No calendário das tradições, o Dia de Reis, celebrado em 06 de janeiro, é mais do que uma data: é um sopro de memória coletiva que atravessa séculos e se reinventa em cada canto do Brasil. É o dia em que se recorda a visita dos três magos ao Menino Jesus, trazendo ouro, incenso e mirra, símbolos de realeza, espiritualidade e humanidade. Mas, nas terras tropicais, essa narrativa bíblica se mistura ao batuque dos tambores, às fitas coloridas das folias e ao canto que ecoa pelas ruas, transformando fé em festa, devoção em poesia.
As Folia de Reis, com seus palhaços mascarados, bandeiras bordadas e violas dedilhadas, são uma expressão viva da cultura popular. Cada grupo que percorre casas e comunidades carrega consigo não apenas a lembrança dos Reis Magos, mas também a força da coletividade, o gesto de partilha e a alegria de cantar em coro. É como se o sagrado se vestisse de cores, e o mistério da estrela que guiou os magos se tornasse luz nas lanternas improvisadas, iluminando caminhos de esperança.
O lirismo do Dia de Reis está na fusão entre o divino e o humano. É o menino que corre atrás da bandeira, é a senhora que abre a porta para receber a bênção, é o violeiro que improvisa versos sobre fé e vida. É também a resistência cultural: em tempos de pressa e esquecimento, manter viva a tradição é um ato de poesia. Cada canto entoado é uma oração que se expande, cada fita colorida é um traço de identidade, cada passo dançado é memória que se recusa a se apagar.
Assim, o Dia de Reis não é apenas o fim do ciclo natalino, mas o início de um novo ciclo de esperança. É o convite para olhar o céu e buscar estrelas, para ouvir o som das violas e reconhecer que a cultura é o ouro que carregamos, o incenso que perfuma nossa história, a mirra que cura nossas saudades. No Brasil, o 06 de janeiro é mais do que tradição: é poesia viva, é fé que canta, é cultura que resiste.
@ Alberto Araújo
Sobre a pintura é atribuída ao mestre renascentista italiano Sandro Botticelli e é conhecida como A Natividade Mística, criada por volta de 150 da única obra assinada por Botticelli, o que reforça seu valor histórico e pessoal, e está repleta de simbolismo religioso e profético. Realizada em óleo sobre tela, hoje se encontra na National Gallery, em Londres, sob o título original La Natività Mistica.
Na cena central, vemos o nascimento de
Jesus, com Maria, José e o Menino em destaque, cercados por uma multidão de
anjos e pessoas em adoração, incluindo pastores e crianças. Botticelli
acreditava estar vivendo tempos de tribulação e incorporou à obra elementos
apocalípticos e escatológicos, como a inscrição em grego no topo, que remete à
iminente chegada do Milênio de Cristo. O estilo combina a delicadeza lírica
característica do artista com uma composição carregada de emoção e espiritualidade.
Embora Botticelli seja mais lembrado
por obras como O Nascimento de Vênus e A Primavera, A Natividade Mística se
destaca por seu intenso conteúdo religioso e pela atmosfera de fé e esperança.
Criada em um período de crise política e religiosa na Itália, fortemente
influenciado pelas pregações de Savonarola, a obra reflete a profundidade
espiritual e a visão profética do pintor, tornando-se um testemunho único de
sua arte e de seu tempo.
@ Alberto Araújo
06 de janeiro de 2025

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