O rio não discute com a pedra, não lamenta o precipício nem exige que a montanha se abra em dois para dar-lhe passagem. Ele simplesmente segue. Quando encontra uma rocha inamovível, curva o próprio corpo, abraça a curva, descobre um facho de luz no atalho improvável e continua a fluir. Há milênios, Lao Tzu já nos lembrava de que o rio só atinge seus objetivos porque aprendeu essa arte: a de contornar os obstáculos.
Aprendemos muito cedo a tentar erguer muros contra os ventos ou a dar murros no que é rígido demais. Esquecemos, contudo, essa lição primordial trazida pelo contorno. Enfrentar as adversidades não é travar um duelo de força bruta contra o invisível; é ter a lucidez da água. É compreender, como bem poetizou Guimarães Rosa, que o real não está parado na partida nem na chegada, mas se revela no meio da travessia. A rota exige a arte do desvio, a coragem da adaptação e a firmeza de quem não perde a bússola de vista.
E há, no meio desse caminho, a transformação inevitável. Como dizia Heráclito, ninguém entra duas vezes no mesmo rio, pois nem as águas nem o homem permanecem os mesmos. Cada rocha contornada muda a nossa correnteza.
Olhar para a finitude, então, deixará de ser o medo do fim para se tornar o verso inevitável da mesma folha onde a vida se escreve. Saber que o mundo não começou conosco e tampouco se encerrará quando dobrarmos a última curva traz um alívio curioso: dá a cada instante não o peso de um fardo, mas a densidade do significado.
A vida continuará. Sem nós, apesar de nós, além de nós. Saber-se passagem não apequena a jornada; ao contrário, liberta. Que sejamos, então, como esse leito que não estagna: capazes de contornar as durezas do caminho, fiéis ao nosso próprio destino e conscientes de que a beleza da água está justamente em aprender a fluir enquanto durar o curso.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural


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