sábado, 17 de janeiro de 2026

O PORTUGUÊS NA ONU - A VOZ DE 260 MILHÕES DE PESSOAS

 

A língua é mais do que um instrumento de comunicação: é a expressão viva da identidade de um povo, o fio que costura memórias, tradições e visões de mundo. O português, idioma que nasceu na Península Ibérica e se espalhou pelos oceanos durante séculos de navegação e colonização, hoje é falado por mais de 260 milhões de pessoas. Esse número coloca a língua de Camões entre as cinco mais faladas do planeta, ao lado de gigantes como o inglês, o espanhol, o árabe, o chinês e o francês. 

Apesar dessa relevância, o português ainda não figura entre os idiomas oficiais da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa ausência é sentida como uma lacuna por milhões de falantes que veem sua cultura representada em organismos internacionais, mas não plenamente reconhecida no maior fórum diplomático do mundo. Foi justamente para enfrentar essa questão que, em 27 de maio de 2011, uma delegação de rotarianos brasileiros esteve na sede da ONU, em Nova York, levando consigo um memorial que defendia a inclusão do português como língua oficial da organização. 

O português é idioma oficial em nove países: Brasil e Portugal, além de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Essa comunidade linguística, conhecida como lusofonia, se estende por quatro continentes e carrega consigo uma diversidade cultural impressionante.

Por razões históricas, o idioma também sobrevive em regiões que outrora estiveram sob domínio português, como Goa, Diu e Damão, na Índia; Macau, na China; e Málaca, na Malásia. Essa presença global faz do português uma língua de pontes, capaz de unir povos em torno de valores comuns e de uma herança cultural compartilhada. 

Não por acaso, o português já é reconhecido como língua oficial em organismos multilaterais como a União Europeia, a União Africana e a Organização dos Estados Americanos. A ausência na ONU, portanto, soa como uma contradição diante da importância geopolítica e cultural da língua. 

A iniciativa de levar o pleito à ONU partiu de instituições ligadas ao movimento rotário, que historicamente se dedica a causas humanitárias e culturais. A delegação foi recebida na Missão Permanente do Brasil junto às Nações Unidas pelo conselheiro Alan Coêlho Séllos, em nome da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. 

O documento entregue ao secretário-geral Ban Ki-moon foi assinado por lideranças de peso: Ricardo Vieira Lima Magalhães Gondim, presidente da Cooperativa Editora Brasil Rotário; Carlos Henrique de Carvalho Fróes, presidente da Academia Brasileira Rotária de Letras (ABROL); Eduardo de Barros Pimentel, presidente da Fundação de Rotarianos de São Paulo; Carlos Jerônimo da Silva Gueiros, presidente da Comissão Interpaíses Brasil-Portugal e demais Países de Língua Oficial Portuguesa (CIP/PLOP); Maria Inês Botelho, presidente do Elos Internacional, representada por Odilza Vital; além de José Alves Fortes, Waldenir de Bragança, Vicente Herculano da Silva, Henrique Bragança, Zeneida Apolônio Seixas e Dulce Rocha de Mattos. 

A pluralidade dos signatários reforçava a legitimidade da proposta: não se tratava de um pedido isolado, mas de uma demanda coletiva, enraizada em diferentes segmentos da sociedade civil.

Durante a visita, os rotarianos foram acompanhados por funcionários diplomáticos da ONU, como Wagner Santiago, da Biblioteca da ONU na Comissão de Serviço Civil Internacional, e Ivan Cordeiro, da Divisão de Políticas de Recursos Humanos. 

O encontro também foi oportunidade para recordar a trajetória do Brasil na ONU. O conselheiro Alan Séllos destacou a figura do embaixador Oswaldo Aranha, que presidiu a primeira Assembleia Geral da organização em 1946. Desde então, tornou-se tradição que o Brasil seja o país responsável por abrir os debates anuais da Assembleia Geral, gesto que simboliza a relevância histórica da diplomacia brasileira. 

Outro ponto discutido foi o pleito do Brasil para integrar de forma permanente o Conselho de Segurança da ONU. Séllos lembrou que a postura serena e pacífica da diplomacia brasileira, herdeira da tradição portuguesa, confere ao país credenciais sólidas para ocupar esse espaço estratégico. 

A reunião foi considerada altamente significativa. Para os presentes, tratava-se de um passo concreto rumo ao reconhecimento da importância da cultura lusófona no cenário internacional. A inclusão do português entre os idiomas oficiais da ONU seria não apenas um gesto de justiça cultural, mas também uma forma de ampliar a representatividade de milhões de cidadãos que hoje se comunicam nesse idioma. 

Mais do que uma questão linguística, o pedido simbolizava o desejo de ver a diversidade cultural refletida nas instâncias de decisão global. Afinal, a ONU nasceu com o propósito de unir nações em torno da paz e da cooperação, e não há cooperação plena sem o reconhecimento das vozes que compõem esse mosaico humano. 

O português é uma língua de poesia e de diplomacia, de música e de ciência. É o idioma de Camões, de Machado de Assis, de Mia Couto e de José Saramago. É também a língua que embala o samba, a bossa nova, o fado e as mornas cabo-verdianas.

Ao reivindicar seu espaço na ONU, os rotarianos brasileiros não pediam apenas por uma tradução simultânea nos corredores da diplomacia. Pediam pelo reconhecimento de uma história que atravessa séculos e oceanos, e que hoje se manifesta em diferentes sotaques e expressões culturais. 

A visita de 2011 à sede da ONU foi um marco simbólico. Ainda que o português não tenha sido imediatamente incorporado como língua oficial, o gesto abriu caminho para que a discussão ganhasse visibilidade e força.

Mais do que uma reivindicação burocrática, tratava-se de um ato de afirmação cultural. Um lembrete de que a língua é parte essencial da identidade dos povos e que, ao reconhecer o português, a ONU estaria reconhecendo também a contribuição da lusofonia para a construção de um mundo mais plural, democrático e humano. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 





Nenhum comentário:

Postar um comentário