quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O SONO DE POMBO - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Há homens que dormem como pedras, mergulhados em silêncio profundo, e há outros que dormem como pássaros: leves, desconfiados, sempre prontos a levantar voo ao menor ruído. Seu Antero, por exemplo, dorme como pombo. Não é sono de quem se entrega à noite inteira, mas de quem se rende em parcelas, em prestações curtas, como se o descanso fosse uma dívida que nunca se quita. Cochila na cadeira da sala, a cabeça pendendo para frente, e desperta com o estalo da madeira ou o ranger da geladeira. Fecha os olhos de novo, mas logo os abre, como se o mundo não lhe desse licença para se ausentar por muito tempo. 

A vizinhança já se acostumou. Quem passa pela janela vê o velho sentado, olhos semicerrados, e não sabe se está dormindo ou apenas pensando. É um estado intermediário, uma fronteira tênue entre o sono e a vigília. O pombo, quando repousa no fio, também parece assim: nunca inteiramente entregue, sempre pronto para o susto. Durante a noite, Seu Antero se deita cedo, mas não dorme cedo. Fica ouvindo os barulhos da casa, o vento que bate na veneziana, o cachorro que se mexe no quintal. Quando finalmente adormece, o sono vem em fiapos. Às duas da manhã, desperta para beber água. Às três, levanta para verificar se trancou a porta. Às quatro, já está sentado na cama, olhando o relógio, como se esperasse o dia nascer para lhe dar permissão de estar acordado sem culpa. 

A esposa, Dona Lourdes, já desistiu de reclamar. No começo, dizia: “Homem, deita e dorme, pelo amor de Deus.” Mas depois entendeu que não se trata de escolha. O sono de pombo é destino, é modo de ser. Há quem carregue insônia como cruz, mas Seu Antero carrega como companhia. De manhã, quando o sol ainda é tímido, ele se senta na varanda com uma xícara de café. O mundo desperta devagar, mas ele já está desperto há horas. Observa os vizinhos que ainda bocejam, os ônibus que começam a passar, o padeiro que abre a porta da padaria. E pensa que talvez o sono seja um luxo dos jovens, dos que ainda podem se dar ao direito de se desligar.

O curioso é que, apesar de dormir pouco, Seu Antero não se queixa de cansaço. O corpo se acostumou a viver em estado de vigília. Ele cochila em intervalos: cinco minutos na poltrona, dez minutos na rede, três minutos na cadeira da cozinha. É como se fosse um colecionador de pequenos descansos, juntando migalhas de sono ao longo do dia. Às vezes, os netos acham graça. “Vovô dorme igual pombo!”, dizem, rindo. Ele sorri também, porque sabe que é verdade. Mas há uma dignidade nesse sono breve, uma espécie de sabedoria. O pombo não se entrega porque precisa estar atento ao mundo. E Seu Antero, talvez sem saber, também vigia: vigia a casa, vigia os filhos, vigia o tempo que passa.

Há noites em que ele se lembra da juventude, quando dormia pesado, sem medo de perder nada. Hoje, o medo é outro: o de perder o instante, o de não estar presente quando algo acontece. Por isso desperta tantas vezes, como se cada despertar fosse uma garantia de que ainda está aqui, de que ainda participa da vida. O sono de pombo é também uma metáfora da velhice. O corpo já não se entrega por inteiro, mas se oferece em pedaços. O descanso vem em retalhos, como vem a memória. E, no entanto, há beleza nisso: uma beleza discreta, como a de um pombo que repousa no fio de luz, indiferente ao trânsito, ao barulho, ao caos da cidade.

Quem vê de fora pode pensar que é incômodo, que é sofrimento. Mas Seu Antero sabe que há uma paz nesse ritmo. Ele não precisa de longas noites para se sentir vivo. Basta-lhe o silêncio da madrugada, o canto de um galo distante, o cheiro do café fresco. E assim ele segue, entre cochilos e despertares, como quem dança com o tempo. O sono de pombo não é ausência: é presença intermitente. É estar no mundo em pequenas doses, mas estar sempre. Talvez um dia os netos entendam que o riso que fazem do avô é, na verdade, uma lição. Porque viver não é apenas dormir ou acordar: é aprender a habitar os intervalos. 

Seu Antero, com seus olhos que se fecham e se abrem, ensina isso sem palavras. Ensina que há dignidade no breve, que há beleza no instante, que há vida mesmo nos cochilos. O sono de pombo, afinal, é menos sobre dormir e mais sobre vigiar. É o jeito que a velhice encontrou de não se ausentar do mundo. Há noites em que pensa na morte. Não como ameaça, mas como visita esperada. Ele sabe que um dia o sono deixará de ser breve, que virá inteiro, profundo, sem despertares. Não teme. Pensa que talvez seja apenas um último cochilo, mais longo, mais sereno. Como o pombo que, cansado de vigiar, finalmente se recolhe sem pressa de abrir os olhos.

Dona Lourdes, às vezes, percebe o olhar distante do marido. Pergunta: “Em que pensa, homem?” Ele responde: “Penso no tempo.” “E o que tem o tempo?” “O tempo é como o sono. Vem em pedaços, mas um dia se junta inteiro.” Ela sorri, sem saber se entende. Mas há ternura na resposta. O sono de pombo, afinal, é também ensaio para a eternidade. Cada despertar é uma lembrança de que ainda se está vivo. Cada cochilo é uma preparação para o descanso maior. Seu Antero não fala disso com medo ou angústia. Fala como quem aceita. Como quem sabe que a vida é feita de intervalos, e que a morte será apenas o último intervalo, o mais longo de todos.

Enquanto isso, continua a vigiar. Vigia os netos brincando, vigia o sol nascendo, vigia o café esfriando na xícara. Vigia o mundo que insiste em se renovar a cada manhã. E quando o sol se abre inteiro sobre a cidade, lá está ele, sentado na varanda, olhos semicerrados, corpo entregue por um instante. Parece dormir. Mas quem olha com atenção percebe: ele está apenas descansando o olhar, como um pombo que repousa, mas nunca se esquece de voar. Um dia, talvez, não desperte mais. Mas até lá, continuará a ensinar, sem palavras, que viver é habitar os intervalos, e que há beleza até no sono breve.

© Alberto Araújo

 

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