terça-feira, 20 de janeiro de 2026

20 DE JANEIRO - EFEMÉRIDES DO FOCUS PORTAL CULTURAL 166 ANOS DE ANTÔNIO PARREIRAS - O PINTOR DA PAISAGEM BRASILEIRA

No dia 20 de janeiro de 2026, celebramos os 166 anos de nascimento de Antônio Diogo da Silva Parreiras, pintor, desenhista, ilustrador, escritor e professor que se tornou um dos grandes nomes da arte brasileira. Sua trajetória é marcada pela força da paisagem como gênero artístico e pela capacidade de transformar a natureza em poesia visual. Nascido em Niterói em 1860, Parreiras cresceu em um ambiente cultural em que a influência europeia era dominante, mas desde cedo buscou construir uma linguagem própria, capaz de traduzir o Brasil em cores, formas e atmosferas. Ao longo de sua vida, produziu mais de 850 pinturas, das quais 720 em solo brasileiro, e realizou 39 exposições, consolidando-se como referência incontornável da pintura nacional. 

A arte de Parreiras é inseparável da paisagem. Ele não se limitava a reproduzir cenários, mas interpretava atmosferas, captava emoções e revelava o sublime dos instantes em que a natureza se mostrava grandiosa. Suas telas revelam florestas densas, campos abertos, mares revoltos e céus dramáticos, sempre carregados de significados. O pintor buscava retratar o Brasil ainda intocado, como se fosse possível congelar o momento em que a terra se apresentava pura e majestosa. Essa visão o aproximou do romantismo tardio, mas também o projetou como um dos primeiros artistas a consolidar a paisagem como gênero central da arte nacional. Em suas obras, o espectador encontra não apenas árvores, rios e montanhas, mas um discurso sobre identidade, pertencimento e brasilidade. 

Sua formação começou na Academia Imperial de Belas Artes, em 1883, quando já tinha 23 anos, idade considerada tardia para ingressar no universo artístico. Pouco depois, rompeu com a instituição para seguir o caminho da pintura ao ar livre, inspirado pelo alemão Georg Grimm. Essa decisão marcou sua trajetória: preferiu a liberdade criativa ao rigor acadêmico, organizando exposições em sua própria casa, em Niterói, e vendendo obras de forma comunitária. Foi nesse contexto que recebeu a visita de Dom Pedro II, em 1886, episódio fundamental para sua carreira, já que o imperador adquiriu duas de suas telas, conferindo-lhe reconhecimento e prestígio. Esse encontro abriu portas para que Parreiras pudesse viajar à Europa, onde montou ateliê em Paris e participou de salões internacionais, tornando-se o segundo pintor brasileiro a expor no Salão de Paris e, em 1911, delegado da Sociedade Nacional de Belas-Artes. 

Entre Brasil e França, Parreiras construiu uma carreira que unia o reconhecimento internacional ao compromisso com a arte nacional. Realizou encomendas oficiais para edifícios públicos, como o Palácio do Catete, o Supremo Tribunal Federal e a Câmara Municipal de São Paulo. Essas obras revelam como sua pintura se tornou parte da construção simbólica da nação, integrando arte e política. Sua tela Sertanejas, por exemplo, decorou os salões do Palácio do Catete, enquanto painéis seus ornamentaram a sede do Supremo Tribunal Federal. Em São Paulo, o Salão Nobre da Câmara Municipal e o Gabinete do Prefeito receberam obras suas como elementos decorativos, reforçando a presença da arte de Parreiras nos espaços de poder.

Além da pintura, Parreiras deixou textos e discursos que revelam sua visão crítica sobre o papel da arte. Criticava a valorização excessiva da produção europeia em detrimento da nacional e defendia a criação de uma arte brasileira autêntica, capaz de expressar o espírito do país. Em suas memórias, descreveu com emoção os primeiros contatos com a arte, lembrando que foi ao ver um pintor trabalhar e ao ouvir um poeta declamar versos que descobriu a estrada que seguiria por toda a vida. Essa dimensão intelectual e literária complementa sua obra plástica, mostrando um artista que pensava a arte como instrumento de civilização e transformação social. Em discursos na Academia Fluminense de Letras, afirmava que o grande valor dado à arte europeia pela academia e pelos críticos dificultava o desenvolvimento de uma arte nacional, e denunciava o preconceito social contra os artistas, vistos como figuras marginais em um país que ainda não reconhecia plenamente a profissão. 

O sucesso de Parreiras é motivo de estudo e análise profunda, principalmente por sua inserção no embrionário mercado de artes que se formava entre os séculos XIX e XX no Brasil. O pintor obteve sustento proveniente da venda de suas obras, num momento em que o mercado de arte ainda era instável e incipiente. Essa capacidade de viver da pintura, organizando exposições próprias e comercializando suas telas, revela não apenas talento artístico, mas também habilidade empreendedora. Em 1927, foi homenageado com um busto em bronze, esculpido por Marc Robert, inaugurado em Niterói, gesto que simboliza o reconhecimento público de sua importância. 

