Há
Presenças, reitero o que sempre digo, é isso mesmo com “P” maiúsculo, que não
apenas ocupam Cadeiras acadêmicas, mas que se tornam, elas mesmas, o alicerce
sobre o qual repousa a nossa identidade cultural. Falar da acadêmica Maria
Amélia Palladino, Presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras, é falar de
uma dedicação que ultrapassa o protocolo e alcança a alma da nossa língua.
Olavo
Bilac, em seus versos imortais, descreveu o português como "esplendor e
sepultura", uma "ganga impura" que esconde o ouro nativo. Que a Língua
Portuguesa é o esplendor de uma nova cultura que brilha, mas é também a
sepultura do latim, a língua-mãe que lhe deu origem.
Maria
Amélia é a ourives dessa língua. Com uma civilidade rara e uma elegância que
parece vir de outros tempos, mas que se faz urgentemente necessária no agora, ela
exerce a exclusividade de ser a ponte entre o passado glorioso e o nosso
presente sedento de beleza.
Representar
poetas do quilate de Camões, Fernando Pessoa, Olavo Bilac e Manuel Bandeira não
é tarefa para muitos. Requer mais do que conhecimento técnico; exige uma
sensibilidade que capta o "arrolo da saudade" e o "trom da
procela".
Maria
Amélia não apenas cita esses mestres; ela os personifica ao nos entregar, com
generosidade, a herança que eles deixaram. Ao ouvi-la ou ao seguir sua
liderança, sentimos que Camões não está mais no "exílio amargo", mas
vivo em cada palavra bem dita; sentimos que o "gênio sem ventura"
finalmente encontrou acolhimento em sua gestão.
Sua
trajetória na Academia Luso-Brasileira de Letras é um testemunho de amor ao
idioma rude e doloroso, transmutando-o em afeto e união. Para todos nós,
amantes da poesia, Maria Amélia Palladino é a voz materna que Bilac evocou,
aquela que nos chama de "meu filho" através da literatura,
lembrando-nos de onde viemos e para onde a beleza pode nos levar.
Esta dedicatória é um preito de gratidão. Obrigado, Maria Amélia, por sua exclusividade em cuidar do que temos de mais sagrado: a nossa palavra. Por sua civilidade, que educa e inspira. E, acima de tudo, por ser a defensora incansável desse oceano largo que une Brasil e Portugal em um só coração poético.
LÍNGUA PORTUGUESA
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura;
Ouro nativo, que, na ganga impura,
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceanos largos!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: “meu
filho!”
E em que Camões chorou, no exílio
amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem
brilho!
MARIA AMÉLIA PALLADINO - A ARQUITETURA DA PALAVRA E O HORIZONTE DA CULTURA
Entre os sinos que ecoam pelas ladeiras de São João del-Rei e o sopro das tradições que moldam a alma mineira, ergue-se a figura de Maria Amélia Amaral Palladino como uma presença que transcende o tempo. Sua trajetória não é apenas biográfica: é um mosaico cultural, uma tessitura de saberes que une o rigor acadêmico à delicadeza da poesia, a disciplina do direito à liberdade da literatura. Em sua vida, cada gesto parece traduzir a convicção de que a palavra é mais do que instrumento, é destino, é raiz, é ponte.
Nascida em uma terra onde o passado colonial se manifesta em cada pedra e em cada bronze que ressoa, Maria Amélia cresceu imersa na consciência de que a história não é apenas lembrança, mas matéria viva. Desde cedo, compreendeu que o idioma é o fio invisível que conecta gerações, e que nele repousa a identidade de um povo. Ao escolher a linguagem como morada, ela assumiu um compromisso com a preservação e a reinvenção da cultura.
Sua formação acadêmica revela a amplitude de sua vocação. Licenciada em Letras Anglo-Germânicas e bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Maria Amélia construiu uma base sólida em dois campos que, à primeira vista, poderiam parecer distantes. No entanto, em sua trajetória, o jurídico e o literário se entrelaçam: a norma e a metáfora, o raciocínio lógico e a imaginação criadora. Essa síntese é o que lhe confere singularidade.
Como professora, Maria Amélia não se limitou a transmitir conteúdos. Sua presença em sala de aula foi sempre a de uma artesã da consciência, moldando o pensamento de seus alunos com a delicadeza de quem sabe que ensinar é, antes de tudo, despertar. Para ela, a gramática não é um conjunto de regras áridas, mas a engenharia do pensamento; cada frase bem construída é uma janela para o mundo. Ao manejar o giz, ela não apenas escrevia palavras, mas desenhava horizontes.
A trajetória de Maria Amélia é marcada por distinções que refletem sua relevância cultural. O título de Bacharel Honoris Causa pelo Colégio Pedro II, o Prêmio Carlos Drummond de Andrade em Itabira e a Medalha de Mérito Militar pela ABRAMMIL são marcos que revelam a amplitude de sua influência. Esses reconhecimentos não são apenas honrarias: são testemunhos de uma vida dedicada à cultura, à educação e à literatura.
Hoje, como presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras, Maria Amélia exerce um papel que vai além da representação institucional. Sob sua liderança, a língua portuguesa reafirma-se como espaço de encontro entre Brasil e Portugal, como ponte viva entre continentes e tradições. Sua atuação é a de uma curadora da memória e da vitalidade da língua, garantindo que o idioma de Camões e Machado de Assis continue a pulsar com vigor.
Maria Amélia não é apenas professora e acadêmica: é também escritora e ensaísta. Sua obra revela uma capacidade rara de unir ritmo e substância, convidando o leitor a mergulhar em uma temporalidade distinta daquela da pressa contemporânea. Em seus textos, há sempre um convite à contemplação, à escuta do silêncio que habita as palavras. Ela decifra as entrelinhas, revelando a alma da literatura.
A grandeza de Maria Amélia reside na sua capacidade de ser, ao mesmo tempo, raiz e voo. Raiz porque se mantém fincada na tradição, bebendo das fontes clássicas e respeitando o legado dos que vieram antes. Voo porque sua escrita é universal, ultrapassando fronteiras e buscando novos horizontes para a expressão humana. Essa dualidade é o que a torna única: ela preserva e renova, guarda e expande.
Celebrar Maria Amélia Palladino é celebrar a vitalidade da cultura. Sua trajetória nos lembra que a educação é o caminho para a liberdade e que o conhecimento não é peso, mas alimento para a alma. Em cada gesto, ela reafirma que a literatura é nossa pátria comum, e que a palavra, quando tratada com nobreza, torna-se eterna.
Maria Amélia Palladino é mais do que uma acadêmica ou escritora: é uma presença que ilumina. Sua vida é testemunho de que a cultura não é algo estático, mas um patrimônio vivo, pulsante, que precisa ser constantemente cuidado e reinventado. Ao olharmos para sua trajetória, vemos uma mulher que, com serenidade e firmeza, mantém acesa a chama da palavra e da cultura, garantindo que elas continuem a brilhar intensamente, mesmo diante das incertezas do tempo.

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