Estávamos na varanda, de frente para o mar de Icaraí. Eu, sentado à mesa, com o jornal dobrado ao lado e uma xícara de café ainda quente. Shirley, minha musa, regava as plantas com calma, como quem conversa com cada folha, como quem entende que a vida também se renova em silêncio. O curioso é que ela fala com suas plantas: “Você não vai dar uma florzinha para a mamãe não?”. E não é que a planta responde, como quem entende? Muitas vezes vi, e sou testemunha, que sempre acabam lhe oferecendo flores lindas.
Foi nesse instante que ela disse, quase sem olhar para mim, como quem fala para o vento:
— “A gente tem a idade que quer.”
A frase ficou suspensa no ar, como uma onda que demora a quebrar. Eu a ouvi e sorri, mas dentro de mim ela começou a se expandir. Pensei nos anos que carregamos, nos números que nos definem, nos aniversários que se acumulam como páginas de um livro. Pensei nos cálices de tempo que bebemos: alguns doces, outros amargos. E percebi que talvez ela tivesse razão: a idade não é apenas o que o calendário nos impõe, mas o que escolhemos sentir.
Dizem que a velhice é um peso. Mas talvez seja apenas um cálice cheio de anos, do qual podemos beber ou não. Alguns anos nos servem, outros não. Há lembranças que guardamos com carinho, há dores que preferimos esquecer. O cálice é grande, mas não precisamos bebê-lo inteiro. Podemos escolher o sabor que queremos levar.
Shirley regava as plantas e parecia mais jovem do que nunca. Não porque tivesse menos rugas ou mais força, mas porque sua alma estava leve. Ela falava como se fosse uma mocinha. E talvez fosse isso: a idade que queremos ter não é a que o corpo mostra, mas a que o coração escolhe.
O mar de Icaraí é testemunha de nossas conversas. Ele nos escuta sem pressa, devolve em ondas o que dizemos. Ali, diante do Cristo Redentor ao longe, aprendemos que o tempo é relativo. O mar é velho, mas continua jovem. As ondas se repetem, mas nunca são iguais. O Cristo permanece, mas cada olhar o vê diferente.
Na varanda, o tempo parece suspenso. O relógio marca as horas, mas não importa. O que importa é o instante. E no instante, a idade se dissolve.
— “Mas como assim, a idade que quer?”,
perguntei.
Ela sorriu, sem parar de regar as
plantas:
— “Ora, a idade é uma roupa. A gente veste a que cabe na alma. Se hoje quero ser jovem, sou. Se amanhã quero ser velha, também sou. O corpo não manda, quem manda é o coração.”
O vento trouxe o cheiro da maresia, e eu pensei que talvez fosse verdade. Quantas vezes já me senti menino ao ouvir uma música antiga? Quantas vezes já me senti velho ao enfrentar uma dor? Quantas vezes já me senti jovem ao rir sem motivo?
“A gente tem a idade que quer.” Essa
frase é um convite. Podemos escolher ser jovens quando dançamos, quando rimos,
quando nos apaixonamos. Podemos escolher ser velhos quando precisamos de
sabedoria, de paciência, de silêncio. Podemos escolher ser crianças quando nos
encantamos com o simples, quando nos surpreendemos com o cotidiano.
A idade é uma roupa que vestimos. Às vezes apertada, às vezes larga. Mas sempre escolhida.
Pensei nos anos que já vivi. Alguns pesados, outros leves. Alguns que gostaria de repetir, outros que prefiro esquecer. O cálice da memória é cheio, mas não precisamos beber tudo de uma vez. Podemos saborear aos poucos, escolher os goles que nos fazem bem.
Shirley regava as plantas e parecia conversar com elas. Cada folha era um ano, cada flor uma lembrança. Algumas secavam, outras floresciam. E ela cuidava de todas, sem distinção. Talvez fosse isso: cuidar dos anos como quem cuida de plantas. Regar os bons, aceitar os que murcham, esperar os que florescem.
Na velhice, descobrimos que não precisamos carregar todos os anos. Podemos descartar alguns, guardar outros, reinventar o tempo. Podemos ter 90 anos no corpo e 30 na alma. Podemos ter 80 na memória e 40 no coração. Podemos ter a idade que quisermos.
Ela disse isso com naturalidade, como quem sabe que a vida é mais leve quando não se prende a números. Regava as plantas e sorria. Eu a observava e pensava: talvez tivesse razão. Talvez a velhice não seja um peso, mas uma escolha.
O mar continuava a cantar, o Cristo
continuava a observar, e nós seguíamos na varanda. Eu sentado à mesa, ela
regando as plantas. A frase ainda ecoava:
— “A gente tem a idade que quer.”
Talvez o sentido da vida seja isso: aprender a escolher a idade que queremos ter. Não a que o calendário nos impõe, mas a que nos faz sentido. Podemos ser jovens quando precisamos de coragem. Podemos ser velhos quando precisamos de sabedoria. Podemos ser crianças quando precisamos de encantamento.
A vida é um cálice de anos. Mas só interessa a idade que quisermos ter.
Na varanda de Icaraí, diante do mar e do Cristo, aprendemos que o tempo é relativo. Que a idade não é número, mas escolha. Que a velhice não é peso, mas liberdade.
Shirley regava as plantas e sorria. Eu a observava e pensava: talvez fosse isso. Talvez a vida seja escolher a idade que queremos ter.
E assim seguimos, bebendo o cálice dos anos, descartando o que não nos serve, guardando o que nos faz bem. Porque, no fim, a idade é apenas um detalhe. O que importa é a essência.
© Alberto Araújo

.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário