Na livraria, o tempo parecia suspenso. Entre estantes coloridas e flores vermelhas que se abriam como testemunhas silenciosas, duas mulheres se encontravam em torno de um livro, durante o lançamento do livro, "Uma furtiva lágrima", em 16 de maio de 2019, na Livraria Travessa, do Leblon.
Nélida Piñon, senhora da palavra, com sua voz que atravessou décadas e continentes, inclinava-se sobre a página branca para deixar sua marca. Dalma Nascimento, leitora e também autora, segurava o volume como quem segura um relicário. O gesto era simples: uma assinatura, um sorriso, o ombro companheiro. Mas naquele instante, condensava-se a história de duas escritas que se reconheciam.
Nélida, filha de imigrantes galegos, sempre soube que a literatura era uma pátria possível. Sua obra é feita de travessias: da memória ao mito, da intimidade ao universal. Em cada romance, em cada ensaio, ela costurou a identidade brasileira com fios de imaginação e reflexão.
Dalma, por sua vez, constrói sua escrita como quem ergue uma casa de afetos. Seus textos respiram o feminino, a Idade Média e a memória cultural universal. Quando Dalma segura o livro de Nélida, não é apenas uma leitora diante de uma autora consagrada. É uma escritora diante de outra, reconhecendo que a palavra é ponte, não muro.
A cena poderia passar despercebida para quem apenas atravessava a livraria. Mas quem se detivesse veria que ali se encenava uma espécie de rito. Nélida, com sua caligrafia firme, inscrevia mais do que um nome: inscrevia a continuidade da literatura, a passagem de um bastão invisível. Dalma, sorridente, exibia o livro como quem exibe uma conquista, mas também como quem celebra uma comunhão. O autógrafo não era apenas lembrança; era símbolo de pertencimento a uma linhagem de mulheres que ousaram escrever, que ousaram dizer o mundo com suas próprias palavras.
A escrita de Nélida é marcada pela densidade. Ela não teme o excesso, porque sabe que a vida é feita de camadas. Seus romances, como A República dos Sonhos, são verdadeiros mosaicos de memória e imaginação. Ao narrar a saga de imigrantes, ela narra também a saga de um país que se inventa a cada geração. Dalma, em contraste, prefere a delicadeza dos detalhes. Sua prosa se aproxima da crônica, do poema em prosa, do olhar que captura o instante e o transforma em revelação. Se Nélida ergue catedrais de palavras, Dalma constrói jardins de memórias. Mas ambas sabem que a literatura é, antes de tudo, uma forma de resistência contra o esquecimento.
Naquele encontro, o que se via era a alegria de Dalma. Um sorriso aberto, quase infantil, diante da grande dama da literatura brasileira. Mas havia também algo mais: a consciência de que a escrita é diálogo. Dalma não apenas recebia o autógrafo; ela oferecia sua própria obra, sua própria voz, como quem diz: “Estamos juntas nessa travessia.” E Nélida, ao assinar, parecia reconhecer: “Sim, a literatura é feita de encontros, e cada autora que surge amplia o território da palavra.”
As flores vermelhas, dispostas como cenário, lembravam que a literatura é também celebração. Não apenas celebração da beleza, mas celebração da vida. Porque escrever é insistir que a vida merece ser narrada, merece ser pensada, merece ser reinventada. Nélida sempre disse que a literatura é uma forma de salvar o mundo. Dalma, com sua escrita mais íntima, mostra que salvar o mundo começa por salvar os pequenos gestos, os afetos cotidianos, as histórias que poderiam se perder se não fossem registradas.
O autógrafo, portanto, é metáfora. É a marca de que a palavra circula, de que a palavra se compartilha. Nélida escreve, Dalma lê. Dalma escreve, Nélida reconhece. E assim a literatura se perpetua, não como monumento estático, mas como corrente viva. Cada livro autografado é uma promessa: a promessa de que a palavra continuará a viajar, continuará a tocar outras vidas, continuará a construir sentidos.
Na livraria, o murmúrio dos leitores, o tilintar das páginas, o perfume das flores compunham uma sinfonia discreta. Mas no centro da cena, duas mulheres mostravam que a literatura é também gesto. O gesto de escrever, o gesto de ler, o gesto de compartilhar. E esse gesto, por mais simples que pareça, é revolucionário. Porque num mundo que tantas vezes tenta silenciar, escrever é gritar. Ler é resistir. Autografar é afirmar que a palavra tem dono, mas também tem destino.
Dalma exibia o livro como quem exibe um troféu. Mas não era vaidade. Era gratidão. Gratidão por poder estar diante de Nélida, gratidão por poder partilhar da mesma seiva literária, gratidão por saber que sua própria escrita dialoga com uma tradição maior. E Nélida, ao assinar, parecia dizer: “A literatura é de todos que ousam escrevê-la. Bem-vinda.”
Assim, a cena se tornava crônica. Porque a crônica é isso: transformar o instante em eternidade. O que poderia ser apenas um autógrafo vira narrativa, vira reflexão, vira metáfora. A crônica é o gênero que melhor traduz esse encontro, porque é feita da matéria do cotidiano, mas sempre com um olhar que transcende. E foi exatamente isso que se deu ali: um cotidiano transformado em símbolo, um gesto transformado em rito, uma assinatura transformada em legado.
Ao final, Dalma saiu com o livro nas mãos, mas também com algo mais: saiu com a certeza de que sua própria escrita tem lugar no mundo. Nélida permaneceu, assinando outros livros, sorrindo para outros leitores. Mas naquele instante, entre as duas, a literatura brasileira ganhou mais um capítulo. Um capítulo feito de reconhecimento, de alegria, de comunhão. Um capítulo que mostra que escrever é sempre um ato coletivo, mesmo quando se escreve sozinho.
E nós, que testemunhamos a cena, sabemos que não se tratava apenas de um encontro entre autora e leitora. Tratava-se de um encontro entre duas escritas, entre duas formas de ver o mundo, entre duas mulheres que, com suas palavras, insistem que a vida merece ser narrada. E essa insistência é, talvez, o maior legado da literatura.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural


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