Introdução
O filme Hamnet (2025), dirigido por Chloé Zhao, constitui uma obra cinematográfica que transcende o relato biográfico ao transformar o luto pela morte do filho de William Shakespeare em experiência estética. Inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, o longa explora a dor como paisagem e silêncio, estabelecendo um diálogo intertextual com os sonetos do dramaturgo. A narrativa não se limita a reconstruir fatos históricos, mas propõe uma reflexão sobre o tempo, a mortalidade e a permanência da arte.
Este ensaio busca analisar como Hamnet se articula com os Sonetos 12, 60 e 73, criando uma reflexão estética sobre a fragilidade da vida e a resistência da memória. Para tanto, serão intercaladas frases do filme com versos dos sonetos, em inglês e em tradução para o português, de modo a evidenciar a construção de uma poética compartilhada entre literatura e cinema.
Metodologia
A presente análise adota uma abordagem intertextual comparativa, fundamentada em três eixos metodológicos:
Leitura close reading dos sonetos - leitura minuciosa e detalhada dos textos: examina-se a estrutura poética, as imagens centrais e os recursos retóricos de Shakespeare, com atenção especial às metáforas do tempo e da mortalidade.
Análise fílmica: considera-se a mise-en-scène, tudo aquilo que compõe visualmente uma cena, os diálogos e a construção visual de Hamnet, observando como o cinema traduz ou ressignifica os temas presentes nos sonetos.
Intercalação textual: frases do filme são colocadas em paralelo com versos dos sonetos, em inglês e em tradução para o português, permitindo observar como o discurso cinematográfico encarna ou tensiona a filosofia poética.
Essa metodologia se insere no campo dos estudos comparados de literatura e cinema, conforme discutido por Hutcheon (2006) em A Theory of Adaptation, e por Stam (2005) em Literature and Film: A Guide to the Theory and Practice of Film Adaptation. A análise privilegia a dimensão estética e simbólica, sem pretensão de reconstrução histórica literal, mas como exercício de crítica cultural.
O TEMPO COMO DESTRUIÇÃO: SONETO 12 E A MORTE DE HAMNET
Verso original: “When I do count the clock that tells the time, / And see the brave day sunk in hideous night...”
Tradução: “Quando eu conto as horas que o relógio marca, / E vejo o dia audaz em noite medonha afundar...”
No Soneto 12, o tempo é representado como força destrutiva, que transforma o dia em noite e a juventude em velhice. A metáfora da “foice do tempo” sintetiza a inevitabilidade da perda.
No filme, essa metáfora ganha corpo na morte precoce de Hamnet. A frase “Ele leva todos os desejos no coraçãozinho dele. É só desejar.” contrasta com a violeta já passada: o desejo infantil é puro, mas destinado a ser ceifado. O filme encarna o instante anterior à destruição, enquanto o soneto antecipa o destino inevitável.
O FLUXO INCESSANTE: SONETO 60 E OS PROJETOS FRUSTRADOS
Verso
original: “Like as the waves make towards the pebbled shore, / So do our
minutes hasten to their end...”
Tradução: “Tal como as ondas correm para a praia pedregosa, / Assim nossos minutos apressam-se para o fim...”
O tempo é comparado ao mar, incessante e indiferente. No filme, o diálogo “Eu vi uma casa para nós em Londres... Morar em Londres não dar...” mostra como os projetos de futuro são engolidos pelo fluxo temporal.
A ausência de Shakespeare, denunciada por Agnes em “Você não estava aqui... Ele agonizou... e você não estava aqui...”, reforça a ideia de que o tempo não concede trégua, arrastando o pai para longe enquanto a morte acontece em casa. Aqui, o filme dramatiza a falha humana diante da inevitabilidade do tempo, ampliando a dor da perda.
O OUTONO DA VIDA: SONETO 73 E O SACRIFÍCIO DE HAMNET
Verso
original: “That time of year thou mayst in me behold, / When yellow leaves, or
none, or few, do hang...”
Tradução: “Aquela estação do ano podes ver em mim, / Quando folhas amarelas, poucas ou nenhumas, ainda pendem...”
Neste soneto, Shakespeare compara a velhice ao outono, às brasas que se apagam mas ainda aquecem. No filme, Hamnet diz à irmã: “Eu te dou a minha vida Judith... Eu sou valente...”. O sacrifício infantil é como uma chama que continua em Judith, ecoando a metáfora das brasas que, mesmo em declínio, irradiam calor.
