quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

AMANHECER CARIOCA - A LUZ QUE REVELA A ALMA DO RIO - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

No dia 8 de janeiro de 2026, Euderson Kang Tourinho posicionou sua câmera em um ponto elevado de sua residência, capturando o amanhecer sobre o Rio de Janeiro. A imagem, com o Pão de Açúcar emergindo das sombras sob um céu em chamas de laranja e roxo, reflete não apenas a beleza natural, mas a sensibilidade aguçada de um fotógrafo que transforma o efêmero em eterno. Essa foto, tirada em um momento de transição entre a noite e o dia, evoca a essência pulsante da cidade, onde o cotidiano se entrelaça com o espetáculo da natureza.

Euderson Kang Tourinho acordou antes do sol, guiado por uma intuição poética que o levou à sacada com vista para a Baía de Guanabara. Às 5h06min, quando o horizonte ainda pulsava em tons crepusculares, ele ajustou o foco para enquadrar os morros icônicos: o Pão de Açúcar, soberano e rugoso, flanqueado pelo Corcovado distante, ambos banhados pela luz alaranjado-rosada que irrompia das nuvens. A sensibilidade do fotógrafo se revela na escolha do instante preciso, nem o breu da madrugada, nem o pleno dia, capturando o contraste entre as silhuetas escuras dos edifícios e o fogo celestial, como se a câmera fosse uma extensão de sua alma contemplativa. Essa precisão técnica, aliada a um olhar lírico, transforma a foto em um haicai visual, onde cada pixel respira a magia do nascente.

​O que eleva Euderson acima do mero registro é sua capacidade de enxergar o invisível no visível. Em meio ao corre-corre diário, ele pausa para eternizar o amanhecer, revelando uma sensibilidade que ecoa os cronistas cariocas como Fernando Sabino, mestres em captar o efêmero da urbe. Sua foto não é só paisagem; é um diálogo com a luz que desperta a cidade, destacando o brilho nas janelas dos arranha-céus e o reflexo na baía serena, como se o fotógrafo sussurrasse: "Aqui pulsa o coração do Rio". Essa empatia com o momento o torna guardador de instantes que o cotidiano apressa, provando que a verdadeira arte fotográfica nasce da paciência e da emoção contida.

​Enquanto o sol nasce, o Rio desperta em seu ritmo caótico e charmoso. Nas ruas, avenidas já se ouvem o ronco dos ônibus lotados rumo ao trabalho, o cheiro de pão na chapa das padarias e o grito dos vendedores de água de coco na praia, tecendo a tapeçaria do dia a dia carioca. O Pão de Açúcar, testemunha silenciosa, vigia o vaivém: o surfista que pega a primeira onda no Arpoador, Barra da Tijuca, mãe correndo com o filho para a escola, o artista de rua afinando o violão para os turistas matinais.

Essa foto de Euderson congela o instante antes do furor, mas evoca o bulício que virá, o samba ecoando das favelas, o trânsito infernal da Avenida Brasil, as conversas animadas nos bondes lotados, pintando o cotidiano como uma sinfonia imperfeita e irresistível.

​A essência do Rio reside nessa dualidade: a grandiosidade natural abraçando a efervescência humana. O amanhecer capturado por Euderson simboliza a resiliência carioca, morros eternos contra céus mutáveis, pobreza e opulência dançando no mesmo asfalto, fé e folia entrelaçadas nas procissões e carnavais. Como nas crônicas modernas que retratam a cidade como palco de sonhos e desencontros, essa imagem pulsa com a malandragem elegante. É o Rio cru e poético, onde o sol nascendo sobre o Pão de Açúcar renova a promessa de que, apesar das chuvas torrenciais e desigualdades gritantes, a luz sempre retorna, iluminando a alma coletiva de uma metrópole que não se curva.

Essa foto impacta porque desperta no observador uma saudade antecipada do dia que mal começou. Ela nos convida a parar, como Euderson fez, e questionar: em meio ao corre-corre, onde fica espaço para o contemplativo? O céu em chamas reflete não só o fogo do amanhecer, mas a paixão ardente do povo fluminense, o funk das comunidades, o futebol nas peladas de rua, as festas juninas que desafiam a modernidade. Euderson, com sua lente sensível, nos lega um manifesto visual: o Rio não é só cartão-postal; é essência viva, cotidiana e transcendental, um hino à beleza que brota do contraste entre luz e sombra, mar e montanha, sonho e realidade. Que essa imagem, com seus 30 mil bytes de pura emoção, inspire gerações a capturarem seus próprios amanheceres.

© Alberto Araújo 






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