POSSE
NA ANL: DISCURSO DE RECEPÇÃO À ESCRITORA DALMA NASCIMENTO PELA ACADÊMICA MARCIA PESSANHA –
PRESIDENTE JUBER BAESSO EM 29 DE MAIO DE 2019.
Posse
de Dalma Braune Portugal do Nascimento na Academia Niteroiense de Letras
Saudação
feita pela acadêmica Márcia Maria de Jesus Pessanha
Ilmº
presidente da Academia Niteroiense de Letras – Juber Baesso
Ilmª
escritora Nélida Piñon da Academia Brasileira de Letras
Autoridades
que compõem a Mesa Diretora
Acadêmicos,
Senhoras e Senhores
Com muita alegria e honra aqui estou para saudar a professora, escritora e ensaísta Dalma Nascimento, que merece toda nossa consideração e aplausos. E diante de “persona” tão plural, busco uma referência no título de seu livro Com Pessoa, estamos em pessoa, na pessoa do mistério. Mistério, grandiosidade, plenitude – palavras que se inserem na arquitetura da construção literária de Dalma. E nos versos de Fernando Pessoa,( heterônimo Ricardo Reis) encontramos uma poética forma para defini-la: Para ser grande, sê inteiro: nada /teu exagera ou exclui./ Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ no mínimo que fazes./ Assim em cada lago a lua toda/ brilha, porque alta vive. E a neoacadêmica cintila no universo das letras, altos voos, cada vez mais longínquos... Por isso, para melhor ilustrar e confirmar minha fala, transcrevo palavras extraídas do seu livro Das neblinas e das colheitas de um memorial, em que ela se declara : “Um ser sempre ansioso a conhecer o ser das coisas, para ser mais.”
E, assim, com toda essa bagagem cultural, recebemos Dalma Braune Portugal do Nascimento, na Academia Niteroiense de Letras, para ocupar a Cadeira Nº 19, patronímica de Azevedo Cruz, tendo como antecessores Francisco de Almeida Pimentel, Milton Nunes Loureiros e Luiz Calheiros Cruz. O Patrono Azevedo Cruz é autor do célebre poema “Amantia Verba” que exalta o Rio Paraíba do Sul.
Oh
Paraíba, oh mágica torrente
Soberana
dos prados e vergéis!
Por
onde passas, como um rei do oriente,
Os teus vassalos vêm beijar-te os pés !
E chegamos à terra natal de Dalma, a Pérola do Paraíba, da qual ela se recorda, dizendo: “Barra do Piraí da infância, confluência do pacífico e raso Piraí com a turbulência do volumoso Paraíba,” que banha a cidade de Campos, de onde venho.
Dalma, nosso encontro, metaforicamente, vem do abraço das águas La Revêrie dês eaux( Gaston Bachelard), do Paraíba do Sul que une nossas cidades. E você, menina sonhadora, entrou um dia, com outras crianças, naquele pequeno barco,ancorado no fundo do pomar de sua casa,movida pela curiosidade infantil para conhecer a Ilha dos Amores de Barra do Piraí. Não era a ilha idealizada, nem a Ilha dos Amores de Camões, mas valeu a travessia, pois você sempre sentiu uma atração pelos espaços insulares, como transparece em vários escritos seus. E, assim, navegante nos mares da vida, dos saberes e dos afetos, encontro você, Profª, Doutora em Literatura, fazendo parte de minha Banca de Doutorado, na Universidade Federal Fluminense.
E hoje, tendo a honrosa incumbência de saudá-la na ANL, é preciso revelar sua bela história de vida, na completude do seu ser. Não apenas a Dalma intelectualizada que já conhecemos, mas a Dalma humana, afetiva, no cotidiano familiar, como se declara em seu Memorial: “ sou os sonhos de meu pai e os desafios de minha mãe”.
Da
constelação familiar de Dalma destacamos seu pai Waldemiro Portugal,
jornalista, radialista, poeta, intitulado “O príncipe dos poetas” da cidade de
Piraí, pianista, apreciador da boa música. Com seu pai, Dalma teve suas
primeiras lições de francês e também participava com ele, tocando teclado, no programa litero-musical na Rádio Difusora
do Vale do Paraíba, dirigido por ele. E a jovem Dalma também participou de encontros de escritores, poetas
e artistas no famoso Bar Lili, em Barra do Piraí, à semelhança do Café Paris,
em Niterói. Era a única figura feminina que brilhava na roda dos intelectuais
da época. A hora da estrela já se
anunciava...