O amor, diante da morte, intensifica-se. O filme encarna a ideia de que a perda não extingue o vínculo, mas o transforma em memória ardente, tal como o fogo que persiste nas brasas.
A FRAGILIDADE DOS FILHOS E A ARTE COMO LEGADO
Verso
original (Soneto 12): “And nothing ’gainst Time’s scythe can make defence /
Save breed, to brave him when he takes thee hence.”
Tradução: “Nada detém a foice do tempo que tudo parte, / A não ser os filhos, que te perpetuam após tua morte.”
Shakespeare via nos filhos a única defesa contra o tempo. No filme, Agnes afirma: “O que é dado, é tirado. Não deixe de valorizar os corações de um filho...”. A morte de Hamnet nega essa defesa, tornando a arte o único legado possível.
A peça Hamlet, escrita anos depois, surge como resposta estética ao trauma, perpetuando a memória que a descendência não pôde garantir. Assim, o cinema e a literatura convergem: ambos transformam a dor em criação, resistindo ao esquecimento.
INTERTEXTUALIDADE E RESSIGNIFICAÇÃO
Ao inserir o Soneto 12 na narrativa, o filme não apenas cita Shakespeare, mas ressignifica sua obra. O texto poético, originalmente universal, ganha dimensão íntima e biográfica. O espectador entende que a reflexão sobre o tempo não é apenas filosófica, mas nasce da experiência concreta do luto.
O filme, portanto, não adapta Shakespeare de forma literal, mas cria um eco emocional: a perda do filho inspira a arte, e a arte perpetua a memória. Essa intertextualidade reforça a ideia de que o cinema pode dialogar com a literatura não apenas como tradução de formas, mas como continuidade de sentidos.
CONCLUSÃO
O diálogo entre Hamnet e os sonetos de Shakespeare revela uma poética da mortalidade em que cinema e literatura se complementam.
O
Soneto 12 fornece a metáfora da foice do tempo.
O
Soneto 60 mostra o fluxo incessante que não permite pausa.
O Soneto 73 revela a intensidade do amor diante da finitude.
As frases do filme encarnam essas ideias em diálogos íntimos, transformando filosofia poética em drama humano. Assim, Hamnet não é apenas uma obra sobre perda, mas um ensaio visual sobre como o tempo destrói, como o amor resiste e como a arte se torna a única forma de eternidade.
A ATUAÇÃO DOS PROTAGONISTAS EM HAMNET
JESSIE BUCKLEY COMO AGNES (ANNE HATHAWAY)
Jessie Buckley recebeu grande destaque da crítica por sua interpretação de Agnes, esposa de Shakespeare. Sua atuação foi premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz em 2026.
Buckley constrói Agnes como o coração pulsante do filme: uma mulher que carrega a dor da perda e a ausência do marido.
Sua performance é marcada por gestos contidos, olhares silenciosos e uma dor que nunca se torna excessiva, criando uma atmosfera de luto permanente.
A frase “Você não estava aqui. Eu daria o meu coração. Ele agonizou... e você não estava aqui...” ganha força justamente pela entrega emocional da atriz, que transforma acusação em desabafo visceral.
PAUL MESCAL COMO WILLIAM SHAKESPEARE
Paul Mescal interpreta Shakespeare em um registro intimista, evitando o tom grandioso que poderia reduzir o personagem a ícone.
Sua atuação enfatiza a ausência e o conflito interno: o dramaturgo dividido entre a vida pública e a dor privada.
Mescal transmite a culpa e o peso da perda através de silêncios e hesitações, reforçando a ideia de que o tempo arrasta o pai para longe, como no Soneto 60.
A relação com Agnes é construída em tensão: ele é ao mesmo tempo companheiro e ausente, o que intensifica o drama conjugal.
OS JOVENS ATORES COMO HAMNET E JUDITH
O núcleo infantil é essencial para o impacto emocional do filme.
O ator que interpreta Hamnet entrega uma performance de coragem e sacrifício, especialmente nos diálogos: “Eu te dou a minha vida Judith... Eu sou valente...”.
Judith, por sua vez, é representada com ternura e cumplicidade, reforçando o vínculo fraterno.
