Há quarenta e quatro anos, Niterói não
era apenas uma cidade contornada pelo mar e abraçada pela silhueta imponente da
Baía de Guanabara; era, e continua sendo, um vasto território de beleza lírica
e poética.
Em 14 de agosto de 1982, o auditório
da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF)
transformou-se no epicentro de uma revolução silenciosa, porém indomável. Ali,
no coração acadêmico da cidade, reuniram-se sonhadores empunhando não armas,
mas versos, crônicas, romances, teses e o inegável anseio de dar guarida
institucional à literatura produzida na terra de Arariboia.
O que começou como um desdobramento
espontâneo e audacioso, com o intuito inicial de estruturar uma seção
fluminense do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, rapidamente ganhou
asas próprias, soberanas e definitivas. A fundação da Associação Niteroiense de
Escritores (ANE) não nasceu de gabinetes burocráticos, mas do entrosamento
visceral entre mentes brilhantes que compreendiam a urgência de congregar
talentos, divulgar obras e projetar os autores locais muito além de suas
fronteiras geográficas.
A lista de pioneiros que assinaram
esse pacto com a posteridade é um verdadeiro panteão da cultura fluminense.
Nomes como o inesquecível Luis Antônio Pimentel, que testemunhou e eternizou o
nascimento da casa, Wanderlino Teixeira Leite Netto, Maria Regina Moura, Neusa
Peçanha, Marilena Ribeiro Gomes, Sérgio Cid, Roberto dos Santos Almeida, Angelo
Longo, Alaôr Eduardo Scisinio, Ricardo Fonseca de Pinho, Rui Marcenes, Gerson
Vasconcelos, Maria Júlia de Aquino, Lucy Proença, Marly Guerra, Wandercy de
Carvalho, Jacy Pacheco, Mário Sousa, Salvador Mata e Silva, Antônio Lopes dos
Santos, Plínio Muylaert e Divaldo Gomes Ribeiro, o querido Zé Gamela, entre
tantos outros, costuraram a rede que sustentaria o futuro literário do
município.
Nos primeiros passos, a recém-nascida
ANE demonstrou a resiliência típica dos grandes empreendimentos humanos. Sob o
comando de diretorias provisórias e, posteriormente, da primeira gestão oficial
eleita em 1983, encabeçada por Sérgio Cid, Rui Marcenes, Almanir Grego, Luís
Antônio Pimentel e Luis Puccú, a instituição estruturou-se administrativamente,
enfrentando os desafios de não ter sede própria com a nobreza de quem ocupa
qualquer espaço transformando-o em templo.
Auditórios emprestados, recitais
intimistas, exposições de arte e estandes de livros espalhados estrategicamente
por pontos da cidade tornaram-se as trincheiras culturais da ANE. Era a literatura
fazendo-se carne nas ruas, aproximando o autor do leitor comum, quebrando a
falsa barreira de que a alta cultura pertence apenas a torres de marfim.
Ao longo de quatro décadas e meia, a
associação ramificou sua atuação em projetos antológicos que marcaram épocas.
Quem não se recorda das icônicas Quintas Literárias e Quintas Requintadas,
brilhantemente concebidas pela saudosa presidente Maria Regina Moura entre 1989
e 1993? Ou dos cobiçados concursos literários que revelaram e consagraram
talentos através do Prêmio Silvestre Mônaco, do Concurso de Contos José Cândido
de Carvalho e do Concurso de Poesias Jacy Pacheco?
A memória da ANE também se materializa
nas páginas de suas concorridas Antologias, verdadeiros testamentos impressos
que eternizam a poesia, a crônica e a prosa dos associados, com destaque
especial para as edições comemorativas dos Jubileus de Pérola, Coral e
Esmeralda. A isso se somam a inestimável Agenda Poética ANE (fruto da liderança
de Heitor Carvalho Cruz), os tradicionais almoços de aniversário de 14 de
agosto, o aconchegante Chá da Primavera em outubro e a solidariedade festiva do
Natal do Poeta.
Uma das maiores belezas da trajetória
da ANE é o seu profundo espírito de comunhão. A instituição nunca caminhou
isolada; pelo contrário, sempre estendeu as mãos para formar uma verdadeira
federação do pensamento em Niterói. Ao longo de sua jornada, caminhou lado a
lado com irmãs de cátedra e ofício, como a Academia Fluminense de Letras, a
Academia Niteroiense de Letras, o Cenáculo Fluminense de História e Letras, o
Instituto Histórico e Geográfico de Niterói, além de espaços fundamentais como
o Centro Cultural Maria Sabina, fundado pela inesquecível poetisa e a sua
diretora cultural Neide Barros Rêgo e o Parthenon Centro de Arte e Cultura, criação
da expressiva artista plástica Veronica Debellian Accetta.
