Entre o Forte do Gragoatá e a Ilha da Boa Viagem, em Niterói, existiam duas praias discretas, mas carregadas de história: a Praia do Fumo e a Praia Vermelha, também chamada de Roxa em registros antigos. Hoje, quem passa pela Avenida Milton Tavares de Souza, a Litorânea, dificilmente imagina que ali já houve areia, mar e barreiras naturais que marcaram o início da sesmaria concedida a Arariboia.
A urbanização dos anos 1970 e a inauguração da avenida em 1982 soterraram esse pedaço da geografia da cidade. O que restou foram lembranças, registros fotográficos e a memória de pesquisadores como Carlos Wehrs, que apontou a existência dessas praias em seus estudos sobre a ocupação da orla.
A Praia Vermelha tinha um papel simbólico: suas barreiras de solo avermelhado foram citadas no Auto de Posse da Sesmaria de Martim Afonso de Souza como marco inicial da doação feita a Araribóia. Esse detalhe geográfico transformava a praia em referência histórica, conectando o território ao nascimento de Niterói.
Já a Praia do Fumo, menos mencionada nos documentos oficiais, fazia parte do mesmo conjunto natural. Ambas compunham uma paisagem que unia o mar da Baía de Guanabara às encostas e ao casario que começava a se expandir no bairro de São Domingos.
Não eram praias de grande extensão, nem pontos turísticos de destaque. Mas serviam como espaço de convivência, de pesca artesanal e de contemplação. Moradores antigos relatam que a Praia do Fumo era usada por famílias locais, enquanto a Vermelha chamava atenção pela cor das barreiras e pela proximidade com a Ilha da Boa Viagem.
Esses espaços, ainda que modestos, faziam parte da identidade da cidade. Eram pontos de referência para quem circulava pela orla e testemunhavam a relação íntima de Niterói com o mar.
Nos anos 1970, a cidade passou por um processo de modernização. O aterro da orla foi visto como solução para ampliar vias e criar novos espaços de circulação. A construção da Avenida Milton Tavares de Souza, concluída em 1982, apagou fisicamente as praias do Fumo e Vermelha.
O que antes era areia e mar virou pista, calçadão e estacionamento. A paisagem mudou radicalmente: em frente ao campus da Universidade Federal Fluminense, onde hoje estudantes caminham, havia uma faixa de areia que desapareceu sob o concreto.
O acervo da DDP/FAN/SMC guarda registros preciosos. Fotos de 1908, de autor desconhecido, mostram a orla ainda intacta. Em 1959, Manoel Bastos registrou a paisagem em transformação. Na década de 1970, Décio Brian e Manoel Fonseca captaram os últimos momentos antes do aterro definitivo.
Essas imagens são mais do que documentos visuais: são provas de que Niterói tinha uma geografia diferente, hoje invisível. São também ferramentas de memória coletiva, capazes de resgatar histórias que o asfalto tentou apagar.
O desaparecimento das praias alterou profundamente o bairro de São Domingos. Antes, a orla era marcada por pequenas faixas de areia e pelo contato direto com o mar. Com o aterro, o bairro ganhou uma avenida larga, mas perdeu parte de sua identidade natural.
A presença da UFF reforçou a transformação: o espaço que antes era de lazer e contemplação virou área de circulação intensa, com estudantes, carros e ônibus. A paisagem marítima deu lugar ao concreto, e a memória das praias ficou restrita a registros históricos.
O caso das praias do Fumo e Vermelha não é isolado. A Baía de Guanabara sofreu diversas intervenções ao longo do século XX. O Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, é exemplo emblemático: uma obra que criou um parque urbano, mas também modificou radicalmente a geografia natural.
Em Niterói, o desaparecimento das praias mostra como a lógica do progresso muitas vezes se sobrepõe à preservação da memória. O mar recuou diante do concreto, e a cidade ganhou infraestrutura, mas perdeu parte de sua história.