Essas atuações dão corpo ao Soneto 73, em que as brasas que se apagam ainda irradiam calor: o amor entre irmãos permanece mesmo diante da morte.
DIREÇÃO DE ATORES POR CHLOÉ ZHAO
Chloé Zhao, conhecida por sua estética contemplativa, conduz o elenco com ênfase na naturalidade e na contenção.
A câmera privilegia os silêncios e os gestos mínimos, permitindo que os atores transmitam emoção sem recorrer ao excesso.
Essa escolha reforça a ideia de que o luto é uma presença constante, mais sugerida do que explicitada.
A direção transforma cada atuação em parte da paisagem emocional do filme, criando uma unidade entre performance e estética visual.
SÍNTESE CRÍTICA
As atuações de Jessie Buckley e Paul Mescal, somadas ao núcleo infantil, são fundamentais para que Hamnet alcance sua densidade poética.
Buckley
encarna a dor materna como permanência.
Mescal
traduz a ausência paterna como falha humana diante do tempo.
Os jovens atores dão corpo ao sacrifício e à intensidade do amor.
Assim, o elenco não apenas interpreta personagens, mas encarna os temas centrais dos sonetos de Shakespeare: a foice do tempo (Soneto 12), o fluxo incessante (Soneto 60) e o outono da vida (Soneto 73).
William Shakespeare e a sua esposa, Agnes, celebram o nascimento do seu filho, Hamnet. No entanto, quando a tragédia atinge e Hamnet morre ainda jovem, isso inspira Shakespeare a escrever a sua obra-prima intemporal, Hamlet.
Hamnet Shakespeare O único filho homem de William Shakespeare e Anne Hathaway. Além do garoto, que era gêmeo com Judith, eles também tiveram a filha mais velha, Susanna. O menino morreu em 1596, aos 11 anos, e acredita-se que, muito provavelmente, vítima da peste bubônica que assolava a Inglaterra no período. Outro fato histórico importante é que Shakespeare escreveu Hamlet poucos anos depois da morte do filho. Na época, “Hamnet” e “Hamlet” eram grafias chamadas de intercambiáveis do mesmo nome, o que estabelece uma conexão documental entre os dois, ainda que o dramaturgo jamais tenha comentado publicamente sobre a perda do filho.
O casamento entre Shakespeare e Anne Hathaway também é confirmado pelos registros históricos, assim como a distância física entre os dois durante longos períodos, já que o autor dividia sua vida entre Stratford-upon-Avon e Londres, onde trabalhava no teatro.
Além, o longa Hamnet, dirigido por Chloé Zhao, não se limita a narrar a perda do filho de William Shakespeare.
Ele se constrói como uma experiência estética em que o cinema se aproxima da poesia, transformando silêncio em linguagem e dor em paisagem. Inspirado no romance de Maggie O’Farrell, o filme articula memória e ausência, criando uma narrativa que dialoga com os sonetos do dramaturgo e com a própria ideia de arte como resistência ao tempo.
Conhecida por sua sensibilidade contemplativa, Zhao reafirma em Hamnet sua assinatura autoral. Cada plano é concebido como respiração, cada silêncio como gesto narrativo. A natureza, filmada em sua delicadeza, torna-se metáfora do estado emocional dos personagens: ciclos que continuam apesar da morte, paisagens que guardam a memória daquilo que se perdeu.
No centro da trama está Jessie Buckley, cuja interpretação de Agnes, figura inspirada em Anne Hathaway, esposa de Shakespeare, se impõe como uma das mais intensas de sua carreira. Buckley constrói uma personagem marcada pela permanência da dor, não pela explosão. Seus olhares e gestos contidos sustentam uma atuação que permanece com o espectador muito além dos créditos finais. A frase “Você não estava aqui. Eu daria o meu coração. Ele agonizou... e você não estava aqui...” ganha força pela entrega visceral da atriz, que transforma acusação em desabafo íntimo.
Paul Mescal interpreta Shakespeare em registro intimista, evitando a grandiosidade. Sua performance enfatiza a ausência e o conflito interno: o dramaturgo dividido entre a vida pública e a dor privada. Mescal transmite culpa e fragilidade através de silêncios e hesitações, reforçando a ideia de que o tempo arrasta o pai para longe, como no Soneto 60. A relação com Agnes é construída em tensão, intensificando o drama conjugal.
