segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

ODE A UM BALUARTE DAS NOSSAS LETRAS - HOMENAGEM A MARIA AMÉLIA PALLADINO


​Há Presenças, reitero o que sempre digo, é isso mesmo com “P” maiúsculo, que não apenas ocupam Cadeiras acadêmicas, mas que se tornam, elas mesmas, o alicerce sobre o qual repousa a nossa identidade cultural. Falar da acadêmica Maria Amélia Palladino, Presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras, é falar de uma dedicação que ultrapassa o protocolo e alcança a alma da nossa língua.

​Olavo Bilac, em seus versos imortais, descreveu o português como "esplendor e sepultura", uma "ganga impura" que esconde o ouro nativo. Que a Língua Portuguesa é o esplendor de uma nova cultura que brilha, mas é também a sepultura do latim, a língua-mãe que lhe deu origem.

Maria Amélia é a ourives dessa língua. Com uma civilidade rara e uma elegância que parece vir de outros tempos, mas que se faz urgentemente necessária no agora, ela exerce a exclusividade de ser a ponte entre o passado glorioso e o nosso presente sedento de beleza.

​Representar poetas do quilate de Camões, Fernando Pessoa, Olavo Bilac e Manuel Bandeira não é tarefa para muitos. Requer mais do que conhecimento técnico; exige uma sensibilidade que capta o "arrolo da saudade" e o "trom da procela".

Maria Amélia não apenas cita esses mestres; ela os personifica ao nos entregar, com generosidade, a herança que eles deixaram. Ao ouvi-la ou ao seguir sua liderança, sentimos que Camões não está mais no "exílio amargo", mas vivo em cada palavra bem dita; sentimos que o "gênio sem ventura" finalmente encontrou acolhimento em sua gestão.

​Sua trajetória na Academia Luso-Brasileira de Letras é um testemunho de amor ao idioma rude e doloroso, transmutando-o em afeto e união. Para todos nós, amantes da poesia, Maria Amélia Palladino é a voz materna que Bilac evocou, aquela que nos chama de "meu filho" através da literatura, lembrando-nos de onde viemos e para onde a beleza pode nos levar.

​Esta dedicatória é um preito de gratidão. Obrigado, Maria Amélia, por sua exclusividade em cuidar do que temos de mais sagrado: a nossa palavra. Por sua civilidade, que educa e inspira. E, acima de tudo, por ser a defensora incansável desse oceano largo que une Brasil e Portugal em um só coração poético. 


Soneto Língua Portuguesa - Olavo Bilac -  
Declamado pelo Mundo do Poema de Portugal


LÍNGUA PORTUGUESA 


Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura;

Ouro nativo, que, na ganga impura,

A bruta mina entre os cascalhos vela... 

Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura!

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceanos largos!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

 

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

MARIA AMÉLIA PALLADINO - A ARQUITETURA DA PALAVRA E O HORIZONTE DA CULTURA 

Entre os sinos que ecoam pelas ladeiras de São João del-Rei e o sopro das tradições que moldam a alma mineira, ergue-se a figura de Maria Amélia Amaral Palladino como uma presença que transcende o tempo. Sua trajetória não é apenas biográfica: é um mosaico cultural, uma tessitura de saberes que une o rigor acadêmico à delicadeza da poesia, a disciplina do direito à liberdade da literatura. Em sua vida, cada gesto parece traduzir a convicção de que a palavra é mais do que instrumento, é destino, é raiz, é ponte. 

Nascida em uma terra onde o passado colonial se manifesta em cada pedra e em cada bronze que ressoa, Maria Amélia cresceu imersa na consciência de que a história não é apenas lembrança, mas matéria viva. Desde cedo, compreendeu que o idioma é o fio invisível que conecta gerações, e que nele repousa a identidade de um povo. Ao escolher a linguagem como morada, ela assumiu um compromisso com a preservação e a reinvenção da cultura. 

Sua formação acadêmica revela a amplitude de sua vocação. Licenciada em Letras Anglo-Germânicas e bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Maria Amélia construiu uma base sólida em dois campos que, à primeira vista, poderiam parecer distantes. No entanto, em sua trajetória, o jurídico e o literário se entrelaçam: a norma e a metáfora, o raciocínio lógico e a imaginação criadora. Essa síntese é o que lhe confere singularidade. 

Como professora, Maria Amélia não se limitou a transmitir conteúdos. Sua presença em sala de aula foi sempre a de uma artesã da consciência, moldando o pensamento de seus alunos com a delicadeza de quem sabe que ensinar é, antes de tudo, despertar. Para ela, a gramática não é um conjunto de regras áridas, mas a engenharia do pensamento; cada frase bem construída é uma janela para o mundo. Ao manejar o giz, ela não apenas escrevia palavras, mas desenhava horizontes. 

A trajetória de Maria Amélia é marcada por distinções que refletem sua relevância cultural. O título de Bacharel Honoris Causa pelo Colégio Pedro II, o Prêmio Carlos Drummond de Andrade em Itabira e a Medalha de Mérito Militar pela ABRAMMIL são marcos que revelam a amplitude de sua influência. Esses reconhecimentos não são apenas honrarias: são testemunhos de uma vida dedicada à cultura, à educação e à literatura. 

Hoje, como presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras, Maria Amélia exerce um papel que vai além da representação institucional. Sob sua liderança, a língua portuguesa reafirma-se como espaço de encontro entre Brasil e Portugal, como ponte viva entre continentes e tradições. Sua atuação é a de uma curadora da memória e da vitalidade da língua, garantindo que o idioma de Camões e Machado de Assis continue a pulsar com vigor. 

Maria Amélia não é apenas professora e acadêmica: é também escritora e ensaísta. Sua obra revela uma capacidade rara de unir ritmo e substância, convidando o leitor a mergulhar em uma temporalidade distinta daquela da pressa contemporânea. Em seus textos, há sempre um convite à contemplação, à escuta do silêncio que habita as palavras. Ela decifra as entrelinhas, revelando a alma da literatura.

A grandeza de Maria Amélia reside na sua capacidade de ser, ao mesmo tempo, raiz e voo. Raiz porque se mantém fincada na tradição, bebendo das fontes clássicas e respeitando o legado dos que vieram antes. Voo porque sua escrita é universal, ultrapassando fronteiras e buscando novos horizontes para a expressão humana. Essa dualidade é o que a torna única: ela preserva e renova, guarda e expande. 

Celebrar Maria Amélia Palladino é celebrar a vitalidade da cultura. Sua trajetória nos lembra que a educação é o caminho para a liberdade e que o conhecimento não é peso, mas alimento para a alma. Em cada gesto, ela reafirma que a literatura é nossa pátria comum, e que a palavra, quando tratada com nobreza, torna-se eterna. 

Maria Amélia Palladino é mais do que uma acadêmica ou escritora: é uma presença que ilumina. Sua vida é testemunho de que a cultura não é algo estático, mas um patrimônio vivo, pulsante, que precisa ser constantemente cuidado e reinventado. Ao olharmos para sua trajetória, vemos uma mulher que, com serenidade e firmeza, mantém acesa a chama da palavra e da cultura, garantindo que elas continuem a brilhar intensamente, mesmo diante das incertezas do tempo.

 

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