No dia 25 de janeiro, a Igreja celebra a Solenidade da Conversão de São Paulo Apóstolo. Mais do que uma memória histórica, esta data nos apresenta a transformação de Saulo de Tarso, o fariseu perseguidor da Igreja que se tornou o maior missionário cristão.
Saulo de Tarso, o fariseu seguidor da Lei mosaica, transformou-se em Paulo, o arauto incansável de Cristo. De inimigo ferrenho da nascente Igreja, ele se ergueu como seu mais ardoroso defensor, um judeu que abraçou o Messias e abriu as portas do Evangelho aos gentios.
Seu coração, endurecido como o solo seco do sertão nordestino, não treme. Ele respirava ódio aos "nazarenos", os seguidores de Jesus que ousavam desafiar a tradição. Saulo aprova o sangue, prende discípulos, devasta comunidades. Mas o destino, ou melhor, a graça divina, trama sua reviravolta.
É no caminho para Damasco que o milagre aconteceu. Por volta do meio-dia, a hora em que o sol brasileiro queima impiedoso, uma luz mais fulgurante que o próprio sol o derruba do cavalo.
Cego,
prostrado, Saulo ouve a voz: "Saulo, Saulo, por que me persegues?".
"Quem és, Senhor?", responde espantado. "Eu sou Jesus, o
Nazareno, aquele que tu persegues". Os companheiros veem a luz, mas não
distinguem a voz; Saulo, sim, sente-a perfurar a alma. Levado às cegas para
Damasco, ele jejua três dias, em silêncio orante, até Ananias, um discípulo
hesiteante, impor-lhe as mãos. Escamas caem dos olhos, a visão retorna, e com
ela o batismo: "Levanta-te, recebe o batismo e purifica-te dos teus
pecados".
Essa cena, narrada por Paulo em Atos 22,3-16, não é mero relato; é um hino à misericórdia. Paulo, nascido em Tarso da Cilícia, educado aos pés de Gamaliel, confessa sua fúria passada: prisões, flagelos, o martírio de Estêvão. Mas Deus o escolhe para ser "ministro e testemunha" perante nações, reis e filhos de Israel.
Ananias, instrumento humilde da providência, revela o plano: Paulo levará o Nome de Jesus a todos os povos. Assim, o perseguidor vira apóstolo dos gentios, missionário aos pagãos e aos judeus remanescentes.
A Igreja celebra essa conversão em 25 de janeiro para nos recordar que ninguém está longe demais da graça. Diferente do martírio, festejado em 29 de junho ao lado de Pedro, as duas colunas da Igreja primitiva, aqui o foco é o instante da virada. Paulo, em suas cartas, confessa humildemente: "Eu sou o menor dos apóstolos, não merecedor de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus" (1Cor 15,9). Mas Deus transforma fraqueza em força. Prisioneiro em cadeias, ele escreve epístolas que ainda hoje guiam: Romanos, Coríntios, Gálatas. Dia e noite, em sinagogas, areópagos e praças, anuncia: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura!" (Mc 16,15), ecoando o Salmo 117.
A liturgia dessa solenidade nos convoca com vigor. O Salmo 116/117, com seu refrão missionário, "Ide por todo o mundo, a todos pregai o Evangelho!", resume a vida paulina.
Paulo não parou em Jerusalém; cruzou mares, desertos, enfrentou naufrágios e chicotes para semear a semente cristã. E nós? Em nossas casas, bairros, trabalhos, ao mundo afirmando a Palavra. O salmista nos impele, anuncie em família, na comunidade, na escola, no ofício diário. O planeta, sedento como terra rachada no verão nordestino, espera o orvalho da esperança.
Na segunda leitura, da 1Cor 7,29-31, Paulo adverte os coríntios: "O tempo se abrevia. Doravante, vivam como quem não tem esposa, como quem chora sem chorar, como quem se alegra sem alegria excessiva". Não é cinismo, mas vigilância escatológica. As coisas passam, casamentos, lutos, alegrias mundanas, mas a Palavra de Deus permanece. Vivamos como peregrinos, olhos fixos na Parusia, na vinda do Senhor. Em tempos de ano jubilar da esperança, como o que vivemos, Paulo nos ensina a desapegar do efêmero para abraçar o eterno.