Os jovens atores que interpretam Hamnet e Judith são fundamentais para o impacto emocional do filme. Hamnet, em especial, é representado como portador de coragem e sacrifício: “Eu te dou a minha vida Judith... Eu sou valente...”. Judith, por sua vez, encarna a ternura e a cumplicidade fraterna. Essas atuações dão corpo ao Soneto 73, em que as brasas que se apagam ainda irradiam calor: o amor entre irmãos permanece mesmo diante da morte.
O filme sugere, sem afirmar de forma literal, que da perda nasceu a arte. Hamnet, o menino, carrega um nome quase idêntico ao de Hamlet, e o longa constrói um eco emocional entre biografia e criação literária. A dor que não pôde ser perpetuada pela descendência encontra na arte sua forma de eternidade.
Hamnet é mais que um filme sobre perda: é um ensaio visual sobre como o tempo destrói, como o amor resiste e como a arte se torna memória. A direção autoral de Zhao, a atuação impactante de Jessie Buckley e a entrega intimista de Paul Mescal convergem para uma obra de delicadeza arrebatadora. Não surpreende que o filme seja apontado como candidato ao Oscar, não apenas por sua sofisticação estética, mas por sua capacidade de transformar dor em criação e silêncio em poesia.
SONETO 12
When
I do count the clock that tells the time,
And
see the brave day sunk in hideous night;
When
I behold the violet past prime,
And
sable curls all silvered o’er with white;
When
lofty trees I see barren of leaves,
Which
erst from heat did canopy the herd,
And
summer’s green all girded up in sheaves,
Borne
on the bier with white and bristly beard:
Then
of thy beauty do I question make,
That
thou among the wastes of time must go,
Since
sweets and beauties do themselves forsake
And
die as fast as they see others grow;
And
nothing ’gainst Time’s scythe can make defence
Save
breed, to brave him when he takes thee hence.
SONETO
12
TRADUÇÃO
PORTUGUÊS
Quando
eu conto as horas que o relógio marca,
E
vejo o dia audaz em noite medonha afundar;
Quando
vejo a violeta em sua cor tão fraca,
E
o viço negro em branco pelo tempo se tornar;
Quando
vejo a copa alta sem folhas, despojada,
Que
antes dava sombra ao rebanho fatigado;
E
a relva cortada e em feixes carregada,
Em
fardos, para longe, no campo transportado;
Então
questiono a tua beleza, que há de fenecer
Com
o vagar dos anos, como tudo o que floresce;
E
a doçura e a graça, que não podem permanecer,
Morrem
tão rápido, enquanto outra vida cresce.
Nada
detém a foice do tempo que tudo parte,
A não ser os filhos, que te perpetuam após tua morte.
Soneto
60
Inglês
(original):
Like
as the waves make towards the pebbled shore,
So
do our minutes hasten to their end;
Each
changing place with that which goes before,
In
sequent toil all forwards do contend.
Nativity,
once in the main of light,
Crawls
to maturity, wherewith being crown’d,
Crooked
eclipses ’gainst his glory fight,
And
Time that gave doth now his gift confound.
Time
doth transfix the flourish set on youth
And
delves the parallels in beauty’s brow,
Feeds
on the rarities of nature’s truth,
And
nothing stands but for his scythe to mow:
And
yet to times in hope my verse shall stand,
Praising
thy worth, despite his cruel hand.
PORTUGUÊS
(TRADUÇÃO):
Tal
como as ondas correm para a praia pedregosa,
Assim
nossos minutos apressam-se para o fim;
Cada
um sucede ao que veio antes,
Num
labor contínuo todos avançam sem cessar.
O
nascimento, uma vez na plenitude da luz,
Rasteja
até a maturidade, coroado enfim,
Mas
eclipses tortuosos contra sua glória lutam,
E
o Tempo que deu, agora confunde o dom.
O
Tempo transfixa o viço posto na juventude
E
cava sulcos na fronte da beleza,
Alimenta-se
das raridades da verdade da natureza,
E
nada resiste senão para sua foice ceifar:
E
ainda assim, em esperança, meu verso há de ficar,
Louvando
teu valor, apesar de sua mão cruel.
*********************
SONETO
73
Inglês
(original):
That
time of year thou mayst in me behold
When
yellow leaves, or none, or few, do hang
Upon
those boughs which shake against the cold,
Bare
ruin’d choirs, where late the sweet birds sang.
