Seu estúdio no Centro do Rio de Janeiro era frequentado por grandes
personalidades brasileiras, incluindo o compositor Heitor Villa-Lobos, de quem
era vizinho e amigo próximo. O trabalho de Rosenbauer ficou muito conhecido
pelo uso marcante de luz e sombra, sendo comparado a um "Rembrandt
moderno" e pela expressividade que capturava nos olhos dos retratados.
Contemplar aquela obra ao lado de
Toninho foi uma experiência magnética. Ele falava daquela imagem com um orgulho
legítimo, daqueles que iluminam o rosto e entregam a paixão genuína pela
cultura e pela memória artística do nosso país. A fotografia de Villa-Lobos,
capturada em um clássico e atemporal preto e branco, impressiona pela força.
Nela, o maestro brasileiro aparece segurando um cigarro entre os dedos,
enquanto direciona um olhar profundamente fixo, penetrante e intenso
diretamente para a câmera de Stefan Rosenbauer.
A peça é imponente, emoldurada em uma
arte de proporções generosas, estimo que alcance cerca de 1 metro por 80
centímetros, dominando o espaço com uma presença quase viva, como se o próprio
maestro estivesse ali, vigiando e inspirando todos os frequentadores daquele
salão.
Esse encontro marcante aconteceu durante
a realização do inspirador evento “Artistas da ANE”, um projeto cultural
vibrante lindamente coordenado e apresentado com maestria por Leda Mendes
Jorge.
O evento trouxe à tona a força da diversidade artística, transformando o
espaço da SFF em um ponto de convergência para criadores, pensadores e
admiradores da arte em suas múltiplas formas. A energia do encontro era
palpável, unindo gerações e consolidando a fotografia e a cultura como pontes
essenciais de diálogo humano.
A atmosfera de sensibilidade daquele
dia foi potencializada por outra atração imperdível que movimenta os corredores
da instituição: a exposição "Caminhos do Afeto", inaugurada no dia 29
de agosto de 2026, às 15h, na sede da Sociedade Fluminense de Fotografia na Rua
Dr. Celestino, 115, Centro, Niterói.
A mostra exibe um conjunto tocante de
fotografias que revelam a sensibilidade e o olhar único de seus talentosos
artistas: Betina Longi da Silva, Bruno de Almeida Fonseca, Camila Caldas
Coutinho, Clézio de Menezes, Davi Schiavoni Machado, Giselle Souza do Espirito
Santo, Higor Pires de Sousa, Jacy Therezinha Caldas Coutinho, José Antonio de
Souza Amador, Jullyana de Souza Oliveira, Laura de Araújo Ferreira Braz,
Leticia dos Santos Coelho, Liana Sales Ferreira, Ligia Ferreira Rocha, Lucas
Figueiras de Mendonça Valente, Luiz Alexandre Bragança dos Santos, Luiz Andre
de Souza Amador, Marcia Abdalla Ramos, Maria das Graças Infante Pereira,
Matheus Ribeiro Habib da Fonseca, Olivia Shiavoni Machado, Patricia Mendes da
Silva, Phillipy Raphael Pereira dos Santos, Renato Moreira de Oliveira, Sophia
do Nascimento Gomes e Wanilda do Socorro Lopes.
Ver esses trabalhos é um lembrete
urgente e poético sobre o poder democratizante da fotografia. A câmara, nas
mãos desses alunos e criadores, transforma-se em um canal autêntico de
expressão, provando que a arte não conhece barreiras físicas ou sensoriais.
Cada enquadramento exposto revela perspectivas únicas, mundos particulares que
merecem ser vistos, aplaudidos e integrados ao debate cultural contemporâneo. A
iniciativa reforça o papel da SFF não apenas como um reduto de preservação
histórica, mas como um espaço vivo, inclusivo e voltado para o futuro.
Estar ali, registrando Toninho Machado
diante da imponente imagem de Villa-Lobos, em meio a um evento tão pulsante e a
uma exposição tão significativa, fez-me refletir sobre o papel da nossa própria
memória. A fotografia é, antes de tudo, uma forma de resistir ao esquecimento.
