O domingo em Icaraí não começa: ele se revela. Há um tempo suspenso entre o primeiro sopro de luz e o barulho contido das ondas que chegam à areia como se pedissem licença.
Não é um dia comum, é um estado de espírito. Caminhar por Icaraí num domingo é caminhar por uma fronteira invisível entre o cotidiano e a contemplação. O mar não está ali apenas como paisagem; ele atua como testemunha antiga, quase um narrador silencioso daquilo que se passa dentro de nós quando o mundo desacelera.
Foi nesse ritmo, mais próximo do respirar do que do correr, que me sentei para ler. Não qualquer leitura, mas uma daquelas que exigem presença total, como um rito de passagem intelectual. Sobre a mesa, pesado não apenas pelo número de páginas, mas pelo peso simbólico de sua proposta, repousava Macunaíma – Mundo Mágico-Mítico em Tranças de Memórias Culturais, de Dalma Nascimento. Um livro que não se oferece ao leitor como objeto neutro, mas como território a ser atravessado.
Desde as primeiras páginas, torna-se evidente que Dalma Nascimento não escreveu um estudo comum. O que ela propõe é uma imersão profunda na matriz mítica da cultura brasileira, tendo Macunaíma, de Mário de Andrade, como epicentro simbólico. Mas o gesto da autora vai além da análise literária: ela articula um grande ensaio de civilizações, onde mitos gregos dialogam com cosmovisões ameríndias, e onde o Brasil surge não como periferia cultural, mas como espaço legítimo de produção de pensamento universal.
A leitura avança em ritmo de encantamento. Há um frenesi, sim, mas não um frenesi ansioso. É o entusiasmo de quem percebe que está diante de uma obra que sabe o que faz e por que faz. Dalma Nascimento escreve com clareza, mas também com ousadia. Seu texto se move entre o rigor acadêmico e a liberdade interpretativa, entre a erudição e a intuição, entre o método e o mito. Essa combinação rara transforma o livro numa experiência intelectual viva.
Ao revisitar Macunaíma, Dalma nos devolve a complexidade do herói sem nenhum caráter. Não o herói domesticado pelos resumos escolares, nem o personagem reduzido a símbolo folclórico, mas o Macunaíma original, contraditório, escorregadio, ancestral e moderno ao mesmo tempo. Ela o aproxima de figuras míticas gregas não para comparações superficiais, mas para revelar estruturas simbólicas compartilhadas pela humanidade. O herói que erra, que engana, que se transforma, que transita entre mundos, seja ele grego, ameríndio ou brasileiro.
Nesse ponto, o ensaio atinge uma de suas maiores forças: ao revestir o pensamento mítico grego com o mundo ameríndio, Dalma Nascimento desmonta hierarquias culturais herdadas do colonialismo intelectual. O Olimpo deixa de ser centro absoluto; a floresta ganha estatuto de cosmo. Hermes encontra Exu não como curiosidade exótica, mas como equivalência simbólica. Dionísio reconhece no transe indígena uma irmandade espiritual. Não se trata de sincretismo simplório, mas de cartografia profunda do imaginário humano.
Mário de Andrade emerge, então, não apenas como escritor, mas como mediador cultural, alguém que soube ouvir o Brasil profundo, suas vozes subterrâneas, suas narrativas orais, seus mitos fundadores. Dalma Nascimento compreende isso com precisão rara. Seu ensaio demonstra que Macunaíma não é apenas literatura: é gesto antropológico, ato político, ritual estético. É o Brasil pensando a si mesmo fora dos moldes importados.
As “tranças de memórias culturais”, expressão que nomeia e sustenta o livro, não são metáfora decorativa. Elas estruturam todo o pensamento da autora. Cada capítulo entrelaça tempos, territórios, narrativas e símbolos, formando uma tessitura complexa, resistente e bela. A memória, aqui, não é arquivo morto, mas matéria viva, em constante transformação.
As ilustrações de Luiz Zatar surgem como respirações visuais nesse percurso intenso. Não ilustram o texto, dialogam com ele. São imagens que parecem brotar do mesmo solo simbólico que alimenta a escrita. Há nelas algo de onírico, de ritualístico, de ancestral. Funcionam como portais silenciosos entre um capítulo e outro, convidando o leitor a olhar com o mesmo cuidado com que lê.
O projeto gráfico, concebido sob os designes de Mauro Carreiro Nolasco, confere à obra uma dignidade estética coerente com seu conteúdo. O livro se apresenta como objeto cultural pleno, pensado em cada detalhe. Nada ali é casual. O cuidado editorial se manifesta como respeito ao leitor e à cultura que se deseja preservar e expandir.
É impossível falar dessa obra sem destacar o papel fundamental da Parthenon Centro de Arte e Cultura. Em um mercado editorial frequentemente pautado pela urgência comercial, a Parthenon se afirma como espaço de resistência intelectual. Seu catálogo revela compromisso com obras que aprofundam o pensamento, valorizam a memória cultural e desafiam leituras fáceis. Publicar um livro como este é um ato político no melhor sentido: um gesto de confiança na inteligência do leitor brasileiro.
Enquanto o domingo avançava, percebi que a leitura havia dissolvido as fronteiras do tempo. Icaraí permanecia ali, o mar, o vento, a luz que se transformava lentamente, mas eu já caminhava por outros territórios: florestas míticas, aldeias simbólicas, textos fundadores, constelações de sentido. O livro fazia aquilo que só os grandes livros conseguem: expandia o mundo interior.
Dalma
Nascimento escreve com a autoridade de quem pesquisou profundamente, mas também
com a escuta sensível de quem respeita os mistérios que estuda. Seu ensaio não
fecha interpretações; abre caminhos. Não impõe conclusões; convida à
continuidade do pensamento. É uma obra que forma leitores, não apenas informa.
Ao final do dia, quando o céu de Icaraí já se encontrava tingido de azul profundo e as luzes da cidade começavam a acender, senti que aquele domingo havia sido diferente. Não por ter feito algo extraordinário, mas por ter vivido uma experiência cultural plena. Ler, ali, tornou-se um gesto de pertencimento, quase um ato de fé na potência da cultura brasileira.
Macunaíma, atravessado pelo olhar rigoroso e poético de Dalma Nascimento, revelou-se mais atual, mais necessário, mais vivo. E a Parthenon, ao sustentar essa obra, reafirma seu lugar como guardiã de um pensamento cultural que não se rende à superficialidade.
O domingo terminou. Mas a leitura, como todo verdadeiro encantamento, permaneceu.
© Alberto
Araújo


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