In
me thou see’st the twilight of such day
As
after sunset fadeth in the west,
Which
by and by black night doth take away,
Death’s
second self, that seals up all in rest.
In
me thou see’st the glowing of such fire
That
on the ashes of his youth doth lie,
As
the death-bed whereon it must expire,
Consum’d
with that which it was nourish’d by.
This
thou perceiv’st, which makes thy love more strong,
To
love that well which thou must leave ere long.
PORTUGUÊS
(TRADUÇÃO):
Aquela
estação do ano podes ver em mim,
Quando
folhas amarelas, poucas ou nenhumas, ainda pendem
Nos
ramos que tremem contra o frio,
Coros
arruinados, onde antes cantavam doces aves.
Em
mim vês o crepúsculo de tal dia
Que
após o pôr-do-sol se apaga no oeste,
E
logo a noite negra o arrebata,
Segunda
face da morte, que sela tudo em repouso.
Em
mim vês o brilho de tal fogo
Que
jaz sobre as cinzas de sua juventude,
Como
o leito de morte onde deve expirar,
Consumido
pelo que antes o alimentava.
Isto
percebes, e faz teu amor mais forte,
Amar
bem aquilo que logo deverás deixar.
HAMNET: ENTRE A BIOGRAFIA E A POESIA
O drama histórico Hamnet (2025), dirigido por Chloé Zhao e coescrito com Maggie O’Farrell, parte do romance homônimo de 2020 para dramatizar a vida familiar de William Shakespeare e sua esposa Agnes Hathaway diante da morte do filho de 11 anos, Hamnet. Estrelado por Jessie Buckley e Paul Mescal, com participações de Emily Watson, Joe Alwyn e Noah Jupe, o filme constrói uma narrativa que combina rigor histórico com atmosfera poética.
A obra teve estreia mundial no 52º Festival de Telluride em agosto de 2025, seguida de lançamento limitado nos Estados Unidos e Canadá pela Focus Features em novembro, e distribuição ampla em dezembro. No Reino Unido, chegou aos cinemas em janeiro de 2026 pela Universal Pictures. A recepção crítica foi amplamente positiva, com destaque para a atuação de Jessie Buckley. O filme conquistou o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e Melhor Atriz – Drama, além de oito indicações ao Oscar de 2026, incluindo Melhor Filme, Direção e Atriz. Foi ainda listado entre os dez melhores filmes do ano pelo American Film Institute.
O prólogo lembra que em Stratford “Hamnet” e “Hamlet” eram considerados o mesmo nome, sugerindo desde o início a ligação entre biografia e criação artística. A narrativa acompanha Agnes, apresentada como mulher ligada à natureza e ao conhecimento das ervas, e William, que inicia sua trajetória como tutor antes de se lançar ao teatro em Londres.
O filme articula momentos íntimos, como o nascimento dos filhos Susanna, Hamnet e Judith, com episódios de tensão social e familiar. A peste bubônica funciona como catalisador da tragédia: Judith adoece, mas é Hamnet quem morre, após tentar enganar a morte oferecendo-se em seu lugar. A cena de sua partida, marcada pela visão de um palco e pela aparição do falcão de Agnes, sintetiza a fusão entre mito, memória e arte.
Jessie Buckley constrói Agnes como o coração pulsante da narrativa. Sua performance é marcada por contenção e intensidade, transformando o luto em permanência. Paul Mescal, por sua vez, interpreta Shakespeare em registro intimista, enfatizando a ausência e a culpa. O núcleo infantil, com Noah Jupe como Hamnet, dá corpo ao sacrifício e à coragem, reforçando o vínculo fraterno com Judith.
O filme sugere que a dor da perda inspirou a criação de Hamlet. Agnes, ao assistir à estreia da peça no Globe Theatre, inicialmente se ofende com o uso do nome do filho, mas ao ver William no papel do fantasma percebe a homenagem. A cena final, em que Agnes imagina Hamnet sorrindo antes de desaparecer, marca a reconciliação entre memória e arte.
Chloé Zhao utiliza a mise-en-scène para transformar o luto em paisagem: a floresta, o falcão, a luz natural e os gestos contidos dos atores compõem uma atmosfera contemplativa. A fotografia valoriza os ciclos da natureza, criando metáforas visuais para o tempo e a mortalidade.