Sua
mãe Maria Dulce Braune Portugal, profª e diretora por muitos anos da 1ª Escola
Estadual da cidade, onde inovava na arte de ensinar, foi uma antecipadora da
pedagogia moderna. Pode-se dizer que Dalma nasceu na sala de aula, sua casa e a
escola compunham uma coisa só, conforme suas próprias palavras “ searas de
trabalho, visando à formação dos alunos e das duas filhas para colheitas
futuras.” Sua avó Olympia, profª
primária aposentada, que residia com a família, tocava piano muito bem, com
destaque para Chiquinha Gonzaga e Villa Lobos. Dalma também estudou piano. A música inundava seu pequeno grande mundo e
de sua irmã Léa Emília.
O veio artístico borbulhava de várias formas, na assistência a óperas com o pai, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e, também, no teatro cinema de Barra do Piraí, onde se encantava com as luzes, os coloridos, as transformações dos atores nos camarins, no mascaramento , no fingir da ficção. “ O poeta é um fingidor”(Fernando Pessoa). E Dalma sonhava um dia ser artista e se pintar com muitas tintas “entre espelhos no fantástico cubículo da fantasia” ( In: Memorial)
E se pensarmos no verso do poema Retrato de Cecília Meireles “ Em que espelho ficou perdida a minha face”, podemos dizer que a face de Dalma , jovem criativa e sonhadora, não se perdeu. Ela se encontra no palco/espelho iluminado, onde fulgura entre as estrelas da intelectualidade brasileira.
Dalma cresceu rodeada de livros, músicas, literatura... isso era seu “ pão de cada dia”, alimento que nutriu sua existência desde sempre. Travessura de criança, aos 11 anos, pegou, às escondidas, no armário da escola, o livro Carlos Magno e seus cavaleiros. E desde então os assuntos relacionados com a Idade Média se infiltraram nela. Lia os clássicos da literatura infantil: Monteiro Lobato e os estrangeiros Irmãos Grimm, Charles Perrault... que também a conduziam aos fantásticos cenários medievais. No seu quarto de menina havia uma pequena biblioteca feita de caixotes, recobertos de chitão florido. A pequena biblioteca frutificou e hoje Dalma tem dois quartos de seu apartamento, repletos de livros, com estantes até o teto.
Dalma estudou em escola pública, em Barra do Piraí, onde cursou o antigo primário e o ginasial. Aos 16 anos, veio para Niterói e iniciou o Clássico no Liceu Nilo Peçanha, mas completou o último ano no Colégio Mallet Soares em Copacabana. Desde cedo, seu desejo para fazer o Clássico prendia-se ao fato do currículo ter as disciplinas : Grego, Latim e Filosofia. Prestou Vestibular para Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Nacional do Brasil, atual UFRJ e ao mesmo tempo para a Faculdade de Direito da Universidade do Estado da Guanabara- UEG, atual UERJ. Entretanto, houve um momento em que interrompeu os estudos, pois o apelo do amor foi mais forte e se casou com o jovem médico Braz Nascimento. E seguiu-se então um tempo de vivência amorosa, coroado pelo nascimento do 1º filho, Braz Henrique, o “ Ique”. E o segundo filho Luís Claudio que veio à luz, ou melhor foi “inaugurado” com poucas horas de diferença da inauguração de Brasília.
Difícil
traçar o Risco do bordado ( lembro-me do romance de Autran Dourado) da vida de
Dalma, mas eis que ela me fornece um fio muito interessante para tecer sua história e uma surpresa para
todos nós, conforme suas palavras no já citado Memorial
Bordei eu mesma todo o enxoval do bebê com florinhas soltas- especialidade que aprendi com as bordadeiras da cidade – e desenhava histórias de fadas, salpicadas nos lençóis, misturadas a temas de Grimm e de Perrault. Ia assim contando as lendas nos bordados, tal qual nas tapeçarias medievais”.
Tal imagem da mãe bordadeira nos remete à tela “ La jeune cousant” do pintor impressionista francês Pierre-Auguste Renoir.
E
durante um período, misturando leituras, idiomas e mamadeiras, Dalma foi
levando sua vida, ao lado do marido médico, acompanhando-o nos locais em que
era designado para trabalhar: Laje de Muriaé, Campos e depois Niterói, onde
fixou residência.
