Dolores tem 82 anos e mora em Icaraí. Todas as manhãs, antes que o sol se imponha com sua claridade plena, ela desce até a praia. Caminha devagar, com passos firmes, mas sem pressa. O mar a espera, como um velho amigo que nunca falha.
A praia de Icaraí é sua casa estendida. O vento traz o cheiro da maresia, as ondas batem nas pedras com paciência, e cada detalhe parece conversar com ela. Dolores não precisa de companhia humana: o mar lhe basta.
Ela gosta de ouvir o som das ondas quebrando. Para muitos, é apenas ruído. Para ela, é música. Cada batida nas pedras é um compasso, cada espuma que se desfaz é uma nota. O mar canta, e Dolores escuta.
Dolores recolhe conchas. Não por coleção, mas por curiosidade. Cada concha é um segredo guardado. Ela leva uma à orelha e escuta. O som é sempre o mesmo, dizem. Mas para ela, cada concha tem uma voz diferente. Uma fala de infância, outra fala de amor, outra fala de despedida.
Ela acredita que as conchas guardam memórias do mar. Que cada uma traz consigo histórias de viagens, de tempestades, de calmarias. Ao ouvir uma concha, Dolores sente que está ouvindo o próprio tempo.
Para Dolores, caminhar na praia é uma oração silenciosa. Não pede nada, não agradece nada. Apenas caminha. O movimento dos pés na areia é um gesto de fé. A cada passo, sente que está mais próxima do mar, mais próxima de si mesma.
Ela observa as crianças brincando, os jovens correndo, os velhos sentados nos bancos. Cada um vive o mar à sua maneira. Mas ela acredita que poucos realmente o escutam.
Dolores olha para o mar e vê sua própria vida refletida. As ondas são como os anos: algumas suaves, outras violentas. As pedras são como os obstáculos: firmes, mas vencidos pela paciência da água. A espuma é como os sonhos: bela, mas passageira.
Ela pensa que talvez o sentido da vida seja isso: aprender a ser como o mar. Forte, mas paciente. Infinito, mas humilde.
Às vezes, Dolores fala com o mar. Não em voz alta, mas em pensamento.
— “Você nunca se cansa de bater nas
pedras?”
O mar responde com uma onda mais forte, como quem diz: “Cansar é não existir. Eu existo porque insisto.”
— “E quando eu me for, quem vai me
ouvir?”
O mar responde com uma onda suave, como quem diz: “Sempre haverá alguém. Eu canto para todos.”
Dolores sorri. Sabe que o mar não fala, mas sente que há verdade nessas respostas.
De manhã, ela caminha. À tarde, recolhe conchas. À noite, lembra-se dos sons que ouviu. Sua vida é simples, mas cheia de sentido.
Ela não precisa de muito. O mar lhe basta.
Na velhice, muitos se fecham. Dolores se abre. Descobriu que não precisa de grandes conquistas para viver bem. Basta ouvir o mar.
Ela pensa que talvez a velhice seja isso: aprender a dar valor às coisas simples. O som das ondas, o segredo das conchas, o vento da praia.
Dolores continua a caminhar. O mar continua a cantar. As conchas continuam a guardar segredos.
Ela sabe que não viverá para sempre. Mas não se preocupa. Enquanto tiver o mar, terá o suficiente.
O sentido da vida, pensa, não está nas grandes conquistas, mas nas pequenas alegrias. Caminhar na praia, ouvir as ondas, escutar as conchas.
E talvez seja essa a maior lição: dar valor às coisas simples.
Dolores, aos 82, encontrou o sentido da vida. Não precisa de mais nada. O mar lhe basta.
E talvez seja essa a motivação que ela deixa para todos: parem para ouvir o mar. Não apenas olhar, não apenas passar. Ouvir. Escutar o som das ondas, o segredo das conchas, o murmúrio do vento. Esse simples gesto é um ato de amor. Amor pela vida, amor pelo tempo, amor pelo mundo.
Porque, no fim, o mar nos ensina que tudo passa, mas tudo permanece. Que cada onda é nova, mas o mar é eterno. Que cada som é diferente, mas tudo é música. E ouvir o mar é ouvir a própria vida.
© Alberto Araújo

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