Hamnet é mais que uma cinebiografia: é um ensaio visual sobre como a dor pode se transformar em criação. Ao intercalar memória, mito e poesia, o filme reafirma a arte como forma de eternidade. A direção autoral de Zhao, a entrega de Buckley e Mescal e a delicadeza da mise-en-scène convergem para uma obra que dialoga com Shakespeare não como adaptação literal, mas como eco emocional.
ELENCO
Jessie
Buckley como Agnes Shakespeare, esposa de William.
Faith
Delaney como a jovem Agnes
Paul
Mescal como William Shakespeare, marido de Agnes.
Emily
Watson como Mary Shakespeare , mãe de William.
Joe
Alwyn interpreta Bartholomew Hathaway, irmão de Agnes.
Smylie
Bradwell como o jovem Bartolomeu
Jacobi
Jupe como Hamnet Shakespeare , filho de William e Agnes e gêmeo de Judith.
Olivia
Lynes como Judith Shakespeare , a filha mais nova de William e Agnes e irmã
gêmea de Hamnet.
Justine
Mitchell como Joan Hathaway, madrasta de Agnes.
David
Wilmot como John Shakespeare , pai de William.
Bodhi
Rae Breathnach como Susanna Shakespeare , a filha mais velha de William e
Agnes.
Freya
Hannan-Mills como Eliza Shakespeare, irmã de William (baseada em Joana d'Arc )
James
Skinner como Gilbert Shakespeare , irmão mais novo de William.
Elliot
Baxter interpreta Richard Shakespeare, o irmão mais novo de William.
Dainton
Anderson interpreta Edmond Shakespeare , o irmão mais novo de William.
Louisa
Harland interpreta Rowan Hathaway, a mãe de Agnes.
Noah
Jupe como o ator que interpreta Hamlet em Hamlet.
Raphael
Goold como o ator que interpreta Horácio em Hamlet
Shaun
Mason como o ator que interpreta Cláudio em Hamlet
Matthew
Tennyson como o ator que interpreta Gertrude em Hamlet
El
Simons como o ator que interpreta Ofélia em Hamlet
Clay
Milner Russell como o ator que interpreta Laertes em Hamlet
Sam
Woolf como o ator que interpreta Bernardo em Hamlet
Hera
Gibson como o ator que interpreta Francisco em Hamlet
Jack
Shalloo como o ator que interpreta Marcelo em Hamlet
Javier
Marzan como o ator que interpreta o Bobo em Hamlet
Zac
Wishart como o filho mais velho de Joan, meio-irmão de Agnes.
James
Lintern como filho mais novo de Joan, meio-irmão de Agnes.
Eva
Wishart interpreta a filha mais velha de Joan e meia-irmã de Agnes.
Effie
Linnen como a filha mais nova de Joana, meia-irmã de Agnes.
Laura
Guest como parteira
John
Mackay como Edward Woolmer, o padre local.
Albert
McCormick como Menino na janela
Eliah
Arnstjerna como baterista
Edward
Anderson como flautista
REFERÊNCIAS
Campos, Fernando. Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Plano Crítico, 17 dez. 2025.
Culturadoria. Hamnet: por que o filme de Chloé Zhao vai além de Shakespeare. 2025.
Carlos, Henrique. Crítica: Em Hamnet, Chloé Zhao entrega seu filme mais triste e poderoso. Portal Leo Dias, 18 dez. 2025.
Hutcheon, Linda. A Theory of Adaptation. Londres: Routledge, 2006.
Stam, Robert. Literature and Film: A Guide to the Theory and Practice of Film Adaptation. Oxford: Blackwell, 2005.
Walker, Shanta Navvab. Para uma Tradução Comentada de Sonetos de Shakespeare. Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília, 2018.
Coelho, Daniel Jonas da Silva. Uma Interpretação dos Sonetos de Shakespeare: Tradução e Comentário. Tese de Doutoramento, Universidade de Lisboa, 2024.
Landsberg, Débora. Os Sonetos de Shakespeare: Estudo Comparativo das Estratégias Tradutórias. PUC-Rio, 2017.
O’Farrell,
Maggie. Hamnet. Londres: Tinder Press, 2020.
Texto, pesquisa e prints
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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