O Evangelho de Marcos 16,15-18 capta o envio pós-ressurreição: Jesus, vitorioso sobre a morte, comissiona os discípulos: "Ide por todo o mundo... Estes sinais acompanharão os que crerem: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas...". Paulo, ausente ali, vive esse mandato à risca. Peregrino aos pagãos, ele realiza prodígios, batiza nações. Hoje, somos os enviados: reanimar o desanimado, consolar o triste, semear paz e justiça. Anunciar o Reino aqui, para gozá-lo plenos no céu.
LIÇÕES QUE PAULO NOS TRANSMITIU
Primeira: a conversão não é evento único, mas jornada contínua. Ele nos exorta a "não conformar-nos com este mundo, mas transformar-nos pela renovação da mente" (Rm 12,2). Ouvir o Espírito, não a carne; obedecer aos mandamentos com autenticidade. Segunda: todos podem mudar, em qualquer idade. Saulo, maduro em zelo farisaico, rendeu-se à luz. Precisamos ser Ananias para os Saulos modernos, guiar cegos espirituais ao batismo, abrir olhos na escuridão do secularismo.
Terceira: gratidão incessante. "Por tudo dai graças", diz Paulo (1Ts 5,18). Rendamos graças pela graça que o tocou, e pela que nos toca. No Brasil, terra de fé sincrética e esperanças renovadas, Paulo inspira: sejamos evangelizadores nas festas juninas, nas romarias nordestinas, nas periferias urbanas. Ganhemos irmãos para Deus, apresentando Jesus como o Caminho, Verdade e Vida.
Inspirados nesse apóstolo dos gentios, busquemos nossa transformação espiritual diária. Sejamos como ele: incansáveis, autênticos, missionários. No ano jubilar da esperança, proclamemos: Jesus é nossa âncora. Somos testemunhas vivas no mundo sedento. Que a luz de Damasco ilumine nossos caminhos, cegando orgulhos e revelando o Cristo. Amém.
A CONVERSÃO DE SÃO PAULO é uma das grandes obras-primas do Barroco, pintada por Caravaggio entre 1600 e 1601 para a Capela Cerasi, na Basílica de Santa Maria del Popolo, em Roma, onde permanece até hoje. Encomendada por Tibério Cerasi, a pintura representa um dos episódios mais emblemáticos da Contrarreforma: o momento em que Saulo, perseguidor dos cristãos, é derrubado de seu cavalo e transformado espiritualmente pela luz divina.
Caravaggio rompe com as representações tradicionais e celestiais do tema ao optar por uma cena realista, íntima e quase cotidiana, ambientada como se fosse um estábulo. São Paulo aparece estendido no chão, de braços abertos, vestido como um soldado romano, enfatizando sua condição humana e vulnerável. O uso magistral do chiaroscuro intensifica o drama: uma luz intensa recai sobre Paulo e o cavalo, enquanto o fundo permanece imerso na escuridão, criando forte contraste e suspense visual.
O enorme cavalo domina a composição, ocupando grande parte da tela, com um casco suspenso que aumenta a tensão da cena, enquanto um tratador controla o animal com aparente serenidade, reforçando o contraste entre o cotidiano e o milagre. A espada e o manto vermelho de Paulo simbolizam sua vida anterior de perseguidor, agora interrompida, enquanto sua pose sugere perplexidade, rendição e renascimento espiritual. A luz, invisível em sua fonte, representa a presença direta de Cristo, dispensando aparições celestiais.
Existe ainda uma versão anterior da obra, conhecida como “A Conversão de São Paulo na Estrada para Damasco”, pertencente à Coleção Odescalchi Balbi, em Roma. Nela, a cena é mais movimentada e povoada por figuras, contrastando com a composição mais concentrada e impactante da versão da Capela Cerasi.
Essa
pintura consolida Caravaggio como um dos pilares do Barroco, ao unir ousadia
composicional, realismo intenso e iluminação dramática para narrar visualmente
uma história bíblica de transformação profunda.
©
Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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