O Focus Portal Cultural, fiel à sua
missão de preservar e celebrar a memória literária, desde já assinala com
saudades no seu quadro “Ecos do Parnaso”
o Centenário de Encantamento de Raul de Leoni Ramos, a ser lembrado em 21 de novembro de 2026. Escritor consagrado e Patrono da Cadeira 38 da Academia
Niteroiense de Letras, Raul de Leoni permanece como referência de sensibilidade
e vigor poético. Sua obra foi especialmente admirada por nossa também saudosa
Neide Barros Rêgo, que ocupou a mesma Cadeira com dignidade e honra, sucedendo
Gercy Pinheiro de Souza e, antes dele, os acadêmicos Antônio Ramos de Lacerda e
Abeylard Pereira Gomes. Neide, em diversas ocasiões, declamou brilhantemente os
poemas de Raul de Leoni em palcos culturais, perpetuando o elo entre o passado
e o presente da nossa tradição literária.
Raul de Leoni Ramos nasceu em Petrópolis, em 30 de outubro de 1895, e faleceu em Itaipava, distrito de Petrópolis, em 21 de novembro de 1926. Sua vida breve, marcada pela intensidade e pelo brilho intelectual, deixou uma marca indelével na literatura brasileira. Filho de Carolino de Leoni Ramos e de Augusta Villaboim de Leoni Ramos, cresceu em um ambiente de cultura e erudição que moldou sua sensibilidade poética.
Concluiu os cursos primário e secundário no Rio de Janeiro e, ainda adolescente, viajou pela Europa, absorvendo influências culturais que ampliaram sua visão de mundo. Em 1917, tornou-se diplomata, iniciando uma carreira que lhe proporcionou contato com diferentes realidades e tradições literárias. Dois anos depois, em 1919, publicou Ode a um Poeta Morto, obra que lhe conferiu notoriedade nos círculos literários.
Em 1922, Raul de Leoni lançou Luz Mediterrânea, livro que se tornaria um marco de sua produção poética. A obra, iniciada com o poema Pórtico e encerrada com Diálogo Final, revela uma maturidade estética rara, mesclando simbolismo, modernismo e técnica parnasiana. Seus versos, de métrica impecável, carregam metáforas profundas e reflexões filosóficas que encantaram gerações.
Os Poemas Inacabados, que o poeta pediu para sua esposa destruir ao pressentir a morte, acabaram preservados e incorporados às edições posteriores de Luz Mediterrânea. Esse gesto revela a consciência aguda de Raul sobre a finitude da vida e a eternidade da arte.
A obra de Raul de Leoni foi estudada e exaltada por nomes como Agrippino Grieco, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Medeiros de Albuquerque, Alceu Amoroso Lima, Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira, Afonso Arinos de Melo Franco, Tasso da Silveira e Sérgio Milliet. Todos reconheceram nele um poeta de transição, capaz de unir o rigor clássico à modernidade emergente.
Seus sonetos, escritos em decassílabos, são considerados dos mais perfeitos da língua portuguesa. O soneto Argila, por exemplo, foi descrito por Agrippino Grieco como um poema que "todo brasileiro deveria saber de cor".
Raul de Leoni é lembrado como um poeta de grandeza solitária. Sua poesia une filosofia panteísta a um espírito helênico, aproximando-se da estética platônica e do simbolismo. Essa combinação confere à sua obra uma harmonia singular, marcada pela musicalidade e pela profundidade das ideias.
Embora sua poesia contenha formas clássicas, ela é permeada por um espírito de modernidade que a torna atemporal. Essa característica assegura a Raul de Leoni um lugar na seleta plêiade dos poetas imortais.
Após sua morte em Itaipava, o corpo de Raul foi conduzido a Petrópolis, onde recebeu homenagens e foi sepultado à sombra do Cruzeiro das Almas. A cidade ergueu-lhe um mausoléu e deu seu nome a um trecho da Rua Sete de Setembro, perpetuando sua memória.
De todos os poetas brasileiros, Raul de Leoni foi o único que não sofreu rejeição da corrente modernista. Seus versos, doces e esclarecedores, circulavam nos cadernos de poesia dos jovens da época, que encontravam neles simplicidade e profundidade.
O centenário de Raul de Leoni é mais do que uma celebração: é um convite à reflexão sobre a força da poesia e sua capacidade de atravessar o tempo. Sua obra, marcada pela perfeição formal e pela riqueza filosófica, continua a ecoar como um canto imortal.