As Antologias da ANE, concebidas com
esmero pelo designer Mauro Carreiro Nolasco, transcendem o papel: são palcos de
vivacidade e encontros onde a alma da literatura niteroiense ganha brilho
próprio. Cada edição é um mosaico de vozes que celebram nossa identidade. Nesse
ecossistema de resistência e beleza, dois pilares históricos merecem ser
reverenciados com letras douradas ao celebrarmos estes 44 anos de uma
trajetória que, graças a talentos assim, permanece sempre eterna e renovada.
Wanderlino Teixeira Leite Netto
ergue-se como um verdadeiro minerador cultural de Niterói. Poeta, romancista e
biógrafo de erudição ímpar, ele consagrou os dias a vasculhar e resgatar os
tesouros submersos da nossa memória fluminense. Seus livros, como Passeio das
Letras na Taba de Arariboia e Dança das Cadeiras, funcionam como enciclopédias
sagradas que perpetuam a nossa ancestralidade artística, concedendo-lhe uma
honraria imorredoura na ANE.
E, brilha Leda Mendes Jorge: a alma, o
compasso e a doçura que harmonizam o presente e conduzem o futuro da
associação. Com sua sensibilidade de artista e líder inigualável, ela
transforma cada encontro em poesia viva, mantendo acesa a chama da nossa
literatura.
Falar da ANE contemporânea é,
inevitavelmente, curvar-se diante da presença luminosa de sua presidente, a
acadêmica Leda Mendes Jorge. Poetisa de sensibilidade rara e musicista de
talento consumado, Leda tem sido o baluarte que mantém a instituição viva,
vibrante e profundamente acolhedora.
Em sua posse na Academia Fluminense de
Letras, o ilustre acadêmico Marcos Almir Madeira sintetizou com precisão
cirúrgica a essência da arte de Leda: “Em todas as suas criações, a poesia não
traduz apenas estados d'alma porque é poesia de ideias, poesia suavemente
marcada pela transparência do pensamento, leve como vestido de gaze. (...) Seus
haicais são frações de ideias, ideais e vibrações de um coração rico. (...) Mas
a colega é duas vezes artista: põe alma no papel quando espiritualiza as
palavras em sua poesia e nas teclas do seu piano, quando o domina aos nossos
olhos e nos conquista o coração. Arte sem igual: a alma nas mãos.”
É essa mesma "alma nas mãos"
que Leda transborda na presidência da ANE. Com uma elegância ímpar, simpatia
agregadora e uma capacidade rara de congregar diferentes gerações de
escritores, ela conduz a casa literária com o rigor de quem respeita a tradição
e a leveza de quem sabe que a poesia precisa respirar livremente. Sob sua
liderança, a instituição não apenas sobreviveu às intempéries dos tempos
modernos, mas floresceu, abrigando hoje mais de 84 associados que encontram na
associação um porto seguro para suas inquietações criativas.
Chegar aos 44 anos em pleno agosto de
2026 é um triunfo da palavra sobre o esquecimento. Numa época em que o mundo
acelera em direção à efemeridade digital, a Associação Niteroiense de
Escritores permanece como um oásis onde o tempo desacelera para dar lugar à
reflexão, ao debate estético e ao abraço fraterno entre autores veteranos e
novos talentos.
Celebramos a ANE. Celebramos os
fundadores que ousaram sonhar no auditório da UFF em 1982. Celebramos os poetas
que já partiram, mas cujos versos continuam ecoando nas paredes invisíveis da
nossa cultura. Celebramos cada associado que hoje empunha sua caneta para
defender o valor do livro e da leitura. E celebramos, com profunda reverência e
carinho, a presidente Leda Mendes Jorge, cujo sorriso e dedicação incansável
continuam a engalanar a nossa história.
Que venham muitos outros capítulos.
Que a taba de Arariboia siga renhida de versos, e que a Associação Niteroiense
de Escritores continue a ser, por excelência, a guardiã eterna da nossa
identidade, da nossa memória e do nosso sonho. Parabéns à ANE! Parabéns a
Niterói, berço altaneiro de poetas e eternos criadores de mundos!
© Alberto Araújo
Jornalista, escritor e Poeta