Toninho, com sua dedicação incansável
à SFF, é parte vital dessa resistência cultural em Niterói. Ao congelar aquele
instante, quis guardar não apenas a sua figura sorridente e orgulhosa, mas toda
a atmosfera de um dia em que a arte se fez presente em sua totalidade: na
história contada por Stephen Rosembaum, na música eterna de Villa-Lobos, na
curadoria afetiva de Leda Mendes Jorge e na pureza do olhar dos fotógrafos da
exposição Caminhos do Afeto. Um verdadeiro mosaico de afetos, capturado para a
posteridade.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
UM POUCO SOBRE STEFAN ROSENBAUER
Stefan Rosenbauer foi um dos mais
importantes nomes da fotografia e da esgrima no Brasil do século XX. Nascido em
24 de março de 1896, na cidade de Biberach an der Riß, na Alemanha, construiu
uma trajetória marcada pela excelência esportiva e artística, deixando um
legado reconhecido tanto na Europa quanto no Brasil.
Antes de se destacar como fotógrafo,
Rosenbauer alcançou projeção internacional na esgrima. Integrante do tradicional
Fechtclub Hermannia Frankfurt, foi campeão alemão de espada em 1931 e 1932,
além de conquistar o título nacional de florete em 1933. Sua habilidade o levou
a representar a Alemanha em importantes competições internacionais, incluindo o
Campeonato Mundial de 1934, em Varsóvia, onde conquistou a medalha de bronze
por equipes. Dois anos depois, integrou a seleção alemã que obteve a medalha de
bronze no florete por equipes nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936.
Em 1939, diante das transformações
políticas da Europa, mudou-se para o Brasil, estabelecendo-se no Rio de
Janeiro. Naturalizou-se brasileiro e passou a defender o Fluminense Football
Club, tornando-se uma das figuras de destaque da esgrima nacional. Competiu nas
três armas da modalidade, florete, espada e sabre, acumulando títulos
individuais e por equipes até encerrar sua carreira competitiva em 1954.
Paralelamente à vida esportiva,
Rosenbauer desenvolveu uma notável carreira na fotografia. Formado na Alemanha,
recebeu o título de Mestre da Arte Fotográfica em 1921, distinção que o
habilitava a formar novos profissionais. Reconhecido desde jovem por sua
competência técnica, obteve premiações importantes ainda em seu país de origem,
consolidando reputação como retratista de excelência.
Ao chegar ao Brasil, reabriu seu
estúdio fotográfico no Rio de Janeiro e introduziu técnicas modernas de
iluminação, composição e retrato artístico que contribuíram significativamente
para a evolução da fotografia brasileira. Seu trabalho destacou-se
especialmente pelo refinado domínio da luz e sombra e pela produção de retratos
clássicos que influenciaram gerações de fotógrafos.
Rosenbauer participou ativamente do
movimento fotográfico brasileiro. Foi um dos fundadores da Associação
Brasileira de Arte Fotográfica (ABAF), atuou como consultor técnico do Photo
Club Brasileiro e desempenhou papel relevante na Sociedade Fluminense de
Fotografia. Como mestre e orientador, formou diversos profissionais que mais
tarde se tornariam referências na fotografia nacional, entre eles Chico
Albuquerque e Heinz Förtmann.
Seu estúdio tornou-se ponto de
referência para artistas, intelectuais e personalidades da época. Retratou
figuras como Heitor Villa-Lobos, Marechal Rondon e integrantes da histórica
companhia teatral Os Artistas Unidos, liderada por Henriette Morineau. Seus
retratos foram publicados em livros, jornais e revistas, transformando-se em
registros valiosos da vida cultural brasileira.
O reconhecimento internacional veio
também por meio da Fédération Internationale de l'Art Photographique (FIAP),
que lhe concedeu, em 1957, o título de Artiste FIAP (AFIAP), em homenagem à
qualidade de sua produção e aos serviços prestados à fotografia mundial.
Stefan Rosenbauer faleceu em 18 de agosto
de 1967, no Rio de Janeiro. Seu legado permanece vivo tanto no esporte quanto
na fotografia. Considerado um dos grandes retratistas de sua geração, deixou
uma extensa galeria de imagens que documenta com sensibilidade, elegância e
rigor artístico importantes personagens da sociedade brasileira do século XX.