12 de janeiro de 1628: Nasce, em Paris, o tecelão de sonhos que bordou o invisível na trama do visível.
Numa manhã de inverno parisiense, quando o Sena ainda carregava os sussurros dos reis absolutos e das revoluções por vir, veio ao mundo Charles Perrault. Era 1628, o ano em que o sol de Luís XIII iluminava os corredores do Louvre, e o jovem Charles, primogênito de uma família burguesa de advogados, abria os olhos para um mundo de contrastes: o esplendor da corte e a penumbra das ruas onde as velhas contavam histórias ao pé do fogo. Quem diria que aquele menino, destinado a robes de toga e pergaminhos jurídicos, se tornaria o "Pai da Literatura Infantil", o artífice que pegou os fios soltos das narrativas populares e os teceu em tapeçarias eternas?
Perrault não era um sonhador isolado. Contemporâneo de Jean de La Fontaine, o fabulista das rimas morais, ele navegava entre os salões literários da Academia Francesa, da qual foi membro em 1671 e os gabinetes do poder. Advogado de formação, subiu na hierarquia real até tornar-se superintendente das artes sob Luís XIV, o Rei Sol, cujos versos ele celebrou em poemas pomposos como Curso das Eras de Luís o Grande. Mas foi na clandestinidade da imaginação que Perrault encontrou sua verdadeira coroa. Em 1697, com 69 anos, publicou Contos de Minha Mãe Gansa (Histoires ou contes du temps passé), atribuindo as histórias à sua suposta ama, Mère l'Oye, numa astuta manobra para conferir autenticidade folclórica a narrativas que ele polia com a finesse de um ourives.
Imagine a cena: Perrault, já grisalho, recolhendo ecos das feiras de Paris e das províncias francesas, onde camponeses e criadas murmuravam sobre lobos vorazes e botas mágicas. Ele não inventou os contos, esses brotavam das raízes profundas do imaginário coletivo, da tradição oral que atravessava gerações como um rio subterrâneo. Mas deu-lhes forma literária, moral e ritmo, transformando lendas brutas em lições encadernadas. Assim nasceu o conto de fadas moderno, um gênero que Perrault erigiu sobre pilares de encanto e advertência, onde o fantástico serve de espelho à alma humana.
"Le Petit Chaperon rouge", o Capuchinho Vermelho, é o primeiro farol dessa galáxia perraultiana. Uma menina ingênua, de capuz escarlate como o sangue da curiosidade, desvia-se do caminho reto para colher flores. O lobo, astuto sedutor, devora-a de um só golpe, sem a salvação do caçador que Grimm acrescentaria depois. Aqui, Perrault não poupa: "Crianças, principalmente as moças bonitas, bonitas vestidas e ataviadas como se fossem para uma festa, não devem se deter no caminho conversando com estranhos". É uma fábula feminina, patriarcal em sua essência barroca, que alerta para os perigos da sedução nas ruas de Paris, onde a corte de Versalhes dançava sobre abismos morais.
No Brasil de hoje, ecoa em nossas quadras nordestinas, onde o lobo pode ser o sol escaldante do sertão ou o canto falso do jagunço. Pense em Guimarães Rosa, que em Grande Sertão: Veredas transforma o diabo em Riobaldo, um lobo de botas poéticas. Perrault nos ensina que o bosque é o mundo: denso, traiçoeiro, mas navegável com prudência.
"La Belle au bois dormant", A Bela Adormecida, dorme cem anos num castelo de espinhos, aguardando o príncipe que romperá o feitiço. Perrault expande a lenda medieval de Perceforest, tecendo um conto sobre tempo suspenso e destino real. A fada má, com sua roda de fiar amaldiçoada, representa o perigo das artes femininas, fio que corta, como as fo scissors de Penélope. Mas o despertar é erótico, régio: o príncipe a possui em silêncio, num eco das normas cortesãs onde o sono justifica uniões sem consentimento explícito.
Hoje, adaptada em animações da Disney e balés de Tchaikovsky, ela pulsa em nossas festas juninas, onde o mandacaru adormecido espera a chuva para florescer. Em Niterói, olhando para o mar da Baía de Guanabara, vemos belas adormecidas nas praias, sonhando com príncipes que vêm de além-mar ou de favelas vizinhas.
"Le Maître chat ou le Chat botté", O Gato de Botas, é o triunfo do engenho sobre o sangue. Um gato falante, de botas de couro, eleva seu amo pobre ao trono por meio de mentiras criativas e botas velozes. Perrault, o burocrata, celebra aqui a inteligência plebeia: o gato é o advogado das causas impossíveis, manipulando reis com cartas falsas e campos prometidos. "Eu sei de um vasto domínio onde o trigo não para de crescer", mente ele, e o rei cai na rede.
Essa história ressoa no panteão brasileiro de malandros: o Macunaíma de Mário de Andrade, preguiçoso mas astuto, ou o Zé Pilintra do samba carioca. Em Niterói, onde o carnaval pulsa com gatos de bota nos blocos, Perrault nos lembra que a nobreza é conquista, não herança, um mote para escritores como nós, tecendo realidades com palavras.
"Cendrillon ou la petite pantoufle de verre", Cinderela, é o hino da paciência recompensada. Cinzas viram salão de baile; o sapatinho de cristal, ou vidro, como sugere o original, prova o encaixe perfeito. As irmãs ciumentas cortam calcanhares e dedões para calçar a ilusão, mas a fada madrinha e o pumpelão mágico restauram a ordem. Perrault moraliza: virtude e beleza vencem a inveja.
No imaginário brasileiro, evoca as cinderelas do Nordeste, moças de pés calejados que dançam forró até o príncipe chegar, ou constroem seu próprio castelo. Conceição Evaristo, em suas prosas quilombolas, reescreve Cinderelas negras, onde o vidro se quebra em revolução.
"La Barbe bleue", Barba Azul, mergulha no abismo. Um nobre de barba turquesa casa e mata esposas curiosas que abrem a porta proibida. A última, com sangue-frio, espera o resgate dos irmãos. Perrault baseia-se em Gilles de Rais ou Connetable de Lusignan, mas alerta: "A curiosidade, apesar de todos os benefícios, só nos trouxe males". É conto gótico avant la lettre, precursor de Bluebeard em Poe e Offenbach.
Aqui, o terror é íntimo, como os dramas de família em crônicas de Rubem Braga, onde portas fechadas guardam segredos de Niterói ao Recife.
"Le Petit Poucet", O Pequeno Polegar, fecha o ciclo com migalhas de pão como bússola contra ogres famintos. O menino astuto troca coroas de ogre por burros, salvando irmãos. Perrault inspira-se em Hop-o'-My-Thumb inglês, mas infunde otimismo racional: a razão vence o caos.
No Brasil, é o menino do sertão que segue estrelas para sobreviver à seca, ecoando João Cabral em O Rio é Deus ou Cordel nordestino.
As histórias de Perrault atravessam séculos. Editadas, traduzidas, inclusive para o português brasileiro em edições de Companhia das Letrinhas ou Martin Claret, adaptadas para teatro (como o musical de Cinderela no Theatro Municipal do Rio), cinema Disney's Sleeping Beauty, 1959 e TV séries da Netflix como Into the Woods. Sua influência pulsa em Angela Carter, que as feministou em The Bloody Chamber, ou em Salman Rushdie, que as pós-colonializou.
No Focus Portal Cultural, celebramos Perrault como ponte entre o folclore e a modernidade. Seus contos nos ensinam que o fantástico é ferramenta para mapear o real: lobos dentro de nós, botas para subir socialmente, sapatos que cabem só no pé certo. Aos 398 anos de seu nascimento, erigamos-lhe um monumento vivo, não de pedra, mas de palavras recontadas em feiras literárias de Niterói, saraus nordestinos e pixels digitais.
Que as mães-ganso de hoje, escritoras,
contadoras de histórias, continuem sua obra. Pois, como Perrault sabia,
"há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã
filosofia" e muitas delas calçam botas mágicas.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural









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