O dia 23
de janeiro, celebrado como o Dia da Liberdade no Brasil, é uma data que
nos convida a refletir sobre o valor universal da liberdade e da igualdade.
Mais do que uma efeméride, é um momento de memória e de compromisso com a
construção de uma sociedade justa. Nesse contexto, lembrar-se de Martin
Luther King Jr. é não apenas oportuno, mas essencial. Sua vida e sua luta
ultrapassaram fronteiras e se tornaram símbolos universais da resistência
pacífica contra a opressão e da busca incansável por dignidade humana.
O LEGADO DE MARTIN LUTHER KING JR.
Martin
Luther King Jr. nasceu em 1929, em Atlanta, nos Estados Unidos, em um país
profundamente marcado pela segregação racial. Pastor batista e líder do
movimento dos direitos civis, King acreditava que a transformação social
deveria ser alcançada por meio da não violência e da força moral.
Inspirado por Mahatma Gandhi, ele conduziu marchas, protestos e discursos que
mobilizaram milhões de pessoas.
Seu
famoso discurso “I Have a Dream”, proferido em 1963 durante a Marcha
sobre Washington, tornou-se um marco da luta por igualdade. Nele, King
expressou o sonho de ver seus filhos vivendo em um país onde não fossem
julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Essa visão
continua a inspirar gerações em todo o mundo.
A luta de
King não era apenas contra leis discriminatórias, mas contra uma estrutura
social que negava direitos básicos a milhões de cidadãos afro-americanos. Ele
enfrentou prisões, ameaças e violência, mas nunca abriu mão da convicção de que
a justiça só seria alcançada pela via pacífica.
Entre
suas maiores conquistas está o papel fundamental na aprovação da Lei dos
Direitos Civis de 1964 e da Lei do Direito ao Voto de 1965, que
derrubaram barreiras legais à participação política e social dos negros nos
Estados Unidos. Essas vitórias não foram apenas jurídicas, mas simbólicas:
mostraram que a persistência e a coragem podem transformar a história.
O FILME SELMA – UMA LUTA PELA IGUALDADE
O filme Selma (2014) retrata de forma poderosa os eventos que culminaram na marcha de Selma a Montgomery, em 1965. Essa marcha foi decisiva para pressionar o governo norte-americano a aprovar a Lei do Direito ao Voto. A obra mostra não apenas a liderança de King, mas também a resistência enfrentada pelos ativistas.
Uma cena marcante envolve o presidente Lyndon B. Johnson em diálogo com o governador do Alabama, George Wallace. Johnson o confronta com uma pergunta incisiva: “Você gostaria que em 1985 as pessoas falassem de você como alguém que ficou do lado errado da história?” Essa fala, ainda que dramatizada, revela a dimensão histórica das escolhas políticas. Não se trata apenas de decisões imediatas, mas de como seremos lembrados pelas gerações futuras.
Essa cena de Selma nos lembra de que a luta pela liberdade não é apenas um episódio do passado, mas uma narrativa contínua. Cada sociedade, em cada época, enfrenta dilemas que definem seu futuro. O Dia da Liberdade nos convida a pensar: como nossas ações de hoje serão vistas amanhã? Estaremos do lado da justiça ou da opressão?
Assim como Johnson provocou Wallace, podemos nos provocar: em 2050, como as pessoas falarão de nós? Como falarão das nossas escolhas diante das desigualdades, do racismo, da pobreza e da exclusão? Essa reflexão é essencial para que o Dia da Liberdade não seja apenas comemorativo, mas transformador.
No Brasil, a luta pela liberdade tem raízes profundas. Desde a resistência dos povos indígenas à colonização, passando pela luta dos escravizados que conquistaram sua emancipação, até os movimentos contemporâneos por direitos civis e sociais, nossa história é marcada pela busca incessante por dignidade.
Celebrar o Dia da Liberdade é reconhecer que ainda há muito a ser feito. A desigualdade racial, a violência contra minorias e a exclusão social continuam a desafiar nossa democracia. O legado de Martin Luther King nos inspira a enfrentar esses desafios com coragem e esperança.
King acreditava que a não violência não era passividade, mas uma forma ativa de resistência. Ele dizia que a escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazê-lo; o ódio não pode expulsar o ódio, apenas o amor pode fazê-lo. Essa filosofia nos lembra que a liberdade não se conquista com armas, mas com consciência, solidariedade e ação coletiva.
No Brasil, movimentos sociais que seguem essa linha têm mostrado que é possível transformar realidades sem recorrer à violência. A luta por moradia, por educação e por igualdade de gênero e raça encontra inspiração na postura de King.
O Dia da Liberdade não deve ser apenas uma data no calendário, mas um compromisso diário. É um chamado para que cada cidadão reflita sobre seu papel na construção de uma sociedade justa. Assim como King sonhou com um mundo melhor, nós também podemos sonhar, e agir para que esse sonho se torne realidade.
Ao celebrarmos o Dia da Liberdade em 23 de janeiro, lembramos que a liberdade é um valor universal, conquistado com luta e coragem. Martin Luther King Jr. nos ensinou que a verdadeira grandeza está em servir aos outros e em lutar por justiça, mesmo diante das maiores adversidades.
A cena de Selma, em que Johnson questiona Wallace sobre como seria lembrado no futuro, nos desafia a pensar sobre nosso próprio legado. Que sejamos lembrados como aqueles que escolheram o lado da igualdade, da dignidade e da liberdade.
Que o Dia da Liberdade seja, portanto, não apenas uma celebração, mas um compromisso renovado com a construção de um mundo mais justo. Que possamos, como King, sonhar com um futuro em que todas as pessoas sejam realmente livres.
Neste 23 de janeiro, Dia da Liberdade, que possamos nos inspirar em Martin Luther King Jr. e em todos aqueles que lutaram pela igualdade. Que nossas escolhas de hoje sejam lembradas amanhã como sementes de justiça e esperança. Porque a liberdade não é apenas um direito: é a essência da humanidade.
CONTEXTO HISTÓRICO:
O discurso foi feito em frente ao Memorial de Lincoln, em Washington, D.C. A Marcha sobre Washington reuniu centenas de milhares de pessoas exigindo empregos, liberdade e o fim da segregação racial. O impacto foi tão grande que ajudou a impulsionar a aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964 e da Lei do Direito ao Voto de 1965.
DISCURSO COMPLETO “I HAVE A DREAM” (1963)
"Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação. Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros. Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.
Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.
Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.
De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".
Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.
Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranquilizante do gradualismo.
Agora
é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.
Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.
Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.
Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre. Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.
E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"
Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.
Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.
Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.
Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.
Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.
Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!
Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!
Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.
Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.
"Meu
país, doce terra de liberdade, eu te canto.
Terra
onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,
De
qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!"
E
se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.
E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.
Ouvirei
o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.
Ouvirei
o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.
Ouvirei
o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.
Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.
Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.
Ouvirei
o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.
Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.
Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.
E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:
"Livre afinal, livre afinal.
Agradeço
ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal."
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural






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