Mas a determinação e o apoio da mãe, professora Maria Dulce, incentivaram Dalma a retornar aos estudos e seguir sua brilhante carreira. Assim, passamos a ver um pouco mais as outras faces iluminadas de Dalma: a da intelectual, profissional do magistério, escritora, ensaísta... Graduada em Português/ Literatura pela UFF, Mestrado e Doutorado em Letras – Ciência da Literatura na UFRJ, com ênfase em Teoria Literária, defendendo sua tese intitulada O Teorema Poético de Vinícius de Moraes.
Mestra
e Doutora em Literatura Comparada e Teoria Literária pela UFRJ, atualmente
aposentada, Ex-professora da Universidade de Brasília e da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. Em seus cursos sempre enfatizou a questão do
feminino, do Mito, da Utopia, do Sagrado e da Idade Média. Também foi profª na
Universidade Federal Fluminense e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
Severino Sombra, em Vassouras, onde lecionou Teoria Literária, Literatura
Brasileira e chefiou o Departamento de Letras. Embora tenha se fixado no ensino
superior, também foi Profª de Português no Colégio Clélia Nanci, em São
Gonçalo.
Pesquisadora
Associada ao Centro de Estudos Afrânio Coutinho da Faculdade de Letras da UFRJ.
Pesquisadora do CNPq por vários anos. Fez diversas pesquisas sobre as lendas
medievais e ministrou cursos na graduação e na pós da UFRJ sobre a Idade Média.
Realizou projeto de pesquisa para a Fundação da Biblioteca Nacional sobre a obra de Nélida Piñon.
Também
organizou e coordenou jornadas e semanas dedicadas à Literatura Infantojuvenil,
tais como “ Estações da Eterna Infância”,
e ministrou curso no Real Gabinete Português de Leitura “Fadas, Magos,
Cinderelas: Viagens da Idade Média à Literatura Infantil.”
Sempre envolvida com a área cultural tornou-se Membro efetivo do Pen Clube do Brasil desde 1982. É também Membro da UBE/RJ, Membro Honorário da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras, Membro do Comitê Científico da revista franco-brasileira Passages de Paris, Membro do Conselho Editorial do Parthenon Centro de Arte e Cultura, Membro da Academia Barrense de Letras.
Com
vocação para o jornalismo, talvez vestígios da influência paterna, foi diretora
por vários anos do jornal cultural O Correio (já extinto). Ex- correspondente
de matérias estrangeiras para o jornal de Brasília. Ex-colunista cultural do
jornal Tribuna da Imprensa.
Por sua atuação nas Letras/Literatura foi agraciada com o Prêmio Raquel de Queiroz pela UBE-RJ em 2014, Medalha Oscar Nobiling da Sociedade Brasileira de Língua e Literatura, Diploma de Mérito Cultural pela UBE- RJ, Prêmio a “ Rosa de Píndaro”, o maior da UBE/RJ, e vários outros prêmios, medalhas e diplomas no Brasil e no estrangeiro.
Participou de diversos congressos na França e na Espanha, com inúmeras publicações em jornais e revistas no Brasil e no exterior : França, Espanha(Galícia), Portugal, Estados Unidos, sendo o ensaio mais recente “ Barroque voices in the primordial voices of Brasilian Literature: Anchieta, Vieira, and Gregorio”. In: Brasilian Literature as World Literature. New York: Bloomsbury, 2018.
Orientou diversas dissertações de mestrado, teses de doutorado e participou de inúmeras Bancas de Concursos em vários estados do Brasil.
Tem mais de 200 palestras no Brasil, inclusive várias na Biblioteca Nacional, em Universidades e Centros Culturais.
E quase ao término desta saudação, saltando algumas passagens da gloriosa trajetória de Dalma, pois é muito difícil descrever tudo o que ela realizou, chegamos ao maravilhoso universo de sua produção e podemos vê-la feliz no centro da roda, formada por seus livros :
Fabiano,
herói trágico na tentativa de ser. Ed. Tempo Brasileiro,1980
Antígonas
da modernidade. Performances femininas na vida real ou na ficção
literária.Tempo Brasileiro, 2013.
Mitos e utopias dos teares literários às páginas dos periódicos. Tempo Brasileiro, 2014.
Memórias
em jornais. Editora Parthenon, 20114.
