quarta-feira, 18 de março de 2026

EFEMERIDADE E SILÊNCIO - PROSA-POÉTICA © ALBERTO ARAÚJO

Na areia do tempo, florescem e se desfazem os instantes. O silêncio observa, eterno e sereno, protetor da beleza que se vai. 

No desvão dos dias, onde o tempo tece e destece a teia do porvir, vejo a vida escorrer como areia fina entre os dedos. Quantos silêncios cabem num instante que se vai, sem aviso, sem adeus? A flor que desabrocha na madrugada e à tarde já pende, frágil e vencida, não é mais que um espelho de nossa própria e breve morada. Assim como Heráclito nos lembra de que “tudo flui”, também nós somos arrastados pela corrente invisível do tempo, incapazes de deter o curso das águas que nos levam. 

Ah, essa dança miúda das coisas que se findam! O vento que murmura segredos nas folhagens, e logo se cala; a onda que beija a areia e se desfaz em espuma e esquecimento. Tudo é um sopro, uma cintilação fugaz na vasta escuridão. E nós, pequenos nômades da existência, colecionamos instantes, como se pudéssemos guardá-los em cofres de lembrança. Fernando Pessoa, em sua inquieta multiplicidade, já advertia: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” Mas o que é a alma senão esse receptáculo de memórias que se dissolvem, esse eco que insiste em permanecer quando o instante já se perdeu? 

A verdade é que só nos resta o eco, a vibração sutil do que foi e já não é. Uma melodia que se perde no ar, um perfume que se desvanece. Manuel Bandeira, em sua poesia marcada pela consciência da morte, dizia que queria apenas “a vida inteira que podia ter sido e não foi.” Há nessa frase uma melancolia que dialoga com o texto presente: o reconhecimento de que o que nos escapa é sempre maior do que o que conseguimos segurar. O tempo, esse escultor invisível, molda e desfaz, e nós ficamos com o silêncio como testemunha.

O silêncio, porém, não é vazio. Ele é berço e túmulo de todas as coisas. Nele repousa a permanência que nos escapa no mundo visível. É o silêncio que acolhe o fim da flor, o fim da onda, o fim da palavra. É nele que se inscreve a única voz que não se cala, sussurrando a inevitável beleza do fim. Como escreveu Rainer Maria Rilke, *“a beleza é apenas o início do terror que ainda podemos suportar.” O silêncio é essa beleza suportável, porque nele não há ruído, apenas a aceitação de que tudo se desfaz. 

E se tudo é efêmero, talvez seja justamente essa condição que confere sentido à existência. A brevidade não é uma falha, mas uma dádiva. O instante que se perde é também o instante que nos ensina a olhar com mais atenção. O vento que passa nos obriga a sentir sua carícia, porque sabemos que logo se calará. A onda que se desfaz nos ensina a contemplar sua forma antes que se dissolva. O silêncio que se instala nos convida a escutar o que não pode ser dito. Como escreveu o poeta japonês Matsuo Bashō, mestre do haicai: “Velha lagoa / um sapo salta / som da água.” Nesse breve poema, o instante é capturado em sua plenitude, e o silêncio ao redor é tão eloquente quanto o som da água. 

Assim, a efemeridade não é apenas perda, mas revelação. É no desaparecimento que se revela a essência. O instante que se vai nos mostra que não há posse possível, apenas experiência. O silêncio que permanece nos lembra que não há palavra definitiva, apenas ressonância. Somos viajantes de um caminho que não se repete, e cada passo é único. Como disse Clarice Lispector, “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” A imperfeição, a transitoriedade, o silêncio, tudo isso sustenta o edifício da vida. 

E quando nos perguntamos o que fica, talvez a resposta seja simples: fica o silêncio. Mas não um silêncio de ausência, e sim um silêncio de plenitude. Nele repousam todas as vozes, todos os perfumes, todas as melodias que se perderam. Nele repousa a memória da flor, da onda, do vento. Nele repousa nossa própria memória, que é também efêmera. O silêncio é o guardião daquilo que não pode ser retido, mas que pode ser sentido. É o espaço onde o fim se torna beleza, onde a perda se torna revelação.

No fim, somos apenas colecionadores de ecos. Guardamos perfumes que já se foram, melodias que já se perderam, instantes que já se dissolveram. Mas esses ecos nos sustentam, porque nos lembram de que a vida é breve, e que justamente por isso é preciosa. O silêncio nos envolve, e nele encontramos a única permanência possível. É o silêncio que nos ensina a aceitar o fim, e a reconhecer nele não uma tragédia, mas uma inevitável beleza. 

* Como escreveu Rainer Maria Rilke, “a beleza é apenas o início do terror que ainda podemos suportar.” Essa ideia dialoga diretamente com a efemeridade e o silêncio aqui descritos: a beleza da flor que se desfaz, da onda que se dissolve, do perfume que se perde, é sempre um prenúncio da finitude. O silêncio, por sua vez, é o espaço onde esse “terror suportável” se transforma em contemplação. Assim, tanto em Rilke quanto no meu texto, a beleza não é apenas encantamento, mas também consciência da morte, e é justamente essa consciência que nos permite valorizar o instante e reconhecer nele a inevitável beleza do fim. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 

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