Grande parte de sua vida adulta foi passada num período de nacionalismo exacerbado e grande exaltação patriótica, o que explica a presença desses elementos em sua obra e em seus discursos. Parreiras considerava-se um indivíduo autônomo, que manifestava um forte desejo de mudança social no âmbito hierárquico, o que o impedia de ascender plenamente como sujeito artista e criador. Sua pintura, no entanto, conseguiu romper barreiras e afirmar-se como expressão de uma identidade nacional. Ao longo de sua carreira, experimentou diversos formatos de reconhecimento público, tanto no Brasil quanto no exterior, consolidando-se como figura central da arte brasileira. 

Celebrar os 166 anos de Antônio Parreiras é reafirmar a importância da arte como patrimônio cultural. Sua obra não é apenas pintura: é memória, identidade e poesia visual. Ele transformou paisagens em símbolos, deu ao Brasil uma arte que dialoga com o mundo, mas que nasce da terra e da emoção nacional. Seu legado permanece vivo, inspirando artistas e encantando públicos, lembrando-nos de que preservar a memória de Parreiras é também preservar a história e a alma do Brasil. O Museu Antônio Parreiras, instalado em sua antiga residência em Niterói, guarda parte significativa de sua produção e mantém viva sua memória, permitindo que o público de hoje e do futuro continue a dialogar com sua arte.

A trajetória de Antônio Parreiras não pode ser compreendida apenas pela análise de suas telas, mas também pelo contexto histórico em que se insere. O Brasil da segunda metade do século XIX vivia intensas transformações: o fim da escravidão se aproximava, o Império dava sinais de desgaste e a República surgia como horizonte político. Nesse cenário, a arte desempenhava papel fundamental na construção de uma identidade nacional. Parreiras, ao escolher a paisagem como tema central, oferecia ao público uma visão do país que ia além da política e da economia: mostrava o Brasil em sua dimensão natural, grandiosa e sublime. Suas telas eram, ao mesmo tempo, contemplação estética e afirmação cultural. 

O rompimento com a Academia Imperial de Belas Artes, em 1884, foi um gesto de ousadia que o aproximou do movimento de renovação artística liderado por Georg Grimm. Ao optar pela pintura ao ar livre, Parreiras não apenas buscava fidelidade à natureza, mas também se posicionava contra os modelos rígidos e idealizados da academia. Essa escolha o colocou em sintonia com tendências europeias, como o impressionismo, mas sem perder o vínculo com a realidade brasileira. Suas paisagens não eram apenas exercícios de técnica, mas interpretações carregadas de emoção, em que o artista buscava traduzir o impacto da natureza sobre o olhar humano.

A recepção de sua obra no Brasil revela a complexidade de sua posição. De um lado, foi celebrado por encomendas oficiais e reconhecido por instituições públicas; de outro, enfrentou críticas por sua insistência em valorizar a arte nacional em um ambiente ainda dominado pela admiração pela Europa. Em seus discursos, denunciava o preconceito contra os artistas e defendia que a pintura brasileira deveria ser capaz de expressar o espírito do país. Essa postura o aproximava de um discurso nacionalista, mas também revelava sua consciência da necessidade de autonomia cultural. 

Entre suas obras mais significativas, destacam-se aquelas que retratam a natureza em estado de força e beleza, como as telas de florestas e mares, mas também as que abordam temas históricos e sociais. Sertanejas, por exemplo, não é apenas uma cena de mulheres do interior: é uma representação da brasilidade, da vida simples e da dignidade do povo. Ao decorar o Palácio do Catete com essa tela, Parreiras inscreveu a cultura popular no espaço do poder, gesto que revela sua intenção de aproximar arte e sociedade. Da mesma forma, os painéis realizados para o Supremo Tribunal Federal e para a Câmara Municipal de São Paulo mostram como sua obra se tornou parte da construção simbólica da nação.

A crítica contemporânea reconhece em Parreiras um artista que soube transitar entre o romantismo e o realismo, entre a contemplação estética e o compromisso social. Sua pintura é marcada por uma paleta vigorosa, pelo uso expressivo da luz e pela composição equilibrada, mas também pela capacidade de transmitir emoção. Ao longo de sua carreira, experimentou diferentes estilos e técnicas, mas manteve sempre a paisagem como núcleo de sua produção. Essa fidelidade ao gênero revela não apenas uma escolha estética, mas também uma convicção: a de que a natureza brasileira era digna de ser celebrada e eternizada na arte. 

O impacto de sua obra se estende para além de sua época. Ao viver da venda de suas pinturas, Parreiras antecipou a profissionalização do artista em um mercado ainda incipiente. Sua capacidade de organizar exposições próprias e de comercializar suas obras de forma independente mostra um espírito empreendedor que dialoga com a modernidade. Ao mesmo tempo, sua produção literária e seus discursos revelam um intelectual preocupado com o papel da arte na sociedade. Essa combinação de artista e pensador faz de Parreiras uma figura singular na história cultural do Brasil. 

Hoje, ao visitar o Museu Antônio Parreiras em Niterói, é possível compreender a dimensão de seu legado. As telas expostas não são apenas obras de arte: são testemunhos de uma época, de um país em transformação e de um artista que soube captar a essência da natureza e da identidade nacional. Celebrar seus 166 anos é, portanto, mais do que lembrar um pintor: é reafirmar a importância da arte como memória, como patrimônio e como expressão da alma brasileira.

Entre as mais de 850 pinturas realizadas por Antônio Parreiras, algumas se destacam não apenas pela qualidade estética, mas também pelo impacto cultural e histórico que tiveram. A seguir, apresento uma ampliação crítica, em texto corrido, dedicada a algumas de suas obras mais emblemáticas, que ajudam a compreender a dimensão de seu legado. 

Uma das telas mais conhecidas de Parreiras é “A Retirada da Laguna”, obra que retrata um episódio da Guerra do Paraguai. Nela, o artista não se limita a representar o fato histórico, mas imprime dramaticidade e emoção à cena, destacando o sofrimento dos soldados brasileiros em meio à natureza hostil. A composição revela sua habilidade em unir paisagem e narrativa, transformando o cenário em protagonista da ação. O céu carregado, as figuras fatigadas e a vastidão do espaço criam uma atmosfera de dor e resistência, que ultrapassa o registro documental e se torna símbolo da memória nacional. Essa tela é exemplo de como Parreiras soube dialogar com o romantismo histórico, sem perder a força da paisagem como elemento central. 

Outra obra significativa é “Sertanejas”, adquirida para decorar o Palácio do Catete. A tela apresenta mulheres do interior em sua vida cotidiana, mas a simplicidade da cena é elevada à dignidade artística. Ao colocar figuras populares em um espaço de poder, Parreiras inscreve a cultura popular na narrativa oficial da nação. A paleta terrosa, os gestos contidos e a serenidade das personagens revelam sua intenção de valorizar o Brasil profundo, aquele que não se via representado nas academias ou nos salões europeus. “Sertanejas” é, portanto, uma afirmação da brasilidade, um gesto político e cultural que aproxima arte e povo. 

No campo da paisagem pura, obras como “Paisagem Fluminense” revelam o olhar contemplativo de Parreiras sobre sua terra natal. Niterói e o entorno do Rio de Janeiro aparecem em suas telas como espaços de beleza natural, captados com vigor cromático e sensibilidade atmosférica. O artista buscava interpretar a natureza como se fosse uma experiência espiritual, traduzindo em cores e formas a emoção que sentia diante do espetáculo natural. Essas paisagens não são apenas registros topográficos, mas construções poéticas que convidam o espectador a partilhar da mesma emoção. A luz, sempre trabalhada com intensidade, é elemento fundamental para criar a sensação de grandiosidade e transcendência. 

Também merece destaque sua produção voltada para temas históricos e institucionais, como os painéis realizados para o Supremo Tribunal Federal e para a Câmara Municipal de São Paulo. Nessas obras, Parreiras soube equilibrar a exigência oficial de monumentalidade com sua própria visão artística. Os espaços públicos, ao receberem suas telas, tornaram-se lugares de afirmação simbólica da nação, em que a arte cumpria papel de legitimação cultural. A presença de suas obras em tais instituições mostra como sua pintura foi incorporada ao imaginário político e social do Brasil. 

Por fim, é importante mencionar sua série de paisagens marítimas, em que o mar aparece ora sereno, ora tempestuoso, sempre carregado de significados. Nessas telas, Parreiras explora a força da natureza como metáfora da vida e da história. O mar, com sua vastidão e imprevisibilidade, torna-se símbolo da própria condição humana, em diálogo com a tradição romântica, mas também com a modernidade que se anunciava. A técnica refinada, o uso expressivo da cor e a composição dinâmica revelam um artista maduro, capaz de transformar a paisagem em reflexão existencial.

Essas obras exemplificam a diversidade e a profundidade da produção de Antônio Parreiras. Ao transitar entre o histórico, o popular e o natural, o pintor construiu uma obra que é, ao mesmo tempo, estética e cultural, individual e nacional. Sua arte permanece como testemunho da identidade brasileira e como convite à contemplação da natureza e da história. Celebrar seus 166 anos é também revisitar essas telas, que continuam a falar ao público com a mesma força e emoção que tinham no momento em que foram criadas.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 

Sertanejas, 1896. Óleo sobre tela. 273 cm x 472 cm

Ventania, Pinacoteca do Estado de São Paulo

Canto de Praia - 1886 

Jornada dos Mártires
óleo sobre tela de 1928; 200 × 381cm

Fundação de Niterói, 1909

Paisagem do Campo do Ipiranga

A conquista do Amazonas, 1907

Fantasia, 1909

Fim de romance, 1912

Agonia, 1915

Cabrália 

Cesteiro - 1927

Terra Natal - 1923

Dolorida 








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