Idade
Média: contexto, celtas, mulher, Carmina Burana e ressurgências atuais. Ed.
Parthenon 2015 e 2018 (2ª edição)
Das
neblinas e das colheitas de um memorial. Parthenon, 2015.
O Velho, a Mulher, o Imigrante: três vozes na dinâmica atual. Parthenon, 2015
Nélida
Piñon, nos labirintos da memória. Parthenon, 2015.
Nélida
Piñon entre contos e crônicas. Parthenon, 2015
Aventuras
narrativas de Nélida Piñon. Parthenon, 2016.
Conversas
com Nélida. Ed. Parthenon*
Astúcias
de Nélida nos artifícios da arte. Ed. Parthenon*
Charles
Baudelaire: um Avatar da lírica moderna. Parthenon, 2018.
Brocéliande:
a floresta encantada dos celtas, dos druidas e do Rei Artur. Parthenon, 2018.
Com Pessoa estamos em pessoa na pessoa do mistério. Parthenon, 2019.
Autoria,
organização e coordenação dos livros: Tempo mítico; Poder e política, ambos
editados pela Ágora da Ilha em 1999.
Livro no prelo: Carmina Burana: magia e questionamento cultural (A poesia dos goliardos, a cantata cênica de Carl Orff e o balé de Jean Pierre Ponnelle). Ed. da UFRJ.
Livros prontos aguardando edição: Macunaíma; uma interlocução com os mitos gregos. Ed. Parthenon; A lira de Orfeu nas claves de Vinicius. Ed. Parthenon; Prefácios e posfácios, este livro... Ed. Parthenon.
Os textos de Dalma nos atraem e enfeitiçam. Assim, ao escrever Brocéliande – a floresta encantada dos celtas, das fadas e do Rei Artur, como tecelã da narrativa, ela transpõe as fronteiras do tempo e do espaço referenciais e entra na dimensão estética da topofilia de Bachelard, do espaço que atrai e acolhe. E possuída pelo poder encantatório da metamorfose poética, que só a arte consegue expressar, a narradora leva-nos ao encontro de símbolos, de elementos mágicos, de rituais cosmogônicos e de reminiscências míticas. E penetramos extasiados na floresta, imagem primitiva de um mundo ancestral, que nos seduz pelo mistério e pelo imprevisível. Reino do encantamento, “locus vivendi” de seres enraizados nas histórias medievais, onde se entrelaçam os fios condutores da magia, dos mitos, das lendas, dos contos e das novelas de cavalaria, que até hoje alimentam nosso imaginário.
E já que nasceu incumbida, ao publicar as Antígonas da Modernidade, performances femininas na vida real ou na ficção literária, Dalma distinguiu mulheres guerreiras, com uma missão a cumprir no reino conquistado por elas, à semelhança dos Cavaleiros da Távola Redonda. Desse modo, Dalma criou uma ciranda de mulheres e está inserida neste mundo mítico e místico. Assim, podemos vislumbrá-la surgindo das brumas como a Fada Morgana, ou a princesa do Conto Era uma vez... que se casou com o médico Braz Alves do Nascimento, carinhosamente citado “in memoriam” como partilhante dos meus sonhos”.
Pode também ser vista como a guardiã do cântaro das recordações, a deusa grega Mnemósine, mãe de Clio, a musa da história e avó de Orfeu, o fabulador poeta, pois em metafórica analogia, você, Dalma, não é a mãe de Clio, mas a mãe de Braz Henrique e Luiz Cláudio, não é a avó do Orfeu mítico, mas a avó de dois jovens Orfeus modernos, ambos ligados à música: Noel, maestro , compositor, pianista e Leon, dono de uma bela voz, estudando cinema.
E como a memória é também“ bailarina”, citando Nélida Piñon, quando você valsava soberana e dançava tangos com seu pai, exímio bailarino, nos bailes de Piraí, é como se você , entrelaçando passado e presente, antecipasse seus voos criativos pelos salões medievais, em que no futuro você seria coroada Rainha das Letras.
E
é assim que você chega até nós na Academia Niteroiense de Letras, com os sonhos realizados de seu pai e os
desafios de sua mãe, plena de sabedoria para
compartilhar conosco.
Seja bem-vinda! Entre e faça parte de nossa história...
Niterói, 29 de maio de 2019.
ASSISTA AO FILME DA POSSE DE DALMA NASICMENTO
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