Moradores antigos ainda se lembram das pequenas faixas de areia. Alguns relatam que a Praia do Fumo era ponto de encontro de pescadores, enquanto a Vermelha servia como referência visual para quem navegava pela Baía. Essas lembranças, transmitidas oralmente, ajudam a reconstruir uma paisagem que já não existe.
Pesquisadores e historiadores locais defendem que a memória dessas praias deve ser preservada, não apenas em arquivos, mas também em narrativas públicas. A história de Niterói não pode ser contada sem mencionar os espaços que desapareceram.
O soterramento das praias do Fumo e Vermelha é exemplo de como o patrimônio natural pode ser apagado em nome do progresso. A cidade ganhou uma avenida, mas perdeu referências históricas e culturais.
Esse processo levanta questões sobre como as cidades lidam com sua memória. O que se preserva? O que se esquece? No caso de Niterói, as praias foram esquecidas fisicamente, mas permanecem vivas na memória coletiva e nos registros históricos.
OUTRAS CIDADES E O APAGAMENTO DA PAISAGEM COSTEIRA
O que aconteceu em Niterói não é um caso isolado. Diversas cidades costeiras brasileiras passaram por processos semelhantes. Em Santos, por exemplo, a urbanização avançou sobre áreas de mangue e pequenas praias, transformando radicalmente a relação da cidade com o mar. No Rio de Janeiro, além do Aterro do Flamengo, a expansão da Zona Sul também modificou trechos da orla, apagando pequenas faixas de areia que existiam entre pedras e morros.
Esses exemplos mostram que o desaparecimento das praias do Fumo e Vermelha faz parte de um padrão mais amplo: o crescimento urbano que se sobrepõe à geografia natural. O mar, antes protagonista, passa a ser moldado pelo concreto e pelo asfalto.
Se o espaço físico desapareceu, a memória se torna resistência. Guardar registros, contar histórias e divulgar imagens é uma forma de manter vivas as praias soterradas. O trabalho de pesquisadores, fotógrafos e instituições culturais é essencial para que a cidade não esqueça.
A preservação da memória não é apenas um exercício nostálgico. É também uma forma de compreender como as escolhas urbanas moldam a identidade coletiva. Ao lembrar das praias do Fumo e Vermelha, Niterói reconhece que seu passado não está apenas nos grandes monumentos, mas também nos detalhes apagados pelo progresso.
O conceito de patrimônio costuma estar ligado a construções, monumentos e obras de arte. Mas há também o patrimônio invisível: espaços que desapareceram, mas que continuam a existir na memória e nos registros. As praias soterradas de Niterói são exemplo desse patrimônio.
Reconhecer esse patrimônio invisível é um desafio para as cidades. Como preservar o que já não existe? A resposta está na documentação, na divulgação e na valorização das histórias locais.
As praias do Fumo e Vermelha desapareceram sob o avanço da urbanização, mas continuam vivas na memória da cidade. São lembradas em documentos, em fotografias e nas histórias de quem as conheceu.
Resgatar essas memórias é mais do que um exercício histórico. É uma forma de refletir sobre como as cidades crescem, sobre o que se preserva e sobre o que se perde. É também um convite para que Niterói valorize não apenas o que está visível, mas também o que foi soterrado pelo progresso.
Hoje, ao caminhar pela Avenida Litorânea, poucos sabem que sob o asfalto existiram praias. Mas lembrar do Fumo e da Vermelha é reconhecer que Niterói é feita de camadas: de mar e areia, de concreto e memória. É entender que a cidade se constrói tanto pelo que permanece quanto pelo que desaparece.
Essa reportagem é um esforço para dar voz ao patrimônio invisível, para que as praias soterradas não sejam esquecidas. Porque contar a história de Niterói é também contar a história do que já não se vê.
Créditos das fotos: Nas imagens, fotos de 1908, de autor desconhecido; de 1959, de Manoel Bastos, foto tirada, provavelmente no início da década de 1970, de Décio Brian e , da década de 1970, de Manoel Fonseca, todas do acervo da DDP/FAN/SMC.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)

.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário