sábado, 31 de janeiro de 2026

A MULHER DA RIA – A SALINEIRA, SÍMBOLO DA IDENTIDADE AVEIRENSE


Na cidade de Aveiro, situada na costa oeste de Portugal, entre os canais da Ria e as fachadas coloridas dos edifícios históricos, ergue-se uma figura silenciosa, mas eloquente: a estátua da “Mulher da Ria”. Esta escultura em bronze, de traços firmes e postura determinada, representa muito mais do que uma mulher com um cesto. Ela é a personificação da força feminina, da tradição marítima e da memória coletiva de uma comunidade moldada pelas águas da Ria de Aveiro. Para historiadores, antropólogos e estudiosos da cultura portuguesa, esta obra é um ponto de partida essencial para compreender o papel das mulheres na economia e na vida social da região. 

Aveiro é conhecida como a “Veneza Portuguesa” devido aos seus canais navegáveis e aos barcos moliceiros que cruzam suas águas. Mas além da beleza turística, a cidade tem uma história profundamente ligada à Ria de Aveiro, um sistema lagunar que se estende por dezenas de quilômetros e que, por séculos, foi fonte de sustento para milhares de famílias. A pesca, a apanha de moluscos e a extração de sal foram atividades centrais na economia local, e as mulheres desempenharam um papel vital nesse contexto. 

As “mulheres da ria” eram mariscadoras, peixeiras e trabalhadoras do sal. Enfrentavam o frio, a lama e as marés para colher berbigões, amêijoas e outros frutos do mar. Muitas vezes, essas mulheres também eram responsáveis por vender os produtos nos mercados locais, carregando cestos pesados pelas ruas da cidade. A estátua homenageia essas figuras resilientes, que sustentaram suas famílias com trabalho árduo e coragem.

A escultura foi criada pelo artista português José Moreira Rato, conhecido por retratar figuras populares e cenas do cotidiano com grande sensibilidade. A mulher representada está vestida com trajes tradicionais: uma saia longa, blusa de mangas arregaçadas e um lenço na cabeça, vestimenta típica das trabalhadoras da ria. Ela segura um grande cesto sob o braço esquerdo, enquanto a mão direita repousa na cintura, em uma pose que transmite firmeza e dignidade. 

A escolha do bronze como material reforça a ideia de permanência e resistência. A estátua está posicionada ao lado do Canal Central, próximo ao Mercado do Peixe e à Ponte dos Carcavelos, locais emblemáticos da vida comercial e marítima de Aveiro. Sua localização não é aleatória: ela ocupa um espaço de memória, onde o passado e o presente se encontram. 

A “Mulher da Ria” não é apenas uma homenagem individual, mas um símbolo coletivo. Ela representa todas as mulheres anônimas que moldaram a história da cidade com suas mãos calejadas e seus passos firmes. Em um país onde a memória popular muitas vezes é eclipsada por narrativas oficiais, esta estátua devolve visibilidade às protagonistas esquecidas da história. 

Para os habitantes de Aveiro, a escultura é motivo de orgulho. Ela aparece em roteiros turísticos, cartões-postais e fotografias de visitantes. Mas seu valor vai além da estética: ela é um monumento à dignidade do trabalho, à igualdade de gênero e à valorização das raízes culturais. 

Historicamente, as mulheres da região desempenharam funções que exigiam força física, resistência e conhecimento profundo do ambiente natural. A apanha de moluscos, por exemplo, exigia que elas entrassem na água gelada da ria, muitas vezes em horários de maré baixa, para recolher os frutos do mar com as mãos. O sal, outro produto essencial, era extraído das salinas em um processo que envolvia trabalho manual intenso. 

Essas atividades não apenas contribuíam para a economia familiar, mas também para o comércio regional. As peixeiras, com seus cestos cheios, percorriam longas distâncias para vender os produtos em feiras e mercados. Eram figuras conhecidas e respeitadas, cuja presença marcava o ritmo da vida urbana. 

Para os historiadores, a estátua da “Mulher da Ria” funciona como um documento tridimensional. Ela materializa uma narrativa que, muitas vezes, não está registrada em livros ou arquivos. A escultura permite uma leitura visual da história, revelando aspectos da cultura material, das relações de gênero e da economia popular. 

Além disso, ela serve como ponto de partida para investigações mais amplas sobre o papel das mulheres na história portuguesa. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, obras como essa ajudam a construir uma memória mais inclusiva e plural.

Nos últimos anos, Aveiro tem investido na valorização de seu patrimônio cultural. A estátua da “Mulher da Ria” é parte desse esforço. Ela integra roteiros turísticos que incluem o Museu de Aveiro, a Catedral, os edifícios em estilo Arte Nova e os tradicionais barcos moliceiros. Muitos visitantes param diante da escultura para tirar fotos, mas poucos conhecem sua história completa. 

Por isso, iniciativas educativas e culturais têm buscado ampliar o conhecimento sobre a obra. Guias turísticos, folhetos informativos e projetos escolares têm incluído a estátua como elemento central na narrativa sobre a cidade. A valorização da figura feminina na história local é também uma forma de promover o turismo consciente e o respeito pelas tradições. 

A “Mulher da Ria” é mais do que uma escultura, ela é um arquétipo. Representa a mulher trabalhadora, resiliente, enraizada em sua terra e conectada com a natureza. É símbolo da luta diária, da sabedoria popular e da dignidade que transcende o tempo. Para os historiadores, ela é uma fonte de pesquisa viva, que desafia os limites da historiografia tradicional e convida à reflexão sobre os silêncios da história. 

Em tempos de transformação social e busca por justiça histórica, a estátua da “Mulher da Ria” permanece como testemunha silenciosa de um passado que ainda pulsa nas águas da Ria de Aveiro. Seu olhar firme e sua postura determinada continuam a inspirar gerações, lembrando que a história é feita não apenas por reis e generais, mas também e, sobretudo por mulheres com cestos nos braços e coragem no coração.


Texto e pesquisa © Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



A MULHER DA RIA - RESISTÊNCIA ENTRE TEMPESTADES E SÓIS

Em Aveiro, às margens da Ria, ergue-se a estátua da “Mulher da Ria”, uma figura de bronze que carrega em si séculos de história, trabalho e resiliência. Mais do que uma representação artística, ela é um testemunho vivo da coragem das mulheres que, ao longo das gerações, enfrentaram as águas geladas, os ventos fortes e o sol inclemente para garantir o sustento de suas famílias.

Hoje, em tempos de ciclones e tempestades que assolam Portugal, esta escultura ganha uma nova dimensão: torna-se metáfora da resistência coletiva diante das forças da natureza e das adversidades que marcam o presente. As mulheres da ria, mariscadoras e peixeiras, sempre viveram em íntima relação com o ambiente natural. O seu trabalho dependia das marés, das condições climáticas e da força dos ventos. Enfrentavam tempestades sem proteção, com os pés enterrados na lama e as mãos calejadas recolhendo moluscos. A estátua, com seu cesto firme e sua postura determinada, cristaliza essa experiência de luta diária contra os elementos. 

Hoje, Portugal enfrenta novos desafios climáticos: ciclones, chuvas torrenciais e ventos que testam a resistência das cidades e das comunidades. Nesse contexto, a “Mulher da Ria” deixa de ser apenas memória do passado e passa a ser símbolo do presente. Ela nos lembra de que a identidade aveirense, e portuguesa, foi forjada na convivência com a instabilidade da natureza, e que a resiliência é parte essencial da cultura local. 

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