Raul de Leoni não foi apenas um poeta de sua época. Foi, e permanece sendo, um poeta de todos os tempos. Sua voz, que se extinguiu cedo, ressoa ainda hoje, lembrando-nos que a verdadeira arte é aquela que transcende a vida e se eterniza na memória coletiva.
A poesia de Raul de Leoni é marcada por uma tensão criativa entre tradição e inovação. Seus versos revelam uma técnica apurada, fruto da influência parnasiana, mas também uma abertura para o simbolismo e o modernismo. Essa mescla o torna um poeta de transição, capaz de dialogar com diferentes escolas literárias sem se prender a nenhuma delas.
O ritmo peculiar de sua versificação, aliado a uma filosofia panteísta e a um espírito helênico, confere à sua obra uma dimensão universal. Raul de Leoni não se limita a cantar a beleza da forma; ele busca, em seus versos, a essência da existência e a harmonia do cosmos.
Críticos como Manuel Bandeira e Sérgio Milliet destacaram a musicalidade de seus sonetos, que se aproximam da perfeição formal. Já Alceu Amoroso Lima ressaltou a profundidade filosófica de sua poesia, capaz de unir simplicidade e erudição.
A ligação de Raul de Leoni com Petrópolis é indissociável. A cidade não apenas foi seu berço e seu túmulo, mas também cenário de sua vida e inspiração de sua obra. O mausoléu erguido em sua memória e o trecho da Rua Sete de Setembro que leva seu nome são testemunhos da gratidão de Petrópolis a seu filho ilustre.
Celebrar o centenário de Raul de Leoni é também celebrar a tradição cultural de Petrópolis, cidade que sempre foi um polo de arte e literatura no Brasil.
Raul de Leoni é um poeta que transcende o tempo. Sua obra, marcada pela perfeição formal e pela profundidade filosófica, continua a inspirar leitores e críticos. No centenário de seu nascimento, sua voz ressoa mais forte do que nunca, lembrando-nos que a verdadeira poesia é aquela que, mesmo diante da morte, permanece viva.
Raul de Leoni é, em suma, um eco do
Parnaso: um poeta imortal, cuja obra ilumina o presente e aponta para o futuro.
POEMA DE RAUL DE LEONI
HISTÓRIA ANTIGA
de Raul de Leoni
No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube por que foi… um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era… Não sabia…
Desde então, transformou-se de repente
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para frente…
Nunca mais nos falamos… vai distante…
Mas, quando a vejo, há sempre um vago
instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,
E eu sinto, sem no entanto
compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la…
******
VELHA NATUREZA
de Raul de Leoni
Tudo que a velha Natureza gera
Vai sempre rumo do melhor futuro;
Ela fecunda com o ânimo seguro
De quem muito medita e delibera…
O seu gênio de artista mais se esmera
Na teoria sutil do claro-escuro,
Com que exalta a verdade mais austera,
Frisando em tudo o símbolo mais puro…
Só faz o Mau e o Hediondo para efeito
De projetar mais longe e sem nuance
A alma cheia de luz do que é perfeito,
Como cavou o Abismo nas entranhas,
Para dar mais relevo e mais alcance
À soberba estatura das montanhas…
Espaço cultural que abriga galerias de arte, teatro, cinema e a Biblioteca Central Municipal Gabriela Mistral, considerada a 3ª mais importante do estado do Rio de Janeiro. O nome do Centro homenageia o poeta petropolitano, falecido prematuramente de tuberculose, aos 30 anos, em 1925, e o da biblioteca à escritora chilena, primeira latino-americana a receber o Nobel de Literatura.
O Centro de Cultura Raul de Leoni é um
complexo cultural fundado em 30 de janeiro de 1977. Prédio em concreto e vidro
fumê com três andares, abriga o Teatro Afonso Arinos (com capacidade para 150
lugares); a Biblioteca Municipal (Gabriela Mistral), considerada a terceira
maior do estado, com grande acervo raro e que também disponibiliza publicações
em Braile; um cinema (Cine Humberto Mauro), uma sala de música (Sala Guiomar
Novaes), duas salas multiusos (Sala Sylvia Orthof e Multiuso), uma Sala
Alternativa (para exposições de artes visuais) e três galerias (Van Dijk,
Aloysio Magalhães e Djanira) destinadas às artes visuais.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural




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